O papel da Maçonaria na ascensão do Fascismo – Parte I

Há poucos anos fiquei surpreendido ao assistir um episódio duma série televisiva italiana dedicada à vida de Benito Mussolini: na cena, via-se o Duce, já no poder, ameaçar e ser ameaçado de morte pelo fascistas. A surpresa derivava do facto de saber que tais cenas tinham acontecido de verdade mas que o mundo cultural italiano, como sempre nas mãos da Esquerda, tende a exclui-las da historiografia oficial pois contrárias à figura de Mussolini “mau” a 360 graus. Não há rastos delas nos livros escolares.

Mas, como afirmado, os atritos existiram e nem foram poucos. Para entender a razão é preciso considerar um outro aspecto que a Esquerda não gosta de lembrar: Mussolini sempre foi um socialista. E manteve-se socialista até a morte. Mais: Mussolini desprezava os fascistas.

Como justificar estas atitudes? Como justificar as suas tomadas de posição ao longo das décadas?

No final de 2020 foi publicado um livro particularmente interessante do pesquisador Marco Pizzuti e com o título de Biografia non autorizzata di Benito Mussolini (“Biografia não autorizada de Benito Mussolini”) que recolhe também dados obtidos pelo mesmo autor em suas obras anteriores ou de terceiros, em particular as cartas segredas entre Mussolini e Churchill e o papel da Maçonaria na ascensão do Fascismo. É disso que vamos falar neste artigo.

Quem era Mussolini?

Benito Amilcare Andrea Mussolini nasceu em Predappio no dia 29 Julho de 1883. Predappio faz parte da região Emilia Romagna, na altura uma zona exclusivamente agrícola caracterizada por um nível de vida bastante baixo. O pai dele, Alessandro Mussolini, era um humilde ferreiro e a mãe Rosa Maltoni era professora da escola primária.

O nome “Benito Amilcare Andrea” foi decidido pelo pai, socialista, desejoso de prestar homenagem à memória de Benito Juárez, líder revolucionário e ex-Presidente do México, de Amilcare Cipriani, patriota e socialista italiano, e de Andrea Costa, líder do socialismo italiano.

Devido à influência do pai, Mussolini envolveu-se desde cedo no socialismo militante, aparecendo em comícios nas cidades vizinhas e, em 1900, juntou-se ao Partido Socialista Italiano. Conseguiu ensinar na escola primária só a partir de 1901, ano em foi assumido pela escola de Pieve Saliceto, o primeiro município italiano administrado por um conselho socialista, mas já em 1902 emigrou para a Suíça para fugir do serviço militar obrigatório, estabelecendo-se em Lausanne. Ali entrou no sindicato dos pedreiros e dos trabalhadores, do qual mais tarde se tornou secretário; e, em 2 de Agosto de 1902, publicou o seu primeiro artigo no diário L’Avvenire del Lavoratore, o jornal dos socialistas suíços.

Mussolini preso na Suíça

A vida na Suíça não foi simples: sem dinheiro, teve também que dormir debaixo das pontes e foi expulso duas vezes: a 18 de Junho de 1903 foi preso em Berna como agitador socialista, detido durante 12 dias e depois expulso a 30 de Junho do Cantão de Berna; a 9 de Abril de 1904 foi preso durante 7 dias em Genebra por causa da sua autorização de residência falsificada, sendo expulso uma semana depois do Cantão de Genebra. Protegido por alguns socialistas e anarquistas do cantão Ticino, viveu em Savosa, uma cidade suburbana a norte de Lugano, e participou na consolidação das muralhas da estrada de Trevano e especialmente na construção do caminho-de-ferro Lugano-Tesserete.

Na Suíça colaborava com publicações periódicas de inspiração socialista (como o Proletario), enviava correspondências ao jornal milanês L’Avanguardia Socialista e tomou rapidamente uma posição próxima da ala revolucionária do partido socialista, desenvolvendo ao mesmo tempo uma adversão cada vez mais amarga aos reformistas, tentando espalhar e impor a sua própria concepção revolucionária a todo o movimento socialista, mostrando as maiores afinidades ideológicas com o sindicalismo revolucionário e desenvolvendo opiniões contrárias a existência de Deus (mais tarde recolhidas no panfleto Uomo e Divinitá).

Em Novembro de 1904, a sua sentença por fuga do serviço militar foi anulada na sequência da amnistia concedida por ocasião do nascimento do herdeiro ao trono de Rei Umberto e Mussolini regressou a Itália, começando assim um duro trabalho no seio do Partito Socialista Italiano (activo desde 1892). A partir daí, a história de Mussolini funde-se com aquela do partido socialista. Mas nem por isso os problemas diminuíam: regressado a Predappio, liderou a greve dos trabalhadores agrícolas e em 18 de Julho de 1908 foi preso por ameaçar um gestor das organizações patronais e condenado a três meses de prisão. Em Setembro do mesmo ano foi novamente preso durante dez dias por ter realizado um comício não autorizado.

Finalmente, em Fevereiro de 1909 mudou-se para Trento, a capital do irredentismo italiano (na altura ainda domínio do império Austro-Hungárico), onde foi eleito Secretário da Câmara do Trabalho e dirigiu o seu primeiro jornal, L’Avvenire del Lavoratore. A 10 de Setembro do mesmo ano Mussolini foi preso sob a acusação, da qual foi posteriormente absolvido, de distribuir jornais já apreendidos e incitar à violência contra o Império dos Habsburgos. No dia 26, porém, foi expulso da Áustria e regressou em Italia: no entanto, o caso do “Professor Mussolini” ganhou considerável notoriedade em Itália e empurrou a sua figura, ao mesmo que o aproximou às questões das regiões italianas ainda em mão estrangeira.

Até a eclosão da Primeira Guerra Mundial é possível observar um Mussolini socialista profundamente empenhado tanto no terreno quanto na vertente ideológica.

A 8 de Julho de 1912, no XIII congresso do PSI em Reggio Emilia, apresentou uma moção de expulsão (também definida por ele como uma “lista de proscrição”) contra alguns socialistas reformistas, moção que foi aceite. A acusação foi de “ofensa muito grave ao espírito da doutrina e da tradição socialista”: valeu-lhe a entrada na direcção nacional do partido e, em Novembro de 1912, tornou-se expoente máximo da ala maximalista do socialismo italiano, chegando à redacção de Avanti!, o órgão oficial do partido.

Como curiosidade, significativa na óptica deste artigo, é preciso realçar a posição de Mussolini no 14º Congresso do Partido Socialista em Ancona, em Abril de 1914, onde apresentou uma moção com a qual declarava a filiação à Maçonaria como incompatível para um socialista. E foi aí que um jovem delegado, Giacomo Matteotti (que voltaremos a encontrar), enfrentou Mussolini.

Ainda em Junho de 1914, Mussolini foi um dos protagonistas da Semana Vermelha, a onda revolucionária espontânea após o assassinato de três manifestantes: das páginas do Avanti! inflamou os ânimos e nos factos obrigou a Confederação Geral do Trabalho a declarar uma greve geral. Durante a manifestação, Mussolini e o colega Filippo Corridoni foram espancados pela polícia e presos em Milano.

As vendas de Avanti! dispararam, tornando Mussolini um verdadeiro ídolo dos eleitores socialistas italianos. Isso não deve ser esquecido: Mussolini não era apenas “um socialista” pois logo antes da Grande Guerra era uma das principais caras do socialismo italiano, tanto teórico quanto prático.

A intervenção da Maçonaria

No mês seguinte, no dia 24 de Julho, o Império Austro-Hungárico declarou guerra à Sérvia, começando assim a Primeira Guerra Mundial. A Italia estava ligada à Viena e à Alemanha com a Tríplice Aliança, um tratado defensivo, pelo que não tinha obrigação de intervir e escolheu uma atitude de neutralidade. O Ministro dos Negócios Estrangeiros de Roma tinha protestado nos dias anteriores ao conflito com o Embaixador alemão (País que tencionava entrar em guerra), realçando como tudo não passava dum premeditado acto agressivo de Viena e avisando que a Italia não poderia ter apoiado o conflito.

Uma das razões da neutralidade era a situação interna, nada simples: a Áustria era o inimigo histórico da Italia (todas as Guerras de Independência tinham sido combatidas contra o Império Austro-Hungárico) e algumas regiões italianas (Trentino Alto-Adige e Friuli Venezia Giulia) encontravam-se ainda sob ocupação austríaca. Pelo que, a maior parte dos cidadãos nem entendia as razões políticas atrás da Tríplice Aliança e, em caso de guerra, boa parte dos italianos teria preferido apoiar a Tríplice Entente (Reino Unido, Rússia e França) contra Viena.

Mussolini interpretou com firmeza a linha não intervencionista da Internacional Socialista. Era da opinião que o conflito não podia beneficiar os interesses do proletariado italiano, mas apenas os dos capitalistas. Ao mesmo tempo, longe dos olhos do público, o Ministério dos Negócios Estrangeiros estava a iniciar uma operação de persuasão nos círculos socialistas e católicos para obter uma atitude favorável a uma possível intervenção italiana. Entre estes “promotores” havia também Filippo Naldi, um homem de negócios com numerosas ligações entre os círculos financeiros e o jornalismo, editor do diário Il Resto del Carlino.

Mussolini director do Avanti!

A 26 de Julho, com a guerra já em andamento, Mussolini publicou um editorial intitulado Abbasso la guerra (“Contra a guerra”) em favor da escolha não intervencionista, mas nos mesmos dias apareceram outros artigos, assinados por membros bem conhecidos do Partido Socialista, que, embora mantendo um perfil geral contra o conflito, começaram a discutir qual aliado poderia ajudar a causa italiana. Já nos primeiros meses do conflito apareceu, portanto, toda a incerteza do Partido Socialista, que não sabia como resolver-se entre a sua inclinação anti-militarista e a tentação da guerra como meio para renovar a luta política e mover os equilíbrios estabelecidos no País.

Foi neste contexto que Naldi publicou um artigo polémico no Il Resto del Carlino em 7 de Outubro de 1914, no qual acusava Mussolini de fazer um jogo duplo, obtendo a reacção irada do director do Avanti!. Aproveitando esta oportunidade para um esclarecimento, Naldi foi em Milano na sede do jornal e encontrou-se pessoalmente com Mussolini. Foi nesta ocasião que obteve de Mussolini a confidencia segundo a qual estava farto da indecisão do partido e, pessoalmente, era favorável a uma “neutralidade condicional”, expressão duvidosa que possibilitava várias interpretações. O que Mussolini não sabia era que Naldi pertencia à Maçonaria italiana.

Nos dias seguintes, a notícia foi espalhada pelos diários pró-intervenção: a Maçonaria era a favor da guerra e, ao mesmo, tempo dona dos diários mais lidos no País. Isso não deve admirar pois a Maçonaria em Italia era e ainda é reconhecida desde que não constitui uma associação secreta. Pelo que, Mussolini tentou esclarecer a sua posição através das páginas do Avanti!. No dia 18 de Outubro, publicou um longo artigo intitulado “Da neutralidade absoluta à neutralidade activa e operativa”, no qual apelava aos socialistas sobre o perigo que a neutralidade teria implicado para o partido, ou seja, a condenação ao isolamento político. De acordo com Mussolini, as organizações socialistas deveriam ter apoiado a guerra entre nações, com a consequente distribuição de armas ao povo para depois este transformá-la numa revolução armada contra o poder burguês.

Este foi o primeiro grande erro de Mussolini (muitos outros, bem piores, teriam vindo no futuro). A armadilha de Naldi era pouca coisa e poderia ter sido esquecida no prazo de poucas semanas, sobretudo enquanto o resto do continente pegava fogo. Mas Mussolini quis explorar a publicidade negativa espalhada pelos diários concorrentes para trazer clareza no interior dum Partito Socialista cheio de dúvidas e, ao mesmo tempo, para propor-se como líder duma nova e firme corrente no seio do movimento: uma corrente que, nas intenções, arrasava as dúvidas, não esquecia os problemas dos italianos que viviam sob a dominação estrangeira (problemas que Mussolini, como vimos, bem conhecia) e que, ao mesmo tempo, interpretava o sentimento anti-austríaco predominante entre os italianos. Era obviamente uma jogada para chegar à direcção do partido. Mas a jogada correu mal.

A nova linha não foi aceite pelo partido e no prazo de dois dias Mussolini demitiu-se do jornal. Ou, para melhor dizer, “foi demitido”. Graças à ajuda financeira de alguns grupos industriais maçónicos (mediação de Filippo Naldi), Mussolini conseguiu rapidamente fundar o seu próprio jornal: Il Popolo d’Italia, cujo primeiro número saiu a 15 de Novembro de 1914. A partir das suas colunas Mussolini atacou sem hesitação os seus antigos camaradas e no dia 29 de Novembro foi expulso do Partito Socialista. Segundo este último, Mussolini tinha recebido fundos de agentes franceses que o tinham subornado para o fazer aderir à causa do pró-intervencionismo.

Hoje, com os documentos do serviços secretos ingleses publicados, sabemos que a acusação estava correcta: houve a intervenção directa do governo francês em favor de Mussolini. Além disso, sabemos que Mussolini, na mesma altura, encontrou na Suíça os representantes da Entente, que lhe garantiram o apoio. Em particular, de acordo com uma nota escrita em Novembro de 1922 pelos serviços secretos franceses, Mussolini terá recebido em 1914 dez milhões de Francos do deputado francês Charles Dumas, chefe de gabinete do Ministro francês Jules Guesde (um socialista), “para defender no seu Popolo d’Italia a entrada da Itália na guerra do lado das potências Aliadas”. Guesde era contrário à Maçonaria mas muitos entre o partido socialista francês da altura eram maçons, ao ponto de representarem quase uma corrente dentro do movimento.

Foi assim que nasceu o relacionamento entre o futuro Duce e a Maçonaria. Um relacionamento que teria dado os seus frutos mais “espectaulares” depois da guerra. Um relacionamento particularmente conturbado. Mas este é o assunto da segunda e última parte do artigo.

 

Ipse dixit.

2 Replies to “O papel da Maçonaria na ascensão do Fascismo – Parte I”

  1. Boas, obrigado plas publicações que são sempre muito interessantes. Seria muito interessante também publicar sobre o papel da Maçonaria na implantação da República Portuguesa, na escolha da bandeira e no acordo com Salazar. Bem haja!

  2. Fiquei de boca aberta com a parte I, e acho que vou continuar de boca aberta com o II.
    Decididamente os heróis de alguns são amaldiçoados pelo espírito dominante. Desconfio seriamente que os amaldiçoados o sejam na realidade.
    Sempre estive atenta à produção de Hollywood, nunca deixei de considerar que trata-se de uma máfia judaica trabalhando em função dos seus interesses. E quando essa produção ataca massivamente alguém…algo está errado.
    Vamos ao segundo capítulo. Nunca li nada sobre o revisionismo histórico do fascismo em Itália.
    Já sobre o revisionismo histórico do nazismo não falta material, e acho que li quase tudo em língua castelhana ou em português.

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