A Operação Sirli

As revelações feitas pelo site Disclose estão a causar um terramoto político. Citando “documentos confidenciais de Defesa”, fotografias de satélite e mapas, Disclose denuncia uma utilização distorcida das informações da inteligência militar francesa, da qual o Palácio do Eliseu (residência oficial do Presidente da República Francesa) também teria tido conhecimento, ao longo de vários anos.

Tudo está contido na investigação Egypt Papers, da qual fazem parte Operation Sirli, o segundo capítulo The Mercenaries Of The Sky e, proximamente, três novos capítulos.

As informações recolhidas pelos aviões espiões franceses no deserto líbio, transmitidas oficialmente às forças armadas egípcias para atingir os jihadistas na fronteira, foram na realidade utilizadas contra caravanas de presumíveis traficantes e contrabandistas naquela que é conhecida como “Operação Sirli”.

Esta teve início em Fevereiro de 2016, sob a presidência de François Hollande, para ajudar o Egipto do Presidente Abdel Fattah al-Sisi na luta contra o terrorismo, e foi desviada por parte do Cairo praticamente desde o início. Em princípio, a missão consistia em sondar o deserto ocidental egípcio para detectar possíveis ameaças terroristas originadas na Líbia, utilizando um avião de vigilância e reconhecimento (Alsr) alugado à Direction du Renseignement Militaire (“Direcção de Inteligência Militar”, DRM).

Em teoria, os dados recolhidos deveriam ter sido cruzados para avaliar a realidade da ameaça e a identidade dos suspeitos. Mas, muito rapidamente, os membros franceses da equipa aperceberam-se de que as informações fornecidas aos egípcios estavam a ser utilizadas para matar civis suspeitos de contrabando.

Segundo os documentos obtidos pelo site, as forças francesas estiveram envolvidas em pelo menos 19 ataques contra civis entre 2016 e 2018. Uma deriva que há muito preocupava a DRM e a Força Aérea, como uma nota enviada ao Palácio do Eliseu em Novembro de 2017 também testemunha. E ainda em Janeiro de 2019, as informações recolhidas pelos militares sobre as manipulações efectuadas pelos serviços secretos do Cairo teriam sido transmitidas ao Ministro da Defesa, Florence Parly, na véspera de uma visita do Presidente Emmanuel Macron ao Egipto.

No entanto, a missão tem prosseguido regularmente durante anos e o exército francês ainda encontra-se destacado no deserto egípcio, tendo como pano de fundo uma relação militar privilegiada: o Egipto é um dos principais destinatários das vendas de armas francesas que, para além de 30 caças Rafale, incluem uma fragata, quatro corvetas e dois porta-helicópteros em apenas três anos. Uma exportação de valor bilionário que cresceu consideravelmente desde a chegada ao poder de Al-Sisi, a quem foi atribuída a Legião de Honra por Macron em Dezembro passado.

Centenas de civis mortos durante os ataques foram provavelmente vítimas colaterais da Operação: “apenas civis estão a ser mortos”, como explicou uma fonte. Mas, apesar do ex-Presidente François Hollande e do seu sucessor Emmanuel Macron estarem sempre conscientes das mortes de civis, muitas delas arbitrárias, a operação continuou porque “a prioridade da missão vai ao encontro às necessidades do parceiro”, como é possível ler numa nota francesa.

As operações militares secretas francesas na zona não são novidades: já em 2016, o diário Le Monde tinha revelado que as forças especiais de Paris estavam a realizar “operações clandestinas” para combater a expansão de terroristas do Estado islâmico (Isis) no território da Líbia. Um alto funcionário da Defesa afirmou na altura que “devemos evitar qualquer intervenção militar aberta, devemos agir com discrição”.

Desde então, todavia, a presença do Isis no deserto da Líbia tem vindo a diminuir de forma significativa: mas as operações clandestina de Paris continuaram. É este o caso do destacamento “ELT 16” (“equipa técnica de ligação 16”), que desde 2016 envolveu a vigilância da região do deserto ocidental para identificar qualquer eventual ameaça terrorista vinda da Líbia. Em cada excursão, a equipa francesa era acompanhada por um oficial egípcio. Em breve, a equipa francesa apercebeu-se de que estava a ser utilizada para facilitar os assassinatos de civis suspeitos de actividade de contrabando e/ou de tráfico de seres humanos (todas acusações nunca provadas). A ELT 16 informou a sua hierarquia a intervalos regulares, mas em vão.

As primeiras dúvidas surgiram após apenas dois meses do começo da missão, tal como ilustrado por um relatório DRM datado de 20 de Abril de 2016. O oficial de ligação da missão informou os seus superiores que os egípcios queriam “liderar uma acção directa contra os traficantes”. A luta contra o terrorismo já não era a prioridade.

Quatro meses mais tarde, outro relatório confirmou as suspeitas da equipa francesa. Como explica Jalel Harchaoui, investigador da ONG suíça Global Initiative Against Transnational Organized Crime (“Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional”), a ameaça terrorista na Líbia é “largamente sobrestimada pelo exército egípcio a fim de obter apoio na cena internacional”. Desde 2017, nenhum grupo terrorista ou organização islamista é conhecido por ser activo no leste do Egipto. De acordo com um relatório de Maio de 2020 do European Institute of Peace (“Instituto Europeu da Paz”, uma fundação independente para a resolução de conflitos), não havia praticamente provas que indicassem que grupos de radicais islâmicos ou outros grupos armados utilizassem o contrabando para financiar as suas actividades na Líbia.

No final do Verão de 2016, os agentes da DRM concluíram inequivocamente que a missão não tinha qualquer interesse, especialmente porque as áreas sobrevoadas permaneceram estritamente limitadas ao oeste do País, onde os grupos armados são quase inexistentes. De facto, estavam proibidos de cobrir os territórios na Líbia e no Sinai, onde a ameaça terrorista era real. Um membro da equipa Sirli sublinhou isto num relatório de Setembro de 2016.

Em 21 de Setembro de 2016, membros da equipa Sirli descolaram-se a bordo do avião de vigilância francês Merlin III. Após várias horas a voar sobre o deserto, avistaram um comboio de camionetas a acelerar entre as dunas. A equipa no avião transmitiu a localização do comboio aos seus colegas na base, que subsequentemente transmitiram a informação à força aérea egípcia. Graças ao “breve circuito”, um avião armado Cessna 208 egípcio chegou à zona pouco tempo depois e quando os franceses sobrevoaram o local 43 minutos mais tarde, um veículo estava em chamas.

21 setembro de 2016: o Cessna 208 egípcio chega à zona (acima). A mesma zona 43 minutos depois (em baixo).

Continua Disclose:

Para satisfazer a sua obsessão com a segurança, a ditadura era cada vez mais exigente, tal como “a criação de um breve circuito para a transmissão de informação” do avião para a base. O objectivo disto era permitir à força aérea egípcia voar até a zona para “tratar” do alvo o mais rapidamente possível. Esse pedido era motivo de preocupação para o pessoal francês no terreno, mas não para a liderança da inteligência militar francesa que aceitou esta redução do tempo na transmissão de dados. Como resultado, observou o agente que preparou o relatório de Setembro, “o envolvimento da força aérea egípcia na destruição dos traficantes era mais visível”. A missão dos serviços secretos tinha agora apenas um objectivo: visar veículos em nome da força aérea egípcia.

Se o relatório de Setembro afirmava que “praticamente nenhum elemento permitiu lidar com o problema do terrorismo”, aquele de Janeiro de 2017 só podia confirmar que “o problema do terrorismo nunca foi levantado”, enquanto em Junho de 2017 realçava como “os itinerários do tráfico estão principalmente ligados ao simples contrabando profissional beduíno”.

De acordo com os documentos classificados obtidos pela Disclose, as forças francesas podem ter estado envolvidas em pelo menos 19 bombardeamentos de civis entre 2016 e 2018. Os ataques destruíram frequentemente vários veículos e o número de vítimas pode ser de várias centenas. De acordo com os critérios da resolução 56/83 da Assembleia Geral das Nações Unidas, a cumplicidade da França nestas execuções ilegais poderia ser invocada.

Apesar disso, a Ministra francesa das Forças Armadas, a já citada Florence Parly que tomou posse em 21 de Junho de 2017, numa carta enviada ao Presidente egípcio al-Sisi em 31 de Julho de 2017 afirmava:

Pode estar certo de que a DRM continuará a ser o seu parceiro plenamente empenhado, ao seu lado.

As revelações desencadearam imediatamente reacções políticas. Os deputados da oposição em Paris apelaram à criação de uma específica comissão parlamentar, enquanto uma investigação interna foi ordenada pela Ministra da Defesa, sempre Florence Parly. Mas, por enquanto, Paris recusou-se a dar uma resposta oficial por “razões de segurança”.

 

Ipse dixit.

Nota: todas as imagens e as informações contidas no artigo são retiradas do site de Disclose.

One Reply to “A Operação Sirli”

  1. Olá Max: que eu saiba , onde há império, há guerra, de quantas formas for, mas os impérios são erguidos com o sangue de escravos, de soldados, de mercenários, de espiões, outras formas de fazer e fazer-se escravo.
    As civilizações são em geral imperiais, de conquista, de expansão pelo esmagamento de outras.
    Conheço bem menos arqueologia do que gostaria, mas tenho conhecimento de uma única civilização pacífica, existida desde 5000 anos, cheias de pirâmides tão portentosas quanto as egípcias, mas aqui na América do Sul, a selva e o deserto felizmente não tornaram Carral uma civilização muito visitada por turistas.
    Distante poucos km das costas do Peru, as mais piscosas do mundo, para quem não sabe, surgiu uma civilização onde nunca foram encontrados quaisquer instrumentos de guerra, onde nunca foram construídas muralhas de defesa, apesar de demonstrar uma riqueza de engenharias invejável, resistindo a constantes terremotos.
    Sem cerâmica, vivendo milhares de pessoas em função da troca de redes e outros víveres com pescadores costeiros, obtendo proteínas da alimentação a base de peixes e frutos do mar, suas múmias não acusam falta de dentes.
    Persistiu no tempo até que o império inca muito mais jovem a engoliu.
    A arqueologia demonstrou em Carral relações com as linhas de Nasca, até hoje sem interpretação definitiva.
    Onde mais se deveria buscar conhecimento é onde menos se pesquisa,. Humanos…demasiadamente humanos, como diria Nietzsche, não é mesmo?

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