China: é toda culpa dos supremacistas brancos

Um dos (muitos) problemas da informação alternativa é a falta de coerência. Dispara-se em todas as direcções, na esperança de, mais cedo ou mais tarde, acertar em algo. O resultado é a criação duma história esquizofrénica, sem um fio condutor, totalmente avulsa da realidade. Sobretudo: uma história que não apenas não faz sentido como até colabora na criação daquele “muro de informação” que constitui um dos principais impedimentos na descoberta da verdade (qualquer esta seja).

Pegamos no editorial do Global Times, diário chinês controlado pelo local Partido Comunista, cujo título é Five Eyes today’s axis of white supremacy (“O eixo dos Cinco Olhos da supremacia branca de hoje”). Trata-se dum artigo bastante patético no qual a China é descrita como o inocente alvo dos supremacistas brancos dos Five Eyes (“Os Cinco Olhos”), o acordo entre Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos que visa a cooperação entre as inteligências dessas nações principalmente para a actividade de espionagem sobre as comunicações (e não só) mundiais.

Reza o artigo:

Os membros da aliança Five Eyes são todos países anglófonos. A formação de quatro estados, excepto o Reino Unido, é o resultado da colonização britânica. Estes países partilham a civilização anglo-saxónica. Os países do Cinco Olhos foram reunidos pelos EUA para se tornarem o “centro do Ocidente”. Eles têm um forte sentido de superioridade civilizacional. O bloco, que inicialmente visava a partilha de informações, tornou-se agora uma organização que visa a China e a Rússia. A ideia maligna do racismo tem fermentado consciente ou inconscientemente em nos confrontos com os dois países. […] A diplomacia global no século XXI não deve ser desviada por uma falsa comunidade internacional com um eixo de supremacia branca. Não podemos permitir que o seu egoísmo se disfarce de moralidade comum, e eles não podem estabelecer a agenda da humanidade. O que eles querem é um multilateralismo fictício, e o que realmente perseguem é o hooliganismo no seu próprio círculo de interesses. Ao resistir-lhes, a China não está apenas a defender os seus próprios interesses, estamos também a defender a diversidade do mundo moderno, que se baseia nas escolhas livres das pessoas e nos caminhos percorridos pelos diferentes países.

Tristíssimo.

Nem vamos comentar o alegado papel da China como “defensora da diversidade do mundo” (perguntem no Tibete o que pensam disso) e vamos ver em primeiro lugar: os “Olhos” eram cinco mas agora são quatorze. No meio deles podemos encontrar a Espanha ou a Italia, Países que de anglo-saxónico pouco têm. Quanto à supremacia branca: acham mesmo que o Japão, outro “Olho”, está muito interessado nisso?

Em segundo lugar: resumir toda a actual diplomacia mundial (melhor: o que sobrou dela) como a tentativa dos brancos para submeter as outras raças é simplesmente criminoso pois significa ocultar as raízes mais profundas dos males que afligem a nossa sociedade.

Mas tudo bem, afinal o que interessa? É um diário chinês para chineses ou adeptos comunistas, justo? Não, as coisas não estão bem assim.

Matthew Ehret é um jornalista, conferencista e fundador da Canadian Patriot Review, cujos trabalhos foram publicados em Executive Intelligence Review, Global Times, Asia Times, The Duran, Zero Hedge. É também autor de vários livros, todos com “corte” alternativo. Portanto, Ehret faz informação alternativa com sucesso.

E no seu site é possível encontrar um artigo alucinado que reduz toda a história dos últimos 150 anos a um mero conflito racial. Não apenas Ehret confirma quanto afirmado pelo Global Times (normal, é aí que ele publica também) mas vai além e identifica em Cecil Rhodes a origem de todos os males.

Agora, por aqui conhecemos Cecil Rhodes e sabemos que não era um tipo simpático. Para ser ainda mais claros: provavelmente foi uma das pessoas mais abjectas que alguma vez apareceram no planeta. É provável que alguém no Klu Klux Klan ainda tenha a imagem dele na mesa de cabeceira, assim como é certo que existam supremacistas brancos na elite mundial: doutro lado, não temos uma vice-presidente americana supremacista negra? Mas pensar que o motor da Nova Ordem Mundial seja apenas o racismo branco significa espalhar uma falsidade que tem a única função de mistificar a realidade. Confundir, ocultar os verdadeiros alvos.

Basear-se na filosofia de Cecil Rhodes tornaria impossível explicar Black Lives Matter e o total apoio dos Democratas (e, mais no geral, do inteiro mundo progressista) à causa dos negros, por exemplo. Da mesma forma, deixa de fazer sentido toda a questão gender.

Lembramos o que pensava Cecil Rhodes:

Eu defendo que somos a melhor raça do mundo, e que quanto mais mundo nos habitemos melhor será para a raça humana. Imaginem as partes que são actualmente habitadas pelos mais desprezáveis espécimes de seres humanos, que alteração haveria se fossem colocadas sob a influência anglo-saxónica, vejam novamente a ocupação que dá um novo país acrescentado aos nossos domínios. Afirmo que cada acre acrescentado ao nosso território significa no futuro o nascimento de um pouco mais da raça inglesa […] Porque não deveríamos formar uma sociedade secreta com o objectivo de promover o Império Britânico e trazer todo o mundo incivilizado sob o domínio britânico, para a recuperação dos Estados Unidos, para a criação da raça anglo-saxónica num só império?

Este era Cecil Rhodes, cujo objectivo era claro: uma supremacia branca de nível mundial, com uma raça branca a dominar todo o Império em detrimento dos restantes “desprezáveis espécimes”. Não acaso, Rhodes tinha como “sócios” a família Rothschild e outros banqueiros degenerados. O Deep State americano encontra as suas raízes no projecto racial de Rhodes & amiguinhos, tal como afirma Eheret? Extremamente provável, diria “certo”. Mas aqui encontramos outra falha clássica das teorias “alternativas”: nunca conseguem evolvem. Nunca. Ficam paradas no tempo, cristalizadas e imutáveis.

O projecto racial de Rhodes deve ser encaixado na época de Rhodes, isso é, na segunda metade do séc. XIX. Uma altura em que o colonialismo europeu ainda era o traço dominante da diplomacia mundial. É naquela altura que o Império Britânico atingiu a sua máxima extensão. Mas desde então algo mudou. Pormenores, como um par de guerras mundiais, o surgimento de novos jogadores no xadrez planetário, uma sociedade com valores completamente novos, a desintegração das ideologias políticas clássicas, a digitalização global. Faz sentido imaginar que tudo mudou mas não as estratégias e os objectivos do Deep State e da elite mundial?

Não, não faz sentido. Porque os factos demonstram que não faz sentido. O colonialismo continua a existir, mas foi obrigado a mudar de pele: hoje é económico e nas mãos dum punhado de multinacionais (também chinesas, note-se). A supremacia branca foi trocada por uma sociedade forçosamente multirracial e até desprovida de identidade sexual. O sonho do Deep State e da elite mundial não é a supremacia dum único grupo étnico mas, pelo contrário, uma sociedade sem qualquer raiz porque mais facilmente manipulável. O objectivo de Cecil Rhodes foi completamente virado de avesso: não o domínio duma raça sobre as outras mas a criação dum “nova raça”; não uma raça anglo-saxónica, numa espécie de arianésimo ante litteram, mas uma mistura de várias raças. Isso não porque a elite tenha tido remorsos, ora essa, mas simplesmente porque entendeu que os tempos tinham mudado e com eles as prioridades para a ampliar o exercício do poder.

Falar de supremacia branca na sociedade de hoje seria um sem sentido, independentemente dos projectos da elite ou do Deep State: Martin Luther King ou Malcom X foram a expressão de algo que estava a mudar (já o caso das Black Panthers, as Panteras Negras, mereceria um discurso diferente). A sociedade evoluiu neste aspecto e os supremacistas de hoje quem são? São aqueles que na América do Norte vêem ameaçados os seus valores principalmente pelas mais recentes vagas migratórias, estas impostas pela elite; ou que reagem perante uma igualdade (mais uma vez: imposta) que ainda não tem espaço em determinado sectores norteamericanos.

Ler a história do último século apenas como a luta dos brancos para dominar o mundo significa ser obrigado a escrever coisas destas (excertos do artigo de Ehret):

Este é o Estado Profundo [contra o qual] John Kennedy lutou quando despediu o Director da CIA Allen Dulles e ameaçou “estilhaçar a CIA em mil pedaços e espalhá-la aos ventos” .

Foi contra isso que Ronald Reagan lutou quando tentou tirar o mundo da Guerra Fria, trabalhando com a Rússia e outras nações no Escudo Espacial em 1983.

Mas por favor, estas são coisas que podem caber só no cérebro dum chinês formatado.

Allen Dulles foi despedido por manifesta incapacidade, tendo falhado redondamente em duas operações cruciais no mesmo ano: a Invasão da Baía dos Porcos (depois de várias tentativas falhadas por parte da CIA para assassinar Fidel Castro) e o Putsch dos Generais na Argélia para derrubar o Presidente francês Charles De Gaulle, ambas em 1961. Isso minou a credibilidade da CIA aos olhos não só dos americanos e despedir Dulles era o mínimo exigido.

Quanto ao salvador da paz mundial Ronald Reagan e ao seu SDI (Strategic Defense Initiative): este sempre foi visto na URSS não só como uma ameaça à segurança física da União Soviética, mas também como parte de um esforço dos Estados Unidos para aproveitar a iniciativa estratégica no controlo de armas, neutralizando a componente militar de Moscovo. O Kremlin manifestou desde logo a preocupação de que as defesas anti-mísseis baseadas no espaço tornariam a guerra nuclear inevitável.

Em 1986, Carl Sagan resumiu o que ouviu dos comentadores soviéticos sobre o SDI: o equivalente a iniciar uma guerra económica através de uma corrida ao armamento defensivo para atingir ainda mais a economia soviética com gastos militares extra, enquanto segundo outra interpretação servia de disfarce para o desejo dos EUA de iniciar um primeiro ataque contra a União Soviética. Em 2014, um documento desclassificado da CIA revelou que “Em resposta ao SDI, Moscovo ameaçou várias contra-medidas militares”. O “escudo espacial” foi um passo na direcção para exacerbar a Guerra Fria, nunca para acabar com ela.

Estas leituras históricas delirantes são obrigatórias se a intenção for encontrar “provas” da luta entre os bons (Kennedy, Reagan) que piscavam o olho aos bons comunistas enquanto lutavam contra a supremacia branca.

Mas a verdade é um pouco diferente: sim senhor, tudo evolui, até os projectos dos maus da fita. Não entende-lo significa não conseguir ler a realidade, deturpar a História e, como neste caso, engolir e partilhar uma patética e simplória propaganda de regime que esconde uma realidade bem mais perversa, feita de multinacionais (também chinesas) que controlam a vida de biliões de pessoas (também brancas).

Problema: o que acontece quando estas delirantes teorias são espelhadas por um “informador alternativo” de sucesso? Qual a ideia que se pode formar na mente de quem procura uma visão alternativa? Confusão, no mínimo. Então parabéns, pois este é o mesmo objectivo perseguido pelos órgãos de comunicação oficiais.

 

Ipse dixit.

8 Replies to “China: é toda culpa dos supremacistas brancos”

  1. “Tudo evolui”. Belo mas falso conceito. O que é verdadeiramente importante é perpetuado através das mil e uma faces do poder.

  2. A globalização iniciou com o fator miscigenação forçada de povos escravizados, que levariam as rupturas das essências sócio-culturais e as consequentes depravacoes étnicas travestidas de algo bom pela propaganda da ideologia dominante.

  3. Se o objetivo for confundir, os alternativos brasileiros levam um prêmio extra. Já havia selecionado alguns pouquíssimos. E agora não mais acompanho. Inútil.
    Os “tevolucionarios” funcionam a base de uma cartilha marxista discutível. Os demais vivem em torno das besteiras do presidente, do Covid, e das vacinas, os quais acreditam em gênero, número e grau, e das besteiras do Lula, outro que já se perdeu na história. Finalmente na esperança que Lula no poder e o Brazil renasce das cinzas.
    Realmente não dá para aguentar.
    Meu mundo da internet alternativa hoje é de fala hispânica ou de português de Portugal. E assim mesmo tem de procurar com reservas. De todas as formas tem de investigar de onde saiu o blogueiro, o jornalista, o analista, o investigador, para considerar os limites e possibilidades do que diz ou escreve. Ou mais propriamente a que ou a quem responde sua raiva contida ou explícita.

    1. Matthew Ehret é … um atrasado mental, nao me lembro de um unico artigo dele que tenha alguma coisa que se aproveite.

      1. Olá P.Lopes

        Andavas afastado. Estavas espreitando nas sombras ou visitando outras paisagens ?
        Mas, voltastes afiado, “comme d’habitude”.
        Abraço.

  4. Contra factos não há argumentos.

    Sobre o Tibete não vale a pena escrever pois existe literatura suficiente nas bibliotecas e afins, inclusive na Internet, que falam sobre o tema, e segundo os Tibetanos que receberam o Exército de Libertação Popular (ELP) em euforia, os mesmos estão até hoje gratos à República Popular da China (RPC) por os ter libertado do bárbaro regime ditatorial, feudal, e esclavagista, dos Dalai-Lama.

    O resto é simplesmente confrontar a outra parte e os seus derivados com as próprias contradições; desmascará-los justificando o que se afirma, deixando-os assim apreensivos.

    A «Mão Negra», termo utilizado pelos Chineses para definir a ingerência do regime da Inglaterra e o seu Estado Profundo nos assuntos internos dos outros países, começa a tremer.

    Só lamento que o sr. Trump, 45º Presidente dos Estados Unidos da América do Norte (EUA), não tenha conseguido renovar o seu mandato, pois seria interessante ver o desenrolar e os resultados da competição económica e da diplomacia iniciada em conjunto com o Presidente Xi Xinping.

    Do que se viu, existia um respeito mútuo e uma tenaz competição a nível económico como é comum entre dois adversários que jogam para se superar e ganhar, mas o diálogo e acordos que ambos conseguiram e mantinham no meio dessa acirrada competição, foi o que mais teve valor.

    Jamais saberemos se terminaria numa contenção, colaboração, e respeito de parte a parte, ou se iria descambar para um confronto entre a maior potência mundial e o gigante asiático, mas o novo paradigma que apresentaram foi sem dúvida inovador.

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