GameStop: o caso do short selling

Num oceano onde os peixes grandes estão constantemente a devorar os peixes pequenos, acontece por vezes que são os peixes grandes que são comidos. Foi o que se passou nos últimos dias na Bolsa de Wall Street: milhares de pequenos investidores causaram perdas de vários biliões de Dólares a vários grandes fundos hedge como parte de um negócio especulativo sobre as acções da GameStop.

Mas vamos atrás por um momento para começar no início desta história. GameStop é uma empresa, com lojas em todo o mundo, que opera no sector dos videojogos; há anos que, devido à crescente digitalização dos videogames (uma das duas versões da Playstation 5, lançada em Novembro passado, nem sequer tem leitor de CD: muitos jogadores agora simplesmente descarregam os jogos em formato digital, directamente de portais virtuais sem comprar o suporte físico), está constantemente a perder quotas de mercado e valor das suas acções, ao ponto de que o valor das suas acções tem atingido recentemente um dos mínimos históricos. Há alguns dias, vários fundos de investimentos na Bolsa de Wall Street decidiram implementar uma estratégia de “venda a descoberto”, em inglês short selling, apostando na continuação do declínio das acções da GameStop.

O que é o short selling?

Pois é: o que raio é o este short selling? Tipicamente, como qualquer pessoa poderia licitamente pensar, os investidores compram acções na esperança que estas aumentem o seu valor na Bolsa. Depois de estudarem as empresas em questão e concluírem que, por exemplo, as suas vendas aumentarão no futuro, que os seus ganhos serão mais elevados ou simplesmente que o seu valor actual está subestimado, compram acções com vista a revendê-las a um preço mais elevado no futuro.

No caso do short selling, todavia, acontece o contrário: um investidor compra acções com a expectativa de que o seu preço caia, e ganha com isso. Trata-se de ganhar simplesmente com base nas variações do preço das acções. Na prática, o que acontece é o seguinte: o investidor pede acções emprestadas a uma pessoa que as detém, com base na promessa de que irá devolve-las depois das ter vendido e readquirido a um preço mais baixo daquele a que as vendeu. Complicado? Nem por isso, vamos fazer um exemplo:

Zé Jovânio vai à loja da fruta do bairro, pedindo emprestadas todas as maçãs e prometendo devolvê-las no dia seguinte. Zé Jovânio espera que o preço das maçãs, actualmente de 1 Euro ao quilo, desça ao longo do dia. Zé Jovânio vende todas as maçãs a 1 Euro ao kg. e, uma vez que o preço desceu para 60 cêntimos ao kg, compra-as todas de volta e devolve-as à loja. Desta forma, Zé Jovânio ganhou 60 cêntimos por cada kg. de maçã (um pouco menos, uma vez que na realidade dos mercados financeiros os investidores têm de pagar percentagens em impostos e aos vários corretores que intermediam as operações). O sentido financeiro da operação de short selling, no entanto, é este: uma estratégia de lucro através de operações de compra de acções que foram vendidas a um preço mais elevado.

Vida e obras do short selling

O short selling não é uma novidade. A prática foi inventada em 1609 pelo empresário holandês Isaac Le Maire (obviamente um judeu), importante accionista da Dutch East India Company; mas ao longo da história o short selling foi limitado ou até proibido por vários governos porque o mecanismo pode exercer uma pressão sobre as acções, fazendo baixar o preço delas: isto, combinado com as tácticas aparentemente complexas e difíceis de seguir da prática, tornou a “venda a descoberto” um alvo das críticas.

A casa bancária londrina de Neal, James, Fordyce e Down entrou em colapso em Junho de 1772, precipitando numa grande crise que incluiu o colapso de quase todos os bancos privados na Escócia e uma crise de liquidez nos dois maiores centros bancários do mundo, Londres e Amesterdão: e isso porque o banco tinha especulado na redução do preço das acções da East India Company numa escala maciça, utilizando depósitos de clientes para cobrir as perdas.

O short selling teve um importante papel na crise de Wall Street de 1929; as consequências levaram o Congresso dos EUA a promulgar uma lei que proibia o short selling durante uma descida do mercado; conhecida como lei uptick rule esteve em vigor até 3 de Julho de 2007, quando foi removida pela Comissão de Títulos e Câmbios (SEC). Outro exemplo de short selling foi aquele do especulador George Soros que “quebrou” o Banco de Inglaterra em 1992 ao vender a descoberto mais de 10 mil milhões de Libras.

Pelo que é evidente que os grandes investidores são capazes de influenciar a dinâmica dos preços das acções simplesmente através das suas próprias operações de compra e venda, uma vez que estas operações afectam as expectativas de todos os investidores e, portanto, têm uma influência decisiva nas decisões de compra e venda.

O mercado de acções é, fundamentalmente, um mercado de informação: aqueles que têm a informação certa e são capazes de antecipar outros investidores são também capazes de compreender quais acções irão aumentar ou diminuir de valor. Os grandes investidores e os fundos hedge, neste ponto de vista, são dotados de uma autoridade particular: as decisões de compra e venda deles são frequentemente consideradas pistas válidas acerca das próximas dinâmicas dos preços. Muitas vezes, de facto, estas dinâmicas acontecem mas a dúvida é: foi devido à capacidade de previsão ou foi por umas expectativas que se auto-realizaram? Ou seja: os preços caem porque assim tinha que ser o porque os sinas de desconfiança enviados pelos investidores actuaram como um impulso neste sentido? Na altura em que a opinião negativa se espalha, com a ideia de que uma determinada empresa irá perder valor, o preço das suas acções irá cair precisamente porque todos vendem. Então todos os accionistas vendem tentando conseguir um preço de venda ainda elevado ou decente.

Enquanto os pequenos investidores são apanhados nos redemoinhos destas dinâmicas, os grandes investidores têm a capacidade de inverter as marés: simplesmente comprando e vendendo, como vimos, ou através do poder político e mediático. Por exemplo, fazendo circular nos meios de comunicação social notícias sobre a empresa cujas acções são objecto de especulação, independentemente de tais notícias serem verdadeiras ou falsas.

Reddit & GameStop

Isso tem tudo a ver com o caso GameStop: como afirmado, vários fundos hedge e grandes investidores iniciaram uma operação de short selling das acções da GameStop, com base na previsão de que outros venderiam as acções e que, portanto, os preços baixariam drasticamente. Normal administração para os tubarões da Finança.

Mas de repente o inesperado aconteceu: no Reddit, na secção chamada Wall Street Bets (que tem mais de 2 milhões de utilizadores que trocam opiniões sobre oportunidades de investimento), a notícia do short selling espalhou-se e muitos utilizadores (vários milhares) decidiram unir asforças para comprar todas as acções GameStop no mercado. Resultado: o valor das acções disparou, provocando pesadas perdas aos grandes investidores que tinham concebido a operação de short selling. Nestes casos, normalmente, os investidores que apostaram no short selling costumam recomprar logo as acções para diminuir as perdas. Mas no caso da GeameStop os compradores decidiram não vender e por conseguinte o preço das acções continuou a subir até alturas vertiginosas, provocando perdas gigantescas aos criadores da operação de short selling.

Os grandes investidores que levaram a tareia imediatamente começaram a chorar alegando uma “manipulação do mercado”, conseguindo fazer suspender várias vezes as contratações das acções da GameStop (o que normalmente não acontece quando são os pequenos investidores a perder): os noticiários dos EUA ficaram cheios de comentadores que falavam de “escândalo” e da necessidade de desmascarar a comunidade Reddit. São precisamente aqueles grandes investidores cujo trabalho diário consiste em manipular a dinâmica das expectativas nos mercados para obter lucros.

Três razões

Desta vez, os peixes pequenos devoraram os tubarões, mas não há muito para aplaudir. Por várias razões.

A primeira é que milhares de pequenos investidores vão sofrer pesadas perdas num futuro próximo. Dado que esta é uma bolha especulativa, que não reflecte o real valor da GameStop (agora sobrevalorizada), assim que a tendência se inverter os preços vão cair, fazendo com que muitas pessoas percam dinheiro.

O que nos leva directamente à segunda razão de perplexidade: a bolha GameStop é mais uma demonstração de como a Finança viva num mundo todo seu, completamente desligado da realidade económica e reduzido a um casino puro e simples, no qual os jogadores tentam obter lucros antecipando-se e infligindo perdas uns aos outros. Nada de novo debaixo do sol: Keynes escreveu páginas esclarecedoras sobre este mundo de jogadores desligados da economia real. Mas, em comparação com os tempos em que Keynes escrevia, a actual situação agravou-se dramaticamente: nas ultimas décadas a engenharia financeira alastrou como um câncer, e produziu um mundo muito intrincado constituído por operações que são tecnicamente cada vez mais refinadas a fim de ganhar dinheiro através do dinheiro, numa realidade “virtual”, o mais rapidamente possível e libertando-se assim tanto quanto possível dos processos que têm lugar no terreno da economia real. Há uma necessidade urgente de uma nova regulação dos mercados financeiros, para torna-los marginais no sector do crédito e, assim, força-los a voltar para a economia real, produzindo benefícios em termos de produção e emprego para os territórios onde os investimentos são feitos. Menos dinheiro na Bolsa, mais nas empresas.

A terceira razão, finalmente, é que sem reformas profundas do sector financeiro e sem uma nova época de regulação pública, os mecanismos utilizados pelos bilionários não serão travados e a capacidade dos grandes investidores para manipular a dinâmica das expectativas nos mercados financeiros não será afectada: vivemos numa realidade capitalista em que os grandes sujeitos financeiros têm os meios na comunicação social e na política para orientar as expectativas dos investidores na direcção consistente com os seus próprios lucros. Nesta realidade, falar de “teoria económica liberal” ou de “livre mercado” é inútil, uma vez que nada disso aborda a questão do poder verdadeiro que se manifesta nos mercados financeiros e também do mundo real.

Todos hoje têm (ou deveriam ter) nocção de que a elite com o maior poder económico e político apoia a sua fortuna na Finança e que esta na realidade actua num regime de “auto-regulamentação”. Se a ideia for trazer o poder de volta aos cidadãos, pôr ordem neste Monopoly para bilionários (um jogo que todavia tem imensas consequências na vida real) deve ser um dos objectivos com a máxima prioridade.

E o controlador?

Acabou? Ainda não, ora essa.

O jornal económico francês Les Echos relatou há alguns dias uma notícia simpática: Janet Yellen, antigo Presidente da Federal Reserve e agora novo Secretário do Tesouro nomeado por ZomBiden, ganhou nos últimos dois anos 7.3 milhões de Dólares pelos seus discursos e participações em reuniões em 68 instituições financeiras, empresas, universidades e associações profissionais. São 10.000 Dólares por dia. O que não é mal. Destes sete e picos milhões, os gigantes de Wall Street pagaram 80%.

Agora, a parte divertida é que nos Estados Unidos o Secretário do Tesouro é o responsável pelos assuntos financeiros e monetários do País. É Janet que deve decidir o que fazer com o assunto GameStop, é ela que vai defender a lei, os direitos dos pequenos investidores e as regras do mercado. Simples prever o que acontecerá. Janet vai escrever uma carta:

Queridos tubarões,

obrigada pelo dinheiro todo com o qual encheram os meus bolsos mas agora tenho que defender os direitos dos meus concidadãos e em particular dos investidores menos poderosos, algo que para mim representa o mais alto dos valores. O facto de vocês terem-me coberto de Dólares não irá minimamente influenciar as minhas decisões, como também recomendou ZomBiden num dos seus raros momentos de lucidez.

Sem outros assunto, beijinhos.

A vossa amiga Janet

Disso podemos ter a certeza porque no País Farol da Democracia não se brinca em serviço.

Nota: obrigado ao Anónimo que ontem realçou a notícia de GameStop!

 

Ipse dixit.

3 Replies to “GameStop: o caso do short selling”

  1. Enquanto isso os mais ricos comprando terras, justo quando a bolsa bate recordes em todas as empresas zumbi. Minha espinha gela só de imaginar essa década inteira.

Obrigado por participar na discussão!

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