O estranho caso de Alexei Navalny e do veneno nas cuecas

Openonline é uma empresa italiana sem fins lucrativos que tem como objectivo verificar os factos. Um fact-checker com o dinheiro dos bancos, entre os quais JP Morgan: uma garantia de imparcialidade. Mas este é outro assunto.

Openonline brinda ao Natal com o artigo “Caso Navalny, o veneno talvez nas cuecas. De acordo com um 007 russo, teria sido colocado nas costuras”. Portanto: cuecas envenenadas, cada vez mais sofisticados estes Russos.

Quem é Navalny? Breve resumo com as mágicas palavra de Wikipedia, versão portuguesa:

Alexei Anatolievich Navalny […] é um advogado, ativista político e financeiro, blogueiro e político russo. A partir de 2009, Navalny tornou-se um dos oposicionistas mais famosos do país; é o principal líder da oposição na Rússia, embora não seja filiado a nenhum partido político. […]

Em 21 de agosto de 2020, Navalny foi internado num hospital em estado grave, mas estável, após uma suspeita de envenenamento durante um voo de Tomsk para Moscou em um ataque possivelmente motivado por motivos políticos. Seu voo foi desviado para Omsk. No final do dia, ele foi colocado em um avião médico com destino a Berlim, onde chegou no dia seguinte, em coma.

O envenenamento foi confirmado pelo governo alemão no início de setembro.

Bom, se o governo alemão confirma, quem somos nós para duvidar? Em frente:

Ele foi transferido para um hospital da Alemanha em 22 de agosto e o envenenamento por um agente químico nervoso do grupo Novichok foi confirmado pelo governo alemão no dia 02 de setembro.

Outra vez com o Novichok? Mas possível que os Russos não tenham capacidade de utilizar outro veneno que não seja aquele com o nome duma bebida ao chocolate? Ainda por cima um veneno que nem consegue matar um único opositor. Lembram-se do caso Skripal? O Novichok tinha sido pulverizado nos objectos pessoais de Julia Skripal a qual, no dia seguinte, desmaiou num banco de Salisbury com o pai, o ex-espião Sergei Skripal. Obviamente o Novichok, sendo um “gás nervoso, inventado pelos russos, cem vezes mais letal que Sarin” não matou nem o pai e nem a filha. E nem Alexei Navalny agora.

Sugestão: amigos russos, esqueçam o Novichok. Além de ter um nome estúpido, não funciona. Pode dar jeito para eliminar os mosquitos, talvez algumas ratazanas já maldispostas, mas com os opositores não dá mesmo. Voltem para o velho e bom Sarin, confiem em mim: foi desenvolvido pela IG Farben, hoje grupo Monsanto – Bayern, aquilo mata de certeza.

Dizíamos: Openonline. A heróica empresa esclarece o caso do veneno nas cuecas com uma “investigação” de Eliot Higgins. O Leitor, muito provavelmente e por sua grande sorte, não conhece este fulano: só para ter uma ideia, é este o indivíduo que “descobriu” que o governo da Síria atirava bombas de barril contra os seus cidadãos; é o mesmo indivíduo que descobriu que o governo da Síria atirava cluster bombs contra os seus cidadãos; é sempre ele que descobriu que o governo da Síria realizou o ataque químico de Ghouta, obviamente sempre contra os seus cidadãos. Tudo isso sem ter nunca visitado a Síria, tudo feito à partir da casa no Reino Unido. Dá para ter uma ideia?

Ora bem: agora Higgins explica como foi descoberta a verdade acerca do caso Navalny e a imprensa internacional amplifica como de costume. Vamos ler o artigo:

Nos últimos dias ele [Alexei Navalny, ndt] conseguiu supostamente contactar um agente do FSB, o Serviço Federal de Segurança da Rússia. O nome era Konstantin Kudryavtsev. Navalny fingiu ser um alto funcionário interessado em entender o que tinha acontecido, naqueles dias no final de agosto, que tinha levado ao seu envenenamento. Kudryavtsev não só revelou que os serviços secretos tinham de facto tentado matá-lo, mas também deixou claro que se Navalny não tivesse sido tratado imediatamente, o resultado teria sido diferente. Navalny não se contentou em receber confirmação de suas suspeitas: ele quis fazer mais (…) durante o telefonema e também perguntou onde a maior quantidade de veneno poderia ser encontrada nas roupas que usava naquela manhã de agosto. A resposta foi “nas suas cuecas”, especificamente ao longo das costuras da virilha.

Terrível. Não o que agente disse, mas a cena toda: para descobrir tudo acerca do seu envenenamento, Navalny fez… um telefonema! Deu um nome falso (Maxim Ustinov, um inexistente assistente do Secretário de Segurança Nacional da Rússia, genial!), depois, esperto como uma raposa do deserto, pediu para falar com alguém. Fácil imaginar a resposta: “Para o assunto armas secretas, marque 1. Para o assunto operações disfarçadas no estrangeiro, marque 2. Para avarias e facturação, marque 3. Para falar directamente com um nosso agente secreto, marque 0”.

E aqui entra em cena Konstantin Kudryavtsev: sem suspeitar nada, o 007 de Moscovo conta tudo, até ao mais ínfimo pormenor. Muito simples.

Stop, calma, pára tudo porque o esperto Leitor nesta altura poderá perguntar: “Mas este Kudryavtsev não poderia ter verificado a identidade deste alegado Ustinov?”. Provavelmente foi o que fez, mas dado que Maxim Ustionov não existe, o 007 da vodka deve ter pensado “Se não consigo encontra-lo aqui no Facebook significa que é mesmo um agente secreto”. O que faz sentido, pois os agentes secretos não têm páginas no Facebook. Como parcial desculpa, temos que admitir que não era fácil desconfiar: Ustinov é um apelido russo, já se Navalny tivesse escolhido “Fonseca”, talvez o agente poderia ter suspeitado algo.

Outra vez o atento Leitor: “Mas Navalny não tinha sido envenando com uma garaffa de água no hotel em Tomsk?”. Sim, também, mas isso já tinha sido depois de ter sido envenenado no aeroporto de Moscovo, com um chá. A táctica é a seguinte: Fase 1 – o alvo é envenendado no aeroporto, mas pouco. Fase 2 – o alvo é envenenado um pouco mais no hotel onde é obrigado a parar por causa do envenenamento no aeroporto. Fase 3 – o alvo é envenenado definitivamente com uma maciça dose nas cuecas. São técnicas bastante sofisticadas, o Leitor não pode entender.

Mas estes são pormenores. O que conta é o seguinte: para descobrir os planos secretos do FSB, tudo o que é preciso fazer é ligar para a sede e dar um nome falso; depois é só pedir para falar com um agente e pronto, temos acesso a qualquer um dos diabólicos planos russos. Planos explicados ao pormenor, como é possível constatar. E os Estados Unidos estão preocupados com a Rússia? Não brinquemos, quem ter que estar preocupado é Putin: com um serviço secreto assim é um milagre o facto dele ainda estar vivo.

 

Ipse dixit.

5 Replies to “O estranho caso de Alexei Navalny e do veneno nas cuecas”

  1. Uau, já se encontra disponível a nova temporada da série «Novichok – A Culpa é da Rússia» também conhecida por «Culpem a Rússia pelas más políticas praticadas pelos nossos governos».

    Max, ainda bem que só lhes surgiu a ideia das cuecas, mas se o sr. Navalny usasse boxers ou ceroulas eu nem quero imaginar…

    «…o principal líder da oposição na Rússia…»

    Alguém sabe dizer-me se o sr. Navalny já consegui alcançar mais de 1% nas intenções de voto, nas eleições que ocorrem na Federação da Rússia (FR), para conseguir entrar na Duma Federal?

    1. Olha JF se o Navalny usasse umas ceroulas assim como as tuas provavelmente até ficava mumificado … Ou como é que tu achas que eles mumificaram o Lenine ?

  2. Max, depois de ler o texto fiquei muito mais bem disposto.
    Konstantin Kudryavtsev, aqui está um nome para se guardar em papel, até na porta do frigorífico. Ter à mão o contacto de um espião russo, e ainda por cima daqueles que cantam que nem passarinhos, dá sempre jeito.

  3. Olá Max: lindo artigo, ri pra valer! Mas, sério Max , o Navalny contou esta historinha do telefonema de verdade, ou fostes tu que compusestes a cena? te pergunto porque não acompanho a série de suicidados pelo Putin.
    E, não me entendam mal. Estou cansada de saber que o serviço administrado pelo Putin em 20 anos, não se consegue perdoando os inimigos, porque eles não sabem o que fazem. E por inimigo entende-se todo aquele que possa minimamente atrapalhar os planos e desenvolvimentos da política interna e externa da Rússia.
    Mas voltando ao Navalny, se a tua historinha é isso mesmo, o cidadão é medíocre mesmo. Com certeza eu inventaria um roteiro mais convincente.
    Se ele raciocina desta maneira, nunca, jamais fará um centímetro de sombra ao Putin que, dentro da Rússia enfrenta gente altamente competente no afã de continuarem bilionários sem pagar impostos e tentando amealhar empresas renacionalizadas pela administração russa.

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