O Testamento de Informação Incorrecta – Parte I

Eu, Max, nacionalidade italiana, profissão blogueiro, residente em Portugal,  estando em quase perfeito juízo e parcial gozo das minhas já escassas faculdades intelectuais, na presença de uma (1) testemunhas a seguir qualificadas:

  1. Leonardo, nacionalidade portuguesa, profissão cão, residente em Portugal.

Livre de qualquer induzimento ou coacção, resolvo lavrar o presente testamento público no qual exaro os meus últimos pensamentos, pela forma e maneira seguinte: 

Com minha grande surpresa, tenho que admitir: há ainda alguém que, ao falar de “controle do sistema sobre internet” vira o olhar para outro lado, rotulando tudo como “conspiracionismo”. Então, a coisa mais simpática que poder fazer Informação Incorrecta ao fechar as portas é aprofundar o discurso. E aviso já: é um aprofundamento sério, por isso bem comprido, que abrange não apenas os órgãos de comunicação de massa mas também aquelas que são as bases da nossa actual sociedade. Na prática: porque as coisas são como são, porque funcionam numa determinada maneira, porque não poderiam funcionar de outra forma. E sobretudo: quem e por qual razão decidiu isso.

Porque desde já é bem retirar do horizonte uma dúvida: será que tudo o que acontece, acontece “por acaso”? Se é verdade que este blog sempre recusou a ideia dum “Grande Velho” que opera nas sombras, também é verdade que não é possível pensar de forma séria que o desenvolvimento da nossa sociedade tenha sido deixado ao sabor do vento. Claro, há sempre o imponderável. Mas em qualquer caso há quem tenha um plano para manter o reforçar o seu próprio poder. E, como tive já ocasião de afirmar, este não é “conspiracionismo”, é História. Em qualquer época, as pessoas no poder sempre trabalharam para manter a sua posição dominante com os meios tecnológicos à disposição. Negar isso significa negar que tenha havido um passado.

Hoje a tecnologia permite que o poder não seja limitado pelo horizonte dos confins nacionais ou até dum único continente (em boa verdade, a tecnologia permite isso já há alguns séculos, veja-se o Império da Grã Bretanha no séc. XVIII). Portanto, se um adolescente perguntasse qual é a diferença mais marcante entre o mundo antigo e o mundo moderno, a resposta mais óbvia seria “a tecnologia”. Mas há algo mais, uma diferença crucial que até tem maiores consequências hoje: no mundo antigo o Verdadeiro Poder não devia esconder-se. Hoje, pelo contrário, o Verdadeiro Poder está escondido e quase ninguém sabe disso.

Uns Luís XIV, Richelieu, Metternich ou a Rainha Vitória estavam à luz do dia, os seus impérios e posições eram conhecidos, as suas decisões eram declaradas em voz alta. Alguém tinha a péssima ideia de opor-se? Então chegavam tropas e baionetas, câmaras de tortura e cordas de sabão, Cayenne e outras colónias penais, suficientes para fazer desaparecer milhares de indivíduos de cada vez. Mas não havia necessidade de usar violência, simplesmente porque as pessoas não ousavam imaginar que poderiam afectar o Poder Verdadeiro. Tudo (ou quase) ficava na luz do Sol.

Na era contemporânea, o Verdadeiro Poder está oculto e o que todos entendemos como “poder” (política nacional, administradores, magistrados, castas profissionais e até organizações criminosas) são apenas o “quintal” do Poder, isto é, uma representação fictícia do poder que o Poder Verdadeiro põe diante dos nossos olhos, de modo que todos nós olhamos obsessivamente só para aquele lado. O Poder Verdadeiro deve operar sem ser perturbado, em silêncio. Numa metáfora, o que estamos acostumados a reconhecer como poder nada mais é do que fogos-fátuos (fogo corredor ou João-galafoice em bom Brasileiro) enquanto a massa apodrecida fica no subsolo, escondida.

Mas é preciso ter cuidado, porque o que acaba de ser dito também tem implicações cruciais para toda a esfera da luta cívica, em particular para a velha questão que todos perguntamos depois de ouvir acerca dum escândalo ou dum crime: “E o que podemos fazer acerca disso?” é a pergunta retórica (retórica porque a resposta subentendida é “Nada, o poder não é connosco”). Fica claro que, se todos aqueles na lutar contra o sistema forem desviados durante décadas contra um falso poder, contra um poder barato que esconde o Verdadeiro Poder por trás dele, o que é possível conseguir? Antes de mais nada, têm que ser conhecidas as verdadeiras fontes do poder e é exactamente isso que vamos fazer.

Uma última nota antes de começar. O seguinte artigo é extrapolado dum artigo bem mais amplo publicado pelo jornalista italiano Paolo Barnard (que mesmo nestas semanas fechou as portas também), escrito que no meu entender deveria constituir leitura obrigatória em qualquer escola secundária, não fosse que para ser motivo de discussão. Uma leitura superficial poderia dar a impressão de estarmos perante uma história da União Europeia, mas assim não é por duas razões:

1. o Verdadeiro Poder não é algo nacional ou continental. O Verdadeiro Poder não é algo que hoje abrange apenas a Europa ou os Estados Unidos ou Ocidente. O Verdadeiro Poder tem ramificações em todos os continentes, sem excepções. Individuar como causa de todos os males apenas um agente regional (como os judeus-alemães Rothschild) e pensar que aí fique toda a raiz do mal é um erro crasso. A Globalização é um processo económico mas também político que não começou nas últimas décadas.

2. como consequência, os factos aqui representados são apenas uma amostra local dum fenómeno com uma extensão global. Mudam os nomes, as datas e as decisões específicas (por exemplo a criação do Euro no velho Continente), mas as linhas fundamentais podem (e devem) ser adaptadas a qualquer outra realidade. O que aconteceu na Europa tinha acontecido antes nos Estados Unidos, acontece na América do Sul (com Bolsonaro ou Lula, tanto faz: se alguém acha que isso tenha alguma importância, então é melhor que pare já a leitura) ou na Ásia. Mudam os actores e os instrumentos, mas o enredo de fundo é sempre o mesmo.

Mas vamos ver à razão pela qual o Verdadeiro Poder hoje fica oculto.

O Poder oculto

Todos sabemos que, num certo ponto da História, as ideias de um grupo de homens “iluminados” mudaram uma situação milenar, onde a sociedade ficava baseada no poder dos monarcas, da aristocracia e do clero. De forma lenta, isso mudou com o advento destes homens “iluminados” e com apenas três ideias fundamentais:

  1. era precisa a existência dum Estado
  2. era precisa a existência dum povo dotado de livre arbítrio que legitimasse o Estado
  3. eram precisas leis promulgadas em nome do mesmo povo.

Apenas isso, só três ideias: Estado, leis e povo coordenados. Um Tridente, uma arma para afastar duma vez por todas milhares de anos de domínio absoluto por parte de algumas elites. Uma arma muito poderosa, a arma mais poderosa já concebida pelo ser humano, de modo que fica claro que não há nada no mundo que um Estado, com as suas regras legitimadas pela maioria, não possa mudar, destruir, travar ou conter. Absolutamente nada. Estamos a falar do nascimento das Democracias participativas, aquelas em que os cidadãos participavam em números variáveis, ​​mas às vezes números substanciais, na vida pública.

E aconteceu que por pelo menos duzentos e cinquenta anos o Poder Verdadeiro escolheu retirar-se perante essas ideias, de forma lenta e às vezes com pausas até devastadoras (como as grandes guerras), mas apenas pausas. E atenção aos termos utilizados: não escrevo que o Verdadeiro Poder foi afastado, mas sim que “escolheu retirar-se”: é diferente.

Chegamos assim ao alvorecer do século XX, os cem anos que verão o poder do Tridente atingir o seu auge nos anos perto de 1970. Nesse ponto, o triunfo dos Estados, das leis e dos povos participativos forçou o Verdadeiro Poder a esconder-se completamente. Não era concebível que, em plena modernidade, uma voz oligárquica com o objectivo de hegemonia, de destruição do bem comum e da cidadania ainda pudesse enraizar a vida pública e reivindicar riqueza e privilégios arrogantes. Mas já no início daquele século, alguém tinha começado a preparar uma mudança de enormes proporções: o regresso das elites do verdadeiro Poder para atirar Estados, leis e povos para um canto.

E aqui temos que abrir uma parênteses. No mundo da informação alternativa é simples encontrar material acerca de alegadas conspirações, até ousadas, acerca de vários temas como o nascimento do Comunismo, do Nazismo, os Illuminati, os Judeus, a Maçonaria, etc. O que falta demasiadas vezes é um quadro geral, isso é, um panorama de longo alcance que consiga inserir num contexto racional estas teorias.

Por exemplo: a teoria que vê a História recente (isso é, dos últimos séculos) como a tentativa de dominar o mundo por parte dos Judeus (Protocolos de Sião, etc.) não tem cabimento por ela só. Começa a ter um pouco mais de sentido se vermos os Judeus como uma parte no seio do Verdadeiro Poder. Isso não significa que haja de verdade um plano judeu para conquistar o mundo: significa que o papel do Judeus ao longo da História justifica a presença de muitos elementos judaicos na tal acção de “vingança” por parte das elites. Mas para entender isso é preciso ler a História, entender quais as actividades dos Judeus na Europa a partir do séc. XV, aprofundar o discurso acerca a Nobreza Negra de Venezia e Genova, as ligações com as monarquias europeias, a expansão no Novo Mundo…  Sem este conhecimento, tudo pode parecer a obra duns judeus loucos, fanáticos religiosos que actuam tendo como base as leis do Talmud. Assim não é. Existem precisas razões históricas (e não religiosas) que justificam a presença de elementos judeus no seio do Verdadeiro Poder, tal como justificam a presença de elementos judeus nas posições dominantes de alguns Países hoje.

Idêntico discurso deve ser feito ao falar das outras teorias da conspiração que, se tomadas sozinhas, não passam disso: teorias da conspiração, ainda por cima desprovidas de provas e de fundamentos. E, sobretudo, desligadas dum quadro geral que tenha um pleno sentido. Até uma teoria das mais absurdas (a dos Reptilianos) pode ser entendida apenas com o estudo da História (e, neste caso, da Bíblia; mas, tenho de admitir, mesmo assim é muito difícil para mim conseguir aceita-la).

Um dos maiores “pecados” do mundo da informação alternativa (e deste blog também) é que demasiadas vezes estas teorias são apresentadas de forma isolada, sem um quadro geral, deixando ao Leitor a tarefa de juntar os pontinhos, o que nem sempre é simples ou até possível. Juntar os pontinhos é tarefa complexa, que pode facilmente fazer descarrilar a nossa pesquisa. É isso que acontece, por exemplo, ao ler a História dos últimos séculos simplesmente como um único plano, com os únicos actores principais que determinam tudo e mais alguma coisa.

A teoria dos Illuminati que pré-determinam tudo desde tempos imemoráveis falta de consistência e não consegue explicar (a não ser “forçando” a leitura dos eventos) de forma coerente o percurso da nossa sociedade ao longo dos séculos. Mais uma vez: a teoria dos Illuminati sozinha não fornece a correcta chave interpretativa porque não passa dum bonito chamariz, uma das muitas distracções para desviar o olhar dos curiosos, um outro disfarce adoptado pelo Verdadeiro Poder que, lembramos permanece nas sombras. Vice-versa, enquadrar a teoria dos Illuminati num percurso bem mais complexo começa a ter mais sentido. Mas isso passa, mais uma vez, pela leitura e a compreensão da História: quem eram os primeiros Illuminati, as origens deles, os verdadeiros objectivos e, sobretudo, quem ficava atrás deles.

Da mesma forma, ler o Comunismo ou o Nazismo apenas como “criaturas” dum plano maléfico é um erro. O Verdadeiro Poder é constituído por homens, não Deuses. E o homem tem que adaptar-se ao imponderável. Não é verdade que alguém numa certa altura decidiu que na Rússia teria havido o Comunismo: este vingou na Rússia só porque naquele País existiam as condições certas, condições que tinham origens antigas de séculos (com os servos da gleba). O que o Verdadeiro Poder fez foi introduzir na revolução alguns elementos que imprimiram ao Comunismo originário um certo percurso.

Da mesma forma, ninguém pensou sentado na frente da chaminé “Olha, agora vamos criar o Nazismo e depois uma outra bonita Guerra Mundial”. Esta visão é simplesmente infantil e ignora por completo todas as razões que levaram à ascensão de Hitler. Na verdade, a ideia duma nova guerra no prazo dos seguintes vinte anos estava bem clara nas mentes dalguns que participaram na Conferência de Versaille (aquela que concluiu a Primeira Guerra Mundial), não porque fruto duma conspiração mas porque lógico desenvolvimento das condições impostas aos Alemães depois da derrota. Isso não significa, todavia, que o Verdadeiro Poder não tenha sabido desfrutar a ocasião e sabemos da cumplicidade de várias empresas ocidentais (hoje conceituadas multinacionais) tanto na ascensão quanto na queda de Hitler.

O Verdadeiro Poder, tal como demasiadas vezes é representado, é algo monolítico, imutável e formado por Deuses que tudo podem. Não brinquemos por favor. O Verdadeiro Poder é formado por homens, que nada podem contra o imponderável mas que, com os quases infinitos meios económico (e não só) à disposição, têm uma grande capacidade de adaptação para alcançar aqueles que são os objectivos deles.

O facto de poder continuar a ficar “oculto” é um dos práticos frutos destes meios.

(continua)

 

Ipse dixit.

Fonte: na última parte do artigo.

7 Replies to “O Testamento de Informação Incorrecta – Parte I”

  1. Realmente vou sentir falta de II. Esse refinamento na ironia é algo que não se encontra em qualquer lugar, Max. Realmente, tenho um pedido em uma pergunta: teremos tempo de salvar teus textos para leitura futura? É possível enviar a quem interessa a herança de II, visto que há um testamento?

    1. Olá!

      Informação Incorrecta fecha mas não desaparece da internet. Repito: não tenho ideia nenhuma do que fazer, só sei que o blog não irá em frente (se terá que ir em frente) nos moldes actuais, isso de certeza absoluta. Nada mais de artigos, mas aqueles que aí estão ficam, pelo menos até Maio do próximo ano (pois o espaço internet está pago até lá). Aliás, é provável que aproveite a pausa para pôr em pouco de ordem na casa, sem apagar nada mas facilitando a pesquisa (dos Leitores e minha também).

      Os artigos de I.I. podem ser enviados a qualquer pessoa, a qual pode ré-publica-los (nunca com finalidades comerciais: Licença Creative Commons – Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição Não Comercial Compartilha 4.0 Internacional) se assim quiser. Só peço a honestidade intelectual de citar a autoria dos mesmos. E a ré-publicação (de um, de vários, de todos) pode acontecer em qualquer altura, não é preciso eu estar na cova.

      Fui!

Obrigado por participar na discussão!

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