O Testamento de Informação Incorrecta – Parte II

Existe alguma coisa no mundo que possa opor-se às leis de Estados soberanos, democraticamente legitimados pelos seus cidadãos e nos quais a classe política faça de verdade o trabalho dela? Não, nada existe, nem mesmo a elite privada mais poderosa poderia fazer algo. Só uma guerra pode abalar o sistema, mas não faltam exemplos históricos de combates no final dos quais a vontade do povo atacado prevaleceu, podendo assim voltar ao antigo regime.

E o que aconteceria se estes Estados, democraticamente poderosos, adquirissem os meios económicos para enriquecer a maioria dos seus cidadãos com muito poucas restrições em termos de gastos? Simples: a maior fatia da riqueza daqueles Estados cairia nas mãos dos seus eleitores e seria bem difícil que voltasse a ser possuída pelas elites privadas. Em outras palavras, as elites teriam perdido o controle de uma riqueza colossal, praticamente para sempre (ou, em qualquer caso, para um longo período de tempo). Este é o problema do Verdadeiro Poder.

Pergunta: houve uma altura em que Estados e povos possuíssem meios económicos tão extraordinários? Sim, houve. Formalmente, essa era começou em 1971, quando uma decisão unilateral do Presidente norte-americano Richard Nixon mudou radicalmente o sistema monetário internacional ao introduzir a moeda moderna nas Nações ocidentais. A moeda moderna é chamada FIAT (do latim) e é definida como uma moeda soberana, flutuante e não conversível que o Estado simplesmente emite a partir do nada. Já está claro: falamos da Modern Money Theory (MMT).

Este tipo de dinheiro deram aos Estados um poder sem precedentes para injectar riqueza financeira líquida no sector não-governamental (cidadãos e empresas), quase sem limites. Em outras palavras: o governo poderia gastar dinheiro simplesmente inventando-o e, ao fazê-lo, tornaria aqueles que o recebessem mais ricos (depositando nas contas bancárias de cidadãos e empresas que lhe vendiam bens e serviços). O blog tratou de forma ampla e exaustiva este assunto, pelo que não é esta a sede para voltar ao mesmo discurso: no fundo do artigo ficam alguns links acerca disso.

Resumindo ao máximo: isso teria criado estruturas sociais onde o Estado atribuiria grandes quantidades de riqueza financeira à maioria (em detrimento das elites) e onde trabalhadores e cidadãos se tornariam entidades fortes com altos poderes contratuais, porque, como escreveu o economista libanês Joseph Halevi “o verdadeiro pleno emprego dá poder; deflação, desemprego e empregos precários tornam impotente”. Este teria sido o panorama porque, vamos repetir, nada pode impedir as regras feitas por um Estado soberano legitimado pelos seus eleitores.

Como dissemos, no início da década de 1970, as imensas potencialidades sociais da MMT apareceram em alguns Países avançados, causando pânico nas elites da potência financeira e industrial. Esse foi o período em que as ideias nascidas do Iluminismo, e desenvolvidas a seguir, pareciam ter alcançado pleno sucesso, apoiadas por um crescente consenso popular. Ficou claro que os Estados democráticos estavam rapidamente a aproximar-se do tempo em que poderiam realmente controlar a maior parte das riquezas do mundo (de facto, e como veremos, essa consciência já preocupava as elites na década dos anos ’30). E foi naquela altura que os “globocratas” decidiram agir.

O plano deles foi dividido em quatro direcções:

  1. O poder de gasto soberano dos Estados tinha que ser destruído, juntamente com a capacidade de usar esse poder para fins sociais e para tornar mais fortes os cidadãos.
  2. Até mesmo a soberania legislativa dos Estados tinha que ser limitada, para evitar que consolidassem o sistema da MMT em benefício dos cidadãos sob-forma de leis dificilmente atacáveis.
  3. Os próprios cidadãos tinham que ser postos de lado, tornado-os apáticos e incapazes de opor-se ao poder, e incapazes de entender o potencial social da MMT.
  4. Finalmente, das cinzas dos Estados, as elites teriam ganho não apenas o controle da maior fatia da riqueza mundial, mas também imensos lucros financeiros.

Foi isso que o Verdadeiro Poder fez.

São as ideias que permitem a obtenção do poder, neste caso a sua reconquista. As elites, portanto, armaram-se com uma série de ideias sofisticadas. Talvez isso não seja claro de forma imediata, mas os conceitos que seguem estão na raiz de todo o mal social e económico que nos atormenta há pelo menos quarenta anos. Mas é possível ir até mais atrás no tempo.

A mais relevante dessas ideias era:

O dinheiro não deveria ser um instrumento central para o funcionamento das economias

Mas como? Informação Incorrecta há anos que repete “sigam o dinheiro” e de repente o dinheiro não presta? Calma, sigam o raciocínio. A elite tomou emprestados os dogmas dos economistas neoclássicos, aqueles que argumentavam que o mercado sempre forneceria o equilíbrio perfeito entre oferta e demanda de bens, e que, portanto, sempre fixaria o preço certo para tudo e uma harmonia entre as várias componentes do mercado. O dinheiro não figurava neste modelo, aqui falamos da “mão invisível” que, supostamente, actua no Capitalismo como um equilibrador “natural” e intrínseco. Obviamente esta “mão invisível ” não existe pois o Capitalismo não é um sistema com a capacidade de auto-regulamentar-se (e, é importante realçar, não é “o sistema final”, destinado a perpetuar-se até o infinito, mas uma fase histórica com um prazo determinado, como todas as fases históricas do passado). O dinheiro não figurava neste modelo neoclássico porque visto como simples “ponte” de ligação entre oferta e procura de bens no interior dum sistema capaz de auto-regulamentar-se (do ponto de vista económico mas não só) e fruto natural desta “harmonia” intrínseca do Capitalismo. Mas notamos que outras duas coisas não figuram neste modelo: o Estado e o seu poder de administrar uma política monetária. E não é por acaso.

Era (e ainda é) o sonho das elites: o Estado fora do caminho e o mercado (deles) como governo supremo de toda a vida económica. E empurraram essa ideia ao ponto de criar um estereótipo que definia Estados como algo complexo, plantado no meio de uma máquina que funcionava perfeitamente e que beneficiaria a todos. Esta “máquina perfeita” seria, obviamente, o livre mercado. É a partir daqui que podemos encontrar os actuais mantras acerca da redução do tamanho dos governos e dos Estado no geral.

Quem foram os pensadores que originaram e depois emprestaram estas ideias à elite?

  • o economista inglês Dennis H. Robertson (da Universidade inglesa de Cambridge)
  • o economista e Nobel francês Gérard Debreu (da área Rockefeller)
  • o economista americano-hebreu e Nobel Kenneth Arrow (Rand Corporation e ligações com o Vaticano)
  • o economista inglês Frank Hahn e os pensadores políticos neoliberais em geral.

Outra ideia que as elites adoptaram foi que:

As poupanças devem sempre vir antes do investimento, e nunca vice-versa.

O pai dessa regra tinha sido o economista inglês David Ricardo (1772-1823), entre cujos amigos vale a pena lembrar aquele Thomas Robert Malthus, hoje conhecido por via do malthusianismo (a teoria do controle populacional). Ao traduzir o pensamento de Ricardo para a versão moderna, temos a justificativa com a qual a elite pode atacar os gastos do Estado. O argumento é simples, totalmente falso mas muito eficaz: o orçamento do Estado é como aquele das famílias, pois antes é preciso ganhar mais de quanto gasto e só depois é possível gastar; pelo que, segundo esta teoria, os Estados antes deveriam ganhar para poupar e só depois investir.

Esse simples teorema económico é extraordinariamente eficaz porque aparentemente lógico e consegue convence todos, do público aos políticos. Pena que esteja errado, especialmente do ponto de vista da contabilidade: uma família precisa economizar mais do que gasta simplesmente porque não pode criar o seu próprio dinheiro; deve ganhá-lo ou toma-lo emprestado, portanto será melhor que as famílias ponham de lado uns trocos antes de gastá-los para não ficarem muito endividadas.

Mas um Estado de moeda soberana não tem nenhum desses problemas, cria o seu próprio dinheiro a partir do nada: em boa verdade, tem que gastar mais do que ganha para poder depois taxar cidadãos e empresas. No entanto o mito de que “o Estado é como uma família” espalhou-se como um vírus. É assim que surgiu os dogmas de ter sempre que equilibrar os orçamentos, de nunca gastar com deficits, de cortar os gastos do governo. Assim nasceu a histeria da deficit hoje e, claro, tudo isso favoreceu as elites, paralisando intelectualmente os governos e impedindo-os de gastar quanto fosse necessário para enriquecer e proteger.

E, se acrescentarmos a esses paradigmas a falsificação de impostos, as coisas ficam ainda piores. Pois além do engano de “o Estado deve gastar como uma família faz”, veio a outra mentira de que os impostos são dinheiro que o Estado recolhe entre os cidadãos para poder gastá-lo (saúde, escola, pensões…) em prol dos cidadãos. Isto é o acontece na Europa, agora, e os resultados estão à vista: mas com uma moeda soberana é falso. As razões são complexas e não vamos analisa-las aqui: mas não é preciso um génio para entender que os dois teoremas juntos (Estado com “orçamento familiar” e taxas para permitir que o Estado gaste) representam o caminho mais curto para empobrecer milhões de contribuintes / cidadãos / empresas, e a maneira certa de estrangular as despesas estatais, atormentado a vida de milhões de trabalhadores, reformados, pequenas e médias empresas, atacando os direitos sociais e a mesma sobrevivência económica. E criando mais desemprego.

Os nomes dos modernos gurus que espalharam esta forma de pensamento? Os economistas:

  • Robert Lucas (Prémio Nobel, da Universidade de Chicago; o génio que em 2003, 5 anos antes da Grande Recessão de 2008, afirmou: “O problema central da prevenção da depressão foi resolvido, para todos os efeitos práticos, e de facto foi resolvido por muitas décadas”. Não acaso é um Nobel…)
  • Tom Sargent (Nobel)
  • Neil Wallace (considerado o fundador, com Sargent, da Nova Escola Clássica anti-Keyne)
  • Jude Wanniski (consultor do Presidente Reagan e, mais tarde, de Steve Forbes e John Kerr)
  • George Gilder (criacionista, do grupo Rockefeller, considera as culturas dos nativos americanos e dos afroamericanos como uma “terrível perversão” e que “os homens são sexualmente inferiores mas são superiores no local de trabalho e nos grandes empreendimentos criativos fora do círculo familiar. Isso tem sido verdade em toda a história humana e sempre será verdadeiro”. Lógico que um cérebro como este escreva regularmente em publicações como Forbes, The Wall Street Journal, Wired…).
  • Greg Mankiw (consultor económico do Presidente G. Bush e de Mitt Romney)
  • Carmen Reinhart (Council on Foreing Relations, FMI)
  • Kenneth Rogoff (FMI, Federal Reserve, Council on Foreing Relations, Grupo dos Trinta).

(Nota: Em Abril de 2013, Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff estiveram no centro das atenções mundiais quais autores do livro This Time is Different porque a tese deles, segundo a qual o crescimento da Dívida provoca crises, mostrou conter “erros de computação, exclusão selectiva de dados disponíveis e ponderação não convencional de estatísticas” que “levaram a sérios erros” na representação da “relação entre Dívida Pública e crescimento do PIB entre 20 economias avançadas no período pós-guerra”. Reinhart e Rogoff inicialmente responderam que os erros eram marginais e não influenciavam a teoria deles. Mais tarde, afirmaram que “a discussão politicamente carregada […] equacionou falsamente a nossa descoberta de uma associação negativa entre dívida e crescimento dum pedido inequívoco de austeridade”. Este são os indivíduos dos quais os nossos políticos aprendem a gerir os Estados hoje).

Outra ideia fundamental apoiada por todos os neo-clássicos é a seguinte:

A inflação, pesadelo de todas as economias, pode ser controlada monitorizando a questão do dinheiro e evitando o pleno emprego.

O primeiro conceito é teoricamente plausível, já o segundo menos. No entanto, Milton Friedman (Prémio Nobel, consultor de Ronald Reagan, Maraget Thatcher e Augusto Pinochet) com a sua famosa Escola de Economia de Chicago e o colega Alan Greenspan (chefe da Federal Reserve, depois Deutsche Bank), espalharam essa ideia com um propósito definido: impedir que os governos usassem livremente a questão da soberania monetária para criar pleno emprego. Esses economistas convenientemente e conscientemente ignoraram os benefícios comprovados do pleno emprego e o facto de que, mesmo em sua presença, a inflação possa ser controlada de várias maneiras.

Pensamos um momento neste conceito: o facto de todos os trabalhadores terem um emprego é negativo, prejudica a economia; o desemprego é positivo e deve ser utilizado como forma para evitar a inflação. Além das óbvias questões morais, há por aqui uma total inversão dos papeis: o dinheiro já não é um instrumento ao serviço dos cidadãos, mas são os cidadãos que têm que sacrificar-se para garantir a saúde do dinheiro. Temos que deixar algumas famílias sem um tostão porque, caso contrário, o dinheiro entra em sofrimento. Perante afirmações como estas, qualquer pessoa normal pensaria “Há algo que não bate bem neste sistema”. Mas não foi isso que aconteceu: pelo contrário, esta ideia vingou e obtivere que os trabalhadores nunca fossem colocados numa condição de forte poder contractual, com uma ocupação completa e estável. Como resultado, e dado que um dos alvos a serem atingidos por parte da elite eram precisamente os trabalhadores e os direitos deles, foi peciso recuperar outro dogma económico sagrado do passado:

Baixar os ordenados para obter o pleno emprego

A teoria económica mais devastadora que a elite conseguiu impor em vários níveis de governo em todo o mundo. Foi originalmente proposto pelo economista inglês Cecil Pigou (Prémio Adam Smith) no século XX, mas foi posteriormente revista por outros colegas como o francês Gerard Debreu (Prémio Nobel, membro do Rockefeller Fellowship), os já conhecidos Kenneth Arrow e Frank Hahn da escola neoclássica; e depois pela escola austríaca de Ludwig Von Mises (Rockefeller Foundation) e Friedrich Hayek (Nobel, docente de David Rockefeller). Todos eles argumentaram que uma empresa contrataria mais facilmente trabalhadores se pudesse reduzir o custo dos salários. Mas isso, deliberadamente, ignora um dos paradigmas económicos mais conhecidos, aquele que demonstra como, ao deixar cair os salários, o nível de consumo também cai e reduz as vendas das empresas, com o consequente colapso dos lucros e os inevitáveis despedimentos. Exactamente o oposto do que esses economistas tinham previsto.

Não acaso, é muitas vezes citado o exemplo de Henry Ford que aumentou o salário dos seus trabalhadores. Ford não era um santo nem um coração de manteiga: era um capitalista e um dos mais bem sucedidos da História. Mas teve uma ideia extraordinária e inédita na época: pagar os funcionários 5 Dólares por um dia de trabalho de oito horas, mais do que o dobro do salário médio. O resultado foi que milhares de pessoas fizeram a fila no frio intenso em Janeiro de 1914 para aceitar a sua oferta. Ford tinha percebido que a produção em massa de automóveis (para as massas) precisava de trabalhadores altamente produtivos; e precisava duma massa de trabalhadores estáveis, especializados e motivados.

Os benefícios foram quase imediatos. A produtividade aumentou e a Ford Motor Co. dobrou os seus lucros em menos de dois anos. Ford acabou por definir a sua escolha “a melhor jogada de baixo de custo” que alguma vez fez. E outro lado do génio de Ford era que o alto salário permitia que os seus trabalhadores comprassem o Modelo-T que constituíam. Foi este ciclo de feedback positivo que deu origem a uma classe média ampla e próspera.

E aqui tem que surgir uma pergunta: mas é possível que os economistas sejam todos tão estúpidos que não conseguem entender? Claro que não. Não esqueçamos de que as elites de que falamos neste artigo pertencem sobretudo ao sector industrial e aos gigantes financeiros internacionais. Eles não se importam com o destino das pequenas e médias empresas e, ao contrário, gostam de pescar numa enorme massa de desempregados e subempregados em desespero dispostos a aceitar qualquer salário para trabalhar. Esses infelizes formam um novo “exército de reserva dos desempregados” (segundo a definição de Marx), que permite às elites produzir com custos reduzidos até mesmo em Países ricos e, portanto, poder competir nos mercados internacionais de exportação (embora fique claro que a preferência será sempre a exploração da mão de obra barata do Terceiro Mundo ou das economias “emergentes”). Esse é precisamente o elemento neomercantil do plano, é isso que significa o termo Neomercantilismo. Uma política de pleno emprego, pelo contrário, obriga as empresas a oferecer melhores salários para poder atrair mão de obra e, ao mesmo tempo, reforça o poder contratual dos trabalhadores: uma desgraça do ponto de vista do Verdadeiro Poder.

Mas para poder implementar este plano todo, era preciso ter políticos dobrados perante o poder. É nesta altura que nasce a moderna interconexão entre economia e política. É evidente que governação e economia sempre caminharam de mão dada; mas na nossa sociedade a novidade está no relacionamento entre as forças. Se na altura das monarquias o poder do soberano era quase ilimitado (“quase” pois na verdade sempre existiu um certo nível de condicionamento reciproco, variável a segunda do período histórico), hoje a situação inverteu-se: a economia domina o debate político, os mesmos partidos nem pensam em morder a mão de quem entrega os financiamentos para eles poderem existir. Mas controlar o poder legislativo não foi simples (no Ocidente, pois no Terceiro Mundo isso nunca foi um problema). E as diferenças entre os Estados Unidos e a Europa foram cruciais.

(continua)

 

Ipse dixit.

2 Replies to “O Testamento de Informação Incorrecta – Parte II”

  1. Nos reinados o poder fora divino..A democracia dos Estados trouxe supostamente o poder para o povo, o que era impossível admitir, sob pena da desconstrução das elites. Então não era para as tais funcionarem, e assim foi feito. E como eu demoro para entender o óbvio!!. Mas siga-se…por enquanto está muito bom.

  2. estive sem ler o blog durante um tempo por problemas pessoais. Hoje tive a triste notícia que vc vai encerrá-lo. A leitura deste post dá a dimensão da perda que vai ser.

Obrigado por participar na discussão!

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