Covid: quem ganha com a “pandemia”

Vamos ver a Covid numa óptica um pouco diferente. Nada de medicamentos, nada de vacinas: vamos ver o que tem significado a “pandemia” do  ponto de vista económico.

Pergunta: os confinamentos obrigatórios têm tido um efeito positivo ou negativo sobre os mercados? Aparentemente a resposta é simples: a Covid tem provocado imensas perdas em quase todos os sectores económicos. Repito: aparentemente. Porque aqui temos que considerar não as empresas A ou B mas: temos que ter uma visão mais ampla, que considere os interesses do sistema capitalista global. Então as coisas mudam por uma série de razões.

Pandemia: as vantagens imediatas…

1. Produção

Durante os lockdowns as pessoas continuaram a trabalhar e simplesmente deixaram de se divertir ou de relaxar nas férias ou fora de casa ao fim-de-semana ou à noite. Ao trabalhar e produzir, mesmo que depois não haja diversão ou relaxe, a economia continua a funcionar.

2. Poupança

Ao ficar em casa poupa-se. E poupa-se muito. Alguns sectores, como restauração, viagens, cinemas, cadeias de vestuário, etc. perderam empregos e rendimentos, mas a perda de receitas nestes sectores foi compensada, em agregado, por enormes défices. Na América, por exemplo, foi gerado um défice público de 6 biliões de Dólares, algo sem precedentes em tempo de paz. Em comparação, a crise hipotecária dos subprime de 2008 aumentou o défice em 1.8 triliões. O PIB dos EUA é de cerca de 21 triliões e um défice de 6 triliões é algo número absurdo, o que não se via desde 1944.

Perguntará o Leitor: “Mas o deficit não é negativo?”. Sim e não. Se o deficit for todo nosso sim, isso é negativo. Mas se houver alguém que paga por nós? Porque, de facto, estes enormes défices são financiados pelo Banco Central que imprime dinheiro como nunca pelo que temos uma redução da dívida do sector privado doméstico indirectamente financiada pela criação de dinheiro.

Exemplo: chega a terrível “pandemia” e num País o sector de produção e vendas fica com um deficit de 200 mil milhões de Euros; dado que o País não pode ficar sem dinheiro, intervém o Banco Central que começa a imprimir milhares de milhões de Dólares ou de Euros. De facto, este deficit é “financiado” pelo Banco Central com a impressão de nova moeda. Mas atenção: ao mesmo tempo, as famílias têm poupado (porque já nem podem sair de casa e gastar) e a poupança global dos privados aumenta. De quanto aumenta? Obviamente de 200 mil milhões, o mesmo montante que não pode ser gasto nas lojas, que constitui o deficit e que é “financiado” pelo Banco Central.

Tudo isso reequilibra a economia. Alguns perdem, mas outros ganham (ou gastam menos) e a prova é que o dinheiro nos bancos aumenta em 200 mil milhões, exactamente quanto o Estado criou através do Banco Central.

Falamos sempre de dados “em agregado”, ou seja, “gerais”: aqui não vamos ver o conjunto de enormes desigualdades que são criadas pelo enriquecimento de uns à custa de outros, porque a economia não está interessada nisto. Neste “agregado” há pessoas que perderam o trabalho ou empresas que faliram, mas este é um problema de justiça social, que é alegremente disfarçado com a afirmação de que “todos sofremos com a pandemia”. Não, não é verdade.

3. Tecnologia

As empresas, e em certa medida até a administração pública, aceleraram a adopção da tecnologia, obviamente para fazer tudo digitalmente a todos os níveis. Como dizem alguns administradores de empresas, “com o lockdown fizemos num ano o que de outra forma teria levado pelo menos três anos”. Este é um argumento óbvio: em todos os sectores tem havido a introdução de mais automatização, informatização e digitalização.

Além disso, foram reduzidos ou eliminados outros factores de despesa. Pensamos, tanto para fazer apenas um exemplo, ao envio de vendedores para encontrar clientes: isso tem sido substituído pelas conferências virtuais, com grandes poupanças em termos de despesas (reembolso carburante, comida e acomodação, etc).

4. Bolsas

Os Bancos Centrais expandiram abruptamente a sua liquidez, comprando títulos nos mercados, incluindo dívida de empresas (especialmente nos EUA, mas também compraram acções no Japão ou na Suíça). Como resultado, a riqueza financeira aumentou ainda mais, tendo subido tanto o valor das acções e como dos bens imobiliários. As bolsas valem agora 123 triliões de Dólares: nos EUA, a Bolsa vale 220% do PIB, o nível mais alto da história.

5. Concorrência

Para a economia capitalista global, ou seja, para o mundo dos “grandes”, o sofrimento daqueles que têm pequenas empresas, dos trabalhadores independentes, dos comerciantes, é um preço que é necessário pagar. No negócio dos “grandes”, em muitos sectores, as coisas estão a voltar ao normal em termos de volume de negócios e, entretanto, os custos foram reduzidos e mais fundos foram investidos em tecnologia.

Mais: a concorrência foi reduzida. Milhares de pequenas e até médias empresas simplesmente desapareceram por não terem conseguido ultrapassar as dificuldades da “pandemia”. Ao mesmo tempo, os “grandes” puderam livrar-se de muitos trabalhadores por falta de actividade, conseguindo assim reorganizar e optimizar os recursos humanos com operações de custo zero.

…e a “bazuka”

Considerando todos estes aspectos, do ponto de vista da elite global e da economia capitalista global, a “pandemia” foi útil e até mesmo necessária. Claro: algumas categorias pagaram mais do que outras, tanto do ponto de vista económico quanto daquele psicológico. No geral, o confinamento obrigatório deprime a qualidade de vida da maioria.

Mas de um ponto de vista económico e financeiro os dados mostram que, em conjunto, os danos causados a alguns sectores foram mais do que compensados pelo enorme volume de liquidez literalmente atirado para o mercado, os enormes défices compensados e a adopção de novas tecnologias. Isso sem esquecer os benefícios políticos: mais quatro anos de Trump eram vistos como a peste.

Mais vale repetir: alguns ganham, outros perdem. Mas o que ganham, ganham muito. E não é apenas uma questão de dinheiro. O Leitor português terá ouvido falar da “bazuka”, milhões de Euros que vão chegar de Bruxelas. Em detalhe: quase 14 mil milhões de Euros que Portugal não terá de devolver. Wow, esta sim que é uma prenda. Mas em Portugal há também um ditado: não há almoços grátis. Então, donde vem este dinheiro? Qual o verdadeiro custo dele?

Bruxelas deverá “espalhar” cerca de 80 mil milhões de Euros em todo o Velho Continente numa operação para financiar a recuperação económica após a crise da “pandemia”. Será que o Banco Central Europeu vai imprimir 80 mil milhões de Euros? Nem por isso. O que Bruxelas vai fazer na verdade é emitir obrigações de longo prazo: dívida, portanto, que terá de ser devolvida. E já aqui podemos ver que de “grátis” este dinheiro não tem rigorosamente nada: a dívida será paga, assim como os relativos juros também. E quem acham que irá pagar? Pai Natal? Não: serão os contribuintes europeus, disso não tenham dúvidas.

Eis o que conta Rádio Renascência:

O executivo comunitário mandatou bancos de investimento para recolherem junto dos investidores manifestações de interesse nestes títulos de dívida com os quais vai obter o financiamento necessário para os Planos de Recuperação e Resiliência e o reforço de outros programas europeus.

O BNP Paribas, DZ Bank, HSBC, IMI-Intesa Sanpaolo e o Morgan Stanley foram apontados pela CE como líderes da operação de financiamento, enquanto o Danske Bank e o Santander vão atuar como co-líderes na emissão de dívida conjunta da União Europeia.

[…] No início de junho, e uma vez concluído o processo de ratificação da decisão de recursos próprios pelos 27 Estados-membros, a Comissão anunciou que iria emitir cerca de 80 mil milhões de euros em obrigações de longo prazo, a primeira operação para angariar financiamento destinado a apoiar a recuperação económica europeia pós-crise pandémica.

Para financiar a recuperação, a Comissão Europeia vai, em nome da União Europeia, contrair empréstimos nos mercados de capitais até 750 mil milhões de euros a preços de 2018, ou até cerca de 800 mil milhões de euros a preços correntes, o que se traduz em empréstimos de cerca de 150 mil milhões de euros por ano, em média, entre meados de 2021 e 2026, fazendo da UE um dos principais mercados emissores.

Esta emissão terá uma maturidade a 10 anos, não sendo conhecido o montante a emitir. As verbas vão financiar o Mecanismo de Recuperação e Resiliência, avaliado em 672,5 mil milhões de euros (a preços de 2018) e elemento central do “Next Generation EU”, o fundo de 750 mil milhões de euros aprovado pelos líderes europeus em julho de 2020 para a recuperação económica da UE da crise provocada pela pandemia da Covid-19.

Dívida, é toda dívida. Nossa dívida. Oitocentos mil milhões de Euros de dívida, cerca de 150 mil milhões por ano entre 2021 e 2026. O que torna a União Europeia “um dos principais mercados emissores” de dívida do planeta.

Quanto irá custar esta dívida? 5% do PIB da União Europeia, ano após ano. Se acham pouco…

Que fique claro, financiar uma retoma através dum empréstimo não é delituoso, bem pelo contrário, é uma normal operação financeira que faz sentido. E que faz ainda mais sentido se os fundos forem utilizados para para a reestruturação de todo o comparto económico, com a informatização dos serviços, o melhoramento de infraestruturas, etc. Tudo correcto, tudo bonito, porque para fazer funcionar uma economia é preciso fazer circular o dinheiro e não subtrai-lo com taxas e impostos.

Mas é preciso ler as letras pequenas: a Comissão Europeia irá vigiar sobre a utilização dos fundos (como é justo que seja) e o juízo global estará sujeito à disciplina orçamental, ou seja, à velha e querida austeridade constituída por cortes na despesa pública, venda de património do Estado, etc.

Pelo que, aqueles 80 mil milhões de Euros têm um custo que vai muito além do dinheiro. Arrisca ser uma forma de controle ainda mais apertado sobre as finanças dos Estados Membros, um controle que avalia o tipo de despesa com também a capacidade de direciona-la para áreas tidas como prioritárias. Em qualquer caso: a “bazuka” amplia o alcance do controle exercido pelas instituições europeias.

Tudo isso com um vírus, um ser tão pequeno que ninguém consegue vê-lo. Tudo isso com uma “pandemia” à qual sobrevivem 99% dos infectados.

Genial.

 

Ipse dixit.

Imagem: Flickr Attribution 2.0 Generic (CC BY 2.0)

6 Replies to “Covid: quem ganha com a “pandemia””

  1. Desconhecia que a UE ia ‘financiar-se’ através de uma operação de emissão de divida, em resumo, estamos perante uma operação sofisticada de agiotagem com património do europeus na mira de fogo, além da tal questão de controle que vem associada.
    Este mecanismo de financiamento, encaixa-se perfeitamente no panorama geral que a pandemia começou a desenhar, sendo, como é natural, uma das suas vertentes.

    1. Krowler, é incrível: toda a operação está a ser apresentada como dinheiro que cai do céu. Governo e oposição falam de “bazuka” como de dinheiro pronto para ser distribuído, disponibilizado pela UE porque… porque sim, porque são pessoas bondosas que ficam preocupadas com as nossas economias.

      É verdade que este dinheiro não será devolvido com vozes específicas no Orçamento de Estado, não haverá algo como “devolução empréstimo bazuka”; é verdade que o orçamento da UE continuará a ser financiado através das bem conhecidas fontes de receitas: direitos aduaneiros, contribuições dos Estados-Membros baseadas no imposto sobre o IVA e contribuições baseadas no rendimento nacional bruto; mas os juros (e as obrigações após 10 anos) terão que ser pagos.

      Isso significa que uma boa parte do dinheiro arrecadado não estará mais disponível para projectos nos vários Estados-Membros mas porque o dinheiro será obrigatoriamente desviado para pagar as dívidas.

      Repito: não é um crime, no sentido que estamos a falar de financiar a economia através do mercado, ok. Mas é a forma como tudo é apresentado que é criminosa: estão a dizer às pessoas que este dinheiro é grátis quando, na verdade, será pago por todos ao longo da próxima década (esperando que seja só uma década, porque depois é sempre possível renovar com novas emissões…).

      Depois há a questão do património, como dizes…

  2. Creio que o ultimo ” discurso” dado por Ernst Wolff, resume a questão.
    Está lá tudo dito, haja quem escute.
    Segurem-se, a tempestade ensombra o horizonte e a coisa vai ser (muito) brava.

  3. Bom dia Max e todos:
    Era de se esperar que a invenção pandêmica criasse mecanismos de dependência por dívidas para os Estados, para cada vez mais enfraquecê-los.
    O cidadão comum, igualmente individado pensa: sei que devo, pago quando puder. Ledo engano. Quem empresta tem a mentalidade do agiota: destruirá o endividado, apertando o garrote da sua sobrevivência, sorvendo o seu sangue vertido em lucro exorbitante para ele, o agiota. Assim agem indivíduos e instituições, bancos e estados dominantes, onde os juros não são crime, são até considerados bondade.
    Assim como a “pandemia” acabou com os pequenos negócios, e os perdedores reais nunca verão o montante que recuperaria seus pequenos negócios, os Estados mais fracos serão engolidos pelos mais poderosos, em função da dívida. É o caminho para o Estado global.
    Assim falou Zaratustra, digo, minha bola de cristal.

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