As origens dos Sumérios

Um dos grandes mistérios da arqueologia é a origem dos Sumérios. Não é um assunto que faça perder o sono mas a coisa é irritante porque este povo, segundo a historiografia oficial, não apenas foi o berço de todas as civilizações modernas, como também introduziu uma série impressionante de novidades.

Ao que parece os Sumérios inventaram:

  1. a roda
  2. a roda de oleiro
  3. a escrita
  4. a primeira visão heliocêntrica (a Terra que orbita em volta do Sol e não o contrário)
  5. um sistema de cálculo baseado nos dígitos 6 e 10
  6. o dia dividido em 24 horas
  7. a hora dividida em 60 minutos
  8. o calendário de 12 meses
  9. as escolas
  10. os tribunais
  11. as prisões
  12. a carroça
  13. as formações militares
  14. a cerveja
  15. o tijolo
  16. os pregos
  17. o arado
  18. o secador de cabelo
  19. o bilhete do autocarro
  20. o airbag

Ok, ok, admito: as últimas três invenções foram acrescentadas por mim. Mas as outras não. É possível discutir acerca do facto dos Sumérios terem efetivamente inventado tudo isso, pois provavelmente muitas das novidades foram progressos obtidos durante o Neolítico por outras comunidades: mas foram os Sumérios que conseguiram aperfeiçoa-las e torna-las de uso generalizado. Sumérios que, nos tempos livres, tiveram também o tempo para domesticar espécies animais e seleccionar plantas para o consumo humano.

Praticamente: um povo de génios. Dos quais não sabemos donde raio saíram.

Hebreus = Sumérios?

Investigações linguísticas e filológicas de textos antigos (as sagas sumérias, a Torá, etc.) revelaram um parentesco entre os termos Shumer-Shinar (sumério) e Shem-Sem (semita). Problema: os Sumérios não chamavam a si próprios “Sumérios” pois este termo é na realidade o nome dado aos antigos habitantes da Mesopotâmia pelos seus sucessores, o povo semítico acadiano. Os Sumérios chamavam-se a si próprios ùĝ saĝ gíg ga, literalmente “o povo de cabeça preta” e a sua terra Ki-en-gir, “terra dos senhores civilizados” ou, segundo alguns autores, “terra da língua civilizada”. A palavra acádia “Suméria” utilizada para a terra dos Sumérios pode representar o mesmo conceito, mas não é certo.

Outra indicação de que os Sumérios poderiam ter sido um povo semítico reside na Bíblia, precisamente no Pentatéuco, no qual, para além da menção da região de Shinar (quase certamente a terra da Suméria) nunca fala-se dos Sumérios.

Eis o que o já conhecido Mauro Biglino escreve:

Na chamada Mesa das Nações (Gen 10) estão listados os povos que viveram nos territórios do Médio Oriente e mais além (egípcios, assírios, babilónios, cananeus, filisteus, huritus, hititas, etíopes, amoritas, egípcios, acádios, cipriotas, rodos, tarsis, ophir…), mas não há Sumérios. Como foi possível esquecer as pessoas das quais o Antigo Testamento extraiu a maior parte do seu conteúdo original? Será este um incompreensível e imperdoável esquecimento?

O sumériologo Kramer leva-nos de volta aos estudos do seu professor Poebel recolhidos num artigo no qual afirma basicamente que os hebreus são os descendentes dos Sumérios. A Bíblia não os menciona explicitamente porque, quando fala dos hebreus, está na realidade a falar de um ramo que descende directamente do povo que trouxe a civilização para o mundo. Os Sumérios eram, portanto, semitas? Vamos tentar responder com a ajuda da própria Bíblia. Sabemos (Gen 10, 21, etc.) que Shem (Sem), o filho de Noé, teve vários filhos dos quais descendem populações que a história conhece muito bem: Ashur, Elam, Aram… De um destes filhos descende Eber (Ever), o progenitor dos hebreus”.

Os académicos notaram que as formas Shumer-Sumer e Shum-Shem são foneticamente equivalentes: a estas observações deve acrescentar-se que os Sumérios se tinham estabelecido na Mesopotâmia, a terra natal do patriarca Avram (Abraão, que nasceu em Ur, uma das mais antigas cidades do planeta, fundada pelos Sumérios, ver Gen 15:7 e 24:10), filho de Ever e com cujo filho Isaac continuou a linhagem geneticamente pura. Os costumes matrimoniais seguidos por Abraão, Isaac e Jacob correspondiam aos costumes endogâmicos dos Sumérios. Segundo os estudos de Kramer, Poebel, Biglino e outros, portanto, os antepassados dos patriarcas hebreus deixaram o Éden e instalaram-se na terra de Shin’ar, a antiga Suméria… Isso explicaria a falta dos Sumérios na Mesa das Nações: os hebreus não citam os Sumérios porque os Sumérios são eles mesmos.

Tudo isso tem implicações que podem reflectir-se até hoje: haverá ainda nos nossos dias uma linha genética que, gabando-se de uma ascendência dos Dingir primordiais (os Superiores, os “deuses”), actua nos bastidores da história para desvia-la e condiciona-la?

Pode ser, mas há um problema em nada secundário: as línguas semíticas mostram uma considerável descontinuidade com a língua suméria, cujo idioma era aglutinativo.

A língua

Uma língua aglutinativa é um tipo de idioma cuja morfologia emprega principalmente a aglutinação e isto significa que as palavras são constituídas por várias “raízes” (os morfemas) que determinam o seu significado; tais raízes permanecem inalteradas após serem unidas. Além disso, cada morfema transmite um único significado.

Nisto, a aglutinação difere das das línguas flexivas onde, ao juntar as raízes, estas sofrem várias modificações até tornar-se irreconhecíveis (além disso, um único morfema pode acrescentar mais do que um significado).

Dito por outras palavras: trocar duma língua aglutinativa com uma flexiva significa mudar radicalmente a forma como é construído o idioma. E se este pode parecer um aspecto não tão importante, será bom lembrar que por aqui falamos o Português, cuja estrutura de base deriva directamente do Latim falado há 2.000 anos: durante este período não apenas Portugueses, Espanhóis, Franceses, Italianos nunca mudaram a base histórica das suas línguas modernas, como até espalharam os idiomas derivados pelo mundo fora; hoje os idiomas neolatinos diferem em muitos aspectos do Latim original, mas o tipo de construção de base permaneceu intacta. Isso porque os povos não mudam a maneira de construir a sua própria língua.

Eis o problema: o sumério era uma língua aglutinativa, o hebraico era (e ainda é) flexiva.

Como é possível explicar esta discrepância? Na verdade não se explica: mesmo passados séculos, no hebraico bíblico (e até naquele da actualidade) deveria haver pelo menos uma eco do antigo idioma. Mas não há e até foi (eventualmente ) trocada uma língua aglutinativa por uma flexiva.

Única possibilidade seria admitir que o povo hebreu misturou-se com outro grupo étnico (ou com mais do que um) capaz de impor um novo idioma de tipo semítico. E esta parece a hipótese eventualmente mais provável: os Sumérios foram absorvidos pela nascente potência de Babilónia (constituída por semíticos) e o idioma sumério desapareceu; portanto, se os hebraicos forem efectivamente os descendentes dos Sumérios, tiveram que misturar-se aos Acádicos novos senhores da Mesopotâmia.

Pode ser? Em teoria sim: Abraão (do qual tradicionalmente descende todo o povo hebraico) deixou Ur perto do ano de 2000 a.C., altura em que a cidade encontrava-se rodeada pelos Acádicos de Babilónia, pelo que o patriarca tinha contacto com o idioma dos invasores (Ur terá caído pouco depois da altura em que Abraão deixou a cidade). Uma vez chegado em Canaan, pode simplesmente ter decidido adoptar o idioma local.

O Norte do Irão

Todavia, quanto afirmado até agora não resolve a questão principal: donde chegaram os Sumérios?

Indícios podem sugerir que cerca de 4000 a.C., os Sumérios viviam nas montanhas ao norte da Mesopotâmia (as montanhas de Zagros), no planalto iraniano, perto da actual fronteira com a Turquia. Por volta de 3500 a.C., os Sumérios teriam descido das montanhas para ocupar a Mesopotâmia inferior, na confluência dos rios Tigre e Eufrates. Outros pesquisadores têm procurado semelhanças entre a língua suméria, os antigos dialectos turcos e as línguas indochinesas, mas apesar dos esforços a origem dos sumérios permanece incerta: aquela suméria é uma língua isolada, ou seja, não está relacionada com nenhum outro idioma conhecido.

Uma recente análise genética (2013) de quatro antigas amostras de DNA esquelético da Mesopotâmia sugere uma associação dos Sumérios com a Civilização do Vale do Indo, possivelmente como resultado das antigas relações Indo-Mesopotâmia: de acordo com estes dados, os Sumérios inham a mais remota origem no Cáucaso, terra natal de todos os indo-europeus (hipótese Kurgan).

A ideia duma conexão entre Sumérios e indo-europeus do ramo indiano é reforçada pelas tradições sumérias, segundo as quais o povo tinha chegado do mar: faz sentido pensando numa entrada no Golfo Pérsico após ter deixado as costas perto do rio Indo e seguido o litoral meridional do Irão. O arqueólogo Juris Zarins acredita que os Sumérios viveram ao longo da costa da Arábia Oriental, actual região do Golfo Pérsico, antes desta ter sido inundada no final da Idade do Gelo: o que explicaria também por qual razão os Sumérios viam na actual região do Qatar uma espécie de “paraíso perdido”.

Voltando atrás, como vimos as investigações genéticas aproximam os Sumérios aos indo-europeus originários duma área bem específica: mais uma vez, encontramos aquela zona apontada como provável sede do Éden (baseado no que diz a Bíblia), o Norte do Irão, não longe da fronteira com a Turquia. Foi a partir do Norte desta zona (pouco além da cadeia do Cáucaso) que os indo-europeus partiram para ocupar a Europa; foi no Sul desta região que também é possível encontrar o mais antigo exemplo de templo em pedra, em Göbekli Tepe (11.600 a.C., no mínimo). E agora sabemos que foi aí que teve origem o povo que deu origem à moderna ideia de civilização; isso enquanto, no Vale do rio Indo, outro ramo indo-europeu dava origem a outra “moderna” sociedade (a Civilização do Vale do Indo) que, segundos o mais recentes estudos, até poderia ser anterior àquela da Mesopotâmia.

Mesmo sem assumir como correctas as teorias de Mauro Biglino (Éden como laboratório de engenharia genética com sucessivo aperfeiçoamento do Homo sapiens), não podemos negar que aquela área parece ter sido o palco de algo “importante” na historia da evolução humana, um ou mais eventos que imprimiram uma nova direcção ao rumo da nossa espécie.

Mas ainda estamos longe de desvendar o cerne da questão.

 

Ipse dixit.

4 Replies to “As origens dos Sumérios”

  1. E não esquecer do Código de Hamurábi, ainda mais do detalhe da escrita ser feita num bloco de diorito, rocha extremamente dura para ser escrita com uma caneta, perdão, prego.

  2. Olá Max!

    O pouco que sabemos da história dos sumérios é no mínimo incrível. Foi por aí que adentrei rumo a informação alternativa, lendo sobre Annunakis e etc. Claro, são mais de 10 anos que estou na informação alternativa, hoje é evidente que Annunakis e derivados são apenas fantasia, mas esta ficção foi desenhada em cima do incrível mistério dos sumérios, quem foram e como foram tão bons. Isto só reforça que tem muita coisa que ainda não sabemos, e que periga jamais sabermos.

  3. Anunnakis são fantasia? Dá um tempo, vocês! Por favor, saíam dessa consciência ctrl+c, ctrl+v. Porquê está ficando risível essas coisas que vocês falam, e imaginam. Já basta o Zahi Hawass e seus embustes acerca da construção das pirâmides.

    E peço, encarecidamente, que se aprofundem mais nos sumérios. Porque foi dito 0,0001% da real história (é um bom começo!), mas ainda muito raso, e ingênuo da parte de vocês. Falta coragem em admitir, certas “fantasias” que não são tão mitológicas, quanto vocês pensam e concebem.

    Parabéns pelo seu trabalho, ele continua muito importante no âmbito das pesquisas alternativas; há alguns deslizes, eu admito. Mas ainda somos ingênuos na nossa compreensão do real e palpável, é preciso coragem para entender nossa pequenez nesse Universo, e nos mistérios que nos cercam.

    Muito obrigado.

  4. Olá Max e todos: Infelizmente somos “criaturas que esquecem”. Nossa prepotência e cobiça por apoderarmo-nos daquilo que consideramos riqueza, nos faz pretendermo-nos “civilizados” diante dos antigos. E nos faz considerar o conhecimento arqueológico como apenas mais um.
    Se dominássemos o conhecimento antigo talvez não fôssemos tão atrasados.
    Cada vez que fui à Bolívia, Peru, Colômbia, mais fui me convencendo da nossa estreiteza intelectual. Vi de perto tantas e tantas construções incas com pedras encaixadas por onde não passa um fio de linha, pedras pesando toneladas que não se sabe como foram transportadas ( os incas e pré incas não conheciam a roda), canais de pedra por onde até hoje corre água límpida, cuja origem em alguns casos também desconhecida a origem, e que naõ se explica por vasos comunicantes, desafiando a gravidade,
    Vi tanta coisa incrível que os engenheiros do “progresso” atual confessam não saber reproduzir, mesmo com nossos avanços em arquitetura e engenharia, que pouco a pouco fui me convencendo do afirmado acima.
    Pouco sabemos dos maias, menos ainda dos nativos nômades ou semi nômades exterminados nas terras da América do Norte, ou do Sul.
    Que sabemos do conhecimento da gente da floresta, corpos nus, saudáveis, lindos, fortes, sem infecções, sem inchaços, sem dores. sem pulgas, sem dor de dente? Charruas, Minuanos, Guaranis, Boitacas e tantas tribos mais, exterminados como os Charruas ou ainda poucos por aí contaminados com as sujeiras dos brancos ?
    E foram tantos, e se foram tantos, que até um único remanescente, o último quem sabe, ensinou um alemão aqui chegado a fazer uma infusão que liquida com os efeitos de picaduras de cobras, escorpiões e aranhas venenosos
    Este alemão industrializou o produto que utilizamos para gente e animais com pleno êxito, mas não conseguiu até hoje ser aprovado pelos órgãos reguladores da indústria farmacêutica.
    Foram tantos que até aqui, aqui no meu terreno, encontramos flechas de pedra, palanques, e coisas que nunca soubemos para que serviam.
    E eles sumiram, os mataram para apoderar-se das terras, sem jamais respeitá-los ou perguntar-lhes a que vieram. Consequências do “avanço da civilização”, que é o orgulho de muita gente.

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