Nós Cidadãos em Arroios: para fazer e semear

Surpresa! Max é candidato nas próximas eleições autárquicas portuguesas. O partido? Nós Cidadãos. Explico.

Sendo cidadão italiano posso candidatar-me a um cargo autárquico, isso é, ligado ao poder local. Ficam de fora as eleições políticas nacionais, para as quais é precisa a cidadania portuguesa e nas quais não estou minimamente interessado. Lembram-se dos meus antigos convites para “fazer algo” a nível local? É isso mesmo.

A escolha do partido não é casual. Nós Cidadãos reúne indivíduos sem ligações partidárias, os assim chamados “independentes”, e livres de formatação ideológica política. Existe um programa de nível nacional (com o qual, seja dito, não me identifico), mas no âmbito local este programa é alegremente ignorado (para não dizer “desconhecido”) sendo que o foco está nos problemas das comunidades.

E foi assim que um amigo de longa data, Rui, pediu-me para integrar a lista para a freguesia lisboeta de Arroios. Dado que aquela foi o primeiro bairro lisboeta na qual residi ao longo de vários anos (e na qual trabalhei também) uma vez chegado em Portugal, aceitei. Não sem antes espreitar na internet para ver quem raio fosse este “Nós Cidadãos”: uma vez apurado que era inócuo (nem tem expressão parlamentar), disse que sim.

Estou a contar isso não para fazer campanha eleitoral mas para demonstrar como seja possível fazer algo construtivo a partir da nossa casa, da nossa freguesia, para tentar melhorar algo. Não se trata de “mudar o mundo” mas de defender o que é nosso e, se possível, torna-lo um pouco melhor. Mais ainda: para demonstrar que ainda há pessoas “à maneira”, com se calhar poucas mas boas intenções. Como, por exemplo, tratar dos espaços verdes, dos animais, dos serviços para a terceira idade, dos transportes locais, das actividades para os mais jovens, etc.

Fui ao jantar de apresentação ontem e a experiência foi extremamente positiva. Além dos amigos de longa data, também pessoas nunca vistas antes. Todas com um único objectivo: acabar com uma administração ruinosa da propriedade pública, com as despesas absurdas que se traduzem em corrupção mesmo ao nível duma simples freguesia. Nada de discursos ideológicos, nada de ícones políticas, nada de Afeganistão ou de Covid: num movimento podem coexistir várias almas neste sentido, unidas em prol dum objectivo diferente mas comum.

Havia pessoas pró-vacina ontem? Sim. Havia pessoas anti-vacina? Também. Mas qual o problema? Nenhum. Com certeza havia pessoas “de Esquerda” e “de Direita”, mas nem conseguiria identifica-las porque o foco das nossas atenções era exclusivamente aquela res pública, a “coisas de todos”, na qual se passam as nossas vidas do dia a dia.

Então volto a repetir: ninguém pode mudar o mundo, não dá, é algo que não está ao nosso alcance. Mas podemos fazer algo a partir do nosso cantinho, por exemplo tentando mudar o pensamento de outros cidadãos, começando pelas coisas “pequenas” como a administração dum bairro. É também assim que podem nascer umas formas de resistências. Aliás, esta é a única forma que consigo encontrar porque, como a História ensina, as “grandes” revoluções são demasiadas vezes frutos de projectos obscuros. Tentar aproximar os cidadãos à actividade política (aquela prática), tentar envolve-los para demonstrar que há maneiras de fazer as coisas duma forma simples e ao mesmo tempo transparente significa semear migalhas de esperança e vontade de resistir.

Possibilidade de ser eleito? Praticamente zero. Tanto para ter uma ideia: nas eleições autárquicas de 2017 Nós Cidadãos conseguiu de 12.499 votos em todo Portugal, 0.24% do total. Nas eleições europeias, realizadas em 2019, o partido subiu para uns fantasmagóricos 34.672 votos, ou seja 1.05% do total, sem conseguir eleger um único deputado. Nas eleições legislativas do mesmo ano, nada menos que 12 mil votos e, obviamente, nem um deputado no Parlamento. Uma historia repleta de triunfos.

Pelo que, já seria óptimo conseguir eleger o cabeça de lista como membro da freguesia. Mas mesmo que não se consiga, importa? A mim não. Pessoalmente reputo-me amplamente satisfeito com aquilo que vi até agora: pessoas empenhadas para algo que não dá e nem dará dinheiro e nem “tachos”, simplesmente a trabalhar para tapar um buraco na rua, substituir a sinalização rodoviária, abolir a ciclovia da avenida principal (pois é, a cidade tem que ser “verde”, mesmo que depois sejam criadas intermináveis filas de carros enquanto os ciclistas respiram os gases dos escapes), recuperar o Centro de Saúde, instalar um centro veterinário de urgência, etc.

Como é óbvio, este artigo não é um convite para que o Leitor português vote no Nós Cidadãos porque eu conheço a realidade limitada ao grupo de Arroios, em Lisboa: desconheço os grupos de outras freguesias ou de outras cidades, pelo que qualquer tipo de convite não faria sentido. O que o Leitor pode fazer é espreitar na sua freguesia para ver se Nós Cidadãos estiver presente, quais as pessoas envolvidas e quais as ideias apresentadas. Só isso.

 

Ipse dixit.

3 Replies to “Nós Cidadãos em Arroios: para fazer e semear”

  1. Olá Max: como sempre te desejo: saúde, sorte e sabedoria.
    Saúde, para que possas fazer entender o que são testes, pandemia, vacinas e mais vacinas em Arroio.
    Sorte para que os desejos do grupo não se tornem uma espécie de filantropia privada a custa dos Arroienses ? É assim que se diz?
    Sabedoria para continuares sabendo que a representação “democrática” não leva a lugar nenhum
    E principalmente te desejo um espaço de convivência onde te sintas bem.

  2. Max, conheço bem a zona de Arroios, vivi na Alameda muitos anos.
    Boa sorte, e se essa ciclovia da Almirante Reis mudasse de sítio era muito bom.

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