Afrotopia, além do colonialismo

Estava a ler a crítica ao livro Afrotopia de Felwine Sarr, antigo professor da Gaston Berger University no Senegal. Não li o livro nem tenciono lê-lo pois encara o assunto (a condição da maioria dos Países africanos) numa óptica que não me entusiasma. Todavia há um par de reflexões interessantes e que acho poderiam ser aplicadas a realidades de outros continente, como a América do Sul por exemplo.

Quando um País africano tenta levantar a cabeça para imaginar um destino independente, o que encontra? Encontra uma ordem que continua a ser escrita pelo mundo ocidental, cujas palavras de ordem são “desenvolvimento”, “emergência económica”, “crescimento”, “luta contra a pobreza”. Estes são conceitos antigos, implementados (com outros termos) pelo mundo fora há alguns séculos e caracterizados pela cega fé na idolatria tecnológica (na altura defendida com um cassetete ou os canhões, se necessário), aquela que fornecia uma incontestável vantagem do Ocidente.

Diz Sarr que foi sobretudo através da exportação da sua própria ordem que o Ocidente ganhou uma batalha decisiva: não foi com a presença territorial, não foi com a implementação de governos fantoches. Foi com a exportação duma verdadeira Nova Ordem ideológica.

Boa observação. Ao analisar a condição do Terceiro Mundo ou da América Latina, encontramos apenas pálidas cópias do Ocidente: o “desenvolvimento”, por exemplo, é ainda a pedra angular de todas as políticas económicas. Mas há um aspecto até pior, na minha óptica: as massas pensam todas nos moldes ocidentais, sem significativos rasgos de originalidade. Vimos recentemente o caso da Guiné, onde nos anos anteriores um governo corrupto liderado pelo partido social-democrata de Alpha Condé tinha derrotado o anterior executivo liberal. Estes dois termos, “social democrata” e “liberal”, não são originários da cultura africana, fazem parte da bagagem post colonial implementada pelo Ocidente. O mesmo poderia ser dito no caso da América do Sul, onde partidos de Esquerda lutam contra movimentos de Direita.

Estes esquemas Esquerda/Direita são construções tipicamente ocidentais, filhos da Revolução Francesa e, portanto, iluministas. Não teriam razão de ser em realidades como aquelas africana ou sul-americana. Mas não é isso que acontece, bem pelo contrário: mesmo nestas páginas, entre antigos comentários, é possível encontrar fervorosos defensores da primeira ou da segunda facção. Claro sinal de que, para utilizar as palavras de Sarr, a batalha decisiva está ganha e não desde hoje: as pessoas já pensam segundo esquemas importados que não reflectem a milenária história das suas terras mas sim um modelo implementados a posteriori.

O máximo esforço independentista da África e da América do Sul tem sido caracterizado pela adesão aos princípios revolucionários marxistas-leninistas através de figuras quais Che Guevara, Fidel Castro e, mais recentemente, Hugo Chavez. Ou seja: para libertar-se da opressão imperialista, a escolha foi aquela de entrar no jogo imperialista, com as consequências que podemos facilmente observar.

É claro que dum lado a adesão das massas ao “jogo imperialista” tem sido na maior parte dos casos inocente, ditada pela rela vontade de libertação; e também óbvio que as forças da Esquerda apresentaram-se convenientemente como portadoras de valores herdados do local também. Mas hoje sabemos como funciona este jogo porque podemos observa-lo aqui, no Ocidente, em directo: o partido Chega, em Portugal, é uma criação que de inocente nada tem e cujo fim é recolher aquela insatisfação que levou quase metade dos eleitores a ficarem afastados das urnas nas últimas eleições autárquicas; o mesmo papel desenvolvido recentemente em Italia pelo Movimento Cinque Stelle. Trata-se de “capturar” o descontentamento dos cidadãos para canalizá-lo novamente no interior do recinto parlamentar, num ambiente controlado, antes que possa gerar reacções inesperadas.

Esta foi a função dos movimentos marxistas-leninistas tanto na América Latina quanto na África e, como afirmado, os resultados são facilmente visíveis: os dois Continentes estão devidamente formatados segundo um esquema bipolar que nem de perto e nem de longe reflecte as raízes culturais daquelas terras. Conceitos quais “desenvolvimento”, “progresso”, “crescimento”, “igualdade”  hoje fazem tranquilamente parte do vocabulário de qualquer cidadão bem comportado, tanto africano quanto sul-americano. O mesmo cidadão que se queixa da opressão imperialista. Aquele cidadão que vota “esquerda” para combater os americanos.

Consolem-se: aqui no Ocidente a situação é a mesma. É o triunfo do Pensamento Único, que não prevê que todos os cidadãos votem no mesmo partido ou que exprimam as mesmas opiniões, pelo contrário: o Pensamento Único ganha ao fazer que todos possam actuar no interior dum único recinto bem delimitado, com contrastes de alcance predeterminado e com desenvolvimentos previsíveis.

Como sair desta situação? Voltando ao livro de Sarr, a antropologia, diz ele, demonstrou que as sociedades baseiam-se num discurso fundador, um mito que molda uma certa concepção do mundo e a sua organização, que estabelece uma hierarquia de valores particulares, frequentemente conceptualizada por um código social e linguístico interiorizado pelos seus membros.

As sociedades modernas, mais especificamente as sociedades industriais ocidentais, não escapam a esta estrutura. Têm de legitimar a sua evolução e a sua apropriação do futuro através de uma mitologia que reflecte as suas cosmologias e ideologias sociais. Nesta perspectiva, o discurso económico funciona como um mito que garante a manutenção da ordem social industrial: alimenta as representações da sociedade, do mundo todo; legitima as instituições, assegura o crescimento e formas de viver e pensar que permitem o planeamento e a transmissão dos seus valores.

Segundo Sarr, o futuro passa pelo abandono da ideia de uma origem pura, única, paradisíaca: não há uma África para a qual regressar, não há uma África que tem de ser restaurada. Não existe uma história pacífica da África, nunca houve um Éden pré-colonial. Portanto, a solução não virá da nostalgia mas da procura de novos caminhos. Uns trilhos também ligados ao passado, sem dúvida, com as suas tradições e valores: mas nunca uma restauração porque o tempo passou e o que foi já não é e não voltará. O futuro, diz Sarr, será o que é ou tem sido encontrado ao longo do caminho. (na verdade, Sarr diz algo um pouco mais obscuro: “O que é realizado não é o passado, mas o futuro anterior do que terei sido para o que estou prestes a ser”, mas isso é demais para o meu cerebrinho, melhor simplificar…).

Sair do espelho significa olhar para além da África, mas hoje o além da África é a modernidade do Ocidente. Daquele Ocidente que olha para África como o seu objecto de desejo. Portanto, se o futuro parece já ter sido escrito, não há que uma solução: matar o pai. E o pai da África de hoje é, obviamente, o Ocidente.

A dificuldade em eliminar o pai, diz Sarr, reside no facto de que isso só pode ser feito evocando-o. Isso é: é preciso construir um símbolo do pai. Dito com outras palavras: não é possível sair duma condição sem antes entender qual a condição.

Pode parecer uma coisa óbvia, mas não é: quem vota na oposição à espera que isso possa mudar algo não tem uma clara visão da sua condição, não entende que a oposição é outra face de quem está no poder. Da mesma forma, qualquer “revolução” que tenha como princípios os vários “desenvolvimento”, “progresso”, “crescimento”, “igualdade”, etc. irá percorrer uma estrada já batida que, inexoravelmente, acabará nos braços do sistema ocidental porque aqueles são os instrumentos de dominação.

Mais uma vez, trata-se de sair dos moldes pré-determinados para procurar uma alternativa digna deste nome. E não é nada simples. Mas vou retomar um meu velho convencimento: se houver alguém capaz de individuar este tal novo caminho, este alguém será dum Continente “desfavorecido”, seja o africano ou o sul-americano. É aí que ainda pode surgir algo novo pois aqui, no Velho Continente, o sistema está firmemente entranhado nas mentes de todos e o eletroencefalograma deixou de reagir há muito.

 

Ipse dixit.

One Reply to “Afrotopia, além do colonialismo”

  1. Maravilha de reflexão Max!
    Aí está o problema maior, a chamada aculturação.
    É como se de nós nada saísse digno de propiciar inteligência, sabedoria, especialmente em organização político, social, econômica.
    Então é como se o tribalismo e o comunitarismo, organizações típicas da ancestralidade do nosso mundo não existissem, e se foram vividas, coisas antigas, perdidas na poeira dos tempos, atrasadas, sem importância.
    Não é a toa que um líder tribal, um organizador de uma sociedade socialista tribal africana dos tempos de agora, Gadafi, foi morto da forma mais estúpida possível, ao vivo e a cores, para todo mundo apreciar. E também não é atoa que um ícone da organização político social econômica mais bárbara do mundo atual, fez ouvir a sua podre palavra: eu fui, eu vi, ele morreu. Sua gargalhada ainda hoje ressoa no meu ouvido a marca da estupidez, da ignorância, do verdadeiro atraso mental.
    Mas, vê bem Max, como se constrói a aculturação:
    No Brazil, as crianças aprendem que a história do nosso país começou com o “descobrimento”. É como se antes disso nada existisse. Os indígenas surgem do nada, depois do “descobrimento”
    No Brazil, os universitários de excelência estudam Marx. E nem sabem que em matéria de socialismo latino americano existiu Mariátegui, e muitos mais. E em filosofia, voltam a estudar Marx. E nem imaginam que por aqui existiram Álvaro Vieira Pinto, Ferreira, e outros tantos. E em política Marx, outra vez . José Bonifácio Bolivar, nem pensar. Em economia então, nem vale a pena repetir. E estes são os mais avançados.
    Na hispano américa já é um pouco diferente.
    As crianças peruanas começam a estudar história com as sociedades pré incaicas e inca. No México, as organizações sociais dos astecas, toltecas e maias fazem parte do universo de estudos dos pequenos mexicanos.
    Na verdade, muita gente boliviana, peruana e mexicana são indígenas , com traços físicos e culturais dos seus ancestrais Na Bolívia, trata-se se uma maioria, e os costumes, tradições e organização social permanecem. entre eles
    Em todo continente latino americano existe uma memória, às vezes difusa, outras vezes, muito clara da “conquista” de impérios ocidentais sobre os “de baixo”.
    No Brazil, existe estudo, pesquisa e conhecimento das rebeldias africanas por aqui.
    Temos o que os outros não têm. Concordo contigo que por aqui existe condições de possibilidade de surgir algo diferente.
    Daí a preocupação constante de nos manter a ferro e fogo.

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