O golpe na Guiné

Desde cerca das 8:00 da manhã (hora local) deste Domingo tem havido intensos tiros nas proximidades do palácio presidencial na capital da Guiné, Conakry, algo que, segundo a revista Jeune Afrique, faz parte de uma tentativa de golpe orquestrada pelas forças especiais do País.

Fontes da comunicação social indicam que o Presidente Alpha Condé foi detido pelos rebeldes. Numa das gravações que circulam nos meios de comunicação social, Condé aparece num sofá no seu palácio presidencial rodeado por elementos dos  rebeldes. Contudo, o Ministério da Defesa disse que o ataque às instalações presidenciais tinha sido repelido.

O grupo de forças especiais em questão é uma unidade militar de elite liderada pela Tenente-Coronel Mamady Doumbouya, que está bem treinada e equipada. Doumbouya era conhecido pelo seu desejo de que as forças especiais fossem autónomas em relação ao Ministério da Defesa.

Ao meio-dia (hora local), foi divulgada uma declaração de Doumbouya, na qual o antigo legionário do exército francês anunciou a abolição da Constituição, a dissolução do governo e das instituições, e o encerramento das fronteiras nacionais. O Tenente-Coronel disse que o poder estava agora nas mãos do “Comité Nacional para a Reunificação e Desenvolvimento” e que o Exército Republicano tinha sido forçado a “assumir responsabilidades para com o povo guineense”.

Doumbouya explicou também que o que aconteceu neste dia foi devido “à situação sócio-política e económica do País, ao mau funcionamento das instituições republicanas, à instrumentalização da justiça, aos direitos espezinhados dos cidadãos e à má gestão financeira”.

Nas ruas da capital guineense há uma grande presença militar perto do palácio presidencial. Testemunhas dos acontecimentos informam que os militares já bloquearam o acesso à área, fechando a única ponte que conduz ao distrito de Kaloum.

Condé (e Blair, e Soros…)

Condé, 83 anos, chegou ao poder em 2010 e foi reeleito em 2020 para um terceiro mandato após uma controversa revisão constitucional. Ex-professor de Ciência Política na Universidade de Paris, Condé passou décadas na oposição aos vários regimes da Guiné, concorrendo sem sucesso contra o Presidente Lansana Conté nas eleições de 1993 e 1998. Líder do partido Rassemblement du peuple de Guinée (RPG), pertence ao grupo étnico mandinga.

Nas eleições presidenciais de 2010, Condé obteve apenas 18% dos votos no primeiro turno da votação, enquanto Cellou Dalein Diallo conseguiu 43% dos votos. Depois de dois adiamentos, em razão de tensões étnicas entre os apoiantes dos dois candidatos, realizou-se o segundo turno e dessa vez Condé saiu vencedor, com 52.5% dos sufrágios contra 47.5 de Diallo, registrou 47,5% dos votos. Condé foi depois reeleito no primeiro turno das eleições presidenciais de 2015, com 58% dos votos.

No entanto, não faltam pesadas suspeitas acerca de Condé. Em 2016, a organização noticiosa francesa France 24 divulgou gravações áudio que parecem provar que a empresa mineira anglo-australiana Rio Tinto (uma corporation bem interessante esta) pagou a um funcionário do governo guineense e ao banqueiro e conselheiro presidencial François de Combret uma soma de 10.5 milhões de Dólares para os direitos mineiros na mina de Simandou (outros dois conselheiros do Presidente são Tony Blair e George Soros…). O Presidente Condé diz que Combret agiu sozinho e as gravações áudio não implicam directamente o Presidente,: no entanto, a Rio Tinto admitiu o pagamento em Novembro de 2016.

Já em 2011, a Palladino Capital 2, uma empresa de investimento dirigida pelo bilionário sul-africano Walter Hennig, emprestou à Guiné 25 milhões de Dólares alegadamente para financiar uma mina estatal. Mas rapidamente se tornou evidente que o dinheiro não foi utilizado como pretendido e os termos eram prejudiciais para a Guiné. Além disso, segundo o ex-ministro guineense das Minas Mahmoud Thiam, o acordo incluía um compromisso para apoiar a campanha política da Condé. Em 2012, após extensas críticas públicas, o empréstimo foi devolvido e o acordo foi cancelado.

Mas de acordo com vários documentos que foram divulgados pela ONG Internacional Global Witness, a empresa mineira Sable Mining esteve envolvida na ajuda a Condé para ganhar as eleições de 2010 em troca dos direitos mineiros no país. A Global Witness informou que a campanha eleitoral de Sable Supported Condé organizou reuniões logísticas e estratégicas, ofereceu-se para lhe emprestar um helicóptero e pagou suborno ao filho dele, Alpha Mohammed Condé, a fim de garantir licenças de mineração em várias áreas, incluindo o Monte Nimba. Num e-mail enviado de Alpha Mohammed Condé para Sable em Agosto de 2010, ele escreveu que apoiar a campanha do pai “tornará o meu pai ainda mais confortável para apoiar as nossas parcerias comerciais”.

Pobreza

Embora muitos inicialmente vissem a presidência de Condé como um novo começo para o País após décadas de corrupção e autoritarismo, o Presidente foi mais tarde criticado por não melhorar a vida dos guineenses, a maioria dos quais vive na pobreza num País rico em recursos naturais preciosos. A Guiné é o 3º maior produtor mundial de bauxita, tem uma produção de ouro entre 14 a 17 toneladas anuais, é o 9º maior produtor de diamante do mundo, tem depósitos de bilhões de toneladas métricas de minério de ferro e quantidades ainda indeterminadas de urânio.

Apesar disso, a Guiné ocupa a posição nº 160 na listas de Países por produto interno bruto per capita, a taxa de alfabetização é uma das mais baixas do planeta (em 2010 estimava-se que apenas 41% dos adultos eram alfabetizados) e o índice de evasão escolar é alto.

 

Ipse dixit.

One Reply to “O golpe na Guiné”

  1. Olá Max e demais: mais um país onde a democracia representativa ajuda a corrupção, a enganação das pessoas, o empobrecimento de países ricos em materiais procurados.
    Talvez seja um dos fatores pelos quais a “inteligência” insiste que a suposta democracia é o melhor dos mundos.
    E como os próprios rebeldes em todo canto não têm memória histórica e não valorizam experiências, culturas e organizações sociais diversas, lutam por substituir os protagonistas, mantendo a mesma estrutura “democrática”. Quem põe abaixo constituições e representações o fazem para daqui a pouco substituí-los nas mesmas estruturas por seus apaniguados.
    E os países não saem do mesmo refrão.

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