A solução de William Henry

Boas notícias para quem gosta de Literatura: chegou o novo livro de William Henry Gates III (Bill para os amigos), How to Avoid a Climate Disaster (“Como evitar um desastre climatérico” para os amigos). E o título diz tudo: não é apenas Literatura mas também um guia para evitar que o dióxido de carbono aniquile a vida toda. Arte e utilidade, uma combinação perfeita que só um génio poderia ter imaginado.

William Henry teve a simpatia de apresentar o seu último esforço no blog a partir do qual espalha a sabedoria entre os comuns mortais, GatesNote, no qual anuncia My new climate book is finally here (“O meu novo livro acerca do clima finalmente chegou”). Fazia falta, é verdade. E a longa espera compensou, pois a obra está cheia de revelações espantosas que, quando tomadas em conjunto, formam uma tocha que ilumina um caminho capaz de dissipar o nevoeiro da incerteza no qual estamos mergulhados. É o nosso caminho, é o percurso que leva até a Salvação.

Mas deixamos que seja o mesmo William Henry a contar:

Quando trabalhava na Microsoft, era sempre uma emoção ver um produto em que trabalhávamos há anos ser finalmente divulgado ao público [imaginemos a emoção no dia em que o novo sistema operativo entrou em crash durante a apresentação oficial: mas William Henry é demasiado humilde para lembrar estes momentos de glória, ndt]. Hoje sinto o mesmo sentimento de antecipação. O meu novo livro sobre alterações climáticas está agora disponível online e em livrarias.

Escrevi How to Avoid a Climate Disaster porque penso que nos encontramos num momento crucial. Nos mais de 15 anos em que tenho vindo a aprender sobre energia e alterações climáticas, tenho visto progressos emocionantes. O custo da energia renovável proveniente do sol e do vento diminuiu drasticamente. Há mais apoio público a dar grandes passos para evitar um desastre climático do que nunca. E governos e empresas em todo o mundo estão a estabelecer objectivos ambiciosos para reduzir as emissões.

O que precisamos agora é de um plano que transforme toda esta dinâmica em passos práticos para atingir os nossos grandes objectivos. É isso que é evitar um desastre climático: um plano para eliminar as emissões de gases com efeito de estufa.

Gases de efeito estufa. Não poluição das águas, do terreno, do ar; não pesticidas que destroem inteiros ecossistemas, que envenenam a comida; não monoculturas que monopolizam a produção de inteiras nações: o nosso problema são os gases. Aprendemos com William Henry.

Reduzi ao mínimo o jargão porque queria que o livro fosse acessível a todos os que se preocupam com esta questão. Não presumi que os leitores soubessem alguma coisa sobre energia ou alterações climáticas, embora se souberem, espero que aprofundem a compreensão deste tema incrivelmente complexo. Incluí também formas com as quais todos podem contribuir, seja como líder político, empresário, inventor, eleitor ou um indivíduo que só quer saber como poder ajudar.

Segue-se um excerto da introdução, que dá uma ideia do que é o livro e de como o vim a escrever. Espero que leiam o livro, mas muito mais importante, espero que façam o que puderem para nos ajudar a manter o planeta habitável para as gerações vindouras.

Zzzzzzzz…. eh? Ah, o excerto, muito bem. Vamos a isso.

Excerto de How to Avoid a Climate Disaster

Há duas décadas atrás, nunca teria previsto que um dia estaria a falar em público sobre as alterações climáticas, muito menos a escrever um livro sobre o assunto. A minha formação é em software, não em ciência climática, e hoje em dia o meu trabalho a tempo inteiro é trabalhar com a minha mulher, Melinda, na Fundação Gates, onde estamos super focados na saúde global, desenvolvimento, e educação dos EUA.

Vim concentrar-me nas alterações climáticas de uma forma indirecta, através do problema da pobreza energética.

No início dos anos 2000, quando a nossa Fundação estava apenas a começar, iniciei a viajar para países de baixos rendimentos na África Subsariana e no Sul da Ásia para poder aprender mais sobre mortalidade infantil, HIV e outros grandes problemas em que estávamos a trabalhar. Mas a minha mente nem sempre estava voltada para as doenças [sério? Quem diria…]. Eu voava para as grandes cidades, olhava pela janela, e pensava: “Porque é que está tão escuro lá fora? Onde estão todas as luzes que eu veria se isto fosse New York, Paris, ou Pequim?”.

Soube que cerca de um bilião de pessoas não tinham acesso fiável à electricidade e que metade delas viviam na África subsariana (o quadro melhorou um pouco desde então; hoje, cerca de 860 milhões de pessoas não têm electricidade). Comecei a pensar em como o mundo poderia tornar a energia acessível aos pobres. Não fazia sentido para a nossa Fundação assumir este enorme problema, precisávamos que se mantivesse concentrada na sua missão principal, mas eu comecei a tratar de algumas ideias com alguns inventores meus amigos.

Em finais de 2006 encontrei-me com dois antigos colegas da Microsoft que estavam a iniciar uma actividade sem fins lucrativos centrada na energia e no clima. Eles trouxeram dois cientistas climáticos que eram bem versados nas questões, e os quatro mostraram-me os dados que ligavam as emissões de gases com efeito de estufa às alterações climáticas.

Eu sabia que os gases com efeito de estufa estavam a provocar o aumento da temperatura, mas tinha assumido que existiam variações cíclicas ou outros factores que naturalmente impediriam um verdadeiro desastre climático. E era difícil aceitar que enquanto os seres humanos continuassem a emitir qualquer quantidade de gases com efeito de estufa, as temperaturas continuariam a subir.

A vida de William Henry é um autentico drama que até mete dó. Antes viaja para a África e descobre que aí há pobres. Voa por cima destes desgraçados com o seu jet privado e observa como as noites em Las Vegas afinal sejam diferentes. Depois encontra dois cientistas que lhe contam uma teoria dos anos ’70. A viagem de Dante na Divina Comédia foi uma brincadeira em comparação. Mas é neste ponto que tem lugar a iluminação de William Henry a caminho de Damasco:

Voltei ao grupo várias vezes com perguntas complementares. Finalmente entendi. O mundo precisa de fornecer mais energia para que os mais pobres possam prosperar, mas nós precisamos de fornecer essa energia sem libertar mais gases com efeito de estufa.

Aqui William Henry entende: ele quer fazer o bem dos pobres, mas para isso tem que fazer um esforço ainda maior e fazer o bem da Humanidade toda, proporcionado ao mundo energia limpa. Santo já.

Agora o problema parecia ainda mais difícil. Não era suficiente fornecer energia barata e fiável para os pobres. Também tinha de ser limpa.

Em poucos anos, eu tinha-me convencido de três coisas:

Para evitar um desastre climático, temos de chegar a zero emissões de gases com efeito de estufa.
Precisamos de utilizar as ferramentas de que já dispomos, como a energia solar e eólica, mais rapidamente e de forma mais inteligente.
E precisamos de criar e lançar tecnologias inovadoras que nos possam levar ao resto do caminho.

Stop, pára, pausa. Quero já participar com uma ideia, tal como sugere William Henry.

Comecemos com o resolver o problema dos pobres na África: que tal William Henry proporcionar-lhes os meios para eles construírem os seus próprios paneis fotovoltaicos, dado que sol é coisa que não falta naquelas bandas? Não “vender-lhes” os paneis, mas formar o pessoal local, assumi-los para constituir empresas locais que possam realizar tanto paneis como, por exemplo, sistemas de tratamento das águas; intervir nas contratações com fornecedores estrangeiros para obter preços mais vantajosos e denunciar publicamente as empresas que só querem lucrar com a desgraça dos outros; implementar uma campanha internacional para que uma percentagem do PIB nacional dos Países mais ricos seja obrigatoriamente destinada ao fornecimento de meios que permitam aos pobres da África alcançar a autonomia productiva nos sectores da potabilidade da água e na geração de electricidade “limpa”; uma campanha que não poderia esquecer-se das multinacionais, um mundo que William Henry conhece particularmente bem: de certeza que com o seu génio e fascínio conseguiria converter vários CEO’s à cruzada em favor dos pobres, uma participação que, mesmo com uma percentagem infinitamente reduzida dos astronómicos lucros anuais, poderia ser traduzida em enormes benefícios para os que mais necessitam.

William Henry assim fala: “empresas em todo o mundo estão a estabelecer objectivos ambiciosos para reduzir as emissões”. E que tal um objectivo ainda mais ambicioso? Que tal salvar vidas aqui e agora?

Ideias absurdas, não é? Verdade, peço desculpa. Continuemos.

O objectivo “zero” era sólido. Estabelecer um objectivo apenas para reduzir as nossas emissões, sem eliminá-las, não vingaria. O único objectivo sensato é “zero”.

Este livro sugere um caminho a seguir, uma série de passos que podemos dar para uma melhor oportunidade de evitar um desastre climático. Divide-se em cinco partes:

Porquê zero? No capítulo 1, explicarei mais sobre porque precisamos de chegar ao zero, incluindo o que sabemos (e o que não sabemos) sobre como o aumento das temperaturas irá afectar as pessoas em todo o mundo.

As más notícias: chegar ao zero vai ser realmente difícil. Porque cada plano para alcançar qualquer coisa começa com uma avaliação realista das barreiras que atravessam o  caminho, no capítulo 2 vamos reflectir para considerar os desafios que enfrentamos.

Como ter uma conversa informada sobre as alterações climáticas. No capítulo 3, vou cortar algumas das estatísticas confusas que possam ter ouvido e partilhar as poucas perguntas que tenho em mente em cada conversa que tenho sobre as alterações climáticas. Estas têm-me impedido de errar mais vezes no que posso contar, e espero que façam o mesmo por si.

As boas notícias: podemos fazê-lo. Nos capítulos 4 a 9, vou dividir as áreas onde a tecnologia de hoje pode ajudar e onde precisamos de avanços. Esta será a parte mais longa do livro, porque há muito para falar. Temos algumas soluções que precisamos de implementar em grande escala agora, e também precisamos de muitas inovações a serem desenvolvidas e espalhadas por todo o mundo nas próximas décadas.

Passos que podemos dar agora. Escrevi este livro porque não vejo apenas o problema das alterações climáticas; vejo também uma oportunidade para resolve-lo. Isso não é simples optimismo. Já temos duas das três coisas que precisamos fazer em qualquer grande empreendimento. Primeiro, temos ambição, graças à paixão de um crescente movimento global liderado por jovens que estão profundamente preocupados com as alterações climáticas. Segundo, temos grandes objectivos para resolver o problema à medida que mais líderes nacionais e locais em todo o mundo se comprometem a fazer a sua parte.

Agora precisamos da terceira componente: um plano concreto para atingir os nossos objectivos.

Tal como as nossas ambições foram impulsionadas por uma apreciação da ciência climática, qualquer plano prático para reduzir as emissões tem de ser impulsionado por outras disciplinas: física, química, biologia, engenharia, ciência política, economia, finanças, e mais. Assim, nos últimos capítulos deste livro, vou propor um plano baseado na orientação que recebi de especialistas em todas estas disciplinas. Nos capítulos 10 e 11, vou concentrar-me nas políticas que os governos podem adoptar; no capítulo 12, vou sugerir medidas que cada um de nós pode tomar para ajudar o mundo a chegar ao zero. Quer seja um líder governamental, um empresário, ou um eleitor com uma vida ocupada e muito pouco tempo livre (ou todos os anteriores), há coisas que pode fazer para ajudar a evitar um desastre climático.

É isso mesmo. Vamos começar.

E vamos. Para apreciar esta nova obra de William Henry não deve ser esquecido quanto segue: foi escrita por um bilionário dono de quatro aviões privados e que vive numa mansão de 6.000 metros quadrados com 24 casas de banho (demasiadas ameixas?). Portanto, o lema é “Faz o que digo mas não fazer o que faço”. Então, o resumo do livro torna-se simples: coisas que já estamos acostumados a ler e ouvir, é a bem conhecida Agenda Verde. Que, como sempre, falha o ponto principal, como bem comenta Rob Lyon nas páginas de RT:

Os combustíveis fósseis são absolutamente fulcrais para as nossas vidas. São uma descoberta maravilhosa, que fornecem enormes quantidades de energia de uma forma muito compacta. Gates observa que, libra por libra, a gasolina é 35 vezes mais “cheia” de energia do que as melhores baterias de iões de lítio actualmente disponíveis. As nossas emissões não provêm simplesmente da produção de electricidade (27% das emissões) e da deslocação (16% das emissões). A construção civil, particularmente o betão e o aço, produz 31% das emissões, mas existem poucas alternativas a esses materiais nesta altura.

Não li nem vou ler o livro de Bill Gates. Simplesmente: não estou interessado. Provavelmente Bill Gates foi suficientemente esperto para evitar as previsões catastróficas que nunca se realizam (estilo Al Gore, para entender), mas a verdade é que não sei o que fazer com algo que repete teorias e “soluções” já velhas que em nenhum caso resolvem o principal dos problemas: mesmos esquecendo a questão dos gases com efeito estufa, se os combustíveis fosseis poluem (e poluem, não há dúvidas acerca disso) então precisamos duma fonte alternativa que possa proporcionar a mesma quantidade de energia utilizada hoje. E as energias renováveis não conseguem isso (vejam o que aconteceu com o frio Texas nas semanas passadas), nem conseguem aproximar-se a este objectivo.

Em falta desta fonte realmente alternativa, a única outra solução é uma mudança radical de toda a nossa sociedade. Trata-se de repensar com completo as nossas vidas, o sistema de produção, de distribuição, de abastecimento, a agricultura, os transportes, as comunicações… adequar tudo isso aos novos e em muitos inferiores níveis de energia disponíveis com as fontes “verdes” (que depois “verdes” não são, mas este é outro discurso ainda). O resto são vidrinhos coloridos e espelhos bons para cativar o público: ilusões num caminho que de ecológico ou “ambiental” pouco ou nada tem.

 

Ipse dixit.

5 Replies to “A solução de William Henry”

  1. É eu também tenho um projeto de um gerador que gera sua própria energia (auto suficiente) e produz um excedente para sustentar uma casa, acho que atingiria o objetivo da emissão zero, pena eu não ter a grana que ele tem, já estaria funcionado a pleno. E quanto a extinção do Sol, será que ele tem alguma sugestão ?

  2. Sigo de perto alguns canais de Youtube que falam de sustentabilidade, estilo de vida “low waste” e consciente e é curioso que recentemente, pelos menos dois deles, fizeram parceria com o Bill Gates, sendo que num dos canais abertamente fizeram patrocínio a este livro.

    Não sei quem estabeleceu o primeiro contacto, pois não tocaram até agora no assunto (pelo menos no YT), mas fico com curiosidade em saber se foi por parte do Gates. Nesses canais não falta público e parece-me que maioritariamente a faixa etária é jovem.

    É triste ver gente nos comentários a felicitá-los pela parceria como se fosse algo bom. Entendo, é visto como reconhecimento de trabalho por parte de uma “grande” figura e supostamente “bom samaritano”, mas é público de que o próprio Gates investiu na Monsanto empresa bem conhecida pelos OGMs…

  3. As táticas diversionistas estão na moda O Covid ganhou fama mundial (sem merecer) para desviar a atenção sobre o caos econômico, político,. social, educacional que castiga o mundo., e antes produzi-lo mais ainda. E funciona muito bem, reconheçamos.
    A questão climática é a mesma coisa. Dê um jeito de expirar menos CO2, contribuindo para emissões zero. E cuidado com a flatulência. Já basta os milhões e milhões de bovinos irresponsáveis prejudicando o objetivo zero .Mas isto vai acabar com a vinda da carne artificial
    Para quem não tem com o que se ocupar é um bom passatempo para o gado humano se convencer que exerce a cidadania, participando de um plano tão extraordinário de um multimilionário. Periga até pensarem que fazem parte ativa da gangue do Bill e sonharem ser “assim importantes” como ele. Haaa…e se um filhote seu chegasse a ser conhecido como a santinha Greta ! maior realização para a família, impossível.
    Enquanto isso a máquina de triturar gente se especializa e funciona a todo vapor: guerras, migrações, terrorismo doméstico, o deus midiático tornado mingau os cérebros humanos.
    Mas o cérebro de multimilionários como Gates (um ser humano digno como outro qualquer, um líder mundial, alguém seriamente preocupado com o mundo) está funcionando a mil.
    Faz uma viagenzinha de turismo, sobrevoando a África, e se advoga o direito de mandar em toda e qualquer iniciativa pelos povos esmagados e em vias de tornarem se, para o bem geral do planeta.
    Dir-se-ia que é um megalomaníaco, mas não é. Tudo que faz, manda fazer, patrocina, financia… é para o bem sim, dos poucos, bem pouquinhos com os quais compete para o domínio absoluto global e para o extermínio de parte significativa do planeta.
    Seu livrinho, tão singelo e humano, é mais uma prova de suas intenções diversionistas.

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