Porque a Finança quer analisar o vosso histórico de navegação?

Bonito artigo no blog do Fundo Monetário Internacional, baseado num estudo conjunto entre Banco Central Europeu e o mesmo FMI. Título: Intermediação Financeira e Tecnologia: O que é velho, o que é novo?. Quando duas instituições como estas decidem juntar os esforços para criar algo novo, então é o caso para ficarmos preocupados. De facto, aqui vai o resumo do estudo:

Estudamos os efeitos da mudança tecnológica na intermediação financeira, distinguindo entre inovações na informação (recolha e processamento de dados) e comunicação (relacionamentos e distribuição). Ambas seguem tendências históricas no sentido de uma maior utilização de informação básica e de uma menor interacção presencial, que estão a acelerar rapidamente. Apontamos inovações mais recentes, tais como a combinação da abundância de dados com a inteligência artificial, e o aumento das plataformas digitais. Argumentamos que, em particular, o aumento de novos canais de comunicação pode levar à desintegração vertical e horizontal do modelo tradicional de negócio bancário. Os fornecedores especializados de serviços financeiros podem eliminar as actividades que não dependem do acesso aos orçamentos, enquanto as plataformas podem interagir entre os bancos e os clientes. Discutimos as limitações a estes desafios, e as implicações políticas resultantes.

Complicado? Tranquilos: à medida que lermos o estudo, tudo torna-se mais claro. E o resumo é o seguinte: as pessoas verão os detalhes do seu histórico de navegação na Internet digitalizados pelos bancos para obter uma pontuação que lhes dá acesso ao crédito. Simples, não é? Fala-se aqui de Fintech, alta tecnologia financeira.

Em vez de utilizar métodos tradicionais para avaliar o risco de crédito de um cliente, tais como activos, rendimentos e estado civil, para fazer avaliações de risco os bancos estão agora a tentar explorar a vasta gama de dados recolhidos pelas empresas Big Tech como Facebook, Google ou YouTube para fins de marketing. “As empresas Big Tech recolhem enormes quantidades de dados não financeiros através das suas plataformas viradas para o consumidor nas áreas do comércio electrónico, redes sociais e pesquisa online”, diz o documento. Continuando, os autores afirmam que “a enorme quantidade de dados permite a utilização de ferramentas de análise dos dados, tais como inteligência artificial e aprendizagem de máquinas [o machine learning, ndt]”, o que tem demonstrado a sua “utilidade nas finanças”.

O aumento da Internet permite a utilização de novos tipos de dados não financeiros dos clientes, tais como o historial de navegação, o comportamento de compras online ou as classificações dos clientes por parte dos vendedores online. […] Tais dados não financeiros são valiosos para a tomada de decisões financeiras.

Os autores argumentam que tais dados são “informações fáceis de recolher” através das “pegadas digitais” deixadas pelos usuário também no database do fornecedor de correio electrónico, do operador de telemóvel, pelo sistema operativo, etc.. No estudo é realçado como tais novas fontes de dados comportam-se duma forma que fica perto das “pontuações de crédito tradicionais na avaliação do risco do mutuário”. Ficam perto ou até são melhores. No post do blogue, escrito pelos mesmos autores do estudo, o grupo afirma que novas pesquisas mostram que “uma vez alimentadas por Inteligência Artificial e aprendizagem de máquinas, estas fontes de dados alternativas são frequentemente superiores aos métodos tradicionais de pontuação de crédito”, aconselhando que os bancos comecem a basear os seus empréstimos nos dados recolhidos por máquinas que classificam os hábitos de despesa.

Um modelo ideal para os bancos, uma vez que “grandes quantidades de dados podem ser adquiridas a baixo custo através do web-scraping [uma técnica informática de extracção de dados de um sítio web através de programas de software, ndt]” que aumenta “a contextualização dos serviços financeiros”.

A utilização de dados extraídos a partir da navegação na internet não é novidade nenhuma: é a rotina das empresas Big Tech, das multinacionais e de todos os que tiverem acesso a esta tecnologia. A novidade é outra: trata-se aqui de legitimar esta atitude para levá-la até um patamar superior onde é “normal” (e legal) que os dados sejam utilizados para construir um nosso perfil financeiro e partilha-lo entre instituições privadas. Isso tem o potencial para dar origem a novas prioridades em várias áreas políticas e os órgãos de regulamentação enfrentam aqui os desafios talvez mais substanciais: o refrão “nenhum dado sensível do usuário será utilizado” desaparece para ser substituído com um legal “os dados sensíveis do usuário são o alvo da pesquisa, serão gravados e utilizados”. Privacidade? Aqui desaparece uma das últimas tímidas barreiras.

Outros riscos também são elevados: cibersegurança (instituições financeiras e clientes que utilizam novos serviços em linha criam novas oportunidades para os criminosos) e arbitragem regulamentar (adaptação dos modelos de negócio para reduzir a supervisão dos reguladores). Para enfrentar todos estes desafios, as agências reguladoras precisam de assegurar que os seus conhecimentos correspondam aos da indústria, algo historicamente difícil e que pode tornar-se ainda mais complicado à medida que mais talentos entram na esfera da tecnologia financeira e o ritmo da inovação acelera.

Isso sem esquecer a política da concorrência, as tendências monopolistas das grandes plataformas digitais, a tendência natural para convergir em plataformas ainda maiores.

A verdadeira novidade? Surpresa: fica fora dos bancos. Porque com a legítima utilização dos dados de navegação, a Finança chega a todas as pessoas “não bancárias”. Não importa se o Leitor tiver ou não uma conta num banco: será suficiente estabelecer uma ligação internet para que os seus dados fiquem nos databases financeiros, agora no pleno respeito das leis.

Consideramos isso: segundo os últimos dados, quase 4.66 mil milhões de pessoas eram utilizadores activos da Internet em Outubro de 2020, abrangendo 59 % da população mundial. Ter legítimo acesso a este oceano de dados significa a possibilidade de rastrear legalmente as actividades económicas da maioria dos habitantes do planeta. Mas no histórico de navegação não há apenas os movimentos ligados ao nosso banco, há muito mais do que isso: todas as páginas visitadas, o que significa os nossos interesses, preferências, amizades, pensamentos políticos religiosos… O perfil financeiro esconde assim a construção dum verdadeiro retrato completo do cidadão, legalmente guardado nos databases de Big Data.

“Legalmente”? Afinal não poderia ser permitido o utilizo de dados só daqueles clientes que têm um relacionamento com um banco? Desta forma, os que não são clientes ficariam excluídos destes imenso controle: só os que concordarem ficariam com os dados guardados por Big Data.

Sim, poderia, faz todo o sentido. Mas não é bem assim. No blog do FMI é realçada a seguinte frase:

O potencial da Fintech [a alta tecnologia financeira, ndt] para chegar a mais de mil milhões de pessoas não bancárias em todo o mundo, e as mudanças na estrutura do sistema financeiro que isto pode induzir, podem ser revolucionárias.

Portanto, o alvo não são os que já são clientes do home banking, por exemplo, mas sim aquele bilião e mais de pessoas que ficam fora do sistema financeiro. O estudo do FMI – BCE distingue duas áreas de inovação financeira: uma é a informação, com as novas ferramentas para recolher e analisar os dados sobre os clientes; a outra é a comunicação, com novas abordagens para a distribuição de produtos financeiros. Na prática: trata-se aqui de alcançar os cidadãos ainda não clientes, analisa-los e introduzi-los no circuito financeiro, o que implica a construção dum perfil económico e não só.

O estudo não explica como funcionaria na prática um tal sistema. Google, Facebook ou Amazon comunicariam directamente com as instituições financeiras? Pormenores, considerando as vantagens que serão apresentadas: o nosso banco fica mais seguro contra as fraudes, para nós mais serviços, mais rapidez e descontos ao permitir a recolha e o armazenamento de dados. Já sabemos: é sempre para o nosso bem.

Klaus Schwab, Presidente do World Economic Forum: “Todos os países, dos Estados Unidos à China, devem participar e todos os sectores, do petróleo e gás à tecnologia, devem ser transformados”. E assim seja.

 

Ipse dixit.

2 Replies to “Porque a Finança quer analisar o vosso histórico de navegação?”

  1. Olá Max: mais uma paulada nos pobres mortais!..
    Eu sempre pensei que, se eu conseguisse me desbancarizar, teria uma ótima forma de conseguir um pouquinho mais de anonimato. Ilusão… De acordo com o artigo, com ou sem conta bancária, fica tudo transparente para quem quiser saber. Metaforicamente poderia se dizer que eu sou propriedade de banco do Brazil porque até a noção de propriedade vai mudar e assumir o formato virtual.
    O banco cujo arquivo me tem… ,Tanto deve ser meu dono, que me pode ceder a outro banco, vender-me para uma corporação, seita religiosa, máfia qualquer. Enfim é a típica situação da escrava que nunca poderá comprar a sua liberdade, ou seja, o domínio da sua privacidade.
    Mais uma paulada !

Obrigado por participar na discussão!

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