A Síria, o Iraque e a exportação da Democracia

O Podcast de Informação Incorrecta
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Episódio 22: Michel Onfray, entre quijos e ditaduras

O novo livro do francês Michel Onfray, o filósofo pós-anarquista, anticomunista, anti-liberal, anticapitalista e simpatizante do socialismo libertário e do mutualismo de Proudhon.

 

Ibrahim Awwad Ibrahim Ali Muhammad al-Badri al-Samarrai morreu.

Assim foi-se. E ninguém vai sentir falta.

Abu Bakr al-Baghdādī nasceu em 1971 em Samarra (Iraque) com o nome de Ibrahim Awwad Ibrahim Ali Muhammad al-Badri al-Samarrai. Formou-se em estudos islâmicos em Bagdá em 1996. Desascrito pelos amigos como tímido e anti-violento, após a invasão americana de 2004, foi preso e fechado no centro de detenção de Camp Bucca, em Umm Qasr. Mas após a libertaçáo eis a transformação: de tímido e não-violento, al-Baghdādī entra em contacto com a Al Qaeda e, em 16 de maio de 2010, substituiu Abū ʿOmar al-Baghdādī, morto em um ataque, no comando do Estado Islâmico do Iraque.

Ontem, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que al Baghdadi foi morto durante um ataque na Síria. Trump disse:

Ele morreu depois de escapar para um beco sem saída, chorando e gritando. Al Baghdadi fez-se explodir juntamente com os três dos seus filhos que estavam com ele. Muitas pessoas morreram, mas ninguém morreu entre as nossas tropas.

Mas o que fazem ainda os americanos na Síria? O Presidente não tinha anunciado o retiro? Sim, os soldados dos Estados Unidos foram-se embora… ou quase.

Embora Trump tenha ordenado a retirada parcial de cerca de mil tropas americanas do território sírio (tropas que, de acordo com o direito internacional, constituem uma ocupação militar ilegal), as autoridades americanas e o próprio Presidente admitiram que algumas unidades irão permanecer no local. E permanecerão em território sírio não para garantir a segurança dos cidadãos, mas para manter o controle dos campos de petróleo e gás.

Os Estados Unidos continuam a fazer todo o possível para impedir que Damasco retome o seu petróleo e a região com a maior produção de cereais: o objectivo é privar o governo das suas receitas e, assim, impedir que financie os trabalhos de reconstrução. O Washington Post apontou em 2018 que os Estados Unidos e os seus aliados curdos estavam a ocupar militarmente uma “fatia de 30% da Síria, onde 90% da produção de petróleo antes da guerra estava localizada”.

Agora, pela primeira vez, Trump confirmou abertamente as razões por trás da manutenção de uma presença militar americana na Síria. Disse o Presidente na reunião de governo do passado dia 21 de Outubro:

Queremos manter o petróleo. Talvez mandemos uma das nossas grandes empresas de petróleo para lá para fazer as coisas da maneira certa.

Três dias antes, o Presidente tinha twittado: “Os Estados Unidos conseguiram o petróleo”.
O New York Times confirmou essa estratégia já em 20 de Outubro. Citando um oficial administrativo sénior, o jornal informou:

O Presidente Trump é a favor de um novo plano do Pentágono para manter um pequeno contingente de tropas americanas no leste da Síria, talvez cerca de 200 homens, para combater o Estado Islâmico e bloquear o avanço do governo sírio e das forças russas nos campos de petróleo disputados da região. Uma vantagem secundária seria ajudar os curdos a manter o controle dos campos de petróleo nos territórios do leste.

Os curdos? Mas quais curdos: Trump fala de enviar para lá as petrolíferas americanas, nada de Curdos. E reiterou explicitamente essa política, no dia 23 de Outubro, numa conferência de imprensa na Casa Branca sobre a retirada da Síria:

“Garantimos o petróleo [na Síria] e, portanto, um pequeno número de tropas americanas permanecerá na área onde há petróleo”.

A motivação? Simples: o Isis.

O Secretário da Defesa, Mark Esper:

Um dos objectivos dessas forças, que colabora com o SDF [as forças curdas da Síria], é negar o acesso a esses campos de petróleo ao Isis e a outros que poderiam beneficiar das receitas que deles derivam.

E quem seriam estes “outros”? Dado que aquele é território sírio, não é difícil imaginar a resposta. De facto, a luta para a posse dos campos petrolíferos está em andamento há bastante tempo. Moscovo quer que a Síria reconquiste a sua plena integridade territorial: precisa dum aliado forte na região, alguém que possa actuar com uma certa autonomia económica também e que, não esquecemos, possa pagar as armas fornecida pela Rússia.

A CNN testemunhou a violência na áreas quando citou oficiais militares anónimos dos EUA:

As forças armadas dos EUA há muito tempo têm assessores militares agregados às forças democráticas sírias na área próxima aos campos de petróleo sírios de Deir Ezzoir, desde que a área foi libertada do Isis. A perda desses campos de petróleo privou o Isis de um importante meio de subsistência, a primeira fonte de receita que diferenciara a organização de outros grupos terroristas.

Os campos de petróleo são activos há muito procurados pela Rússia e pelo regime de Assad, que carecem de dinheiro após anos de guerra civil. Moscovo e Damasco esperam usar as receitas do petróleo para ajudar a reconstruir o oeste da Síria e fortalecer o domínio do regime.

Numa tentativa de conquistar os campos de petróleo, mercenários russos atacaram a área, levando a um confronto que viu dezenas, senão centenas, de mercenários russos mortos por ataques aéreos dos EUA, um episódio que Trump publicou como prova da sua determinação contra a Rússia . O ataque ajudou a dissuadir as forças russas e do regime sírio em repetir acções semelhantes para recuperar os campos de petróleo.

Portanto: choques entre americanos e forças sírias e russas, com dezenas ou até centenas de mortos. Os EUA massacraram estes combatentes não por razões humanitárias, mas para impedir que o governo sírio usasse as receitas do seu petróleo para ajudar a reconstruir a Síria Ocidental.
Essa admissão chocante: a lenda dos americanos que mantêm tropas na Síria para proteger os curdos de um ataque da Turquia (membro da Nato) cai de forma miserável.

O artigo da CNN aparentemente refere-se à Batalha de Khasham, um episódio pouco conhecido, mas importante na guerra internacional que se arrasta na Síria há oito anos. A batalha ocorreu em 7 de Fevereiro de 2018, quando o exército sírio e os seus aliados lançaram um ataque para tentar recuperar os importantes campos de petróleo e de gás da província de Deir ez-Zour, ocupados pelas tropas americanas e os aliados curdos.

O New York Times relatou a notícia de que os militares dos EUA massacraram entre 200 e 300 combatentes depois de horas de “ataques aéreos implacáveis ​​por parte dos EUA”. O diário enfatizou repetidamente que Deir ez-Zour é “rico em petróleo” e citou autoridades americanas anónimas, segundo as quais muitos dos combatentes massacrados eram cidadãos russos da empresa militar privada Wagner Group. E os “oficiais de inteligência americanos” confirmaram ao Times que os supostos combatentes russos estavam na Síria “para dominar os campos de petróleo e gás e protegê-los em nome do governo de Assad”. Portanto nada de equívocos: os Estados Unidos não querem que o governo de Damasco possa voltar a explorar o que lhe pertence.

A guerra da fome

Mas na região, como foi dito, não há apenas petróleo ou gás. Há cereais.

Em 2015, o então Presidente Barack Obama tinha enviado tropas americanas no nordeste da Síria para ajudar as milícias da Unidade de Protecção Popular Curda (YPG) a combater o Isis. O que começou com algumas dezenas de forças operacionais dos EUA, rapidamente se transformou numa força de ocupação de cerca de 2.000 homens, a maioria estacionada no nordeste da Síria.
Essas tropas americanas permitiram que o exército curdo afastasse o Isis, pelo que foi consolidado o controle de Washington sobre quase um terço do território soberano da Síria: é aquela parte do território que fornece 70% da produção de cereais ao País.

A seguir, a Reuters confirmou que as autoridades curdas concordaram em suspender a venda de cereais a Damasco, um pedido do governo dos EUA: de facto, o Centro para uma Nova Segurança Americana, um importante think tank do Partido Democrata financiado pelo governo dos EUA e pela Nato, tinha proposto de usar “a arma do grão” para reduzir a população civil síria à fome.

Pelo que, a exportação da Democracia continua a recorrer às armas mais desumanas: a brutal guerra económica contra Damasco está a intensificar-se, não apenas através de sanções, mas também com o roubo dos recursos naturais da Síria.

Crude contrabandeado

Mas voltemos ao petróleo: onde acaba o crude extraído na Síria? Enquanto, segundo as palavras de Trump, é esperada a chegada das empresas petrolíferas americanas, os camiões-tanque carregados de petróleo deixam a Síria protegidos pelas forças dos Estados Unidos e contrabandam o produto para encher as contas bancárias das empresas militares privadas e os serviços secretos americanos. Esta, pelo menos, é a reconstrução do Ministério da Defesa da Rússia.

O porta-voz do Ministério, Igor Konashénkov, lembra que os depósitos de hidrocarbonetos pertencem à Síria, “portanto, o que Washington está a fazer agora é, francamente, um banditismo internacional”.

Segundo o porta-voz do Ministério da Defesa da Rússia, “a verdadeira razão dessa actividade ilegal americana na Síria está longe dos ideais de liberdade e slogans contra o terrorismo proclamados por Washington” e concentra-se na extracção e no contrabando ilegal de petróleo sírio. Segundo imagens fornecidas pela Inteligência Espacial do Ministério da Defesa da Rússia, antes e depois da derrota dos terroristas do Isis nesta parte do País árabe, o petróleo é activamente extraído e enviado aos navios-tanque para serem transportados para fora por Síria, tudo isso sob o protectorado das forças americanas.

Sob a protecção dos militares dos EUA e dos funcionários das empresas militares privadas dos EUA, navios-tanque carregados nos campos de petróleo do leste da Síria são contrabandeados para outros Países. [,,,] Em caso de ataque contra um camião, este é imediatamente protegido por forças especiais e pela aviação militar dos EUA.

O Ministério da Defesa da Rússia chamou a atenção para o facto de que a extracção de petróleo é realizada com o uso de equipamentos fornecidos pelas principais empresas ocidentais, apesar de todas as sanções impostas pelos Estados Unidos. Além disso, o contracto de exportação de petróleo controlado pelos EUA é exercido pela empresa Sadcub, conectada à chamada Administração Autónoma da Síria Oriental: as receitas desse contrabando, por meio de corretoras que interagem com essa empresa, entram nas contas bancárias de empresas militares privadas e serviços secretos dos EUA.

Conclui o porta-voz:

“Como o barril de petróleo contrabandado a partir da Síria custa 38 Dólares, o rendimento mensal dessa “empresa privada” excede os 30 milhões de Dólares. Para manter esse fluxo financeiro tão contínuo e sem controle ou impostos, a liderança do Pentágono e Langley [sede da CIA] estarão dispostos a defender e proteger os poços de petróleo na Síria das “células ocultas imaginárias” do Isis para sempre”.

O Iraque

Mas abandonemos a Síria, atravessamos a fronteira oriental do País para encontrar uma situação que tem pouco espaço nos órgãos de informação ocidentais. Um das muitas situações com pouco espaço: abram um diário de hoje e tentem encontrar algo acerca da guerra no Yemen, por exemplo.

Aqui falamos do Iraque. Dezenas de mortes nos últimos dias são a trágica contabilidade de uma crise social que está instalada no País do antigo ditador Saddam Hussein. Quando George Bush Junior decidiu tomar medidas para exportar a “democracia”, evidentemente esqueceu-se de alguma coisita. E agora que os iraquianos nem conseguem garantir um pedaço de pão, estão um pouco irritados com o governo, com aqueles que aceitaram o papel de marionetas para impor uma política que nunca esteve no DNA do Iraque e cujas consequências estão à vista.

Depois de centenas de milhares de vidas humanas queimadas desde a Segunda Guerra do Golfo, o Iraque fica num beco sem saída, sem que ninguém tenha uma ideia para sair da crise. Oficialmente é a fome que empurra os iraquianos para as ruas, para criar uma espécie de guerrilha urbana sem fim. De acordo com uma análise realizada pelos correspondentes da BBC, os manifestantes exigem melhores serviços públicos, empregos e o fim do flagelo da corrupção que marca a burocracia iraquiana.

Mas estes são apenas os sintomas duma crise que envolve toda a área do Médio Oriente uma crise construída à mesa. Uma crise que mostra de maneira transparente a incapacidade da Casa Branca de propor modelos de “engenharia institucional” que sejam confiáveis no médio e longo prazo.

Também porque a Democracia não interessa a ninguém, nem aos Estados Unidos. O Iraque para os Estados Unidos acabou sendo um poço sem fundo, onde biliões de Dólares foram queimados sem poder oferecer às pessoas condições mínimas de vida. O Ocidente ignorou a complexidade étnica, religiosa e social do País: curdos no nordeste, sunitas no centro e xiitas no sul formam um Estado não homogéneo, muito difícil de administrar e onde a coabitação das populações sempre viaja na corda bamba.

O verdadeiro objectivo ocidental desde sempre foi ocupar os campos petrolíferos e ocidentalizar uma região que faz fronteira com o inimigo Irão e que ameaçava o vizinho israel. De facto, ambos os objectivos foram conseguidos: o petróleo fica para as multinacionais do Ocidente enquanto a ameaça contra israel foi anulada.

As quase 200 mortes e os 2000 feridos provocados pela revolta fazem representam os óbvios danos colaterais na óptica do Ocidente. O Primeiro-Ministro Adel Abdul Mahdi reiterou que os protestos não serão tolerados e ao mesmo tempo prometeu um programa de reforma e um pacote de medidas para atender aos pedidos. Mas é uma situação delicada porque o descontentamento atravessa todos os grupos étnicos, porque a fome faz esquecer as diferenças religiosas e empurra todos para as ruas.

Aliás, os mesmos revoltosos querem que a administração do País de acordo com os modelos étnicos e religiosos seja superada. Se o Iraque é uma nação unida, dizem, então as estratégias políticas e económicas devem ser homogéneas. Na prática, é o fracasso das teorias americanas baseadas na tripartição do Iraque pós-Saddam Hussein.

 

Ipse dixit.

Fontes: CNN (1, 2), The New York Times (1, 2), White House, The Gray Zone Twitter, Reuters, The Gray Zone Blog,

Música: Desert2 by PeriTune, http://peritune.com, music promoted by https://www.free-stock-music.com, Creative Commons Attribution 3.0 Unported License, https://creativecommons.org/licenses/by/3.0/deed.en_US

4 Replies to “A Síria, o Iraque e a exportação da Democracia”

  1. Certo, Max

    Aqui, não precisaram invadir para tomar o petróleo brasileiro. Bastou um congresso golpista , um judiciário mercenário e um bando de manifantoches vestidos de verde amarelo.

    Sem dar nenhum tiro, o Trump sentou-se na mesa de jantar ao lado do Bozo e pediu: “me passa o pré-sal” ?

    Afinal, pra que violência ? brasileiro é tão bonzinho.

  2. A morte do al-Baghdādī aconteceu mesmo ou é mais um golpe de teatro para legitimar o tal contingente de forças americanas no terreno?

  3. Não se esconde mais nada, é tudo assim e pronto. Nada a ver com este post, mas ao mesmo tempo tudo a ver, estou assistindo El Chapo, a vida de narcotraficante mexicano Joaquim Gusmán, um netflix bem aproximado aos fatos, e nada mais se esconde. O narcotráfico é um negócio extremamente lucrativo associado ao tráfico de armas entre fornecedores norte americanos e traficantes, envolvendo quem pode, e quem pode são sócios milionários e poderosos, ou seja desde a DEA nos EUA, os traficantes peixe grande sempre em luta pelo domínio total, os governos, a corrupção endêmica das instituições, dos parlamentos, ao judiciário, ao sistema penitenciário, à diplomacia nacional e internacional. Quem ganha? Todos os citados. Quem perde? As populações pobres e cada ver mais empobrecidas cultural e economicamente, que são usadas ao belo prazer das necessidades e conveniências de quem manda. Mídias são empresas, e como tal tudo se negocia desde que renda. Tanto nos negócios do petróleo comentado no post, como no mundo dos tráficos, tudo é negócio, e tudo está às claras.
    No Brazil temos a confluência dos vários grandes negócios; O petróleo, a água, as drogas, as armas, as pessoas. Tudo se negocia às claras para o enriquecimento alarmante de poucos. A minha bola de cristal diz que continuará assim por muito tempo e sempre se intensificando. Neste momento, estamos mais próximos do modus vivendi do México e da Colômbia do que do Chile, como querem alguns esperançosos. Nos aproximaremos dos chilenos um dia? Só no que diz respeito à miserabilidade imposta pelo neoliberalismo. Não deveríamos esquecer que os chilenos engoliram calados 40 anos de destruição de direitos e condições de vida, para só agora exporem sua revolta. Aqui não sei quanto tempo pode durar, e se seguirá o mesmo roteiro. Observo o crescimento exponencial do domínio de grupos para militares na dominação de extensas áreas das grandes cidades. Dominam os transportes, dominam os negócios imobiliários, o comércio legal e ilegal, os tráficos diversos (não ainda o do petróleo e água), expulsam o Estado dos seus territórios e impõem sua “administração”. Na zonas rurais com predominância dos latifundiários, são estes que assumem o papel das milícias com suas tropas de jagunços treinados militarmente. Os exércitos olham para o lado ou participam ativamente especialmente dos genocídios programados.
    Quem não estiver satisfeito, que se mude…de planeta, ou invente o seu.

    1. Precisas constatações, mas imagine tentar alterar minimamente este status quo civilizatório, se poucos chegam a tais constatações e menos ainda entendem os processos que originam essas mazelas…

Obrigado por participar na discussão!

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