Lula, Sócrates e a classe política míope

O Podcast de Informação Incorrecta
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Episódio 22: Michel Onfray, entre quijos e ditaduras

O novo livro do francês Michel Onfray, o filósofo pós-anarquista, anticomunista, anti-liberal, anticapitalista e simpatizante do socialismo libertário e do mutualismo de Proudhon.

A RTP 1, a Rádio e Televisão Portuguesas, transmitiu uma entrevista do jornalista Paulo Dentinho com a Lula Prisioneira. Meia hora de entrevista que eu vi. E já isso deve revelar muito acerca da triste condição psicológica do blogueiro. Mas vamos ao que interessa. Isso interessa:

Lula diz-se amigo de José Sócrates: excerto no podcast.

José Sócrates. Não sei o que os brasileiros sabem acerca do ex-Primeiro Ministro José Sócrates. O que sei é que Lula a defender Sócrates e a considerar-se “amigo” dele diz muito aos portugueses sobre Lula. Mas muito mesmo.

Desde a abertura das investigações contra o ex-Primeiro Ministro português, foram acumulando-se provas arrasadoras que trouxeram à tona um incrível teia feita de corrupção, favores, mentiras descaradas, de roubos. E hoje não há ninguém são de mente neste País que se atreva a defender José Sócrates, nem no interior do partido dele, o Partido Socialista.

E posso dizer mais, se calhar com surpresa dos ouvintes: eu tenho em grande consideração as escolhas políticas de Sócrates, cujo governo, no meu entender, foi o melhor dos últimos 20 anos se o assunto forem os resultados. Espantam-se, mas é assim.

Todavia… há um “todavia”. Quais foram os graves erros de Sócrates?

Basicamente dois erros.

Sócrates não entendeu (ou provavelmente não quis entender) que basear o bem estar do País na Dívida Pública já não era viável porque a União Europeia não permite isso. Foi um erro extremamente grave, pois pôs o País à beira do colapso, provocou a chegada da Troika e, de facto, viabilizou aquele que foi o pior governo de Portugal, o governo de Passos Coelho, com cortes nos ordenados, privatizações selvagens, etc. Se querem individuar o ponto onde começou a queda de Sócrates, é preciso lembrar daquele “Porreiro, pá” no final da assinatura do Tratado de Lisboa.

Segundo erro gravíssimo: Sócrates ignorou por completo termos como “integridade”, ética”, “moral”, “honestidade”. Na prática, Sócrates passou por cima daquelas que deveriam ser as bases de qualquer político decente. Mentiu e roubou de uma forma absolutamente descarada, criando a tal teia de corrupção que incluía não apenas elementos do Partido Socialista mas também muitos daqueles que hoje o acusam. Hoje sabemos que Sócrates mentiu praticamente acerca de tudo, a começar pela sua licenciatura, sabemos que Sócrates via nas suas escolhas políticas uma forma para obter grandes proveitos pessoais.

Tudo isso é exactamente o que tinha acontecido com o antigo Partito Socialista italiano, aquele partido Socialista liderado por Bettino Craxi que tinha construído a mesma rede de amizades interessadas, de corrupção, de favores ilícitos. O esquema é sempre o mesmo porque o DNA é o mesmo. Não é por acaso que todas estas pessoas pertencem ao mesmo sector político. Raciocinam da mesma forma porque foram formadas com os mesmos livros, com as mesmas ideias, nas mesmas alturas.

As palavras de Lula acerca do amigo Sócrates são iluminantes e abrem uma interessante janela acerca de como é vivida a ”legalidade” nalguns sectores da Esquerda: já não é preciso perguntar como foi possível que nem Lula e nem Dilma fizessem algo contra a corrupção no interior da Petrobras, só para fazer um exemplo. É a mesma pergunta que deixa de fazer qualquer sentido: a explicação foi fornecida ontem pelo mesmo Lula.

Não acaso, quando o jornalista Paulo Dentinho pergunta ao Lula se não está arrependido de não ter combatido com mais determinação a corrupção, Lula responde listando os sucessos que o seu governo obteve no âmbito da educação, de luta à pobreza, da economia. Os ouvintes portugueses de certeza estarão a lembrar-se das entrevistas ao Sócrates, com as suas listas dos sucessos alcançados pelos governos dele. E é uma pena que não exista a transcrição dos depoimentos em tribunal de Bettino Craxi, o antigo líder do Partito Socialista italiano, porque aí há, além da sua lista que é igual àquela de Sócrates e Lula, há a explicação clara e sem rodopios do que é e de como funciona a corrupção no interior do sistema político: a corrupção, a tal rede de favores ilícitos, de amizades perversas, tudo isso é parte integrante da política de hoje como de há vinte anos atrás.

Mas então aqui temos um problema. Um problema muito grave.

Estamos diante de cidadãos confusos e inquietos, que também em parte perderam as esperanças. São (aliás: somos) cidadãos que não têm as ferramentas para entender o que se está a passar. Nem mesmo a nossa consciência ajuda, porque até a nossa consciência foi corrompida: muitos dos nossos contemporâneos estão “sobrecarregados por uma existência que não entendem” (a propósito: esta frase não é minha, é de Antonio Scurati e do livro dele “M. O filho do século”).

Quando num País como Portugal, portanto um País supostamente avançado, metade dos eleitores recusam participar nas eleições legislativas para escolher os seus representantes, isso significa que o sistema está a falhar, está a decompor-se. Este é o resultado, não apenas mas também, dos vários Lulas ou Sócrates

Mas isso traz a pergunta: como criar um guia, seja um homem ou um partido, algo capaz de retomar o caminho da legitimidade? E outra pergunta: ainda é possível?

Este é o ponto. A minha resposta pessoal é que ainda seja possível. Extremamente complicado, porque estamos muito perto do ponto de não regresso, mas ainda há possibilidade. Como fazer isso? Um entre aqueles que tentaram ar a solução foi Antonio Gramsci, que identificou a necessidade essencial: uma profunda “reforma intelectual e moral” do sistema. Esta é uma tarefa alucinante, algo que faz tremer, porque exige novos homens, corajosos e competentes.

Problema: onde estão eles? Porque não é possível vê-los no horizonte.

Então a primeira tarefa para aqueles que pensam em como ressuscitar o nosso sistema político, é a tarefa de identificar estes homens ou movimentos, examiná-los, convencê-los a caminhar connosco, porque essa é a única maneira de criar uma massa crítica suficiente para reverter o curso das coisas.

Estas mulheres e homens estão lá, não são muito numerosos, mas existem. Estão amplamente isolados e fora da política. O problema mais sério, no entanto, é que agora não existe quase nada que possa uni-los. Não existe uma visão comum da crise histórica em que vivemos. Esta crise não é apenas portuguesa, brasileira, europeia ou americana: é uma crise global. Para poder entender esta crise são precisos novos paradigmas, uma vez que os antigos agora são inutilizáveis. Pessoalmente tenho muita pena quando oiço uma pessoa dizer “eu sou de Esquerda” ou “eu sou de Direita”, porque isso significa que esta pessoa já não consegue sair dos velhos esquemas que, é bom lembrar, não são esquemas naturais mas foram impostos aos nossos cerebrinhos: esta pessoa não têm os instrumentos para pular a cerca.

O que falta é uma interpretação comum da crise, que é uma crise não apenas económica ou das instituições: é uma crise do homem. É isso que está a faltar: e, na minha opinião, é isso que deve ser construído. Não reconstruído, mas realmente construído a partir duma folha em branco ou quase.

Sem essa etapa, não pode haver movimento ou partido capaz de iniciar a transformação. Qualquer partido permanecerá dividido, cada um a contemplar o seu próprio conhecimento. Neste aspecto, a internet alternativa é uma excelente metáfora da nossa situação.

Portanto: estamos a falar duma revolução. Mas sem uma teoria, não será possível uma nossa revolução, não será possível unir os esforços, criar uma visão comum. Então? Nada de revolução? Não é mesmo assim. Uma revolução está a chegar, é iminente. Aliás, já está em curso. Por qual razão acham que Informação Incorrecta dedicou tanto espaço ao assunto da Inteligência Artificial? Porque a Inteligência Artificial é o sinal mais claro de que algo está a aproximar-se. Ou começamos a ter os instrumentos para entender o que se está a passar, ou a nossa única escolha será tentar adaptar-se para sobreviver. O que não é uma boa perspectiva.

É por isso que é precisa muita paciência e muita humildade agora, para começar a construir o que está a faltar. A actual classe política seguirá o seu curso míope e superficial, mas não será capaz de enfrentar o que se aproxima. Esta é uma tarefa mais complexa que, como dissemos, requer novos instrumentos. Portanto: precisamos duma nova classe política capaz de gerir os novos instrumentos.

O impacto das forças que o homem evocou de forma irresponsável (e falo aqui das miseráveis condições nas quais se encontra o nosso meio ambiente, com ou sem aquecimento climático), o impacto destas forças causará muita dor e, talvez, ajudará a formar homens mais sérios, não sei.

A verdade é que tudo isso é o futuro e o futuro não é comigo ou com a maior parte dos Leitores: nós nascemos analógicos, fomos devidamente formatados e não temos capacidades para ir muito além. Todavia, temos o dever de fazer algo para quem irá herdar este lugar. E este “algo” não é apenas matar o terrível dióxido de carbono porque há outros problemas soltos.

Um destes problemas é a estrutura duma sociedade podre em plena fase de decadência. Temos que arregaçar as mangas e tentar colocar as ideias em ordem. Se for verdade que não temos a solução, também é verdade que não podemos dizer “basta, não é comigo portanto não vou fazer nada”. Nada disso, demasiado simples, não podemos fugir como coelhos. Tentamos pôr um pouco de ordem nas nossas ideias, organiza-las e ver se anda por aí alguém com dois dedos de cérebro. Como disse: eu não consigo ver este alguém, mas sei que há alguém assim, alguém que anda por aí, escondido. E cuidado: não estamos a falar dum “homem forte”, ao estilo Bolsonaro. Nada disso, o “homem forte” não iria resolver absolutamente nada, seria apenas prejudicial.

 

Ipse dixit.

Fonte: Entrevista Especial – Lula da Silva

Música: Warm Duck Shuffle by arnebhus, https://soundcloud.com/arnebhus, music promoted by https://www.free-stock-music.com, Creative Commons Attribution 3.0 Unported License, https://creativecommons.org/licenses/by/3.0/deed.en_US

Fotografia original: Blog do Pavulo

4 Replies to “Lula, Sócrates e a classe política míope”

  1. Max, este Podcast é uma excelente reflexão.
    O caso da Catalunha, que está na ordem do dia, vai-nos mostrar até que ponto as lideranças que querem mudar o rumo das coisas, podem assumir-se como tal, com segurança e sem correr o risco de serem abandonadas pelos liderados.

  2. Reeducação moral dos humanos. Isso é demorado, não sei se conseguiriamos atingir uma massa crítica a tempo. Talvez reunir os que ainda tem uma forte moral, inclinada ao bem estar do ser humano em geral, seja a maneira com maior porcentagem de sucesso, que convenhamos, dada a facilidade de corrupção do ser humano diante de milênios de reforço do ciclo: dinheiro, liberdade(libertinagem) e poder, são bem baixas.

  3. De Sócrates nada sei a não ser o que estás a dizer.
    De Lula, sempre foi um negociador amoral. Fez grandes melhorias nas políticas sociais, mas esqueceu de torná-las políticas de Estado. Foi extremamente fácil destruir tudo, deixando claro seu insucesso que, na época em que as melhorias foram exercidas, apoie, e não podia ser diferente. Se num país onde a miséria graça, perceber que efetivamente a maioria da população passa a comer, isso é uma grande superação. Mas novo fracasso foi perceber também que a comida enche a barriga, mas parece não alimentar o cérebro.
    Que restou? Mais uma vez Lula errou ao deixar-se enjaular, quando podia perfeitamente ir para uma embaixada venezuelana, boliviana nicaraguense, russa etc. Como resultante vemos um ex presidente acuado, fingindo que acredita na justiça brasileira, atacando apenas Moro, juízes e promotores que, em conluio o condenaram antes até de ser confinado, um plano de longa data, colocado no Brasil como teste, e bem sucedido. Lula está morto, no meu ponto de vista, e mais morto fica a cada entrevista, cuja única coisa que faz é lembrar dos seus feitos, afirmar amizade com deus e o mundo, sem responder qualquer pergunta que exija um raciocínio nevo diante da nova situação brasileira.
    Que bom que tu, Max, te manifestas esperançoso. Eu, como não sei como enfrentar os novos métodos de destruir sem armas, uma variação espetacular de guerra híbrida que vem vencendo no Brasil, uma guerra surda que reuniu todas as “tendências” sócio-políticas-econômicas a confundir toda população , a matá-la de forma física e mental, por mais que pense, que procure, só vejo um aprofundamento das dificuldades. Fico, então, conversando aqui e acolá, na espera de um “milagre”. Devo ter ficado religiosa.

  4. Lula é cria do Golbery do Couto e Silva, para sombrear o Brizola. Não há chance alguma sem recompor a Hierarquia de Valores definida pelos judeus ao longo do tempo . Não sendo assim, o máximo possível é brincar de amigo…

Obrigado por participar na discussão!

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