Cesare Battisti confessa

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Resumo dos episódios anteriores: Cesare Battisti é condenado à prisão perpétua na Itália por quatro homicídios. Foge para França donde passa para o México. Daí, em 2002, Battisti entra no Brasil com documentos falsos.

Preso no Rio de Janeiro em Março de 2007, recebe o status de refugiado político. Em Novembro de 2009, o Supremo Tribunal Federal (STF) considera ilegal o status de refugiado e permite a extradição, mas declara que a Constituição Brasileira confere ao Presidente poderes para negar a extradição. Em Dezembro de 2010, no último dia efectivo de Luiz Inácio Lula da Silva como Presidente, a decisão: nada de extradição.

Em 2018 cai o governo petista e em Dezembro do mesmo ano o Presidente Michel Temer assina o decreto de extradição de Battisti. Capturado em Janeiro, na Bolívia, Battisti é extraditado directamente para a Itália, e enviado para uma prisão de segurança máxima na Sardenha. Em 25 de Março de 2019 confessa: sim, matou quatro pessoas, aquelas pelas quais tinha sido condenado pela Justiça italiana. Quatro mortos, outra vítima condenada à cadeira de rodas para o resto da sua vida, uma série de assaltos,agressões, raptos, sexo com menores (raparigas de 13 anos), instigação à violência: este o curriculum de Battisti. Mas para a Esquerda ideologicamente refém do mito revolucionário, tudo isso passa em segundo plano. Battisti é um camarada, um de nós, deve ser defendido.

Então foi contado que Battisti era caçado por uma inquisição obtusa e opressiva, que o Estado condenara-o com escassas evidências. Que os direitos da defesa tinham sido atropelados. Que o Estado italiano havia embarcado no caminho da imitação do Chile de Pinochet. Que Battisti não podia ser um assassino. Que entregar Battisti às autoridades italianas significava alimentar com um inocente um Estado sanguinário. Que mobilização e apelo dos intelectuais eram um dever para defender os direitos humanos violados na Itália. Nada disso era verdade.

A frente intelectual

Pessoas como Gabriel García Márquez, Bernard-Henri Lévy, Daniel Pennac, Tahar Ben Jelloun, Valerio Evangelisti e alguns exponentes de Amnesty International rogavam a inocência de Battisti.

A seguir uns trechos dum recente artigo de Brasil de Fato, site de notícias próximo da Esquerda brasileira:

[…] Diante de tudo isso, é importante que os brasileiros realmente comprometidos com a democracia e com os valores humanistas básicos tomem posição em solidariedade a Cesare Battisti neste momento crucial em que se colocam em jogo, ao mesmo tempo, seu destino pessoal e nosso destino coletivo como país (supostamente) civilizado.

Apresento aqui, de forma resumida, cinco razões em favor de que Cesare Battisti possa permanecer no Brasil com sua família, tranquilamente, como lhe é de direito:

1) O mais importante: Battisti é inocente. O episódio  da sua condenação, na Itália, é um escândalo comparável à farsa judicial armada por Sergio Moro contra o ex-presidente Lula. O italiano foi preso, no final dos anos 1970, por sua participação num grupo de extrema-esquerda, e condenado a uma pena de treze anos por vários delitos políticos, como subversão. Fugiu da cadeia poucos meses depois e reapareceu na França, onde obteve asilo político. Só então, as autoridades judiciais italianas, como uma espécie de vendetta, decidiram acusá-lo pelo assassinato de quatro homens (três deles, fascistas envolvidos em diversos tipos de violência). Sem qualquer prova, somente com base em delações premiadas de ex-companheiros que dessa forma conseguiram aliviar suas penas, Battisti foi condenado à prisão perpétua. […]

2) Vamos falar claro: Battisti está sendo perseguido porque é um homem de esquerda. O caso é de alto interesse à ascendente extrema-direita italiana, doidinha para faturar politicamente com o show da extradição. Não por acaso, o político italiano que já está com as malas prontas para viajar ao Brasil e levar o prisioneiro à Itália, algemado, é o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, um notório fascista conhecido pelo seu ódio aos imigrantes. No Brasil, a polêmica em torno do assunto acompanha, em linhas gerais, a clivagem ideológica existente no país. A extradição de Battisti, desde o início, é uma bandeira dos reacionários dos mais diversos matizes, enquanto a esquerda, em geral, tomou partido em sua defesa (com a triste exceção da revista Carta Capital, que optou por engrossar o coro dos linchadores do escritor). Entregar Battisti à Itália favorece a campanha para desmoralizar a gestão presidencial de Lula e significa, na prática, o sinal de largada para um grande pogrom contra os partidos de esquerda, os movimentos sociais e todos aqueles que Bolsonaro chama de “os vermelhos”.

3) Ao pressionar o Brasil, por diferentes meios e até os dias de hoje, o governo da Itália põe em jogo a soberania política do nosso país. Chegou ao ponto de ameaçar com um boicote à Copa do Mundo de 2014, depois voltou atrás e, no final das contas, isso não fez a menor diferença. Na longa novela do Caso Battisti, não faltou nem mesmo um deputado italiano, Ettore Pirovano, que, em 2009, ao criticar o ministro da Justiça Tarso Genro por sua recusa em conceder a extradição, recorreu ao infame preconceito existente na Europa contra as mulheres brasileiras. “O Brasil é mais conhecido por suas dançarinas do que por seus juristas”, ironizou o parlamentar, do partido neofascista Liga do Norte. Entende-se, aí, o que esse elemento quis dizer por dançarinas.

4) A extradição de Battisti é uma completa aberração do ponto de vista jurídico. Como bem lembrou o jornalista Celso Lungaretti no seu blog Náufrago da Utopia, “a sentença que a Itália quer fazer valer não só prescreveu em 2013 (trocando em miúdos: também está extinta), como se trata de uma condenação à prisão perpétua, ao passo que as leis brasileiras proíbem a extradição de quem vá cumprir no seu país de origem uma pena superior a 30 anos de reclusão”.

5) Finalmente, a extradição de Cesare Battisti representa uma grave violação ao princípio da segurança jurídica. A decisão de Lula, que negou o pedido de extradição em 2010, foi confirmada no ano seguinte pelo STF. Sim, depois de tudo, o decreto de Lula ainda foi submetido ao STF, que o aprovou no dia 11 de junho de 2011, por seis votos contra três. Os seis juízes que votaram a favor da decisão de Lula e pela rejeição das queixas da Itália foram Fux (impressionante!), Lewandowski, Marco Aurélio, Carmen Lúcia, Ayres Britto e Joaquim Barbosa. Em suma: assunto encerrado, julgado em todas as instâncias possíveis muito além do que seria imaginável. Desde então, Battisti já não é mais um refugiado político, e sim um imigrante com residência permanente, condição que mantém até o presente momento. Aceitar sua prisão e entrega a um governo estrangeiro significa admitir que as garantias jurídicas já não valem mais nada no Brasil, que qualquer cidadão ou cidadã pode a qualquer momento ser vítima do arbítrio do Estado, exatamente como ocorreu durante os 21 anos da ditadura militar – os tempos da tirania, que os fascistas estão tentando implantar novamente, mas não conseguirão.

Quando a ideologia ultrapassa a razão, um artigo como este torna-se a normalidade: qualquer dúvida é suprimida, quem pensa como nós não pode errar, é preciso fazer quadrado, defender os princípios contra os ataques de quem erra. E quem erra são todos os outros (todos fascistas), nós nunca.

O que dirão agora estes senhores? Reconhecerão o facto de terem defendido um assassino, alguém que matou Antonio Santoro, guarda prisional? Que matou Lino Sabbadin, um talhante que tinha-se oposto ao assalto da própria loja? Que matou Pierluigi Torregiani, dono duma loja, e feriu o filho Alberto, desde então paralisado? Que matou Andrea Campagna, agente do anti-terrorismo? Que participou em vários assaltos a bancos e lojas (“expropriações proletárias” para seguir o dicionário da Esquerda)? Haverá uma admissão de culpa por parte destes defensores dum assassino?

Os depositários da verdade absoluta

Nem por isso. Aliás, já podemos antecipar qual será a posição assumida por estas almas bonitas nos próximos tempos: Battisti confessou por causa dos brutais métodos utilizados nas prisões italianas, onde guardas corruptas actuam sob a ordem do governo fascista que quer vendetta; uma confissão provavelmente obtida com tortura, ameaças, espancamento, em total desrespeito das mais elementares normas jurídicas e humanitárias (normas que, é bom lembrar, são respeitadas apenas nas prisões durante o governo petista). Se calhar Battisti nem confessou: está a ser vítima dum esquema internacional onde o imperialismo americano quer reduzir a soberania brasileira com a cumplicidade dos fascistas italianos e do Presidente Bolsonaro.

Masturbações ideológicas que não mudam os factos: Cesare Battisti é o cordeiro sacrifical para uma Esquerda que à falta de conhecimento da realidade italiana (ou acham que o “você não mora aqui” vale só para mim?) soma a falta de argumentos e de vergonha. Cesare Battisti é um assassino que o PT encobriu e defendeu ao longo de anos.

Quando uma ideologia, seja ela qual for, toma conta do nosso cérebro e controla o fluxo dos pensamentos, consegue transfigurar até as mais simples relações causa-efeito; a construção de supraestruturas deterministas obrigam a vítima a interpretar a realidade segundo uma óptica distorcida que se auto-alimenta, criando um substrato mitológico que, paradoxalmente, encontra nos seus próprios erros a melhor justificação da sua existência e a prova da sua infalível justeza.

Antídotos contra as ideologias? Só um: cultivar a dúvida, em particular perante os depositários da verdade absoluta, aqueles que nunca têm incertezas, que “sabem como estão as coisas” e que espalham os seus dogmas para dobrar as mentes. A seguir um par de exemplos.

Links: vídeo 1, vídeo 2

Agora Battisti confessa. Se tivesse havido a coragem de assumir as suas responsabilidades, sem esconder-se atrás do intelectualismo e das amizades esquerdistas, poderia contar com o respeito devido a quem decide lutar assumindo as consequências. Mas assim… e paciência se com este artigo o blog irá perder mais uns Leitores. Quem não está pronto para assumir os factos é bom que se mude para outros pastos, o autor agradece.

 

Ipse dixit.

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Fontes: Brasil de Fato

9 Replies to “Cesare Battisti confessa”

  1. Não Max, não vou me mudar para outros pastos porque gosto deste aqui. Fico impressionada com a importância que se dá a este caso. Mais, os que defendem e os que acusam o fazem com uma certeza absoluta. Eu não sei, apenas experiências me afirmam que qualquer pessoa em certas condições, confessa qualquer coisa. Também não sei porque tanta preocupação com essa pessoa a ponto de um governo supostamente esquerdista reconhecê-lo como refugiado político,(Brasil) e outro mais supostamente esquerdista ainda (Bolívia) entregá-lo às autoridades italianas. As provas eu não conheço nem a favor nem contra, mas parece que nesse caso predomina a convicção de quem acusa e de quem defende. Mas tu, pelo tempo que te conheço não és dado a convicções sem provas, e deves conhecê-las, até porque és cidadão italiano. Gostaria de saber mais a respeito.

    1. Muito bem Maria..Lula o defendeu por humanidade..pelo ser humano..mesmo pque ele o Batistti convenceu a todos sua inocência..entao as famílias deviam ter se defendido, enviado cartas.emails explicando a verdade.Mas nada.quem cala consente..era a palavra dele contra a do governo .Até intelectuais o defenderam e renomados..o STF também, mesmo sendo de direita…eu brasileira defendo o Lula preso político sim…muitos como o Temer roubaram bilhões e estão soltos, como vimos ontem..agora um italiano de Portugal vir criticar sem saber do contexto emocional daquele que o defendeu..é o mesmo que defende o atual presidente se é que o Brasil tem um…que como Batistti admira quem tortura e Mata.Aliás está exigindo comemoração da ditadura e da tortura dos anos 70.Aqui também muita gente boa, jovens e crianças foram mortos em 1970…E saíram todos bem..sem prisão perpétua sem nem uma punição como a do Batistti. Não é mesmo..pelo contrário são homenageados pelos militares e pelo bolso naro..até estátua será erguida ao general Ustra… Cada italiano no seu galho..

      1. Olá Anónima!

        “agora um italiano de Portugal vir criticar sem saber do contexto emocional daquele que o defendeu”

        Esta é uma pérola que vou guardar com carinho e de vez em quando vou voltar a lê-la para não esquecer.

        Não importa o que o defendido cometeu, qual o crime: o que conta é o “contexto emocional” daquele que o defendeu. O defendido pode ser o pior dos criminosos, mas se o “contexto emocional” de quem defende for bom, então o defendido tem mesmo que ser protegido, acarinhado. O defendido quebrou as regras dum outro País? Matou quatro inocentes? Não importa: o “contexto emocional” brasileiro tem prioridade.

        Depois há o italiano que fala dum outro italiano que cometeu crimes em Italia. Horror! Mas como se atreve? Só os brasileiros têm direito de criticar os italianos que violaram a lei italiana e que depois fogem para o Brasil para ser defendidos num “contexto emocional “especial”. E, veja-se, um italiano de Portugal! Assim, após o “você não é daqui”, agora temos o “você nem é daí”. Falta só o “você não é” para fechar o blog.

        Li duas vezes porque após a primeira leitura pensei ser um comentário irónico. Mas não era. E, acredite, até custa admiti-lo, mas após ter percebido que não havia ironia o primeiro pensamento que me ocorreu foi “agora entendo porque votaram Bolsonaro”. Isso diz tudo.

        Não importa qual a vossa ideologia, Direita ou Esquerda: abram as vossas mentes porque o mundo não está dividido em dois, com os bons dum lado e os maus do outro. Tentem raciocinar com o vosso cérebro e não com aqueles dos ideólogos porque a guerra verdadeira não é entre Esquerda e Direita. Bom, mas estou a falar para o boneco, cada brasileiro no seu galho, justo?

        Tratei do Brasil simplesmente porque estava envolvido um cidadão italiano. Podem ter a certeza de que o Brasil ficará cada vez menos presente nestas páginas.

        Fui!

    2. Maria!!! Qual outros pastos, tu não podes mudar para outros pastos, és a eminência parda do blog, a alma crítica e pensadora, o precioso elo entre Europa e América do Sul! 🙂

      Quanto ao Battisti. Conheço bastante bem aquela época histórica, não tanto por ter vivido o último período (era demasiado jovem) quanto por ter sempre tentado informar-me. Admito ter uma “pancada” em relação aos “anos de chumbo”, há algo que me fascina. Uma época que acabou há muito; na Italia é vivida como uma parênteses históricas fechada, porque teoricamente está fechada (na verdade ainda há muito para entender daqueles anos, mas este é outro discurso): a maioria dos terroristas estão fora da prisão por terem cumprido a pena, foram reintegrados. Tenho uma meia ideia de visitar um deles na próxima ida à Italia, já tenho o endereço e tudo: só não sei se terá vontade de falar comigo e posso entender que a última coisa que pretende um antigo terrorista é reviver aquele período. Tentaram, faliram, reconheceram os crimes, pagaram em primeira pessoa: na minha óptica merecem respeito porque acreditaram num ideal, lutaram para que vingasse, justo ou errado que fosse não interessa, e pagaram a conta.

      Battisti não, fugiu como um coelho. Típico do oportunista qual sempre foi. Repara: Battisti afirma ter tido apoio no estrangeiro “ideológico e logístico” de “partidos, intelectuais e o mundo editorial”:

      “Eu não sei se essas pessoas já se perguntaram se eu era responsável pelo que estava condenado, mas para muitos não era este o problema. Também fui apoiado porque me declarei inocente […] e porque dei a ideia de um combatente da liberdade”.

      Frases publicadas nos diários de hoje, extraídas dos actos dos interrogatórios, confirmadas pelos advogados de Battisti. Este é a verdadeira traição dele: passou a juventude na tentativa de abater a imagem dum Estado (diz ele) e as relativas estruturas de suporte, as ligações Estado-multinacionais, a exploração do proletariado. O que fez ao fugir de Italia? Refugiou-se na França e explorou a Doutrina Mitterand (“A França avaliará a possibilidade de não extraditar cidadãos de um país democrático que são responsáveis por crimes inaceitáveis”). Eis que de repente o Estado já não é inimigo mas amigo, simplesmente porque não quer fechá-lo numa. Dá para ver quão profundas eram as convicções. Para obter as ajudas tem só que declarar-se inocente e fazer o papel de “combatente da liberdade”. Fantástico.

      A vida de Battisti é tudo um saltitar de País em País. Viveu no México, deve ter visto a violência, a miséria, o drama do mercado da droga: mas tudo isso passou-lhe ao lado, já não dava para combater as injustiças, o que contava era apenas escapar à prisão. Até encontrar o Brasil, que permitiu que vivesse sem pensar demais naquilo que fez.

      Cara Maria, que abismo entre os homens das Brigadas Vermelhas que assumem os actos e as relativas consequências, um Vincenzo Vinciguerra (este da extrema Direita) que afirma “Estou preso mas continuarei aquela guerra que comecei há 40 anos e que nunca acabará” e um pigmeu como Battisti. Apesar da raiva e da desaprovação que ainda sinto em relação ao movimento terrorista, não posso não reconhecer o valor das pessoas, a coerência, a coragem.

      Mas o percurso cobarde de Battisti não deve surpreender. Contrariamente a outras pessoas que escolheram a luta armada mesmo pertencendo a famílias ricas (Marco Donat Cattin, por exemplo, era filho dum Ministro), Battisti era conhecido pelas autoridades já antes de entrar na luta armada: como afirma Arrigo Cavallina, seu colega e chefe nos PAC, Battisti “era um bandido não de grande calibre”, um delinquente dos subúrbios. Coisa que Battisti nega apesar dos testemunhos e das evidências. Battisti sempre foi e permaneceu um criminoso comum “emprestado” à política, pelo menos até quando esta conseguiu proporcionar-lhe o que ele desejava.

      Uma vez acabada a luta armada, Battisti continuou a política mas desta vez do lado dos vencedores, apoiando-se no intelectualismo daquela Esquerda que antes dizia combater. Porque um dos alvos preferenciais da luta armada da Esquerda italiana era a Esquerda parlamentar: nos anos ’70 os Mitterand, os Lulas, as Dilma teriam sido os seus alvos. E é espantoso, aos meus olhos, ver a rapidez com a qual Battisti saltou a barricada para pôr-se ao lado daqueles que até poucos meses antes combatia. Então os intelectuais da Esquerda já não eram “servos dos serviços secretos americanos” mas amigos que forneciam apoio logístico e económico. As leis do Estado já não eram feitas para enganar o povo mas calhavam mesmo bem para evitar a extradição.

      Quanto ao processo contra Battisti: queria saber quantos entre os petistas que falam de “falta de provas” leram as actas processuais. Eu li as actas porque, como já lembrado, tenho um “pancada” com os “anos de chumbo”. E li as actas só do processo principal, porque na verdade os processos contra Battisti foram sete (das quais saiu sempre condenado). Dá para ver o tamanho da alegada “conspiração” contra Battisti? Mas há uma coisa que nenhum petista consegue explicar: qual a razão desta alegada fúria toda contra Battisti por parte do Estado italiano? Na verdade não há fúria nenhuma: os vários governos limitaram-se a pedir a extradição porque é isso que prevê o Código de Procedimento Penal italiano. A chegada de Battisti em Italia ocupou as primeiras páginas dos diários no dia em que efectivamente ele chegou, depois desapareceu. Hoje tive dificuldade em encontrar a confissão de Battisti na edição online de Il Corriere della Sera: fica quase no fundo, depois da notícia do “Príncipe Charles (com Camilla) ao volante dum carro antigo em Cuba” e “Bucha e Estica novamente juntos no cinema”.

      Nenhuma surpresa: Cesare Battisti nunca foi um líder no âmbito dos PAC, nunca foi na posse de secretos ou algo do género: sempre foi um militante como outros, nunca um chefe. A sua confissão serve para esclarecer as dinâmicas dos quatro homicídios nos quais participou (e confirmados nos anos por três testemunhos oculares) mas não haverá nenhuma revelação “bombástica” porque Battisti não tem nada mais para dizer. Os antigos líderes dos PAC foram presos há tempo: Arrigo Cavallina e Giuseppe Memeo tinham sido presos já em 1979 (e ambos estão livres hoje, após terem cumprido a pena), já descreveram tudo acerca dos PAC desde a organização até os membros, passando pela logística, a reconstrução das ações, tudo.

      Falar de “fúria” ou “perseguição” é simplesmente ridículo: o que houve foi um Estado que quis fazer respeitar as sentenças de sete tribunais e nisso foi impedido também por causa da doença ideológica esquerdista no Brasil. E aqui ligo-me à tua observação: também eu não sei porque tanta preocupação com essa pessoa a ponto de um governo supostamente esquerdista reconhecê-lo como refugiado político. Para mim é um mistério.

      Fui!

    1. Muito obrigado Sylvio!

      Olhem! Então os estrangeiros podem falar das coisas brasileiras? Que coisa curiosa.

      Quanto ao conteúdo: triste. Estamos perante a paranoia típica dos ideologicizados que veem inimigos em todos os lugares, que conseguem ler e lembrar só dalguns trechos lidos, que falam de “regime pior que fascista, nazista” no Brasil enquanto difundem livremente as suas ideias na internet e nem se apercebem de quão ridículos conseguem ser.

      Estou farto destas pessoas que em nada podem ajudar para um futuro melhor. Aliás, são mesmos indivíduos assim que trabalham (alguns de forma inconsciente, outros nem tanto) em favor da manutenção da actual situação, prolongando até o infinito o antigo choque entre Esquerda e Direita. Um choque bom para os livros de História, que a realidade já ultrapassou com os factos, mas que o Poder usa para manter ocupados os cerebrinhos das pessoas mais frágeis.

      Mas alguém acha que na Silicon Valley ou em Pequim o discurso seja “Esquerda contra Direita”? Enquanto no Brasil masturbam-se com Lula e Bolsonaro, a China está a construir a nova via da seda, algo que não tem cor política mas que será uma das mais poderosas armas comerciais do planeta. Aquele é o futuro.

      Enquanto no Brasil fazem live-chat para discutir do socialismo numa Venezuela que socialista nunca foi, na Italia encontram-se online pessoas para falar de MMT, a Modern Money Theory, e temos o primeiro governo que não é nem de Esquerda e nem de Direita (e que, dito entre nós, até trabalha bem).

      Desçam da árvore, caiam na realidade antes que a realidade caia em cima das vossas cabeças, porque neste caso um Bolsonaro será o mal menor.

      Fui!

      1. Sim existe, porquê a razão do MMT por exemplo?
        Existem metodologias diferentes e nem todas procuram os mesmos objectivos numa sociedade cada vez estratificada.
        A ideia não é ao menos diminuir essa estratificação?
        Ninguém pelo que vejo é detentor de verdades absolutas, e aqui por exemplo o site/youtube 24/7(que muito aprecio) em causa falha e muitos outros, porque se agarra à ideologia e não a algo concreto, ora mas não são eles próprios como outros veículos, muitos outros e vai aumentar contra(e cheios de razão) do tal de lawfare que destrói tudo por onde passa. ex: lava jato (quantos perderam trabalho, quantas empresas foram destruídas, vidas destruídas etc…?), alias em pratica em quase toda a america latina. E isso na Europa, é/seria bom? Alias em Itália foi o que se viu.

        O MMT é baseado em grande parte em Keynes.

        Ora o Ji Ping visitou a França o obstáculo (vista por olhos alemães, porque será? Macr/roth) dos novos corredores da seda a seguir foi a Itália um dos mais receptivos (excepto um tal de Silvini e congéneres que estão ligado a quê? não é a tal de ideologia?).

        Silicon Valley: rotfl

        Caro Max concordo com tudo exposto perante as evidencias. Nunca percebi, podem existir ou existiram razoes alem do mencionado acima, algo que se passou no passado com outros ex: espanhóis barrados sem razão aparente nos principais aeroportos, reciprocidade perante a forma como foram tratados brasileiros em Espanha nos aeroportos. Porque o Ronald Biggs passeava alegremente em Copacabana, mesmo com pedidos da Interpol, Scotland Yard etc? Não existia acordo de extradição (simples).
        Intromissão excessiva que resultou no oposto, é bem possível…
        Nesse caso passa-se com uma vassoura e não existem o que quiserem chamar projectos ou visões diferentes, é chamar o que quiser, até porque variam de local para local, aliás quem se opõe a MMT é a ultrapassada, testada e falhada escola Austríaca(relíquia do passado) que fica nos EUA(!) e seus defensores acérrimos.
        São de direita, esquerda, frente, trás ou algo sem nome. A intenção é a do costume assim como os Chicago boys e outros que tais…chamar a gosto, eu sei o que são e que ideias e ideais promovem. Se calhar fica melhor com pontos cardeais.

        abraço

        Fui!

        https://www.rtp.pt/noticias/mundo/planalto-confirma-bolsonaro-incentiva-militares-a-comemorarem-ditadura_n1137350

        N

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