A pré-história dos outros

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Foto original de Olivier Guillard em Unsplash

…e tudo começa com uma pedra. Neste caso, uma pedra plana e bem sólida. O macaco capuchinho (também conhecido como macaco-prego) coloca a noz no centro da pedra, depois agarra numa outra pedra maciça e bate com força na casca. É um movimento fluido e limpo porque repetido inúmeras vezes. A noz não quebra, o macaco insiste com calma até a casca ceder.

Há quanto tempo os macacos utilizam pedras? Normalmente, quando observamos o comportamento dos animais, não pensamos na dimensão temporal. Mas muitos dos animais que usam ferramentas (especialmente os primatas) o fazem porque a técnica foi uma transmissão cultural. Isso é: o método foi descoberto e transmitido através das gerações.

Quantas gerações? E como mudam as culturas dos animais? Podemos falar em Histórias e Pré-Histórias dos animais? Sim, com certeza.

O monólito de pedra

Também no caso do Homem tudo começa com uma pedra. As primeiras ferramentas que conhecemos da nossa história são pedras: provavelmente havia também instrumentos de madeira, mas este é um material perecível e não resistiu ao passar dos milénios. Durante muito tempo pensámos que a capacidade de criar instrumentos fosse uma “linha vermelha” que diferenciava o Homem do resto dos animais. No filme 2001 de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, um monólito preto leva até um grupo de macacos a habilidade de usar instrumentos, aquela centelha sobrenatural que irá separá-los de outras formas de vida.

Mas era uma visão errada: este privilégio, que parecia tipicamente “humano”, só humano não era. E isso ironicamente foi descoberto nos anos ’60, enquanto a obra-prima de Kubrick tomava forma: na altura, Jane Goodall descreveu como os chimpanzés escolhem e adaptam ramos para extrair comida dos formigueiros.

Dúvida: mas é “cultura” ou será só instinto? Não, não é apenas instinto: é transmitido através das gerações. Os chimpanzés que vivem nos dois lados dum rio podem ter culturas diferentes, usar ferramentas ou não, usá-las de maneira diferente; e o mesmo se aplica a outras espécies, como os orangotangos. Se fosse instinto, seria comum no interior da mesma espécie.

Pelo que: podemos enterrar o monólito de Kubrick debaixo das pedras que os chimpanzés da Guiné usam para quebrar as cascas de nogueira. Mas atenção porque as pedras enterradas têm uma característica interessante: ficam.

Panda e lascas

A história da arqueologia não humana começa a partir da Panda oleosa, que não é um ursinho gorduroso mas uma árvore típica da África e da Ásia. As nozes da Panda oleosa são particularmente rijas mas delas se alimentam os chimpanzés do Parque Nacional Taï, na floresta tropical da Costa do Marfim, na África. Uma árvore em particular, conhecida como Panda 100, tinha alimentado os chimpanzés durante pelo menos setenta anos antes de morrer em 1996. Com a morte da árvore, os animais abandonaram o local, deixando para trás os seus artefactos.

Mais tarde, três pesquisadores (Julio Mercader, Melissa Panger e Christophe Boesch) têm a ideia de espreitar em volta de Panda 100. Se os chimpanzés tinham-se reunido para partir nozes debaixo da árvore, porque não tentar explorar os traços da presença deles com as mesmas técnicas que os arqueólogos usam para os locais da pré-história humana? Resultado: 40 quilos de cascas de nozes e 4 quilos e meio de seixos fracturados, além de seis pedras usadas como uma bigorna. Foi a primeira vez em que foram escavados e classificados achados arqueológicos de uma espécie não humana.

Pode fazer sorrir ouvir falar de “arqueologia” referindo-se às pedras usadas por um macaco. Mas não há muitas razões para sorrir: um arqueólogo inexperiente poderia ter acreditado num precioso e antigo assentamento da pré-história humana em volta de Panda 100. Os subprodutos líticos da quebra das nozes efetuada pelos chimpanzés ficam, por tamanhos e formas, nos padrões observados no repertório tecnológico dos primeiros hominídeos. Nomeadamente, os chimpanzés praticam actividades culturais muito parecidas com algumas ocorridas no período Olduvaiense (Paleolítico Inferior). Dito de forma mais simples: a cultura dos chimpanzés é parecida com aquela dos homens de 500.000 anos atrás.

Mas os chimpanzés não são os únicos primatas que criam instrumentos “humanoides “. A questão torna-se ainda mais complicada quando consideramos que os macacos-prego produzem lascas de pedra, algo que até agora pensava-se ser apenas uma característica dos hominídeos do Pleistoceno (2.5 milhões de anos atrás). Deve ser dito que os nossos antepassados ​​faziam isso para criar instrumentos afiados, enquanto no caso dos capuchinhos parece um subproduto da maneira como as pedras são partidas para poder lamber a poeira produzida (e não fica claro por qual razão façam isso). O facto é que distinguir os fragmentos de pedra dos primeiros hominídeos daqueles dos macacos é muito difícil, o que nos diz duas coisas: primeiro, que as ferramentas encontradas e que interpretamos como “humanas” não são necessariamente tais, pois podem ter sido obras de macacos; segundo, que o facto dos nossos antepassados ​​terem produzido aquelas ferramentas não significa que fossem necessariamente tão especiais. No nível cognitivo não eram muito diferentes dos chimpanzés que quebravam as nozes perto de Panda 100.

Não é apenas imitação

Como sempre, uma dúvida: e se aqueles de chimpanzés e macacos-prego fossem apenas comportamentos recentes, imitações provocadas pela coabitação com o homem? Faz sentido: o macaco pode observar o homem e decidir imita-lo sem ter nocção do que realmente está a fazer. Mas é uma dúvida que desapareceu em 2007, quando no sito de Noulo (sempre na floresta Tai) foram desenterrados achados semelhantes aos de Panda 100, mas que remontam a 4300 anos atrás, muito antes dos seres humanos ocuparem aquela área.

Dúvida da dúvida: não poderiam ser achados humanos que, dada a semelhança, atribuímos aos macacos? Não, porque várias pistas descartam esta hipótese. Em primeiro lugar, há 4300 anos atrás o homem encontrava-se já num estado evolutivo sucessivo (já não partia pedras para obter lascas), depois o tamanho das rochas é eloquente: os chimpanzés têm mãos maiores e uma força incrível, portanto escolhem rochas maiores e mais pesadas do que os humanos.

Os resultados de Noulo ensinam que a Idade da Pedra dos chimpanzés começou há pelo menos 4300 anos atrás, que o traço comportamental de quebrar as nozes com pedras foi transmitido ao longo de mais de duas centenas de gerações, e que a cultura material do chimpanzé tem uma longa pré-história cujas raízes estão apenas agora a aparecer. Os chimpanzés têm culturas, não falamos apenas de modas que nascem e morrem. São tradições genuínas e às vezes muito antigas. Há povos de chimpanzés que ainda seguem o fio de uma verdadeira Idade da Pedra transmitida durante milénios. E talvez mais.

A tecnologia mais antiga

Com a arqueologia foi possível construir uma linha temporal da nossa espécie. Uma linha incompleta, com muitas zonas cinzentas ou até vazias, onde abundam as dúvidas e provavelmente errada em alguns aspectos até importantes: mas mesmo assim foi construída uma ideia temporal de base, o que é já algo. Isso mostra que os outros primatas podem ter uma trajetória histórica também. Quão profunda?

As escavações chegam até alguns milhares de anos atrás, mas as várias subespécies de chimpanzés são provavelmente mais velhas de que o próprio Homo sapiens. Na evolução dos seres humanos é frequente falar de “modernidade comportamental”, ou seja, o momento em que os nossos ancestrais começaram a mostrar o conjunto de traços comportamentais e cognitivos compartilhados por todas as sociedades humanas de hoje. Isso é algo que aconteceu, pelo que sabemos, bem depois do surgimento do Homo sapiens como uma espécie definida morfologicamente: antes apareceu a estrutura do homem moderno, só depois foi a vez do comportamento “moderno”. Existe um equivalente para outros primatas, um momento na história deles em que se tornaram “modernos”?

A resposta é clara: boh? Nós temos ideias. É possível que aquelas dos primatas não-humanos sejam de longe as mais antigas culturas do nosso planeta. O que faz todo o sentido: antes apareceram os primatas, depois o Homo sapiens (que sempre primata é).

Escreve Michael Haslam, da Universidade de Oxford:

Suponho que o uso de ferramentas de pedra por parte dos macacos-prego não possa ter mais de 700.000 anos, e o mesmo comportamento dos chimpanzés na África Ocidental talvez tenha pouco mais de 500 mil anos.

Mas atenção:

Pode ​​ter havido inúmeros eventos de descoberta, perda e redescoberta tecnológica.

É possível que o uso de ferramentas tenha raízes ainda mais remotas? Sim, é possível. Graças aos achados arqueológicos, sabemos que os macacos-prego usam ferramentas de pedra há pelo menos 700.000 anos, mas acredita-se que os primatas utilizem tais instrumentos há muito mais tempo. Os macacos-prego são macacos do Novo Mundo, parentes distantes dos chimpanzés da Nova Guiné (e dos humanos), separados por algo como 30 ou 40 milhões de anos. No cenário mais extremo, o uso de ferramentas pode ter sido um trato original, mantido desde os ancestrais desses dois ramos separados (chimpanzé e macacos-prego) numa cultura ininterruptas que afundaria as suas raízes no Eoceno (uma era compreendida entre cerca de há 55 milhões de anos e cerca de há 36 milhões de anos).

Isso é possível? Teoricamente sim, na verdade parece improvável. Existem poucas espécies que usam ferramentas de pedra: por exemplo, enquanto os chimpanzés usam ferramentas de pedra, os seus parentes próximos bonobo não as usam. Mais plausível é que os instrumentos foram descobertas independentes de diferentes populações ao longo do tempo. Isso não exclui que até macacos de 20 ou 30 milhões de anos atrás pudessem ter descoberto como usar pedras para quebrar nozes, da mesma maneira como fazem os macacos-prego no Novo Mundo e os chimpanzés na África hoje. Algures, numa camada de Oligoceno ou de Mioceno, os arqueólogos poderão um dia descobrir os restos da tecnologia mais antiga do planeta e esta não pertencerá ao Homo sapiens. Mas para já são hipóteses, não certezas.

O planeta dos macacos

A arqueologia não-humana obriga a colocar em perspectiva a aurora da nossa evolução. Somos os herdeiros de uma linha evolutiva na qual a mesma faísca cognitiva apareceu várias vezes ao longo da história: no nosso caso aquela faísca gerou um salto para frente.

Sempre Michael Haslan:

Os hominídeos têm preenchido o nicho dos primatas cognitivamente avançados, de grandes dimensões e que têm usando ferramentas ao longo dos últimos milhões de anos, o que teve um impacto negativo sobre a evolução dos nossos parentes próximos […] É possível que nós somos a razão pela qual os chimpanzés modernos têm uma taxa de evolução cultural baixa. A sobrevivência das espécies de primatas na África é de alguma forma relacionada com a capacidade de coexistir com os hominídeos.

Apesar disso, hoje sabemos que a nossa história cultural não é única. A nossa pré-história é compartilhada: é parte de um quadro de outras pré-histórias que nasceram e morreram muitas vezes na história da Terra, só agora começamos a desvendar este aspecto. A história e o significado da nossa espécie só fazem sentido dentro desse cenário.

Fala-se muito de Antropoceno nestes dias: um termo usado por alguns cientistas para descrever o período mais recente na história da Terra, quando as actividades humanas começaram a ter um impacto global significativo no clima da Terra e no funcionamento dos seus ecossistemas. Talvez devêssemos repensar este conceito porque não fomos nós os primeiros a alterar conscientemente o ambiente.

Foi um macaco, quando teve a ideia de esmagar uma noz com uma pedra, que alteou o seu mundo e, sem ter consciência disso, começou a alterar a história do planeta. Este planeta não foi criado para nós: os seres humanos são apenas a mais recente (e nem única) expressão de uma era antiga, onde os macacos tomaram nas suas mãos, literalmente, o destino deles.

 

Ipse dixit.

Fontes: Nature, Current Biology, PsycNet, University of St Andrews School of Psychology – Cultures in Chimpanzees (ficheiro Pdf, inglês), Science – Orangutan Cultures and the Evolution of Material Culture, Science – Excavation of a Chimpanzee Stone Tool Site in the African Rainforest (ficheiro Pdf, inglês), Scientific American, PNASMichael Haslam – Lydia V. Luncz – Richard A. Staff – Fiona Bradshaw – Eduardo B. Ottoni – Tiago Falótico: Pre-Columbian monkey tools (via Current Biology), Journal of Evolutionary Biology – Combining fossil and molecular data to date the diversification of New World Primates,

3 Replies to “A pré-história dos outros”

  1. Grande Michael Haslan baseado em pedras supostamente usadas por primatas faz uma investigação com 500 milhões de anos, estou estupefacto , o homem é um génio, sim porque consegue ser professor universitário e ganhar a vida assim, e não é que é mesmo verdade, fala-se muito de Antropoceno nestes dias… Foi portanto um macaco que começou a alterar a historia do planeta ? Grande Michael Haslan!!!
    Obrigado Max por esta partilha, se é possível ser professor universitário assim então há esperança para os milhares de desempregados que anseiam por um rumo a dar as suas vidas.

  2. Esse assunto é muito complicado para mim, Max: o que diferencia esses macacos daqueles castores que cortam paus e fazem diques e pontes? O que os diferencia das formigas que são capazes de usar elas próprias, umas com as outras, para fazerem pontes? Parece que diante de um problema de sobrevivência a bicharada também inventa e transfere seus inventos para gerações posteriores. Mas já sabemos que o bicho homem não da importância aos inventos dos “outros”, isso, sem dúvida. Também não sei porque outras espécies “pararam” de inventar, aparentemente, enquanto o bicho homem não parou.

    1. Há também aves muito inteligentes e porcos já para não falar dos meus preferidos, os polvos! Eu diria que o que distingue o homo sapiens dos outros bichos é a linguagem verbal. Qual a relação da linguagem verbal com o tamanho do cérebro? Será que os dois se potenciam?

Obrigado por participar na discussão!

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