Google, os drones e nós

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Google: o que seria o mundo sem ele?
Talvez um lugar um pouco melhor?

Este parece ser o pensamento de Andre Damon que em Tlaxcala dedica um artigo ao relacionamento entre o gigante da informática e o Ministério da Guerra americano. Por exemplo, falamos de drones, aqueles robotzinhos que esvoaçam e, entre as outras coisas, disparam e matam: a empresa controladora do Google, a Alphabet, confirmou ter fornecido software para identificar alvos ​​no programa de drones do governo dos EUA. O que não é nada simpático.

Desde o lançamento do tal programa, em 2009, os EUA afirmam ter assassinado cerca de 3.000 “combatentes”. Mas documentos militares internos mostram que, por cada pessoa atacada por um drone, outras nove são mortas, o que significa que o número de vítimas da campanha de Washington ao redor do mundo pode ter totalizado dezenas de milhares de mortos inocentes.

É simples matemática: 3.000 x 9 = 27.000

Quem eram estas outras nove pessoas mortas? Eram familiares, amigos, colegas, indivíduos que passavam por aí, talvez com o smatphone na mão e o motor de pesquisa Google no ecrã.
A cumplicidade do Google com o programa de drones não caiu bem na mesma empresa: produziu uma certa indignação entre os funcionários (mas não entre o público, que destas coisas não é informado). Dado que Google é sensível, publicou uma declaração na qual esclareceu que a sua colaboração com os militares “é exclusivamente para fins não ofensivos”, explicando também que “a tecnologia sinaliza imagens para análise humana”.

Para já seria interessante saber donde vem a certeza acerca dos “fins não ofensivos”: foram os militares a dizer isso? “O vosso software será utilizado só para a defesa, juramos solenemente, e mais: que possa cair um relâmpago do céu para incinerar-nos todos caso esta seja uma mentira”. Deve ter sido algo parecido.

Depois o que é uma tecnologia que “sinaliza imagens para análise humana”? Um programa que diz ao operador “Olha lá, encontrei esta imagem, espreita que pode ter algo de interessante, que achas”? Mas isso existe já: só para fazer um exemplo, é desta forma que foram descobertos os planetas anões do Sistema Solar desde pelos menos o ano de 2002.

Esta declaração da Google é um pouco como dizer “Não, senhor juiz, eu não participei no assalto: só conduzi o carro utilizado na fuga”.

A verdade verdadeira? Está toda neste número: 7.4 biliões. É o montante que a Defesa tem gasto no âmbito da Inteligência Artificial (AI) no ano passado, é dinheirinho boa parte do qual está destinado às empresas privadas: e para 2018 é previsto acrescentar ainda uns trocos. Muito dinheiro. Que atrai como mel quem for dotado de sistemas AI mais avançados do que o Pentágono. Alguns nomes? Google, Amazon e Nvidia.

Curiosamente, estes gigantes da tecnologia (mais Facebook e Twitter) decidiram impor medidas de censura ao mesmo tempo em que o Pentágono concluiu ter entrado numa “corrida dos armamentos baseada na Inteligência Artificial” como confirmou o Wall Street Journal neste mês. O Pentágono projetou a chamada estratégia do “Terceiro Deslocamento” para superar a ameaça da China, trabalhando em “sistemas autónomos de aprendizagem, processos decisórios colaborativos homem-máquina, operações humanas assistidas, operações avançadas autónomas”, bem como “armas autónomas e interconectadas”. E Google afirma que os seus programas limitam-se a sinalizar ao operador só as imagens mais simpáticas…

Numa conferência no ano passado, o Coronel Drew Cukor, chefe do “Projeto Maven” (do qual Google é um dos principais actores) disse que os Estados Unidos estavam no meio da “corrida de armas artificiais”, acrescentando:

Muitos entre vocês terão notado que Eric Schmidt agora está a definir Google como uma empresa de inteligência artificial, não uma sociedade de dados.

E mais:

Não há uma caixa preta que ofereça o sistema de inteligência artificial do qual o governo precisa. Os principais elementos devem ser reunidos e a única maneira de fazer isso é com parceiros de negócios.

Tudo isso significa que seria deveras ingénuo pensar em Google como a empresa detentora do motor de pesquisa, de Youtube, de Chrome ou de Blogger. Google é muito mais do que isso: é uma empresa privadas sediada nos Estados Unidos e directamente envolvida nas políticas daquele País. Também nas políticas da Defesa (ou, para melhor dizer, da guerra).

Isso é algo que vai em frente pelo menos desde 2015: o Pentágono estabeleceu uma série de parcerias com a Sylicon Valley, criando uma ferramenta de financiamento público-privada conhecida como Defense Experimental Innovation Unit (“Unidade de Inovação Experimental de Defesa”, DIUx), localizada a poucos minutos da sede principal de Google em Mountain View. Em 2016, Eric Schmidt (chefe de Google até 2017, de Alphabet desde então) encontrou Ash Carter (Secretário da Defesa até 2017) no Comitê Consultivo de Inovação do Departamento da Defesa.

No mesmo ano, o Pentágono criou uma entidade chamada Defense Innovation Advisory Board (“Conselho Consultivo de Inovação da Defesa”) para “trazer a inovação tecnológica e as melhores práticas de Sylicon Valley para os militares dos EUA”. O Presidente deste Concelho? Um dos administradores de topo da Google, Eric Schimdt.

Mas há outra forma de colaboração entre Google e o Pentágono que, por enquanto, não é possível provar, só intuir: nos bastidores, é bem provável que uma grande quantidade de dados pessoais sensíveis seja transmitida aos militares e às agências de inteligência para fins de vigilância e monitorização. A integração de empresas como Google no que antes era conhecido como o aparato de inteligência do exército cria um vasto sistema de controle de nível estatal até então desconhecido na história da humanidade. O recente caso Facebook-Cambridge Analytica é uma brincadeira de criança em comparação.

As informações pessoais transmitidas pelos gigantes da informática constituem um formidável instrumento que vai em dois sentidos ao mesmo tempo: monitoriza o inimigo, identificando os possíveis alvos dos drones e monitoriza os cidadãos, medindo os seus humores, adaptando a narrativa oficial e, nos casos limites, silenciando os “alternativos”.

Censura e vigilância são as pedras angulares desta nova ligação entre o exército, a tecnologia e a inteligência. É assim que será tratada a frente interna: a ascensão do sentimento anti-guerra será combatida pela censura em massa, auxiliada pela inteligência artificial, acompanhada por perfis políticos baseados nas mensagens que circulam nas redes sociais.

Funciona? Sim, funciona e muito bem. Quantos ficaram devastados com a notícia que Facebook recolhe os dados sensíveis de milhões de pessoas? Muitos, sem dúvida. Quantos ficaram devastados com a notícia que Google, Amazon, Nvidia e a mesma Facebook colaboram de forma activa no Ministério da Guerra americano? Poucos, muito poucos, porque ninguém os informou.

Google e nós

Qual a nossa reação enquanto cidadãos perante tudo isso? Depende da percepção que tivermos do perigo. Se o perigo for percebido como “nulo” ou “pouco provável”, a maioria das pessoas, mesmo não concordando com a atitude de Google e de outros gigantes informático, na realidade não tomará nenhum tipo de precaução.

Google, na vida de todos os dias, é percebido como “bom”, pois oferece gratuitamente serviços úteis que todos utilizamos: o motor de pesquisa, GMail, os mapas, os vídeos de Youtube, a recolha online das fotografias ou de documentos, Android e as suas aplicações; até o presente blog vive no universo Google, usufruindo da plataforma Blogger. Tudo isso é bom, tudo isso é grátis. Ou assim parece.

Observem esta imagem:

Não parece, mas este é o bom blogueiro em Lleida, Espanha, enquanto passeia Leonardo que, como sabem
os Leitores mais antigos, é a mente que fica atrás do blog. É o blogueiro mas
não agora: em 2016. Eu nem me lembrava de ter ido passear o Leo em
Lleida, mas Google sabe. Sabe e lembra. Tudo.

É suficiente ter o smartphone no nosso bolso. O smartphone está ai, quietinho, e transmite todos os nossos movimentos. Procurando no arquivo de Google, encontrei as minhas viagens, de milhares de quilómetros ou dezenas de metros, não importa, pois tudo fica gravado.

Tiramos uma fotografia?

Google associa a nossa fotografia ao lugar onde estivemos. Procurando no arquivo de Google, encontrei as minhas paragens em lojas, áreas de serviço, restaurantes, parques, até hospitais.
Os serviços de Google (ou Twitter, ou Facebbok, etc.) não são gratuitos: são pagos e muito bem. Pagamos com a venda da nossa privacidade, relatando diligentemente tudo o que fazemos, vemos, compramos.  

Agora, tentamos entender o alcance disso. Um gigante informático que, juntamente com outras empresas (Amazon, Facebook, Nvidia, Twitter…), detém um imenso arquivo com a vida pormenorizada de biliões de cidadãos e decide juntar-se a um dos principais dispositivos bélicos do planeta. Conseguimos ver finalmente o tamanho da coisa?

Hoje os drones atingem “terroristas” em Países longínquos e nós nem demos por isso porque já estamos habituados (e os media já nem relatam): conseguem lembrar o nome dum dos 3.000 objectivos abatidos desta forma? Claro que não. Até há quem veja nestas operações uma coisa boa, afinal é a guerra contra o “terror”. Mas se amanhã os drones começassem a visar alvos mais perto de nós, no interior do nosso País? O que poderia impedir isso? As leis? Nos EUA, em ocasião do 11 de Setembro de 2001, as leis foram mudadas dum dia para outro: em caso de “emergência”(real ou fictícia) o mesmo aconteceria aqui. E enquanto nós sabemos pouco ou nada acerca dos nossos “protectores”, eles já sabem tudo de nós.

Links

Nota final: para verificar o que Google sabe acerca de nós podemos visitar alguns links e, eventualmente, mudar as opções. São estas páginas “escondidas”, no sentido que não é divulgado o link para visita-las. Obviamente é preciso antes fazer o login com a conta de Google.

Ipse dixit.

Fontes: The Wall Street Journal, Tlaxcala

5 Replies to “Google, os drones e nós”

  1. Aproveitando a temática da publicação, caso pretendam desactivar as câmaras fotográficas do smartphone, basta instalar a aplicação open source "NoCam Camera Blocker", que para além de cumprir a sua função perfeitamente não necessita de qualquer permissão para ser instalada respeitando assim a privacidade do usuário:

    https://play.google.com/store/apps/details?id=mandarin.camerablocker

    Não sei se o Max e os leitores sabem, mas quando se efectua uma cópia de segurança das configurações e ficheiros do smartphone, a mesma vai directamente para os servidores da Google, ficando armazenada no Google Drive; para impedir que isso aconteça é necessário seguir os seguintes passos:

    1- Ir às definições do smartphone
    2- Procurar por “cópia de segurança”
    3- Desmarcar a opção que autoriza o envio do ficheiro da cópia de segurança para os servidores da Google

    (Isto é um pequeno tutorial efectuado num smartphone Huawei, que provavelmente servirá para as restantes marcas)

  2. JF obrigado, agora várias vezes aparece se aceitamos ou não as novas condições e como dizem usar dados. Maioria não. Mas se isso agora parece um padrão vou experimentar.

    abraço
    nuno

    1. As aplicações e as chamadas startup's utilizam o acesso aos dados dos usuários para se financiarem.

      Uma aplicação ou startup, não é um sucesso no mercado nem factura a grande escala por ter sido obra de uma mente brilhante, ou pelo facto ser extremamente útil para o dia-o-dia de quem utiliza os serviços das mesmas.

      De forma ilegal e violando gravemente a privacidade dos cidadãos, colectam os seus dados para depois os vender, sem fornecer qualquer contra-partida financeira aos detentores desses mesmos dados.

      É uma forma fácil e ilegal de ganhar dinheiro.

Obrigado por participar na discussão!

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