E quando pensamos ter atingido o fundo, eis que alguém começa a cavar.
JP Morgan, a infelizmente conhecida JP Morgan, é a maior fornecedora de vales-refeição dos Estados Unidos.
Sim, leram bem. Os desempregados, os sem abrigo, todos os que estão a atravessar momentos de dificuldades e não conseguem juntar dinheiro suficiente para a comida, recebem os vales-refeição a partir desta sociedade financeira, uma das responsáveis pela actual crise.
“Wow”, pode pensar o leitor, “afinal também eles têm um coração!”.
Eh não, o coração aqui não entra.
Mas continuamos.
JP Morgan ganhou o concurso para a distribuição dos vales em 26 Estados, além do Distrito de Washington.
Mas a coisa divertida é que a JP Morgan recebe uma compensação por cada vale entregue.
Isso mesmo: mais vales = mais lucros para a empresa.
Ou, dito de outra forma: mais Americanos famintos = mais receitas para JP Morgan.
No vídeo que é possível encontrar neste link (vídeo em língua inglesa), o director geral da JP Morgan, Christopher Paton, admite que este é “um negócio muito importante para JP Morgan” e está fazendo muito bem.
Considerado que o número de Americanos que dependem dos vales tem crescido exponencialmente, desde 26 milhões em 2007 até os 43 atuais, é fácil imaginar o aumento dos lucros neste sector para o JP Morgan.
O director da JP Morgan na entrevista faz o seu melhor para realçar os aspectos positivos desta situação, mas é realmente assustador que um grande banco de Wall Street (e não um banco qualquer…) possa lucrar com o sofrimento de dezenas de milhões de Americanos.
Não que isso seja uma novidade: é uma novidade a forma tão descarada.
Paton afirma que ainda pode haver “crescimento” neste sector. E não se percebe se esta é uma simples previsão ou uma ameaça.
Mas como funciona a coisa?
Simples: os Estados descobriram que é possível poupar dinheiro com a privatização do serviço.
Então, liga-se para o centro de atendimento da JP Morgan.
Ao fazer isso, há uma boa possibilidade de ser ajudado por um funcionário dum call center da Índia.
Pois a JP Morgan descobriu que é possível poupar dinheiro com a deslocação do serviço para o estrangeiro.
A mesma empresa que distribui os vales-refeição para os desempregados, cria lugares de trabalho, sim, mas no estrangeiro.
Quando a ABC News solicitou esclarecimentos sobre esta questão, a empresa não especificou quais chamadas são desviadas para a Índia e quais são tratadas dentro dos Estados Unidos.
Justo: afinal o segredo é a alma do negócio.
De momento a JP Morgan é ainda a única empresa a ter call centers fora das fronteiras que operam no âmbito da assistência pública. Após pressões políticas, a empresa está agora a deslocar alguns destes call-center no interior do País; no entanto, este é um óptimo exemplo de como a “economia global” está a afectar a classe média americana.
Mas não é tudo.
A JP Morgan admitiu ter erradamente impossibilitado o resgate da hipoteca de dezenas de famílias; e ter imposto custos excessivos a outros milhares de famílias.
A JP Morgan, olha o acaso, é a mesma empresa envolvida no escândalo das execuções hipotecárias “fáceis”.
Mas não a única.
Goldman Sachs, Citibank e Morgan Stanley têm participado activamente na actividade.
Renda não paga? Casa penhorada, já.
Pagar a penhora? Talvez, mas com os custos estabelecidos empiricamente pelo banco.
Portanto, as mesmas grandes instituições financeiras de Wall Street que não hesitaram em pedir ajuda do governo dos EUA durante a crise financeira, ajuda fornecida com o dinheiro dos contribuintes, demonstraram ser bem pouco disponíveis quando os mesmos contribuintes precisaram de um pouco clemência e compreensão.
Eu nem comento, arrisco ser ordinário…
Ipse dixit.
Fontes: Wall Street Journal, ABC News, The Economic Collapse, Youtube




Excelente pesquisa Max! Eis um artigo que a complementa:
http://www.inacreditavel.com.br/novo/mostrar_artigo.asp?id=853
Abraços!