Nestes dias estamos a assistir a um cenário interessante mas ao mesmo tempo esquizofrénico. As mentes pensantes europeias parecem mover-se com duas velocidades. Lentos ou parados? Nada disso.
Em poucas semanas, definiram e tornar operacional o Fundo Salva-Crise, para lidar com qualquer problema de dívida soberana dos Países. Doutro lado, a reforma das regras de supervisão europeia, uma condição necessária para evitar novas crises bancárias, fica paralisada no pântano dos veto políticos.
É normal? Sim, é normal. Afinal são sempre elas, as mentes pensantes de Bruxelas.
Começamos pelo Fundo. Desde o 1 de Julho de 2010 ficou operativo o European Financial Stability Facility (Efsf, nem uma sigla legível encontraram), o Fundo que será utilizado quando um País da Zona Euro encontrar dificuldades para financiar a própria dívida, como aconteceu com a Grécia. O fundo terá a disposição um máximo de 440 bilhões de Euros, com emissão de títulos garantidos pelos Países da Zona Euro.
O fundo é liderada por um Alemão (coincidência?), terá sede em Luxemburgo e o seu braço operacional será o Departamento de gestão da dívida pública alemã (outro caso?). A duração do fundo é fixado em três anos (anos alemães? Ah, não, nisso são iguais…).
Il Sole 24 Ore diz:
A concepção, projectação e implementação do Fundo tem tido tempos e modalidades extraordinários para a União Europeia. Dentro de semanas, todos os políticos europeus, se excluirmos a Eslováquia, deram plena disponibilidade para construir um instrumento de gestão das crises. Pena que a mesma determinação e velocidade não emergiu na definição dos instrumentos de prevenção das crises. Pelo contrário.
De facto, o projecto da nova arquitectura europeia de supervisão está parado, bloqueado por divergências entre o Parlamento e a Comissão. Mas acima de tudo é um projecto nascido obsoleto. A protecção dum mercado único implicaria uma autoridade de supervisão integrada. Mas o projecto europeu continua a proteger uma fiscalização balcanizada, composta por sistemas nacionais de supervisão, que compõem uma superstrutura europeia com competências fracas e vagas e fragmentado entre controles bancários, seguros e valores mobiliários.
E porquê será?
Mah, difícil adivinhar…
Afinal o fundo protege quem? Os Estados? Sim. E os bancos também, e todo o castelo económico e financeiro.
“Sou o Estado X, as minhas finanças estão tão mal…”
“Eh?”
“Os bancos estão em risco”
“Ah! Prontos, aqui temos 440 biliões de Euros. É só servir-se.”
“Obrigado. Mas quem paga?”
“Os contribuintes”.
“Ah, tá bom”.
Enquanto a vigilância é uma chatice. Para os bancos e todo o castelo económico e financeiro.
E nos Estados Unidos? Mesma coisa. A lei Frank-Dodd foi aprovada mas não diminui a fragmentação do sistema de vigilância que, lembramos, foi uma das causas da recente crise financeira. Faliu, mas ninguém mexe.
Mas perante um Financial Crisis Fund foi encontrada a total harmonia.
Continua o diário:
Os políticos, portanto, parecem ter uma característica peculiar: sabem construir ferramentas de gestão das crises mas não de prevenção.
Não, querido Sole 24 Ore, não é bem assim. As nuances são um pouco diferentes.
Os políticos sabem construir ferramentas de gestão de crises que podem afectar os institutos de créditos. Mas qual político terá a coragem de apertar as regras de vigilância dos bancos?
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| A inspiração? |
O Efsf poderia ser usado para satisfazer um pedido de socorro dum Estado membro, que terá já salvado, ou deve salvar, bancos privados.
Mas existe outro aspecto que tem de ser realçado.
Falamos dos 440 bilhões de Euros. Este Fundo tem um único objectivo: a sobrevivência da dívida.
As mentes pensantes não falam de Fundos para a redução da dívida; esta tarefa é com os Estados, isso é, com os contribuintes que devem fazer só uma coisa: apertar o cinto.
As mentes pensantes de Bruxelas falam de Fundo para que a dívida soberana não corra o risco de “desaparecer” com a bancarrota dum Estado. E, obviamente, para que os bancos não desapareçam também.
Esta é a verdadeira preocupação da União.
As causas da crise: a má finança, um sistema de vigilância fraco, bancos que suportam operações cada vez mais arriscadas, tudo isso interessa muito menos. Aqui podem entrar em jogo os vetos políticos. Os bancos deixam.
Ipse dixit.
Fonte: Il Sole 24 Ore


