Bancos e droga – Parte I

Pelo menos 21 pessoas morreram e seis ficaram feridas ontem durante um confronto entre supostos narcotraficantes e traficantes de imigrantes ilegais no Estado de Sonora, no norte do México, a 20 quilômetros da fronteira com os Estados Unidos, informaram autoridades.

Os Mexicanos estão familiarizados com estes episódios, pois o comercio da guerra da droga não conhece limites.
Mas, além da violência, há outra frente neste guerra: o dinheiro.

A venda das substâncias estupefacientes gera lucros astronómicos, dinheiro que tem que ser movimentados para alimentar o mercado.

E aqui entram em cena os bancos. Não pequenas instituições locais, mas os grandes bancos: Bank of América, HSBC, Western Union, Wells Fargo, Citigroup, Santander, American Express.

O repórter Michael Smith seguiu a investigação nos dois lados da fronteira, o lado do México e o dos Estados Unidos.

Eis o seu relato.

Bancos admitem financiar cartéis da droga

Pouco antes do pôr do sol do dia 10 de Abril de 2006, um avião DC-9 aterrou no aeroporto internacional na cidade portuária de Ciudad del Carmen, 500 quilómetros a leste da Cidade do México. Como os soldados se aproximaram do avião, a tripulação tentou afasta-los, dizendo que havia uma perda de óleo perigoso. Assim, nas tropas cresceu a desconfiança e procuraram no jet.

Encontraram 128 malas pretas, embaladas com 5,7 toneladas de cocaína, avaliadas em 100 milhões de Dólares. Era suposto entrega-las, a partir de Caracas, aos traficantes de drogas de Toluca, perto de Cidade do México, tal como o Ministério Público mexicano descobriu mais tarde. Os policiais também descobriram outra coisa.

Os contrabandistas tinham comprado o DC-9 com fundos branqueados transferidos através de dois dos maiores bancos dos EUA: a Wachovia Corp. e a Bank of America Corp.

Este não foi um incidente isolado. A Wachovia, ao que parece, tinha o hábito de ajudar a movimentar o dinheiro dos traficantes de drogas mexicanos. Wells Fargo & Co., que comprou Wachovia Corp. em 2008, admitiu em tribunal que o pessoal não tinha feito o suficiente para controlar e notificar as suspeitas de lavagem de dinheiro por parte de traficantes de drogas, incluindo o dinheiro usado para comprar quatro aviões que entregaram um total de 22 toneladas de cocaína.

Pouca coisa, é possível pensar. Se “não fizeram o suficiente”, no entanto algo terão feito. Alguma coisa pode sempre escapar, não? Talvez um funcionário corrupto, um procedimento obsoleto…

378.400 milhões de dólares.

A maior fraude na história das transacções bancárias. Um montante igual a um terço do produto interno bruto do México.

Mais de 22.000 foram os mortos no México por causa do tráfico de drogas.

Um exército de 45.000 homens empregados no combate ao tráfico de substâncias estupefacientes.

Uma rede que envolve mais de 230 cidades americanas.

Mais de 20 milhões de viciados em droga nos Estados Unidos.

Custos que ascendem a 215 mil milhões de Dólares nos EUA.

Bancos americanos e europeus

Martin Woods, que entre 2006 e 2009 em Londres, ocupou o cargo de director da unidade contra o branqueamento de capitais da Wachovia, diz: “A tragédia é a reciclagem de dinheiro feita pelos bancos para os cartéis da droga” . E acrescenta: “Se não se entende a relação entre a reciclagem e as 22.000 vítimas de homicídios, não se entende o ponto da situação

Paulo Campos, chefe da unidade da U.S. Drug Enforcement Administration Financial Crimes Unit, afirma que há muitos bancos americanos e europeus envolvidos neste tipo de reciclagem.

Os traficantes, por exemplo, utilizavam contas na Bank of America de Oklahoma City para comprar aviões usados no transporte de drogas. Os agentes federais prenderam criminosos de cartéis mexicanos enquanto depositavam dinheiro em contas da Bank of America em Atlanta, Chicago, Brownville, entre 2002 e 2009.

Mas a lista é longa: Citigroup, HSBC, Santander… todos envolvidos no branqueamento internacional de capitais. Nenhum deles sofreu qualquer investigação, embora alguns dos funcionários foram para a prisão por crimes relacionados à lavagem de dinheiro. Portanto, peixes pequenos, como de costume.

O presidente mexicano, Felipe Calderón, prometeu acabar com os cartéis da drogas quando assumiu o cargo em Dezembro de 2006, e já utilizou 45 mil soldados para combater os cartéis. Tiveram pouco sucesso.

Entre os mortos estão policiais, soldados, jornalistas e cidadãos comuns. Os EUA prometeram ao México 1,1 biliões de Dólares nos últimos dois anos para ajudar na luta contra os cartéis de narcóticos.

Em Maio, o presidente Barack Obama disse que iria enviar 1.200 soldados da Guarda Nacional, juntando-os aos 17.400 agentes do lado Norte Americano da fronteira para ajudar a conter o tráfico de drogas e a imigração ilegal.

Por trás da carnificina no México há uma indústria que fornece centenas de toneladas de cocaína, heroína, maconha e metanfetaminas aos Americanos. Os cartéis têm construído uma rede de distribuidores em 231 cidades dos EUA, de costa a costa, atingindo cerca de 39 bilhões de Dólares em vendas anuais, de acordo com o Departamento de Justiça.

Em 15 de Junho, o Ministério das Finanças mexicano anunciou fixar limites para os depósitos bancários em Dólares.

Mas os cartéis da drogas do México tornaram-se empresas multinacionais criminosas.

Algumas das gangues desenvolveram outras actividades ilegais, como contrabando de armas, sequestro e tráfico de pessoas através da fronteira, bem como áreas aparentemente legítimas, tais como camiões, serviços de viagens e transporte de carga aérea, de acordo com o Justice Department’s National Drug Intelligence Service.

O senador e o revolver

Estes impérios não têm outra escolha senão usar o sistema bancário global para financiar os próprios negócios, afirma o senador mexicano Felipe Gonzalez.

Com tanta liquidez, a única maneira de mover o dinheiro é através dos bancos“, disse Gonzales, que representa um estado do México central e trata da segurança pública.

Gonzalez, membro do Partido de Acíon Nacional do presidente Calderon, leva consigo um revólver .38 para protecção pessoal.

Eu sei que isso não vai parar os traficantes quando eles entrarem por aquela porta com as metralhadoras“, diz ele, apontando para a entrada do seu escritório. “Mas fica comigo na mesma“.

Os grandes bancos estão protegidos das acusações com uma variante da teoria too-big-to-fail.

Indiciar um grande banco poderia desencadear uma corrida louca dos investidores e causar pânico nos mercados financeiros, diz Jack Blum, um investigador do senado americano há 14 anos e consultor de bancos e corretoras internacionais sobre o branqueamento de capitais.

Não há capacidade de regular ou castiga-los porque são grandes demais para serem ameaçados com a hipótese de falência“, diz Blum.

Mover o dinheiro é fundamental para o comércio de drogas, desde o dinheiro que as pessoas colam aos próprios corpos com fita enquanto atravessam a fronteira EUA-México, até a transferência bancária de 100 mil Dólares americanos que enviam a partir das agências de câmbio mexicanas para os grandes bancos dos EUA.

À sombra da cerca

Em Tijuana, 15 quilómetros ao sul de San Diego, Gustavo Rojas viveu durante um quarto de século num barraco à sombra da cerca de aço de 3 metros de altura que separa os EUA e o México. Ele aponta para os buracos escavados sob a barreira.

Eles passam com a droga e voltam com o dinheiro“, diz Rojas, de 75 anos. “Essa vedação não pára ninguém“.

Dinheiro e droga movem-se para trás e para frente através da fronteira num ciclo interminável. Nos EUA os “correios” tomam o dinheiro da venda de drogas que passa para o México, algo como 29 bilhões de Dólares por ano, de acordo com o U.S. Immigration and Customs Enforcement. Isso seria cerca de 319 toneladas em notas de 100 dólares.
Escondem o dinheiro em carros e camiões para entrar no México. Lá, os cartéis pagam as pessoas para depositar parte do dinheiro em bancos mexicanos e sucursais de bancos internacionais. Os narcotraficantes lavam muito do que resta por cambistas.

Quem foi para o México está familiarizado com esses cambistas de esquina; os reguladores mexicanos dizem que há pelo menos 3.000 deles entre Tijuana e Cancun, geralmente com grandes publicidades sobre a taxa de câmbio do dia  Peso/Dólar.

Os bancos mexicanos são regulamentados pela Comissão Nacional Bancária e de Valores Mobiliários, que tem uma unidade anti-lavagem de dinheiro; os cambistas são policiadas por fiscais do Serviço de Administração do México, que não tem nenhuma unidade deste tipo.

Por lei, os cambistas têm que pedir a identificação de qualquer pessoa que troque mais de 500 Dólares. Também têm de comunicar as transacções superiores aos 5 mil Dólares às autoridades.

Os cartéis contornam esses requisitos, empregando legiões de pessoas, incluindo parentes, empregadas domésticas e jardineiros, para converter pequenas quantidades de Dólares em Pesos ou fazer depósitos em bancos locais. Depois disso, os cartéis passam o dinheiro para um banco multinacional.

Em breve a segunda parte do artigo.

Fonte: Bloomberg

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