A cidade e o campo

Não, não é Roubini, este é Rubin.
Parece o mesmo mas não é.

Vida e obras de Jeff Rubin: começou a sua carreira como economista no Departamento do Tesouro do Governo de Ontário, a seguir entrou na CIBC, onde alcançou o papel de economista chefe. Previu acertadamente as flutuações nas taxas de juros e o valor do dólar canadense. No início de 1990 chegou a prever o declínio do mercado imobiliário do Ontário. Foi um dos primeiros economistas a prever com precisão os preços do petróleo na década de 2000 e actualmente é comentarista popular sobre o esgotamento do petróleo e suas repercussões económicas.

Agora volta com novas previsões. O que diz? Diz que o petróleo vai regressar aos máximos históricos já no próximo ano se não houver uma nova recessão.

Mau. Então temos que torcer para uma nova recessão ou para uma subida do preço do barril?

Em entrevista ao Jornal de Negócios, Rubin falou sobre os preços do crude, a maré negra no Golfo do México, a crise da Zona Euro e a exploração de petróleo em águas profundas e nas areias betuminosas.
Eis a entrevista proposta na integra:

No seu livro, diz que a economia voltará a ser mais local, que vamos assistir ao fim da globalização. E que uma das causas está no facto de o preço do petróleo ir superar de novo o patamar dos três dígitos… Que cotações prevê no curto prazo para o crude?

Quando ainda estava na CIBC, previ que o preço do petróleo superaria os 100 dólares em 2008, o que aconteceu, e que estaria nos 200 dólares em 2012 se a economia mundial continuasse a crescer. Mas a economia não continuou a crescer.

As cotações podem voltar a cair para os 40 dólares por barril se voltarmos a um cenário de recessão. Mas se voltarmos agora à via do crescimento, então no próximo ano estará de novo nos máximos históricos de 147 dólares por barril.

Acha que, nesse caso, haverá um maior investimento na extracção não convencional de petróleo?

Há 165 mil milhões de barris petróleo nas areias betuminosas na província de Alberta, no Canadá. E há 500 mil milhões de barris de petróleo nas areias betuminosas de Orinoco, na Venezuela. Infelizmente, para o Canadá e a Venezuela serem uma Arábia Saudita do petróleo, precisávamos que esta matéria-prima estivesse a negociar nos 200 dólares por barril porque esse será o custo de a pôr cá fora.

A prospecção e produção a partir das areias betuminosas é muito cara. Quando o petróleo esteve nos 40 dólares [em finais de 2008], foram cancelados muitos investimentos nas areias betuminosas, simplesmente porque não eram projectos economicamente viáveis como fonte de produção.

As reservas das areias betuminosas e das águas ultra-profundas não são novas. Em 1920 já se falava nas areias betuminosas de Alberta. O que acontece é que está a acabar o petróleo convencional, que é o petróleo com uma produção economicamente viável.

E o acidente na plataforma do Golfo do México explorada pela BP mudou um pouco a forma de ver as coisas…

E é bem provável que deixemos de olhar para as águas profundas [exploração offshore] da mesma forma que antes, devido ao que está a acontecer no Golfo do México.

Esta maré negra poderá ser o ‘Three Mile Island’ [local da Pensilvânia onde se deu um acidente num reactor nuclear, em 1979] da indústria de prospecção petrolífera offshore. Desde este acidente, nunca mais se construíram centrais nucleares no país, porque de repente toda a gente ficou com receio da energia nuclear.

Isso vai ao encontro de quem se opõe a uma prospecção adicional de petróleo nos EUA… Sim, claro. E acha que o Brasil vai continuar desejoso de explorar as suas águas profundas depois do que aconteceu no Golfo do México? Acha que vai querer manchar as suas praias? Acha que o Canadá vai querer prospeccionar no Ártico?

Trata-se de um desastre ecológico no próprio quintal da América. Um total de 30% de toda a pesca nos EUA provém do Golfo do México e agora está banida. E os EUA partilham o Golfo do México com outros países.

Mas o Brasil tem investido muito nas águas profundas. Portugal tem lá a Galp na exploração do pré-sal na Bacia de Campos.

O Brasil nunca teve petróleo. É por isso que usa etanol. Os países que têm petróleo não usam etanol. É claro que o Brasil gostaria de explorar as águas profundas, mas este acidente no Golfo do México pode mudar isso.

Sabe o que este desastre ecológico pode significar para a BP [que explorava a plataforma que explodiu a 20 de Abril]? Deixar de existir. Ela será processada em milhares de milhões de dólares. Acha que a Petrobras vai querer ser processada em milhares de milhões? O que estou a querer dizer é que este pode ser um ponto de viragem para a oferta mundial de petróleo. Subitamente, as areias betuminosas do Canadá parecem limpas.

Mas é muito caro…

Sim, muito. Deixe-me dizer-lhe o que é preciso fazer para obter petróleo das areias betuminosas. Tem de escavar duas toneladas de areia, queimar 1.400 pés cúbicos de gás natural e poluir 250 galões de água só para produzir um barril de petróleo.

Foi por isso que, na Cimeira de Copenhaga, o Canadá foi o vilão. Agora, de repente, é bom, por causa do que está a acontecer com a fuga de petróleo no Golfo do México. Pelo menos nós nunca derramaríamos 25.000 barris de crude por dia.

No seu livro, diz que a economia voltará a ser mais local porque não se poderá pagar o petróleo a preços muito mais elevados.

O petróleo convencional atingiu um pico em 2005. Todo o subsequente crescimento a nível de produção tem sido nas águas profundas ou nas areias betuminosas. Ambos muito dispendiosos.
As areias betuminosas do Canadá representam 75% das reservas mundiais abertas ao investimento privado. E a maioria das reservas mundiais não está aberta ao investimento privado.
É nas areias do Canadá e Venezuela e nas águas do Brasil e Nigéria que está o petróleo para futuro fornecimento. Mas podemos não ter capacidade para o adquirir. Não é que o petróleo vá acabar. Vamos é ficar sem o petróleo que temos capacidade de pagar. Há uma grande diferença entre estas duas coisas. Não é uma coisa geológica. Mas também é ambiental, pois todas estas novas fontes de obtenção de petróleo são bastante duras para o ambiente.

Já estive nas areias betuminosas de Alberta e aquilo parece a lua. São buracos enormes no solo. Andam a escavar a Terra. Mas é tudo o que resta.

É o que resta e é muito caro.

Esse é um dos pontos que saliento no meu livro. É preciso os preços do petróleo estarem nos três digitos para essa exploração ser viável. Mas podemos dar-nos ao luxo de queimar esse petróleo? E esse é outro dos pontos que no livro: ‘quando a resposta é não, o que fazemos?’ Ficamos mais pequenos.

No ano passado, os EUA importaram alimentos da China no valor de seis mil milhões de dólares. Isto porque o custo da mão-de-obra agrícola é mais barato na China do que na América. Mas gasta-se muito petróleo. Deixa de compensar. Isso funciona quando o petróleo está a 20 dólares por barril. Não resulta quando está a 150 dólares.

A China importa minério de ferro do Brasil, transporta-o pelo Oceano Pacífico, transforma-o em aço e envia-o para o Canadá e os Estados Unidos. Com o petróleo a 20 dólares? Sim. A 120 dólares? Não!

No Canadá e nos EUA, por exemplo, a indústria siderúrgica registou uma contracção. A boa notícia é que está a retomar. Não vamos continuar a mandar vir o nosso aço nem a nossa comida da China.

Então vai haver uma maior aposta na produção local.

O problema com a alimentação, por exemplo, tanto no Canadá como nos EUA, é que metade dos terrenos agrícolas desapareceu. Foram substituídos por centros comerciais. Temos de reconverter esses espaços para serem de novo destinados à produção de alimentos. E é o que vai acontecer.

Como era mais barato importar da China e de outros países do mundo em desenvolvimento, as cidades foram consumindo as terras consagradas à agricultura durante o seu processo de crescimento. As cidades foram crescendo pelo campo adentro.

Mas no meu mundo, esse espaço vai ser devolvido à agricultura. Não devido a políticas governamentais, mas sim porque será a estrutura económica que o vai exigir.

Fonte: Jornal de Negócios

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