O Capitalismo está em coma (irreversível)

O que é o Capitalismo? Pode parecer uma pergunta supérflua, mas a verdade é que existe uma certa confusão nas definições normalmente utilizadas.

O que é o Capitalismo?

Wikipedia, por exemplo, assim descreve o Capitalismo:

Capitalismo é um sistema económico baseado na propriedade privada dos meios de produção e sua operação com fins lucrativos.

Esta é um definição ridícula. Se assim fosse, seriamos obrigados a admitir que o Capitalismo existe praticamente desde sempre, tendo nascido na altura em que o primeiro agricultor decidiu vender ao vizinho o seu surplus de cereais. Obviamente, aquele não era Capitalismo.

Pela mesma razão não podem ser indicadas como características específicas do Capitalismo a acumulação de capital, a iniciativa privada, o trabalho assalariado, um sistema de preços ou um mercado competitivo (o “livre mercado”): qualquer oficina dum artesão babilonês trabalhava num contexto deste género mas não é possível falar dum Capitalismo na Antiguidade.

Na verdade, o Capitalismo reúne todas as características acima descritas mais uma, fundamental: um sistema de lei que defenda a propriedade privada dos cidadãos e reduza ao mínimo a intervenção do Estado no mercado. Então tudo faz sentido: o agricultor do Neolítico não era capitalista porque operava fora dum sistema jurídico que protegesse a propriedade privada; e o mesmo se passava com a oficina babilonês, com o moinho medieval, etc.

Foi só mais tarde, no princípio do 18 º século, que foi possível observar o surgimento de algo que pode ser definido como “Capitalismo”, filho do Mercantilismo, da Fisiocracia e duma nova atitude política perante o papel do mercado. Propriedade privada, acumulação de capital, trabalho assalariado, sistema de preços e mercados competitivos, leis que defendem o capital, Estado que deixa de regular o mercado: são estes os elementos básicos que devem estar presentes, todos e ao mesmo tempo, para que seja possível falar de Capitalismo.

Há outras características que determinam este sistema económico: por exemplo, um certo afastamento da política da Ética (Maquiavel), uma marcada industrialização, o trabalho entendido como mercadoria e outras ainda. Mas todas estas últimas características, embora importantes, são secundárias quando comparadas com aquelas listadas mais acima.

Mas é mesmo neste ponto que surge uma dúvida: é ainda possível falar de Capitalismo?

Vivemos num sistema capitalista?

Hoje, no ano de 2020, estamos a viver num sistema capitalista? E o futuro: é possível prever qual será a ordem económica a vingar? Porque o Capitalismo não passa duma fase, temporária tal como temporários foram o Mercantilismo, a Fisiocracia e todos os sistemas económicos dos tempos passados. O processo que levará ao fim do Capitalismo já começou?

Na minha óptica, estamos a viver um período de transição, caracterizado pelo fim do Capitalismo e o surgimento dum novo modelo económico. Para ser mais preciso: estamos a assistir à rápida morte do Capitalismo, do qual hoje sobrevive apenas o invólucro exterior, sendo que o interior já é algo muito diferente, definitivamente não capitalista.

Um bom economista poderia realçar como, em boa verdade, de Capitalismo puro é possível falar apenas em relação a poucos e bem limitados períodos históricos, sendo que a normalidade é constituída por um Capitalismo que tem de pactuar com o Estado. Isso é verdade, mas por simplicidade, e para não sobrecarregar inutilmente um discurso já comprido, vamos entender como “capitalista” todo o período que teve início com a Revolução Industrial.

Neste aspecto, e nas últimas décadas, o Capitalismo gozou de boa saúde em particular após a Segunda Guerra Mundial, tendo tido o seu “canto do cisne” na altura da dupla Reagan/Thatcher. A partir daí, algo diferente começou a surgir, ao ponto que apareceram novos termos para descrever a realidade, termos como “turbo-capitalismo”. Este “algo” mais tarde teria encontrado uma definição bem mais clara: Globalização, a última e derradeira fase do Capitalismo.

A Globalização

Definir a Globalização não é simples: tal como acontece com o Capitalismo, a Globalização é um conjunto de características. Intensificação do comércio internacional, investimentos à escala mundial, economias nacionais cada vez mais interdependentes, rapidez das comunicações e circulação da informação, aumento da concorrência, redução dos custos para o utilizador final; mas também degradação ambiental, aumento das desigualdades sociais, perda de identidades locais, redução da soberania nacional, a diminuição da privacidade. Tudo isso (e mais ainda) é Globalização.

Mas há dois aspectos da Globalização que interessam particularmente o nosso discurso: o papel da Finança e o aparecimento das corporações privadas.

A Finança

A Finança não é novidade nenhuma, como é óbvio, mas a globalização permitiu que jogar na Bolsa de Valores fosse mais lucrativo de que investir numa fábrica: o resultado é que hoje as empresas são transferidas para os mercados onde a mão de obra é mais barata (o que aumenta a rentabilidade duma empresa assim como o respectivo valor das acções) enquanto os lucros são subtraídos dos investimentos para gerar novos lucros com os instrumentos oferecidos pela Finança. Portanto, hoje a Finança subtrai recursos ao Capitalismo clássico: já não há o capital investido nos meios de produção mas o capital que gera mais capital através dos meios que a Globalização põe a disposição (rapidez nas comunicações, troca instantânea de dados, etc.).

Tudo isso poderia ser considerado apenas como uma nova forma do Capitalismo “clássico”: afinal é só substituir a velha figura do “patrão” com aquela do investidor e os meios de produção com a Bolsa de Valores. Mudanças importantes, sem dúvida, mas que não têm um reflexo decisivo no âmbito da composição social: haveria sempre uma classe de “patrões” dum lado, uma classe de trabalhadores (o velho “proletário”) do outro lado, um Estado que tenta mediar mais um maior número crescente de desempregados (inevitáveis na altura em que o capital já não é destinado ao investimento em novas unidades de produção, a força-trabalho é reduzida e as empresas deslocadas).

Mas ao lado deste importante fenómeno há outro: e é mesmo aquele que determinará o desaparecimento do Capitalismo.

As multinacionais

Nem as multinacionais são uma novidade: a história destas grandes empresas funde-se com aquela do Colonialismo. Mas a empresa multinacional de hoje já não é o que foi no passado. Antes do início da Segunda Guerra Mundial, o comércio de matérias-primas estava ligado às relações entre os diferentes Estados: pelo que, de um modo geral, a iniciativa era sim privada mas levada a cabo através de organismos institucionais. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a “máquina” industrial tinha avançado enormemente, a capacidade de produção excedia as exigências do mercado interno e muitas indústrias privadas começaram o planeamento para uma forte expansão das suas infra-estruturas. As instituições nacionais e as empresas privadas aumentaram exponencialmente a sua esfera de interferência e controlo, adquirindo e absorvendo pequenas empresas ou empresas com especializações específicas em sectores-chaves (por exemplo, investigação e desenvolvimento).

Este processo de expansão e absorção continuou com uma rapidez cada vez maior enquanto as instituições nacionais praticamente desapareceram do horizonte: estavam criadas as multinacionais como existem hoje, enormes conglomerados com uma capacidade produtiva como nunca antes vistas na História, com lucros que em não poucos casos ultrapassam o Produto Interno Bruto (PIB) de alguns Países.

O poder das multinacionais parece não ter limites, ao ponto que conseguem influenciar, de forma directa e indirecta, as decisões políticas tomadas pelos vários Estados ou por conjuntos deles (União Europeia). Já não há o capitalista que tenta fugir do controlo do Estado: é o dono da multinacional que determina a política do Estado, que propõe e faz eleger os seus próprios representantes políticos.

A elite

É aqui que encontramos a “elite”, o grupo de poder que reúne os mais abastados, poderosos e influentes donos de empresas do planeta, o famoso 1% que detém a maioria da riqueza mundial. Uma classe “nova”, que substituiu a antiga aristocracia mas que já não responde dos seus actos perante um Rei; aliás, substitui a figura tanto do Rei quanto aquela dos governos nacionais ou supranacionais. As leis hoje devem ser elaboradas pensando no bem das multinacionais, favorecendo uma ulterior expansão do poder delas: qualquer político que se atreve a obstaculizar este processo terá que lidar com ferozes campanhas difamatórias, conduzidas pelos órgãos de comunicação social obviamente na posse da elite.

Pergunta: quando uma multinacional (ou um conjunto delas) consegue determinar o rumo político e económico dum mercado em prol duma única e extremamente reduzida classe social, é ainda possível falar de Capitalismo? A resposta é “Não”. O Capitalismo, para poder funcionar, precisa dum mercado “democrático” por assim dizer, onde qualquer empreendedor possa investir e competir numa realidade onde o preço é determinado pela procura dos consumidores e não é estabelecido em função dos interesses dum só sujeito (ou dum grupo deles).

O Capitalismo em coma

O mercado das multinacionais, o mercado gerido pela elite, já não é o “livre mercado” do Capitalismo; a pequena e média iniciativa privada é cada vez mais limitada aos sectores de nicho ou até tem que sucumbir quando confrontada com a esmagadora potência das empresas transnacionais; o mercado deixa de ser competitivo porque o preço já não é determinado pelo procura mas sim pelos acordos entre os cartéis das multinacionais e pela exploração de mão de obra cada vez mais barata e desesperada em Países do Terceiro Mundo ou em desenvolvimento; o Estado já não actua como possível mediador ou limitador do mercado mas participa nele ao favorecer determinadas empresas em detrimento de outras.

Caem desta forma algumas das mais importantes bases do Capitalismo, não apenas daquele clássico e utópico mas também do Capitalismo real que serviu o planeta ao longo dos últimos duzentos e passa anos. A nossa é ainda formalmente uma sociedade capitalista mas já estão visíveis e actuam forças que em breve irão ultrapassar o Capitalismo em prol de algo “novo” (com aspas necessárias porque de “novo” aqui não há rigorosamente nada). Podemos tranquilamente afirmar que o Capitalismo ainda se encontra vivo mas num estado de coma irreversível. Quem ainda insiste em descrever o nosso modelo político e económico tendo como base a contraposição entre capitalistas e proletariado, não entende o que se está a passar, vive numa realidade paralela onde o planeta ficou imobilizado na década dos anos ‘80 ou ‘90 (ou ainda antes). Nunca como hoje os modelos políticos e económicos do Comunismo e do Liberalismo encontraram-se tão afastados da vida real: e no futuro esta desactualização irá crescer cada vez mais.

A próxima fase: o modelo chinês

Mas então, como será o “novo”? Se o poder das multinacionais e dos seus donos elitários não for travado, o projecto económico (mas também político e social) dos próximos tempos é bastante claro. Reformado definitivamente o Capitalismo, a nossa sociedade será completamente subjugada pelas maiores forças económicas mundiais. A política não desaparecerá, tal como oficialmente não desapareceu até hoje, mas ficará nas mãos dum grupo de “representantes” cada vez mais restrito e, sobretudo, dobrado perante os ditames da elite.

O que está a acontecer na China oferece um bom ponto de partida se o desejo for ter uma ideia acerca do futuro. Um grupo reduzido de dirigentes, não eleitos mas nomeados; cidadãos e empresas privadas controlados com o auxílio da tecnologia de ponta; direitos suprimidos em favor do “bem comum”; censura. E do ponto de vista económico, o que mais interessa na óptica do presente artigo: fim do livre mercado, com empresas obrigadas a colaborar com a elite disfarçada de grupo político no âmbito dum mercado cujos objectivos são pré-determinados. Este é o projecto.

Poderá ser implementado no resto do planeta nos próximos tempos? Depende qual o sentido de ”próximos”. A China é uma caso especial, onde a cega obediência foi treinada ao longo de décadas de regime comunista. Também Pequim reformou o Comunismo (embora não de forma oficial), mas manteve os hábitos instaurados; implementar o projecto da elite numa realidade onde os cidadãos estão habituados a obedecer é coisa relativamente simples. Mais complicado obter o mesmo em Países onde existem sólidas tradições democráticas: aqui a transição demora tempo, requer um percurso escalonado onde os direitos dos indivíduos são apagados de forma gradual, criando artificialmente as condições para que isso possa acontecer. Além disso, e contrariamente a quanto acontecido na China, é lícito esperar resistências por parte de grupos mais ou menos organizados.

Por todas estas razões, é razoável pensar que o modelo chinês sofrerá algumas alterações, mais estéticas que substanciais, para conseguir a plena implementação em outras partes do planeta. Mas, apesar da questão do tempo e de alguns formalismos, está fora de dúvida que o modelo chinês seja o escolhido para o nosso futuro. E a razão é simples: é um modelo de sucesso. E este aspecto não pode ser negado.

O modelo chinês ultrapassa de forma brilhante os limites do Capitalismo e consegue conjugar as vantagens deste sistema com aqueles da oligarquia capitalista, evitando ao mesmo tempo os defeitos do primeiro e da segunda. Estamos a falar do Capitalismo de Estado (ou Estatal, tanto faz).

Nota: a partir daqui será utilizado o termo “Capitalismo” por conveniência, sendo que, em boa verdade e pelas razões acima descritas, do Capitalismo original sobra bem pouco hoje e sobrará ainda menos no futuro.

Futuro: o Capitalismo de Estado

O Capitalismo de Estado existe em Países onde o Estado dirige a Economia, pelo que são os governos e não os investidores privados que determinam quais as actividades económicas que devem ser estabelecidas e reforçadas; no entanto, o sistema económico no seu conjunto, com excepção de algumas pequenas actividades, é de natureza capitalista, porque o Estado reconhece os direitos de propriedade e os decorrentes dos contratos, enquanto os mercados determinam os preços dos bens e dos serviços produzidos e o nível de salários da mão-de-obra.

Neste aspecto, o modelo chinês não pode ser estritamente definido como “Capitalismo de Estado”: há alguns aspectos que diferenciam o rumo de Pequim, como por exemplo o facto da classe política não actuar sozinha mas em conjunto com forças supranacionais que, ao mesmo tempo, participam activamente no interior da economia chinesa. Há outras características que diferenciam o Capitalismo de Estado original do modelo chinês, todavia, por uma questão de comodidade, vamos continuar a definir a política económica de Pequim como “Capitalismo de Estado”, também porque é esta a definição que melhor consegue representar o que acontece naquele País.

Estamos acostumados a ouvir falar de “Capitalismo de Estado” como este tivesse sido o regime da antiga União Soviética, mas este é um erro, como veremos de seguida: o Capitalismo de Estado é o actual modelo chinês.

Os governos, no capitalismo estatal, possuem diferentes meios para dirigir o crescimento do sistema económico; um dos mais importantes, se não o mais importante, é a propriedade pública ou o controlo público do sistema bancário, que é o “canal” necessário para transferir recursos das poupanças para os investidores. Mesmo que os bancos não sejam de propriedade pública, nas economias do Capitalismo de Estado os governos podem, em qualquer caso, exigir aos bancos que cumpram as suas directivas através de formas enérgicas de “persuasão”.

É importante diferenciar o Capitalismo de Estado do sistema de gestão económica através do método de planeamento a partir do centro: é mesmo aqui que podemos observar a diferença entre o modelo chinês e aquele em vigor na antiga URSS. Entre as duas formas de governo do sistema existe uma diferença substancial: nas economias planeadas a partir do centro, o Estado não só escolhe as actividades produtivas que devem ser privilegiadas, mas é também o proprietário dos meios de produção. Depois fixa os preços dos bens, dos serviços produzidos e dos salários da mão-de-obra, tendo em pouca consideração as necessidades dos consumidores.

Neste aspecto, o sucesso do modelo chinês pode ser encontrado no abandono do planeamento central (em teoria ainda em função, na prática dedicado agora a objectivos muito específicos), na abertura ao “livre” mercado e, sobretudo, na capacidade de aceder à tecnologia de ponta e combiná-la com os baixos custos da sua força de trabalho. Isso permitiu entrar num caminho de crescimento economicamente sustentado e o facto de ter conseguido antes absorver, depois replicar e agora até liderar os conceitos da alta tecnologia eliminou o risco de depender da tecnologia estrangeira.

Os problemas do Capitalismo de Estado

Quais os problemas do Capitalismo de Estado? Basicamente três.

O primeiro é a corrupção, que costuma ser bem presente neste tipo de organização. De facto, a China tem uma legislação particularmente feroz para combater a corrupção, mas sem particular sucesso.

O segundo problema é mais grave: a tecnologia tem fronteiras estabelecidas pelos avanços científicos. Quando um Capitalismo de Estado acusa a incapacidade de conceber e vender inovações radicais (liderando o respectivo sector), isso é, quando deixa de poder canalizar os recursos de actividades de baixo rendimento para actividades mais remuneradoras, pode haver uma crise.

O terceiro problema é, na minha óptica, o mais grave em absoluto. Um “Capitalismo”, mesmo que mutilado como no modelo chinês, acaba sempre por gerar uma classe que o Marxismo costumava definir como “burguesia”, na verdade uma classe média. O pequeno empreendedor conseguiu juntar uma pequena fortuna, então já não faz parte do massa da mão de obra barata, os seus meios permitem-lhe desejar algo mais. Livre dos problemas da sobrevivência, começa a satisfazer os seus desejos, em primeiro lugar os práticos (boom de vendas das marcas status symbol como Mercedes, Ferrari, etc.), depois outros mais abstractos, entre os quais temos o conhecimento.

História velha esta: pode demorar uma, duas ou até mais gerações, mas cedo ou tarde o problema apresenta-se. A classe média deu-se uma instrução, é agora capaz não apenas de entender o que se passa como também de imaginar umas alternativas. A classe dirigente chinesa está bem ciente do problema e o sistema de crédito social parece ser um óptimo mecanismo de controlo e supressão neste aspecto. Mas não será suficiente, não para sempre, e ignoro a forma como a nova burguesia chinesa (e a mundial a seguir) será mantida “calma e cooperante” num futuro mais longínquo.

Provavelmente este futuro “Capitalismo de Estado” planetário terá, por sua vez, que encontrar uma forma de organização social mais estável, que consiga justificar a existência duma elite dominante e duma injusta distribuição dos rendimentos (um aspecto que o Capitalismo de Estado não resolve e que, aliás, exaspera). A visão naïf duma Nova Ordem Mundial onde uma sociedade fundamentalmente idêntica à nossa é gerida por uma elite que tudo possui e controla é, na verdade, a descrição dum projecto destinado ao fracasso desde o início.

Comunismo real: o Capitalismo oligárquico

Como antecipado, o Capitalismo de Estado nada tem a ver com o regime da antiga União Soviética onde, pelo contrário, vigorava um Capitalismo oligárquico. É importante realçar este aspecto porque, cúmplice a simbologia ainda em uso na China, poderia ser possível equiparar o actual regime de Pequim àquele soviético: mas este seria um erro e, como veremos, os dois sistemas têm algo em comum mas divergem em aspectos fundamentais.

O Capitalismo oligárquico é aquele que podemos encontrar nas economias onde as políticas públicas visam principalmente promover e proteger os interesses dum grupo social restrito. Nestes sistemas, os governos e os grupos dominantes podem também ter interesse em promover o crescimento, mas apenas como um objectivo marginal, normalmente perseguido para evitar possíveis revoltas populares ou para aumentar a acumulação nacional.

Em geral, as economias capitalistas oligárquicas são caracterizadas por uma série de aspectos todos negativos, facto que ajuda a perceber o insucesso do “Comunismo real” em quase todos os lados. Um deles é a distribuição muito desequilibrada do rendimento e da riqueza. Os outros aspectos negativos são o surgimento duma economia informal (o mercado negro) e uma corrupção endémica que é possível encontrar em todos os níveis da sociedade. Neste aspecto, as economias do Capitalismo oligárquico estão infestadas por actividades que, embora não proibidas, são realizadas sem o total cumprimento das leis em vigor; por esta razão, as actividades informais devem ser distinguidas das actividades ilegais, que são proibidas de forma explícita porque prejudiciais à preservação da coesão social.

No geral, os grupos dominantes são responsáveis pelas baixas taxas de crescimento das economias oligárquicas, também porque não têm interesse em ver aumentar a concorrência interna. Como consequência, os grupos de poder oligárquicos não são movidos pelo interesse no crescimento: no pior dos cenários, os Capitalismos oligárquicos são governados por líderes corruptos e, na melhor das hipóteses, tendem a preservar a primazia económica dos grupos dominantes em detrimento da iniciativa privada.

Tudo isso explica por qual razão as actividades de produção não são muito inovadoras e dinâmicas: o sector bancário é virtualmente ausente pois, dados os baixos consumos, não há necessidade de crédito: o Capitalismo oligárquico geralmente dispõe dos recursos de que necessita (repetimos: a procura é controlada e por isso muito limitada, tal como o mercado interno), o que as torna autónomas em relação ao mercado do crédito.

Especializadas na produção em massa, as empresas do Capitalismo oligárquico tendem a ser “escleróticas”, relutante perante a inovação e resistente às mudanças, tudo em detrimento dos consumidores.

O caso 124

Um exemplo entre os infinitos possíveis. Em 1970, o regime soviético decidiu oferecer ao povo um carro que fosse acessível, cómodo e suficientemente robusto. A escolha caiu no modelo Fiat 124, para produzir o qual foi estreada uma colossal unidade de produção na cidade de Togliatti (anteriormente conhecida como Stavropol’-na-Volge). A escolha não era das melhores: a 124 encontrava-se nos seus últimos anos de vida e a sucessora (Fiat 131) era um projecto já em fase avançada.

Seja como for, a 124 soviética, conhecida como modelo 1201, permaneceu em produção idêntica ao original ao longo de 18 anos, até 1988. Com mínimas variações (mais estéticas que de substância) foi produzida até 2012, quando já o regime soviético tinha fracassado.

Na óptica dos defensores do Comunismo, esta longevidade deve-se à filosofia marxista que tencionava disponibilizar ao proletariado um modelo eficiente e de baixo custo: uma vez encontrado, não havia razões para modifica-lo a não ser por razões ditadas pelas modas capitalistas. Lógico, portanto, continuar a produção sem grandes alterações ao longo de décadas. Mas as coisas não estão bem assim: durante as décadas nas quais a 124 soviética esteve em produção, muito mudou no mundo do automóvel. Enquanto no Ocidente apareciam airbags e sistemas de travões melhorados (ABS), motores mais poupados, luzes mais eficientes, etc., o modelo 1201 continuou a ignorar estes itens que melhoravam a qualidade de vida, a segurança, o aspecto ambiental… Com a queda do Muro de Berlim, a 1201 foi confrontada com a equivalente produção ocidental e de imediato foi claro que a 124 soviética não passava dum dinossauro.

Este é apenas um dos exemplos possíveis, como afirmado, mas há outros. Já conduziram uma Trabant, o carro por definição da Alemanha comunista, produzido entre 1957 e 1991? Eu tive a oportunidade e posso testemunhar que se a ideia for dar umas boas gargalhadas por causa das miseráveis prestações, dos interiores paupérrimos ou ao observar a densa nuvem preta que sai do escape, então não há problema; mas se a intenção for conduzi-la no transito real, então a graça desaparece porque trata-se dum carro muito perigoso. Que, no entanto, foi produzido praticamente sem alterações ao longo de mais de trinta anos.

São suficientes estes dois banais exemplos para entender quão profundo seja o abismo que separa a ideologia do Capitalismo oligárquico soviético do Capitalismo de Estado praticado na China. Se no primeiro caso o crescimento é um acessório (quando não propositadamente evitado), no segundo caso é o cerne de toda a filosofia económica; se num regime comunista a inovação é limitada ou até ausente, na China é o objectivo continuamente perseguido; se no regime “comunista” os bancos são virtualmente inexistentes, em Pequim são um dos melhores instrumentos nas mãos da classe política.

E mais: os quatros principais bancos comerciais chineses são muito activos na frente internacional (a China Construction Bank Corporation desde Junho de 2015 tem acesso ao mercado bancário offshore), têm filiais em dezenas de Países e estão muito bem inseridos no universo bancário ocidental (a Bank of China – que não é o Banco Central Chinês – é nominalmente propriedade do governo mas entre os seus accionistas podemos encontrar nomes como Royal Bank of Scotland ou UBS).

O Capitalismo de Estado chinês

Resumindo: a China há muito deixou de ser comunista, entrou sem hesitação no “livre” mercado e hoje parece ser o berço dum novo Capitalismo que, apesar da definição (“Capitalismo de Estado”), Capitalismo não é. É algo diferente, que reúne várias experiências dos últimos séculos, modificadas à luz do avanço tecnológico e social.

A China não apenas está perfeitamente inserida na lógica do mercado “livre” (aspas cada vez mais necessárias) mas é um dos melhores (mas seria bem dizer “piores”) exemplos daquela exploração do “proletariado” em muito superior ao que acontecia nos antigos regimes comunistas e ao que ainda acontece no Ocidente; pratica uma política nos factos fortemente proteccionistas, cúmplice o valor duma moeda mantida artificialmente demasiado baixo; sacrifica no altar da produção e do crescimento o conceito de “meio-ambiente”.

Ao mesmo tempo, não é um regime democrático e nem liberalista, sendo governada por uma rígida nomenklatura que se reconhece no único partido político existente, consegue ultrapassar os antigos regimes comunistas na aplicação do controlo dos cidadãos (algo típico também dos regimes fascistas) e adopta um planeamento económico e social de esquerdista memória.

Neste sistema híbrido não faltam até os estreitos relacionamentos com a reduzida elite das multinacionais e da Grande Finança, de facto a aristocracia dos tempos modernos.

Por todas estas razões, o termo “Capitalismo” fica cada vez mais longe da realidade. Falta algo para descrever o modelo chinês, um neologismo que consiga condensar a essência dum modelo que reflecte as antigas experiências mas que vai além delas. Nada de grave: com o sem rótulo, o que conta é entender que a era do Capitalismo acabou e que um “novo” sistema está para vir.

A despedida

Seja como for, estes são problemas das futuras gerações, não da nossa que vive uma época de transição. O objectivo deste artigo era demonstrar como talvez seja ainda possível falar de Capitalismo, mas como dum sistema à beira do desaparecimento e, em qualquer caso, já amplamente ultrapassado. O Capitalismo, seja nas sua forma clássica seja na sua mais recente “turbinação”, já não consegue dar conta do recado: o perigo de implosão é real e, em qualquer caso, é tempo de avançar (ou de retroceder, pontos de vista).

Poderia ser uma óptima ocasião para repensar o nosso sistema todo, adoptando medidas que respondam às emergências presentes na nossa sociedade: a desigualdade, a pobreza, a fome, o ambiente… Infelizmente, quem pode decidiu de outra forma.

A China, fruto dum programa desenvolvido ao longo das décadas por parte da elite neoaristocrática e transnacional, representa neste quadro o laboratório criado para testar o novo modelo. Um modelo para ser exportado, obviamente: pensamos, por exemplo, ao lockdown imposto em Wuhan e a facilidade com a qual uma instituição supranacional como a Organização Mundial da Saúde, financiada pelos privados da Big Pharma, exportou este modelo ao resto do planeta, conseguindo que biliões de pessoas ficassem retidas nas suas casas ao longo de meses.

Há anos que Informação Incorrecta indica a China como novo “umbigo do Mundo” e isso não foi por causa dos fantásticos planos quinquenais de Pequim mas porque tudo apontava para Pequim como a nova fronteira das multinacionais. O que se está a passar agora é a lógica conclusão dum processo em acção há tempo, claro nas linhas gerais mas ainda não totalmente pormenorizado. Normal que assim seja: certas coisas não podem ser encontradas nos manuais escolares.

Seja como for, é um processo no meio do qual o Capitalismo representava um instrumento (a Economia é sempre um instrumento) cuja função está agora completamente esgotada.

Paciência, ninguém irá sentir a falta dele. Ou talvez sim, porque em boa verdade o novo modelo não parece tão risonho.

 

Ipse dixit.

19 Replies to “O Capitalismo está em coma (irreversível)”

  1. Bem, está aqui um artigo que daria um grande debate, troca de ideias e análises sobre aquilo que será o próximo modelo económico e financeiro que surgirá no Mundo.

    Relativamente à República Popular do China (RPC) não creio que esteja a tentar impor a outros países o seu sistema político, económico, e social, nem tão pouco acho que seja esse o modelo que o poder financeiro e clerical quer implementar na Europa e restantes Continentes, muito pelo contrário é algo bem pior e desumano.

    Talvez a República Popular da China (RPC) procure antes que o seu modelo seja reconhecido aos olhos da Comunidade Internacional, o que é bem diferente, pois se fizesse o contrário estaria a contradizer a sua linha política e económica internacional que se pauta pela cooperação entre países sob a prespectiva do «ganha-ganha» (win-win).

    A restrição das liberdades civis, de informação e expressão, um governo ditatorial não eleito pelos cidadãos mas nomeado por uma oligarquia, violação dos Direitos Humanos, miséria, desemprego, e baixos salários, são características presentes nos regimes da Inglaterra* e de Espanha, e tão pouco vejo os cidadãos Europeus ou outros ao redor do planeta a criticarem veementemente esses países.

    O mesmo se aplica aos Estados Unidos da América do Norte (EUA) e à Colômbia, com excepção do ponto referente ao governo ditatorial pois nesses países ainda se realizam eleições.

    Muito se fala da vigilância massiva e controle dos cidadãos, no entanto o maior perigo para as liberdades civis e o direito à privacidade na Europa vem de um lado, o regime da Inglaterra que é o mentor do chamado estado policial (não a China ou a ex-URSS) e que desde à décadas vem tentado impor esse modelo não só na Europa mas também com a ambição de o exportar para outros lados.

    A obra de George Orwell «1984» foi totalmente baseada na repressão que o regime Inglês exercia e exerce sobre os seus cidadãos, e os métodos de controle e tortura presentes no enredo da história são retrato fiel daquilo que era e é praticado pelos serviços de informação e polícias políticas inglesas (não esquecer os «5 Olhos»).

    * Para se ter ideia da dimensão do sistema de vigilância massiva e controle dos cidadãos que está a ser implementado em Inglaterra, recomenda-se a seguinte a página: https://bigbrotherwatch.org.uk/

    1. Ao afirmar «…o regime da Inglaterra que é o mentor do chamado estado policial…» estou a situar o contexto no Século XX até aos dias de hoje, pois a origem do conceito de estado policial é bem mais antiga.

  2. MUITO ALÉM DO CAPITALISMO…
    BREVE SÍNTESE DA FORMAÇÃO DA RIQUEZA DOS JUDEUS E DE SUAS ELITES
    Cabe salientar que o conceito principal de “JUDEU” aqui supera aspectos étnicos ou religiosos, pois carrega implicitamente uma referência simbiótica e simbólica que sustentou uma imensa rede de comunidades desde a antiguidade tardia.
    Alguns tópicos chaves que envolvem a maioria dos judeus
    – aquisição do conhecimento oriental que envolve comércio, indústria, artes, medicina, negócios e finanças, sendo que os 3 últimos mais restritos as suas elites.
    – monopolização deste conhecimento no ocidente (Europa), desde o séc. 5 na Europa setentrional/central pelos Asquenazes (colonos judeus estabelecidos ao longo do Rio Reno na atual Alemanha Ocidental e norte da atual França, e depois para o leste europeu), e pelos Sefarditas (colonos judeus estabelecidos durante o Império Romano no sudoeste europeu).
    – controle ascendente e gradual das rotas terrestres e marítimas entre oriente e ocidente.
    – formação e difusão das crenças monoteístas baseadas no judaísmo (cristianismo e islamismo), inicialmente através de movimentos organizados por grupos seculares (clérigos não religiosos e judeus externamente convertidos por conveniência ou subterfúgio), e que se chamaria de Igreja Primitiva e Califado, respectivamente, dando início a Institucionalização religiosa sobre os não judeus.
    – escravização mental dos gentios (povos não judeus) através desse monoteísmo, como único meio de salvação.
    – cartelização das atividades econômicas citadinas, e posterior formação das hansas e guildas, alianças de cidades mercantis, e início do que seriam as grandes companhias mercantis e futuras corporações multinacionais.
    – enriquecimento através do comércio, inicialmente em mercados juntos dos castelos medievais, chamados burgos, que resultariam em vilas e futuras cidades.
    – tornaram-se grande fonte de receitas governamentais, cujas economias ficavam cada vez mais suas dependentes.
    – a atividade burguesa levou a cunhagem cada vez maior de moedas, essencial para a expansão do comércio, mudando o perfil de riqueza, até então, basicamente formada por atividades rurais/locais para urbanas/regionais (depois intercambiada com estrangeiros).
    Alguns tópicos chaves que envolvem exclusivamente elites judaicas
    – Associação com governantes medievais (reis/príncipes/imperadores/sultões/etc)
    a) como coletores de impostos entre os próprios judeus, onde o montante arrecadado era rateado entre governante e o próprio coletor. A função de coletor entre os não judeus também podia ser exercida por 1 judeu, cfe o nível de autonomia concedida.
    b) cobravam (usura) pela função de fiéis depositários do capital contraído pelos próprios comerciantes judeus, que servia de lastro monetário para financiar campanhas militares entre Estados na Europa (e fora dela), dando início ao processo de endividamento das monarquias europeias, cujos credores eram exatamente esses intermediários (futuras casas bancárias, antecessoras dos bancos modernos).
    – Mais endividamento, mais cunhagem de moeda, um círculo vicioso que na quase totalidade das vezes, levava ao empobrecimento dessas monarquias, ao aumento dos impostos, sacrifícios fiscais dos servos (camponeses), até ao extremo da realeza oferecer algo em troca. Terras tinham pouco valor, o que tinha valor, basicamente era a capacidade de produzir alimentos, e para isso batalhas serviam para render novos contingentes de servos e escravos (ou seja, os povos derrotados).
    – essas elites judaicas (intermediários financeiros) passaram a receber em troca de partes desses créditos (originados de riqueza de terceiros) não honrados, concessões, privilégios e mais tarde, títulos de nobreza, até alçarem a realeza. Tornaram-se senhores e barões feudais, grandes mercadores, comandantes militares (na chamada “Reconquista Cristã”, qdo da ocupação muçulmana na Hispânia entre os séc. 7/12, assim como nos confrontos entre bizantinos e otomanos no oriente europeu), e se infiltraram na realeza via arranjos matrimoniais.
    Apatriados e internacionalistas, sempre qdo repelidos por povos locais, voltavam ainda mais poderosos. Contumazes na prática do “dividir para dominar”, que instigaram constantemente ao longo do tempo nas mais diversas situações, promovendo conflitos nos mais variados níveis.
    – Tanto o cristianismo como o islamismo proibia a usura, que assim propiciou o monopólio dessa atividade às elites judaicas.
    – O maior entrave para os judeus no ocidente europeu era o catolicismo adotado pelas grandes tribos germânicas (ditas bárbaras) qdo da queda do Império Romano do Ocidente, que representava, de certo modo, um poder paralelo cuja influência das elites judaicas era pequena ou mesmo nula.
    – Mesmo inseridos eventualmente nas realezas, ainda não tinham ampla dominação sobre o sucessor do patriciado, os Pariatos (famílias da alta nobreza interligadas) ocidentais europeus. Seria preciso remontar o sistema de poder e dominação.
    – A 1ª grande etapa foi de cunho religioso, implodir o catolicismo prevalecente, através da Reforma Protestante, desencadeada após a Bíblia (difundida em Latim) ser traduzida/editada na Inglaterra (submetida ao capital judaico) para o inglês no séc. 16 e impressa e enviada entre príncipes europeus insatisfeitos com o catolicismo, por uma nova ferramenta sob o controle judaico: a Prensa (início da Imprensa e da institucionalização da propaganda). Isto levaria ao surgimento de correntes religiosas dissidentes, muitas delas estão na origem de Igrejas cristãs ocidentais atuais (presbiterianas, pentecostais, evangélicas, etc).
    – A 2ª grande etapa foi de cunho ideológico/intelectual, o Iluminismo nos séc. 17/18, que tratou de difundir a supremacia racionalista sobre as teocracias, alinhado aos interesses das elites econômicas judaicas advindas da Revolução Industrial.
    – A 3ª grande etapa foi de cunho político, o Republicanismo na 2ª metade do séc. 18 (antecedido por algumas monarquias parlamentaristas na Europa, cujos parlamentos prepararam o terreno) que no séc. 19, tratou de exacerbar sentimentos coloniais nacionalistas contra nações matrizes e católicas, que buscou o controle desses territórios e a abertura dos respectivos mercados. Surgia também o Marxismo, um tipo de comunismo que décadas depois atenderia essas elites na deposição de dinastias reais poderosas, como os Romanov da Rússia.
    Proclamavam-se as “Independências”, surgindo Estados nacionais de matizes coloniais, cujos escravos se transformariam na origem do proletariado e da própria pobreza social.
    Ao processo histórico de dominação burguês-liberal-capitalista agora restava a cereja do bolo. O controle do processo moderno de transferência de riqueza entre populações inteiras e essas diminutas elites.
    Para isso, o Estado Nacional Moderno foi configurado cfe as nuances econômicas envolvidas, internas e externas.
    A lógica antiga de submeter monarquias através do endividamento erário foi mantida como base de dominação, através da institucionalização de um sistema bancário mundial.
    Depois das economias nacionais configuradas, avançou-se na sua financeirização, preterindo e concentrando cada vez mais as áreas produtivas das sociedades e privilegiando exponencialmente a especulação financeira.
    Assim, completava-se o processo de uma ampla e quase total dominação mundial, desde então mantido pelo controle das moedas, da propaganda massiva e da informação privilegiada, e sua mais recente ferramenta, a tecnologia.

    1. Olá Chaplin!

      Eis uma pergunta: quem são os judeus? Não me refiro aos “novos” judeus, falo das remotas origens tanto étnicas quantos religiosas. Porque aqui continuamos a falar dos judeus como dum “corpo estranho”, algo único que de repente aparece com as suas ideias, completamente diferentes das dos outros povos, tentando subjugar estes últimos.

      Mas na História não há aparecimentos milagrosos, tudo se desenrola segundo percursos lógicos que podem ser reconstruidos.

      Não é apenas uma curiosidade histórica, pois as atitudes atribuídas também aos judeus modernos têm as suas razões de ser em textos com milhares de anos. Se assim for, acho ser importante entender o porque de tudo isso, donde surgiu este “anomalia judaica” e por quais razões.

      Digo já que eu tenho as minhas respostas (que podem estar erradas), mas queria ouvir pontos de vista diferentes. Obrigado!

      1. oi Max! Vamos com doses homeopáticas. Hebreus (israelitas e judeus da Judeia) são originalmente árabes nômades e semi-nômades que se assentaram no sul da Mesopotâmia entre os rios Tigres e Eufrates. Passaram a serem vistos pelos babilônicos, civilização dominante regional como uma potencial ameaça e foram expulsos da região. Migraram para o oeste do Levante e depois para o sul, até chegarem a região da Palestina, onde voltaram a se assentarem. Ali, iniciaram contatos com as duas civilizações que dominavam o mar mediterrâneo; gregos na parte setentrional e fenícios na meridional. Neste processo, desenvolveram sua própria civilização, numa mescla de influências orientais e ocidentais, os diferenciando de todos demais povos vizinhos. Sintetizaram os deuses relacionados aos fenômenos naturais num único deus, acima de todos demais. Um deus “monopolista” pois associado aos próprios hebreus.
        A historiografia difundida é mero artefato de propaganda convencionalista e moldada cfe o tempo e lugar.
        Queres um exemplo fácil de constatar isso? O próprio Google, cujos conteúdos sobre os mesmos temas variam absurdamente cfe o idioma usado.
        Por enquanto seria isso…

        1. “Hebreus (israelitas e judeus da Judeia) são originalmente árabes nômades e semi-nômades que se assentaram no sul da Mesopotâmia entre os rios Tigres e Eufrates.”

          Pois, esta era a teoria válida até pouco tempo atrás: agora a genética demonstra que a situação é muito mais complexa. Digo já que não estou interessado nas aventuras dos Cazares, que apareceram na cena em tempos bem mais recentes. Aqui falamos do hebreus originais, como bem entendeu Chaplin.

          Não sei, não estou convencido da história do povo nómada que chega numa terra, mescla influências orientais e ocidentais, e pronto, eis que aparece a Torah. Há algo mais nisso, algo que deve justificar tanto a especificidade da religião hebraica quanto a singularidade dum povo que consegue manter-se unido ao longo dos milénios apesar das tantas vicissitudes. Deve ser algo particularmente forte, com características especiais, sem dúvida ligado à religião e às origens tanto do povo quanto das crenças deste.

          Acho que a maior parte dos Leitores está a borrifar-se pelas origens dos hebreus. E se calhar faz bem. Pena que seja um assunto que consegue intrigar-me (como toda a História: quanto mais antiga, tanto melhor). Pelo que, vou tentar informar-me (o que já é um problema: quem percebe algo de genética?) e depois vou desvendar o mistério das origens dos hebreus. Nada menos, modestamente. 🙂

          1. Desculpe Max, mas a única fonte da origem dos hebreus é de autoria dos próprios, tendo escasso valor histórico e recheada de histórias, passagens e narrativas mirabolantes, lendárias e mitológicas, muitas delas análogas a civilizações anteriores, como a suméria. E eis a genética, tão fácil de ser manipulada pelo arcabouço científico quanto aos formadores de opinião globais que comandam a “pandemia” atual…

          2. ÁRABES (HEBREUS) E MUTAÇÃO DO NOMADISMO PARA O SEDENTARISMO
            Qdo o conjunto de tribos árabes foram expulsas do sul da mesopotâmia pelos babilônicos já haviam desenvolvido uma organização social baseada no sedentarismo, algo ainda incomum para a maioria das tribos orientais.
            Carregando consigo esta experiência, chegaram na antiga região da Palestina (que abrangia o sul da atual Síria), e ali iniciaram uma 2º civilização baseada na anterior. Rodeados por tribos/povos nômades e seminômades, ou até mesmo numa fase de sedentarismo ainda mais primitivo, deram início, em algum momento, a algo que seria bem peculiar ao longo da civilização humana, ações de expansão de cunho belicoso, para subverter mão de obra (escravidão) e riquezas naturais.
            Obviamente, que levaram vantagem, pois eram ações incomuns na região. Este processo acarretaria grandes problemas no futuro, no que seria, muito depois, chamado de “Choque de civilizações”.
            O sedentarismo se alastrava, mas seu desenvolvimento variava muito cfe o conjunto de tribos (povo) envolvido e as condições para a agricultura.
            O fator “religião” surgiria, no sedentarismo, exatamente na relação homem-natureza, onde o 1º dependia da 2ª para viver. O paganismo abarcava toda essa relação, cujos “deuses” eram os mais variados tipos de fenômenos naturais.
            Muito tempo depois (não há como precisar), clãs dominantes dessas civilizações percebiam que sua capacidade de domínio era dificultada cada vez mais, à medida que sua própria civilização se desenvolvia. Era preciso, um elemento novo que desse início a um sentimento mais forte de unidade entorno desses governantes, e que, de alguma maneira, os legitimassem perante seus súditos. E para isso, passaram a manipular a religião, criando uma espécie de simbiose entre o líder (chefe/rei) e a figura simbólica de um deus. E deu certo.
            Essa verdadeira autopropaganda serviria de modelo civilizatório. Mas uma civilização foi ainda mais longe, e criou, muito depois (e também não há como precisar) uma narrativa abrangente de uma hipotética relação direta, privilegiada e exclusiva de um povo com 1 deus, então alçado acima de todos demais ( e eram muitos), fazendo, através dela, seus favoritos na Terra.

        1. Olá!

          Obrigado! Foi um dos últimos livros que comprei na minha recente estadia em Italia e vou aproveitar este fim de semana para acaba-lo. Até agora li umas 40 páginas e admito ser surpreendente. Acredito em muitas das teses de Biglino, apesar de algumas serem de difícel…digestão. Mas a preparação dele no hebraico antigo está fora de dúvida. Em futuro vou tentar contacta-lo, mas não é simples (nunca para, está sempre a dar conferencias!).

          Obrigado, agora vou lê-lo livro com ainda mais curiosidade!

        2. O Biglino diz que os Guanches, povo nativo das Ilhas Canárias, descendem de nórdicos, e de que o próprio nome Canárias, viria de Cananeus. Recentes pesquisas genéticas comprovam a hipótese de que os guanches eram originários de populações berberes do Norte da África….o cara é um viajante, estilo History channel, e é por isso que seus livros são difundidos, tipo “Anjos e Demônios”.

            1. Toda informação sobre judeus não sendo escritas por judeus (vide a Bíblia) ou não tendo caráter folclórico, é sempre proveitosa.

  3. Excelente trabalho , Max.

    Para mim , esse novo paradigma do capitalismo é só mais uma forma diferente de adoração ao “deus dinheiro”.

    “Poderia ser uma óptima ocasião para repensar o nosso sistema todo, adoptando medidas que respondam às emergências presentes na nossa sociedade: a desigualdade, a pobreza, a fome, o ambiente…Infelizmente, quem pode decidiu de outra forma.” E este alguém ainda disse : Ámen.

  4. A China conseguiu retirar da pobreza cerca de 700 milhões de cidadãos, elevando o seu nível um pouco acima do nível de contestação, nível este que manterá o grosso da população chinesa num limbo social e disponível a aceitar uma estrutura de controle vertical cada vez mais intrusiva. Este modelo necessita daquilo que o tem mantido intacto, que é uma economia em constante crescimento.
    Com ou sem capitalismo, o crescimento económico é necessário, sob pena de se cair no modelo estagnado soviético, hipótese que não descarto a médio prazo.
    O Fórum Económico Mundial está a fazer publicidade na sua página de um evento que eles chamam de ‘The great reset’. Tem um vídeo de apresentação e aponta para Janeiro de 2021. Alguém sabe do que se trata?

  5. Olá, belo artigo, me pareceu muito bem estudado, mas muito grande e não li na integra pois achei que você se esqueceu de um detalhe, não são multinacionais ou mesmo governos ” capitalistas ou não ” quem decide qualquer coisa, uma multinacional sempre é uma empresa que produz em grande escala e necessita de financiamento em igual proporção, um político que ambiciona um cargo qualquer também necessita de um bom financiamento, em qualquer forma de governo.

    Dinheiro é, sempre foi e sempre será a mola que move o mundo e essa mola se apoia em ambição, no comunismo, no estado reprimido , na RPC moderna a ambição é sempre subjugada, talvez esse seja o fato de invenções, descobrimentos, enfim, criações terem sua fonte mais forte nos EUA, Israel e países da Europa, então os “donos” do dinheiro (banqueiros) simplesmente vão cair fora desse sistema de controle supérfluo, pelo simples fato de que ele não dá lucro, não dá prazer (para os banqueiros) e caso essa teoria exposta no artigo comece a se espalhar pelo mundo, teremos um mundo “perfeito” , só que não.

    Em SÍNTESE, sempre teremos a TESE e a ANTITESE, isto é os mandantes, ou os iluminados como eu prefiro chamar conduziram o mundo até hoje baseado nesse modelo triangular, piramidal, por qual razão vão querer mudar isso?

    Pensa Bem !

    Boa Noite

  6. Olá Max: considerando as décadas de opressão e humilhação vividas pela China, as décadas de revolução popular posterior, este jeito de governo atual pode bem ser considerado o melhor mundo possível para os chineses.
    Quanto ao ocidente, só revoluções populares dariam origem a Estados fortes, soberanos e com inclusão social. Seria bonito de ver, mas não acontecerá.. Até a revolução foi confiscada pelos poderosos para quem o capitalismo é o melhor dos mundos. Chamou-se revolução colorida, aquela que as massas creem estarem lutando por liberdades , mas estão trabalhando para ampliar as pretensões dos mandantes, a serviço dos mega endinheirados, onde uma mudança de regime lhes convém.
    Esse capitalismo atual da fabricação de papel moeda e dívida pode ter chegado a exaustão, sim. Mas prontamente será emendado com novas tecnologias, e a custa das populações: crises serão fabricadas, bancarrota, mais revoluções coloridas, mais organizações filantrópicas, mais negócios ilegais ( contrabando de armas, drogas e diamantes) para fortalecer bancos, desaparecimento de leis trabalhistas e previdência social, mais politização e corrupção nas instituições, desaparecimento das minguadas reservas populares…enfim os Estados ainda existem para prover as mega empresas e os bancos com os impostos da população. E uma nova normalidade virá que mantenha as devidas atualizações do capitalismo, sempre atrelado a ideia de liberdade (para poucos)
    Muitos falam que o capitalismo está em coma. Creio que o capitalismo opera como uma metamorfose ambulante, inúmeras atualizações já foram feitas e outras estão em curso, mas sempre um sistema de dominação de uma minoria aquinhoada sobre as demais, baseada na propriedade privada e na apropriação de riquezas além fronteiras.

  7. E Max: gostei da descrição de capitalismo oligárquico, durante a União Soviética. O que precisávamos saber, e muito bem, como um tal Vladimir Putin, em duas décadas apenas acabou com a Rússia made em ocidente, sem revolução popular.
    Percebo algumas coisas interessantes, mas não suficientes:
    1. Esmagamento da revolução colorida no território russo;
    2. Enfrentamento dos movimentos identitários .
    3. Expulsão das ong (s) do seu país, a começar pela de George Soros, já em 2002.
    4. Divisão dos oligarcas em dois tipos: os pagantes de impostos, aceitos pelo governo, e os não pagantes, assassinados ou postos a correr do país.
    5. Re nacionalização das riquezas fundamentais, como petróleo por exemplo.
    7. Cuidado extremo com as fronteiras.
    8. Cadeia para corruptos e defensores importantes da globalização.
    9 Aproveitamento do nacionalismo e religiosidade primitiva do povo para afirmação da soberania
    10. Re aproveitamento, desenvolvimento, e pesquisa em tecnologia militar cibernética e de espionagem, a ponto de possuir as melhores condições militares e de defesa do planeta.
    11. Relações exteriores positivas, e corpo diplomático extremamente competente.
    12. Liderança que mantém altos índices de aceitação, baseada nas melhorias significativas de poder aquisitivo do povo e demonstração de inteligência e força na governança.
    Mas não se faz muitos Putin (s) por aí, havemos de reconhecer.

Obrigado por participar na discussão!

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