Papandreou Parte II: Afinal a culpa é da Europa

Nesta segunda parte da entrevista ao Primeiro Ministro grego, Papandreu deixa claras duas coisas:

1. Reestruturação da dívida? Nem pensar.
2. A culpa da crise grega? Também da Europa.

Quanto ao primeiro ponto: a razão? Mistério. E acreditamos seria dificílimo para o Primeiro Ministro explicar a razão pela qual a pagar são os cidadãos e não os bancos ou os especuladores (os mesmos que Papandreou tinha acabado de atacar). Difícil mesmo.

O segundo ponto é uma pérola: nós roubámos? Sim, verdade. Mas a culpa é também da Europa que não reparou. Fantástico.
O que Papandreu acaba de propor é uma revisão do código penal: roubaram a carteira? Culpa tua, não reparaste. Poderias ter deixado a carteira em casa.

Este, repetimos, é o homem para o qual a UE e o FMI acabaram de assinar um cheque de 750 bilhões de Euro. Os nosso Euros.

Do ponto de vista dos investidores, há apenas uma coisa pior para um país que ter uma dívida excessiva ou uma situação fiscal insustentável: a tentar oculta-la ou recusar-se a vê-la. A história das crises de dívida soberana, como a que surgiu na Grécia e que pode espalhar-se para outros parceiros europeus como Portugal, Irlanda ou mesmo a Espanha tornou-se o pior pesadelo de seus respectivos Governos, mostra uma regularidade impressionante no passado, desde o México até a Argentina: uma posição fiscal extremamente vulnerável, uma recusa inicial por parte dos governos envolvidos em aceitar a gravidade da situação e um detonador de qualquer espécie que, dentro de horas ou dias, volatiliza a confiança dos investidores internacionais.
Nesta altura, os fluxos de dinheiro secam, os juros cobrados alcançam a estratosfera ou são impraticáveis, e alguém com autoridade e liquidez em proporções iguais, o FMI, a UE ou os EUA no caso do México em 1995, chega in extremis para evitar a suspensão dos pagamentos. A Grécia já está lá. A questão agora, é claro, é se a ajuda que foi prometida será suficiente ou se os problemas ainda não acabaram e o pior ainda está por vir. Papandreou começa com o rebater a afirmação de que a Grécia pediu para ser resgatado.

O que pedimos não é um resgate, ou dinheiro grátis. O que dizemos é que precisamos de empréstimos que, em seguida, voltaremos a devolver a um preço muito mais elevado do que a maioria na UE, mas menos do que os spreads enormes que o mercado exige. E eu acho que o que estamos dizendo é basicamente isso: dêem tempo para fazer as mudanças necessárias que precisamos de fazer na Grécia.

Acha que os investidores acreditam? Você disse que perder a credibilidade é o pior que pode acontecer. Se olharmos para os números do mercado de títulos nos dias de hoje, não é claro que estejam convencidos de que a Grécia pode finalmente evitar a suspensão dos pagamentos, ou pelo menos uma reestruturação da dívida.

É por isso que eu digo a falta de credibilidade é ainda pior do que o assunto dinheiro. Se você não tem credibilidade, não tem dinheiro. Ao ter esta credibilidade, também teríamos o dinheiro. Portanto, temos de provar que de ser credíveis. Uma razão pela qual o programa resultante é talvez o mais doloroso é que temos de demonstrar à comunidade internacional que a Grécia está disposta a fazer os sacrifícios necessários para a mudança. Mesmo que algumas dessas medidas sejam de emergência, há outras coisas que são de longo prazo, como as mudanças no sistema de pensões, a torna-lo mais justo, mas também mais viável; ter uma base mais ampla de impostos para as pessoas não evadir. Acho que há coisas que temos que fazer.

Mas as pessoas perguntam: “Irão faze-lo?”. Os mercados estão dizendo: “Irás faze-lo?”. Portanto, temos de prova-lo. E nós estamos determinados a demonstra-lo. Então eu diria que, dum lado, o que fizermos vai ajudar a melhorar a nossa credibilidade e, por outro lado, o mecanismo de apoio da União Europeia é bastante grande, pelo que temos tempo para prova-lo e para ser credíveis. Não temos nenhuma necessidade de suspender os pagamentos ou realizar uma reestruturação.

Reestruturar? Nem morto. E o Povo está connosco!

Talvez não seja uma suspensão pura e simples, mas porque a reestruturação ordenada da dívida não é uma opção?

Nós escolhemos não faze-lo. Optamos por pagar os empréstimos que pedimos. E a razão é que, em geral, quem empresta dinheiro quer garantir-se acerca da nossa credibilidade na altura de devolver. E é isso que queremos mostrar ao mercado: que somos credíveis em relação aos empréstimos.

Existem advogados especializados em reestruturação da dívida os quais afirmam que reestruturar a dívida grega seria mais fácil do se imaginar. Não concorda que é mais arriscado insistir numa situação fiscal insustentável em vez de …?

Eu não concordo com a ideia que seja óbvio. O que temos feito é lançar um grande programa. É isso, obviamente, que as pessoas põem em dúvida. Mas estamos determinados. Nós mostramos a nossa determinação em tomar decisões muito difíceis. E eu diria que muitas pessoas têm demonstrado a própria determinação. Porque se olharmos para as sondagens, as pessoas ainda apoiam fortemente o Governo (!!! NDT) e o plano de ajuste (!!!!!! NDT). Houve críticas para a oposição por não apoiar estas medidas no Parlamento.

Porque as pessoas podem pensar que as medidas são dolorosas e talvez até injustas, mas a reflexão é: “Também sabemos que devemos salvar o nosso País”. Estamos observando um país que diz: “Estamos determinados a fazer sacrifícios para que nosso País seja confiável e mostrar que também mudou.”

Esta reflexão diz respeito à discussão sobre a democracia no início da conversa. A experiência mostra que a maioria dos Países, por vezes, não declaram uma suspensão dos pagamentos ao ficar, literalmente, sem dinheiro, mas por razões políticas, porque há um ponto de inflexão para além do qual o governo decide que não pode causar tanto prejuízo aos próprios cidadãos. Tem certeza de que o seu governo não vai chegar a este ponto de inflexão?

Isso é o que decidimos. E é por isso que temos este programa de medidas da União Europeia. Temos tomado medidas muito difíceis. E com mais tempo e sem os mercados a pressionar, essas medidas entrariam em vigor e seria possível ver os resultados em um ou dois anos. E seriam resultados drásticos que beneficiariam a economia. Mas não tivemos este tempo, então tivemos que tomar medidas de emergência por causa da pressão dos mercados, e demonstrar que estamos determinados.

Eu diria que este plano de austeridade tem dois riscos: um, é claro, que se resume à ordem social. Mas outra é a armadilha duma Grécia numa recessão sem fim aparente.

É imperativo conseguir estimular a economia baseada não só sobre as medidas extraordinárias de austeridade, mas também nas mudanças estruturais que irão estimular a economia real. Mesmo o FMI disse que não é apenas uma questão de consolidação da estabilidade, mas também uma questão de crescimento. Devemos criar as condições necessárias para o crescimento e nisto, mais uma vez, a UE pode ajudar, se os projectos de infra-estrutura orientada irem para a frente ou com a criação do ambiente necessário para fazer mais investimento na União Europeia e, em particular nos Países do sul e também diria do centro e do leste da Europa. Estamos a fazer o que devemos fazer, mas temos de nos concentrar sobre os tipos de coisas que contribuem para o crescimento nessas áreas, e que irá beneficiar toda a Europa, é claro, porque uma economia crescente na Grécia implica consumir produtos, os produtos europeus. O mesmo pode ser dito da Espanha, República Checa, Hungria ou de qualquer outro País.

A culpa? Da Europa.

 A última pergunta é inevitável. Analisando em retrospectiva, não acha que foi um enorme erro deixar que a Grécia entrasse no Euro, sem reforçar o mecanismo de controle dos dados estatísticos, do deficit, da dívida?

Gostaria de dizer o oposto. Eu diria: “Desde que criamos a zona do Euro deveriam ter sido estudado e visto quais os mecanismos necessários para uma coordenação real, porque isso poderia ter acontecido na Grécia como num outro País. Aconteceu na Grécia, mas a crise poderia ter começado num outro País.  E então a zona Euro estaria novamente numa situação difícil. Mas não vou falar sobre o passado.

Mas o que eu diria é que houve uma crise, uma crise internacional, e a Grécia, na altura, não estava a gerir correctamente o seu orçamento. E não havia mecanismos da União Europeia. Por seis anos, a Comissão não teve os números correctos. Agora, bom, em parte a responsabilidade é grega, mas a zona Euro não tinha mecanismos para ser capaz de detectar isso. Estas são coisas que temos de mudar, a coordenação. Então o que temos feito é realçar os pontos fracos da zona Euro. Mas agora é altura de corrigi-los. E uma das coisas que fizemos foi esta grande mudança, que é basicamente um Fundo Monetário Europeu. Mas temos de ver se, no futuro, isto será institucionalizado e se operará com mais eficiência. Então eu diria que estamos num ponto de viragem histórico, que está testando a zona Euro.

Participe na sondagem (ver ao lado)
Obrigado!

A primeira parte da entrevista pode ser lida aqui.

Fonte: El País
Tradução: Massimo De Maria

One Reply to “Papandreou Parte II: Afinal a culpa é da Europa”

Obrigado por participar na discussão!

This site uses User Verification plugin to reduce spam. See how your comment data is processed.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.