Koehler: pensa-se mas não se diz

O Presidente Federal da Alemanha, Horst Koehler, demitiu-se.

Aparentemente a razão foi um misunderstanding, um equivoco, gerado pelo mesmo Koehler  com algumas declarações acerca da missão no Afeganistão.

Eis as palavras do agora ex-presidente numa entrevista radiofonica.:

“Estamos no Afeganistão por causa da segurança. A minha avaliação é que estamos perto de compreender mesmo ao nível da sociedade, que um país do nosso tamanho, com uma tendência para o comércio com exterior e, portanto, com uma dependência a este respeito, deve saber que em caso de dúvida é preciso também um empenho militar para defender os nossos interesses. Por exemplo, rotas comerciais livres, a necessidade de evitar instabilidades regionais que certamente teriam um impacto negativo sobre as nossas possibilidades de comércio, emprego e salário.”

Os leitores de Informação Incorrecta estarão a perguntar: “Então?”

Koehler pintou o retrato da situação qual ela efectivamente é: já ninguém acredita na fábula da luta ao terrorismo internacional, quem está a combater no Afeganistão faz isso por razões muito mais práticas, como defender os próprios interesses económicos.

Só que estas coisas podem ser pensadas mas não ditas, em particular se quem fala é o presidente dum País oficialmente empenhado na Grande Luta contra o Mal.

Emprego de tropas para interesses comerciais? Nem pensar.
Por isso: demissões.

A seguir o ponto da situação feito por Flávio Aguiar, correspondente internacional de Berlim, via O Outro Lado da Notícia:

A sua atitude despertou nos media alemães uma nova tempestade de críticas, dizendo desde que ela fora imprópria e exagerada na situação até que ele nunca tive estatura de estadista, etc.
Para Angela Merkel e a coligação que lidera foi um duro golpe, dado o empenho que ela mesma teve para reeleger Köhler no ano passado.

Houve até quem evocasse a imagem do abandono de um navio que naufraga. A comparação é interessante. No ano passado, quando das eleições de Setembro, a euforia conservadora subiu às nuvens. Ainda que enfrentando uma perda pequena em termos de percentagem de votos, a CDU manteve-se como partido mais votado, enquanto o seu rival e então correlegionário de governo, o Partido Social Democrata (SPD na sigla em alemão) afundava gloriosamente numa débâcle raramente vista e era expelido da coligação.

Em seu lugar entrava o rutilante FDP, uma espécie de DEM alemão, coronelismo à parte, liderado pelo não menos rutilante Guido Westerwelle, que foi nomeado Ministro das Relações Exteriores.
Westerwelle era o líder talhado para defender o ideário dos “self made men & women” na política alemã: menos impostos, menos intervenção do Estado, menos despesas com aposentadorias e pensões, mais liberdade para os mercados. Numa coligação conservadora, seria a dose de equilíbrio perfeita para a imagem de  “grande mãe protectora” que a Chanceler tinha construído.

Mas as coisas não se passaram bem assim.
Westerwelle revelou-se um político algo desastrado e desastroso, enredando-se – e o governo – numa série de declarações contraditórias e contraproducentes sobre os aposentados e pensionistas não poderem
viver às custas de quem traz trabalho vivo para os mercados.
Se antes, assumindo publicamente a sua condição de homossexual, assim como o prefeito Wowereiter de Berlim, Westerwelle acumulou muitos pontos pela sua coragem e pelo facto de opor-se aos preconceitos, depois da suas viagens ao exterior com o seu companheiro provocaram uma certa perplexidade na cena alemã.
O seu companheiro assumiu todas as próprias despesas (isso foi confirmado e reconfirmado) mas mesmo assim a relativa mistura de canais causou espécie. Sobretudo quando da viagem ao Brasil, porque o companheiro do ministro é empresário na área desportiva, gerando suspeitas de que ele poderia favorecer-se dessa condição em relação aos empreendimentos para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Além disso, e mais complicada, foi a atitude do ministro dentro da coligação, onde por vezes parecia estar disputando espaço com a própria chanceler. O FDP poderia ter capitalizado mais os votos dessa parcela do eleitorado que tem ataques de alergia quando ouve falar em impostos e que na Alemanha não é pequena. Ao contrário, sua base de apoio começou a ruir e arrastou para a difícil situação a CDU e sua líder, antes vista com o carisma da competência e da capacidade de decisão.

Nesse novo redemoinho, a coligação e a chanceler viram-se presa num outro: o da crise da Grécia e da obrigação de providenciar fundos para o País em dificuldades e não permitir que o euro, a moeda preferencial da União Europeia, fosse para o buraco ou para o espaço. Nessa encruzilhada, a Chanceler titubeou.

De um lado, os fãs do mercado enfureciam-se diante a possibilidade de “desviar” fundos para pagar o que chamavam de “orgia” de despesas públicas da Grécia; do outro, as vítimas desse mesmo mercado e de suas orgias financeiras clamavam por medidas imediatas que tirassem o euro, a Alemanha e por tabela a Europa do risco de uma estagnação económica, senão recessão, acompanhada por inflação.

No meio, a coligação hesitava e envolvia-se no dissenso interno entre a proposta de diminuir impostos ou de mante-los até a crise passar. No horizonte, uma eleição regional no estado mais populoso do país, a Renânia do Norte – Westfália, que, de facto, a coligação perdeu, comprometendo, dentro do sistema alemão, a sua maioria na Câmara Alta, o Conselho da República, uma espécie de Senado Federal nos nossos termos. As soluções se arrastaram, as decisões não vieram até os últimos momentos, quando ficou claro que se nada fosse feito a Grécia afundaria de vez, os bancos alemães e franceses periclitariam diante da insolvência daquele País, e o euro, junto com Portugal, Espanha, Irlanda, Itália e talvez até a França iriam para o beleléu.

E a Alemanha teve de admitir a ingerência do FMI, com o seu receituário amargo, e até dos Estados Unidos na Zona do Euro. Pior, pelos relatos das reuniões em que de facto as decisões foram tomadas, até um soco de Sarkozy na mesa houve, com ameaças de que, se o grande fundo de 750 bilhões de euros para apoio da moeda não fosse formado, a França deixaria a moeda. O prestígio de Berlim é que saiu quase zerado disso tudo.

O Presidente da Alemanha não é uma Rainha da Inglaterra. Tem poucos poderes, mas tem alguns, entre eles o de vetar leis, e funciona duplamente como uma espécie de reserva moral e de termómetro da nação. Deve ter a compostura, mas também o prestígio da magistratura. Para tanto, é imprescindível ter o amparo e o respaldo políticos para fazer valer aquelas condições. Foi isso que fugiu por debaixo dos pés de Köhler, que provavelmente viu-se como um actor no proscénio, tendo de manter a compostura e o panache do cargo, enquanto atrás de si o cenário começava a ruir e à sua frente a plateia ir deixando a casa.

Não vai haver uma crise institucional na Alemanha, como os mais temerosos chegaram a aventar.
Mas as forças políticas que lhe davam sustentação para o efectivo exercício do cargo e do dever da representação estavam, elas próprias, exaurindo-se. Elas é que estão em crise.

Uma nova constelação se erguerá dessa débâcle, não resta dúvida. Fala-se na candidatura da actual Ministra do Trabalho, ex-ministra da Família, uma política muito popular em todos os sectores da cena alemã. Mas essa cena é que não será mais a mesma. O idílio conservador está ameaçado, e pode não ter “liga” suficiente para enfrentar as tempestades que continuam a armar-se no horizonte do conturbado euro.

Fonte: O Outro Lado da Notícia

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