Ernst Sultanov é um dos redactores de Eurasia, revista de estudos geopolíticos. Dedicou um artigo à situação da União Europeia, sobretudo acerca do futuro dela.
Começamos com a leitura para depois exprimir algumas opiniões:
A Europa de hoje é simplesmente um mecanismo de transferência de dinheiro dos ricos para os membros menos abastados ampliado no mercado comum. Este sistema funcionou muito bem após o colapso do “bloco socialista”, com a expansão económica dos países desenvolvidos em novos mercados . Agora parece que os benefícios deste período foram esgotados e a UE está tornando-se muito cara.
Isso não significa que o nível de desempenho da UE não pode ser melhorado. A Europa pode colher grandes benefícios da uma ulterior integração. Por exemplo, a unificação fiscal pode resolver os problemas de evasão e lavagem de dinheiro, aumentando assim os recursos disponíveis para países europeus. Transferência das funções do Estado para a Europa ajudaria a poupar dinheiro, reduzindo a burocracia.
Mas esta integração não pode ser concluída sem a vontade da classe política europeia. Por agora, nenhum partido assumiu a liderança para acabar esta missão. Só os políticos de Serie B (os vários Solana) entram a fazer parte dos dirigentes europeus. Não é por acaso que uma desconhecida Catherine Ahton foi preferida a Massimo D’Alema para cobrir a posição de “Alto Representante para a Política Externa e de Defesa” da União Europeia.
Na ausência de vontade comum, a classe política dum dos Estados Membros poderia desenvolver este papel. A Francesa ou Italiana não parece à altura da missão: para além da corrupção e da situação económica, é suficiente considerar o aspecto moral dos líderes. Os britânicos estão preocupados com os próprios interesses. Assim, a única classe política que poderia ser considerada adequada para esta tarefa é a da Alemanha – experiência histórica, ombros largos (economicamente), transparência e eficiência, pelo menos em comparação com os outros.
Não sendo capazes de conduzir a Europa, os franceses levaram em frente a cruzada anti-alemão. Paris foi promotora do resgate económico da Europa sem restrições de qualquer espécie. (O Governo francês nos últimos 30 anos não tem sido capaz de produzir um orçamento equilibrado). Berlim, que tentava definir o discurso da integração da UE e reforça-lo algumas medidas drásticas, foi parada com “deixamos o Euro” pronunciada por Sarkozy, no estilo De Gaulle mas com um tom britânico.
Mas a situação de “nem guerra nem paz” é uma ameaça mais grave para a sobrevivência da UE. A única maneira com a qual pode retornar ao seu estado antes da crise seria se a economia voltasse a florescer. Caso contrário, existe o risco de que a situação grega se repita em escala maior após o prazo de 3 anos. O actual estado de endividamento em respeito ao Produto Interno Bruto (PIB) dos países europeus é muito preocupante (146% na Grécia e 82% na Alemanha), especialmente se o PIB não cresce e, portanto, não aumentam as receitas.
Se a crise continua, há muitas razões para dissolver a actual UE. Desde os anos 1990 a Europa foi concebida por muitos (os recém-chegados, sul europeu) como um meio de redistribuição da prosperidade “ocidental”. Sem este bolo podem ser descobertas muitas desvantagens da UE. A burocracia europeia é percebida não apenas como um parasita, mas também como “sanguessuga”: com a crise, as multas da Comissão só aumentaram. Mesmo os cortes nos orçamentos, com os pesados custos sociais, foram ordenados pela UE. Para atenuar as consequências da crise, o Banco Central Europeu foi pressionado para resgatar (re)comprar parte da dívida dos países europeus em risco de insolvência. Seja qual for o meio utilizado pelo BCE, o resultado pode ser muito grave: ou maior crescimento da dívida fiscal dos países membros, ou aumento da inflação. Esta última poderia ser devastadora para a classe média europeia. A estes problemas económicos será possível também adicionar os ataques políticos. Existe o risco cada vez mais grave de crescimento dos nacionalismos nos Países economicamente desenvolvidos e naqueles em fase de crescimento.
As cores da Apocalipse que marcou o fim da União Soviética (um grande deficit, a inflação, bloqueio do o crescimento económico, um duro golpe contra a classe média, nacionalismo e vários conflitos regionais) não são muito diferentes das da União Europeia . E mesmo na URSS, nos últimos anos, muito poucas pessoas acreditavam que “grande doente da Europa” teria morrido em tão pouco tempo.
Informação Incorrecta não concorda com a totalidade das ideias apresentadas. Mas não faltam pontos de grande interesse.
Desde o seu aparecimento foi claro que a União não era um conjunto de Países homogéneos mas uma tentativa para “compactar” um continente que albergava profundas diversidades.
Uma tentativa apressada, duma certa forma. A introdução do Euro, de facto, criou um precedente histórico: nunca uma moeda tinha nascido antes dum Estado. Resultado: o Estado ainda não existe e os vários Países ainda não têm absorvido a ideia de União.
Demonstração, citada pelo artigo: na Europa são “enviados” só os políticos de baixo nível, o que esclarece da melhor forma a consideração que os Estados Membros nutrem pela UE.
Os políticos de Bruxelas sempre foram entendidos quais “apêndices” dos vários governos e nunca como uma nova geração de pessoas um dia capazes de conduzir o continente do ponto de vista político, económico e social.
Consequência: perante a primeira grande crise (a da Grécia), a Europa demorou uma eternidade para alcançar um acordo. Conseguiu só com grandes esforços e sem ser capaz de não pedir a ajuda dos Estado Unidos disfarçados de Fundo Monetário Internacional.
E repare-se no pormenor: ainda no meio da crise falamos dos vários Sarkozy e Merkel, políticos que não operam a partir de Bruxelas, pois é implícito que as decisões importantes não sejam tomadas no coração da UE.
A União política fracassou, para não dizer que nunca começou.
Mas também a união monetária falhou.
Todos sabemos que os grandes sacrifícios serão feitos só e exclusivamente pelo facto de pertencer à zona do Euro. Sem a moeda única não seriam precisos sacrifícios, pelo menos não nestes termos: o que aconteceria seria um aumento da inflação, como tantas vezes tinha sido feito antes. E sem que nenhum País falisse por isso. Mais: sem o Euro a Grécia não teria entrado na que definimos como a “tragédia grega”.
O que Sultanov chama de “nacionalismos” pode também ser visto como algo de ainda mais simples: o facto dos cidadãos europeus (ao menos uma boa parte deles) não se reconhecerem nesta União.
Não é preciso incomodar o nacionalismo para explicar uma verdade que todos conhecemos. os vários governos pouco ou nada fizeram para alimentar o espírito europeísta dos cidadãos. Ao longo de muitos anos as únicas notícias “europeias” tratadas nos media nacionais eram as dos fundos comunitários e as consequentes utilizações.
Agora descobrimos que já não há fundos e que chegou a hora de pagar. Mas pagar para quê?
Para uma Europa que nunca conseguiu ser uma verdadeira União?
Para uma Europa que sempre foi deixada em segundo plano (e que agora, de repente, tornou-se uma questão de vida ou de morte)?
Para uma moeda que não impediu uma nova crise (e não era esta a tal “moeda mais forte”?) e que as mentes pensantes de Bruxelas não querem desvalorizar (o que reduziria os deficit e daria oxigénio às exportações)?
Para salvar um tratado (o de Lisboa) que ninguém votou?
Para salvar um Parlamento Europeu que não toma decisões?
Para salvar os bancos?
Demasiadas perguntas para justificar uma Europa cada vez mais afastada dos ideais europeus dos próprios cidadãos.
Ipse dixit.
Fonte: Eurasia

