Não podemos.
Não podemos não falar de futebol, dos Mundiais, do circo do desporto que ao longo dum mês será a notícia principal de todos os jornais e telejornais.
Admitimos: quem não gosta de ver a selecção do próprio País sair ganhadora?
Também quem afirma “Ah, não, eu futebol nunca, há problemas maiores na vida” não terá um mínimo de orgulho em saber que alguns jogadores do próprio País podem ser os melhores do mundo?
E acrescentamos: se isso fosse realmente só desporto, qual seria o mal? A vida não pode ser só feita de problemas, preocupações e coisas serias. Quem assim pensa é um infeliz.
O problema nasce na altura em que o futebol deixa de ser um desporto para tornar-se uma indústria.
Quando aconteceu isso? Há muito, parece.
E como em cada indústria há quem manda, quem ganha. Nunca ouviram falar da FIFA?
Pepe Escobar escreveu um bom artigo acerca dos Mundiais do Sul África, publicado nas páginas de Asia Times.
Vale la pena ler:
A guerra da Taça do Mundo
O vistoso deus do futebol Diego Maradona prometeu que se a Argentina, da qual é treinador, ganhar a Copa do Mundo na África do Sul, que começou sexta-feira, 11 de Junho, desfilará nu ao redor do Obelisco, no centro de Buenos Aires. Um especial strip-tease como este certamente irá entreter a comunidade internacional farta das sanções do Irão, do zumbido dell’AfPak [Afeganistão e Paquistão, NDT], das piruetas de Israel, das brigas da Coreia, da recessão na Europa e da fuga de petróleo da BP.
Primeiro, vamos esclarecer uma coisa. Aqui falamos de “futebol” inventado pelo Ingleses. E é este futebol que é consumido no mundo inteiro como o ópio final das massas. O grande historiador britânico Eric Hobsbawm observou como o futebol constitua o conflito essencial da globalização: a complicada relação entre o maior mercantilismo e o profundo apego emocional, enquanto todos os fãs do desporto estão envolvidos.
O conflito também é considerar os fãs que seguem agora os jogos no campo como extras do que cada Copa do Mundo é na realidade: um mega-especial televisivo de um mês que tem como protagonistas os jogadores de futebol. O futebol é a maior indústria de entretenimento no mundo – e também um imã para a lavagem de dinheiro.
Quanto vale o jogador do ano, o argentino Lionel Messi? 150 milhões, 200 milhões, 300 milhões de Dólares? Há outros jogadores famosos no mundo, Cristiano Ronaldo de Portugal, Didier Drogba da Costa do Marfim, o inglês Wayne Rooney (e depois há os tão tristes ausentes como Ronaldinho Gaúcho, não convocado, o infortunado capitão da Alemanha Michel Ballack).
Em cada lugar deste tentacular mundo em desenvolvimento, e em toda a Europa, o futebol é o desporto mais globalizado, porque o inconsciente colectivo, de alguma forma, tem quebrado o padrão da cultura de massa ao estilo americano (Hollywood, música pop , telenovelas). O só poder americano não podia satisfazer as fantasias dos supremos rituais de massa, o fim do jogo em si, o jogo como uma metáfora da própria vida, como um jogo de guerra. No futebol, o Conselho Geral da ONU, com poder de veto na realidade é representado pelo Brasil, pela Itália, a Argentina, a Alemanha e um activo grupo que luta para o quinto lugar: Inglaterra e Holanda, desde Espanha até Costa do Marfim.
O futebol permite que a componente de lazer da identidade nacional seja meticulosamente reconstruída: uma guerra com outros meios (de jogar). Ouça o som dum milhão de vuvuzelas, instrumento Sul Africano como uma longa corneta que será o fundo muito audível durante todos os jogos; os jogos de guerra agora têm o nome dos jogos na África do Sul. Mas de alguma forma continua a ser uma sensação desagradável, como se no final o danado vencedor será sempre o mesmo.
Tu jogas, nós ganhamos
Como disse uma vez o eminente escritor uruguaio (e fanático de futebol) Eduardo Galeano, “A Fifa é o FMI do futebol.” Bem como o Fundo Monetário Internacional, a Federação Internacional de Futebol é rica duma forma obscena, extremamente poderosa e consegue uma espécie de hiper-clube exclusiva. A FIFA foi fundada em 1904. Apenas 310 pessoas trabalham na sede em Zurique. E apenas 1.000 trabalham nos 208 Países membros (só 192 os Países membros da ONU, que emprega mais de 40.000 pessoas). Os 24 membros da Comissão da FIFA, pagos com cerca de 50.000 Dólares por mês, gastar o seu precioso tempo viajando ao redor do mundo para fazer acordos com as empresas e os Estados-nação. Como o FMI, a substituição é mínima. A maioria dos membros da FIFA mantêm o próprio emprego por mais de 15 anos.
A FIFA é responsável pela comercialização de cada produto do futebol profissional, patrocínio e direitos de TV. É o epicentro dum mercado de 250 bilhões de Dólares. Em 2009 facturou 1.000 milhões de dólares. Só com a Copa do Mundo na África do Sul, ganhou 3,8 bilhões.
Ícone do capitalismo selvagem, nunca a Fifa perde dinheiro. É totalmente segura. Para esta Copa do Mundo e para a próxima em 2014 no Brasil, no valor de 650 milhões de Dólares. Com os governos nacionais, os acordos não são tão doces. O governo Sul-Africano planeou gastar 450 milhões de Dólares para a Copa do Mundo. Os custos cresceram como cogumelos, pelo menos, até 6 bilhões de Euros, e continuam a crescer. Isso inclui a construção de cinco novos estádios e a reestruturação de outros cinco. Espera-se que Durban se torne um marco ao estilo do Museu Guggenheim, em Bilbao.
Acaba assim? Nem pensar, acaba aqui a primeira parte.
Se querem saber mais acerca da Fifa e do futebol terão que ler a segunda parte. Muito em breve.
Fonte: Asia Times





Acredito que há um erro nessa parte do artigo:
"O governo Sul-Africano planeou gastar 450 milhões de Dólares para a Copa do Mundo. Os custos cresceram como cogumelos, pelo menos, até 6 milhões de Euros, e continuam a crescer."
Não seriam 6 bilhões, em vez de 6 milhões?
Muito bem visto.
Faço "mea culpa" pois foi um erro de tradução. De facto 6 milhões não fazia sentido…
Obrigado!
Max