Bom, esqueçam os bancos, o Euro, Israel, até Portugal e Brasil eliminados dos Mundiais de Futebol.
Vamos falar agricultura.
Uma nova maneira para combater a crise?
Não, pelo menos não por enquanto. No futuro, talvez…
Falamos das origens da agricultura. As vezes esquecemos que os nossos são os conhecimentos do século XXI; a seguir haverá os do século XXII, XXIII, etc. Isso significa que o que pensamos de saber hoje pode revelar-se errado amanhã.
A revista Current Anthropology acabou de publicar num volume especial o relatório dum encontro em Plattsburg, New York, que reuniu vários especialistas do sector antropológico. O tema principal era o nascimento da agricultura e as surpresas não faltaram.
Lembram da história ensinada na escola segundo a qual um grupo de nómadas um bom dia descobriu que plantar um couve afinal era melhor que seguir os animais, por isso construíram as primeiras cabanas e assim iniciou a civilidade como hoje a conhecemos?
Bem, afinal as coisas podem ter corrido de forma ligeiramente diferente.
1. Avanço cultural o necessidade?
Já em 1977, o prof. Mark Nathan Cohen manifestou dúvidas sobre o porque a agricultura nasceu: pode ter sido um recuo, houve um desequilíbrio entre população e recursos para a pressão populacional excessiva, devido ao aumento da primeira ou uma diminuição dos segundos. Alguns indicadores parecem apoiar a segunda hipótese; as mudanças climáticas tinham mudado completamente o ecossistema em algumas áreas: por exemplo, o estepe foi substituído pelo avanço das florestas e, assim, a vida selvagem que alimentava os caçadores praticamente desapareceu (de acordo com uma outra linha de pensamento seriam os próprios caçadores a exterminar-la…).
2. Aumento demográfico
A adopção da agricultura implicou, com a “transição demográfica neolítica”,um aumento da população. Demonstrado pelos dados arqueológicos e pela situação actual: áreas habitadas por caçadores – colectores são (ou eram também em tempos históricos) caracterizadas por uma menor densidade populacional. Assim, o modelo de difusão, através de um gradiente de densidade populacional em áreas onde a agricultura tinha sido adoptada e áreas que ainda não tinha sido, é muito credível e tem provas independentes nos estudos arqueológicos, genéticos e paleolinguísticos.
3. Deterioração da qualidade de vida?
Isto é realmente estranho: a transição da caça e recolha para a agricultura foi caracterizada por uma diminuição na saúde e das expectativa de vida. Como se pode conciliar este dado com o aumento da população? Somente através do aumento da fertilidade das mulheres, tornada possível pela adopção dum estilo de vida sedentário: grupos nómadas constantemente em movimentos forçosamente limitam o número de filhos que uma mulher pode crescer ao mesmo tempo. Os indicadores mostram uma diminuição da altura média e um aumento nas infecções, doenças, vários episódios de stress e de parasitas. Nas crianças podemos ver numerosos episódios temporários de desnutrição, em toda a parte, excepto no Sudeste Asiático, na área de arroz. Na verdade, algumas comunidades agrícolas desapareceram de repente. Isto pode ter sido provocado por causas humanas (guerras, por exemplo), mas em alguns casos, há indícios de incêndio ou de outros factores; por isso permanece em aberto a possibilidade de epidemias graves.
4. Contemporaneidade
As práticas agrícolas têm sido aplicadas quase simultaneamente em muitas áreas, mais ou menos após o final do último período glacial (ou seja, menos de 10.000 anos atrás). De fato, os dados da Anatólia mostram que as primeiras culturas encontradas datam de pouco depois do final do Wurm: a demonstração da evolução destas plantas, até quase 2000 anos após não aparecem as formas típicas da agricultura (isso é, que para reproduzir-se necessitam de intervenção humana), embora seja possível observar claramente uma tendência para as sementes maiores e barbas menores.
5. Problema nutricional
Parece difícil viver só de agricultura, basicamente por causa do baixo (e muitas vezes incompleto) teor de proteínas dos vegetais, e isso pode ser resolvido em via teórica só com uma dieta muito variada. Assim, especialmente no caso da monocultura, a dieta de ser complementado de alguma forma.
6. Passagem muito lenta
A visão comum até algumas décadas era uma transição muito rápida entre as duas economias. Agora os investigadores estão orientados para definir a transição de uma economia da subsidiaridade, tal como a de caçadores – colectores, para a agricultura como um evento que durou pelo menos um par de milénios, e não alguns séculos. Nesta visão, as práticas agrícolas foram de princípio uma simples integração de recursos, para tornar-se dominantes somente mais tarde.
7. Clima constante
O desenvolvimento da agricultura ocorreu na altura climatológicamente pior, num contexto de mudanças climáticas contínuas e significativas que se seguiam comum ritmo até de cem anos ou pouco mais.
8. Uma passagem cultural epocal
Com a adopção da agricultura, a humanidade teve que descobrir a gestão dos recursos. Pelo menos parcialmente, diferentes mamíferos (e não) escondem temporariamente a comida, mas com a agricultura esta administração torna-se extremamente complexas: os recursos que dão um retorno imediato são mais desejáveis dos de longo prazo e o seu armazenamento drena uma certa percentagem destes para um futuro mais ou menos próximo no qual talvez pudessem servir. Então, devido a possíveis problemas climáticos (muito mais frequentes nesse período delicado), uma comunidade agrícola era obrigada a guardar reservas para os próximos anos, (além das necessidades entre uma colheita e outra de uma safra para outra), com mais riscos.
– Destruição
– Chegada de parasitas humanos ou animais
– Falta de dieta variada
– A necessidade de vigiar (sedentarismo)
– Em condições de fome, poderia ser muito difícil desviar recursos
Isso mostra que a questão é muito menos simples do que previsto e permanece a pergunta: a agricultura é uma conquista ou uma necessidade?
Segundo alguns pesquisadores parece que agricultura ter sido uma necessidade e não uma conquista, como podem demonstrar factores tais como a presença de enclaves de caçadores – colectores entre as áreas com densa presença de agricultores ou grupos de agricultores que voltaram para a etapa anterior. Ao longo das costas é possível que isso dependeu da presença abundante de outros recursos tais como os peixes. Em outros casos os nómadas trocavam os produtos com os agricultores.
Outras populações sempre ficaram nesta fase, porque, como na Califórnia ou na Austrália, nunca tiveram contactos com os agricultores. É importante notar que, nestes casos, não houve uma transição demográfica neolítica e a densidade populacional manteve-se baixa.
A agricultura também levou a uma forte mudança social: do relativo igualitarismo dos caçadores – colectores, as sociedades agrícolas constituíram num tempo relativamente curto sociedades estratificadas. Este processo não tem sido fácil, em parte porque a mudança tecnológica é definitivamente mais rápida do que a social, dado que a primeira pode também acontecer por iniciativa “privada” de uma única pessoa, enquanto a segunda exige pelo menos uma base de indivíduos que suportem os novos tipos de relações sociais.
Afinal, os livros de história não contam tudo…
Ipse dixit.
Fonte: Scienzeedintorni

