Think20: os não-eleitos escolhem o nosso futuro

Inscrito num fórum de apaixonados de automóveis, sigo com extremo interesse as discussões acerca da electrificação forçada da mobilidade. Recentemente até apareceu a suprema acusação lançada contra um dos participantes, culpado de ter proferido as palavras “World Economic Forum”: um teórico da conspiração, obviamente.

Por aqui vamos realçar a falta de conhecimento daqueles que fazem estas acusações e que demonstram ignorar o que está a acontecer a nível da governação mundial. Ignoram o facto da pandemia, e da reacção perante a mesma, ter dado um poderoso impulso à reorganização das instituições internacionais, que visam agora objectivos muito mais ambiciosos do que no passado, com projectos que ultrapassam o âmbito dos Estados cada vez menos soberanos.

O que há nisso de “conspiratório”? Nada: há mas é fria lógica. Mas, ainda uma vez, estamos perante o mágico binómio de condicionamento das massas unido à preguiça mental que impede algo extremamente simples: a recolha de informações. Que existem, estão aí, esperam só de ser lidas.

Um óptimo exemplo de como o establishment globalista esteja a trabalhar não fica escondido em obscuras reuniões num bunker subterrâneo mas na principal universidade económica italiana, a Luigi Bocconi, no centro da cidade de Milano. Um evento anunciado nas páginas online do think tank G20 e seguido pelos órgãos de informação. Nada de oculto, nada de disfarçado: tudo à luz do sol durante o presente mês de Outubro.

A cimeira, na qual participaram os líderes das mais importantes organizações internacionais juntamente com representantes do mundo das multinacionais, teve como objectivo oferecer um esboço dos trabalhos para o próximo G20, que será realizado em Itália no final deste mês.

A lista dos participantes? Impressionante, pois parece não faltar ninguém. Das mais prestigiadas universidade do planeta, passando pelas bem conhecidas instituições supranacionais (ONU, Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Parlamento Europeu), ONG e think tank (como WWF ou Apsen)   até, obviamente, as multinacionais representadas por World Economic Forum, Canon, Mitsubishi, Kellogg’s, Tata, Ricoh, IBM, Novartis, General Electric, Google…). E nem faltam representações do Vaticano ou dos Países em desenvolvimento: é o caso da Academia Chinesa dos Engenheiros, a Academia Chinesa das Ciências Sociais (CASS), a Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL), o Indian Council for Research on International Economic Relations, o Laboratorio de Investigación e Innovación en Educación para América Latina y el Caribe (SUMMA), o Center for International Institutions Research (CIIR) de Moscovo (Rússia), o Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (CEIPE-FGV) de Rio de Janeiro (Brasil), o Brazilian Center for International Relations (CEBRI) e a Universidade de Estado para Estudos Sociais Políticos (IESP-UERJ) sempre de Rio de Janeiro.

Mas vamos aos conteúdos. Abertura com o presidente emérito da Universidade de Harvard, Lawrence H. Summers, que é muito claro:

Após décadas de letargia, a inflação está a acordar. Isto significa uma coisa: o tempo das políticas expansivas dos bancos centrais está a chegar ao fim, o instrumento da política fiscal está a regressar como um poderoso instrumento para regular os activos económicos dos países. Temos de tomar nota disto.

Por outras palavras: regresso à austeridade. E, continua Summers, devemos também considerar cuidadosamente as ameaças globais à segurança: as alterações climáticas, a biodiversidade ameaçada e novas pandemias.

Como prevenir estas ameaças? Simples: reformando as organizações e as instituições internacionais para torna-las mais fortes. Uma reforma que não pode ser realizada em pequenos passos, mas apenas com um impulso forte e determinado: Summers espera que indivíduos respeitados, com os quais está pessoalmente ligado por uma amizade sincera (como o Primeiro Ministro italiano Mario Draghi), trabalhem para que as organizações internacionais sejam um instrumento poderoso para o futuro.

A intervenção do Secretário-Geral da ONU, o português Antonio Gutierres, traz mais do mesmo. A Covid 19 mostrou que os nossos sistemas e estruturas não estão a atingir os objectivos e necessitam duma urgente actualização: através das novas tecnologias, é necessário reforçar as capacidades de tomar decisões e melhorar a coordenação internacional para reforçar a aspiração à paz e à saúde global. Precisamos de um novo contrato social com enfoque em dívida, vacinas, clima, digitalização e tecnologia. E sim, tem que ser abordada a questão da governação global.

Estas ideias irão repetir-se em quase todos os discursos: crescimento económico, mudança radical, inclusão, clima, vacinas, segurança e, claro, governação global. Vice-versa: soberania, democracia, direito ao trabalho e liberdade não aparecem. Porque não interessam.

Luiz de Mello, director de estudos políticos do departamento de economia da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), consegue mesmo pronunciar as três mágicas palavras numa frase só: for a stonger greener and more inclusive economic growth, “para um crescimento económico mais forte, mais verde e mais inclusivo”. Segundo De Mello, o caminho para o desenvolvimento económico é através das vacinas: o mundo inteiro deve ser vacinado, e isto requer uma cooperação perfeita a nível mundial. Nada de vacinas? Nada de crescimento.

Para Patricia Espinosa, Secretária Executiva da UNFCCC (Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas), chegou o momento de escolhas globais radicais para enfrentar as alterações climáticas e enviar um sinal forte para uma transição até um futuro com baixo teor de carbono. O tempo de levar as coisas devagar acabou: esta é a altura para uma acção concreta.

Falta de tempo, eis outro tema comum entre os oradores: chega de reflexão, chega de discussão, este é o momento de agir. O objectivo é transformar um mundo multipolar num sistema integrado. E nesta perspectiva, a reacção ao vírus da Covid torna-se a prova de fogo para todas as acções futuras. Não foi conseguido travar o mundo durante um ano com bloqueios e depois impor as vacinas? Da mesma forma poderemos forçar as mudanças necessárias nas esferas ambiental e digital. Impossível não é nada, agora que sabemos o que fazer.

Pergunta de um jornalista: como equilibrar legitimidade, representação e eficácia na governação global de crises? De acordo com Angel Gurria, outro presidente emérito da Universidade de Harvard, a resposta são as cimeiras do G8 e G20 porque estas reuniões são representativas, legítimas e capazes de uma acção eficaz. As grandes organizações internacionais, grupos como o Women 20, ou Business 20, cujos líderes não são eleitos por ninguém (mas este é um detalhe que não nos interessa aqui), podem tomar decisões vinculativas para todos. O sistema está baseado no consenso entre os grandes players. Se não houvesse G20, teria de ser inventado, conclui Gurria. Afinal das contas, é graças ao G20 que se estão a fazer progressos em matéria de alterações climáticas.

A intervenção central foi feita por Kristalina Georgeva, directora geral do Fundo Monetário Internacional, o FMI. A Georgeva assinalou com lápis vermelho três riscos para o crescimento global:

  1. Crescimento e vacinas. Alguns Países crescem bem, outros muito menos devido a campanhas de vacinação deficitárias.
  2. Inflação. Alguns Países em desenvolvimento estão a crescer muito rapidamente, outros menos. Os preços dos alimentos básicos subiram 30% desde 2020, seguidos pelos preços da energia.
  3. Dívida pública. Mais uma vez, existem diferenças entre Países mas, em geral, a dívida será um problema em 2022.

Soluções? A Georgeva delineia três delas:

  1. Vacinar o mundo. Pelo menos 70% da população de cada País deve ser vacinada até meados de 2022. Sem uma vacina, não há crescimento.
  2. Política fiscal (leia-se “austeridade”) para os Países sobre-endividados.
  3. Aceleração das reformas para transformar as economias: alterações climáticas, alterações tecnológicas (revolução digital), inclusão. Precisamos de agir agora com investimentos na economia verde para uma transição completa a curto prazo e tributar o carbono como se não houvesse amanhã.

Porque, diz Kristalina Georgeva, haverá outras pandemias e choques climáticos. Pelo que precisamos de coordenar as acções a nível global para que a integração das políticas climáticas prossiga sem sobressaltos; precisamos de antecipar as próximas pandemias, estar preparados através da integração das comunidades de saúde e financeiras. A luta contra as alterações climáticas é uma oportunidade única para provocar uma mudança radical no mundo. Para tal, as organizações internacionais, como a OMS, devem ser ainda mais fortes.

Continua a Georgeva: encontramos-nos num período de transformação. Infelizmente, a tributação do carvão irá encerrar muitas fábricas e muitas pessoas perderão os seus empregos. Paciência, acrescentamos nós, melhor não pensar nisso.

Mas pode haver uma solução. Uma política global de subsídios tornada possível por uma das transformações mais importantes que a mesma presidente do FMI anuncia no final do seu discurso: o sistema monetário internacional, o famoso dinheiro digital. Na era pré-Covid, a digitalização monetária e a moeda digital era uma conversa futurista. Com a pandemia, o futuro é agora, conclui Georgeva: é a moeda digital do Banco Central, o CBDC. Uma moeda concebida para ser globalmente coordenada com validade em cada Estado e convertível numa base 1:1 com a moeda local.

Para que o projecto CBDC seja realizado, é essencial que o público acredite na centralização do dinheiro digital, uma vez que a validade de uma moeda está baseada na confiança.

A moeda electrónica centralizada poderia funcionar como o antigo cartão de racionamento da Segunda Guerra Mundial. Cada cidadão seria creditado com uma certa quantia de dinheiro todos os meses: dinheiro utilizado para comprar alimentos, bens de consumo, pagar rendas e necessidades básicas. A moeda centralizada excluiria a compra de bens imobiliários, tais como casas e terrenos, ou bens de luxo que só poderiam ser comprados com uma moeda diferente, cuja taxa estaria ligada ao ouro ou outro metal precioso. Escusado será dizer que esta segunda moeda, mais valiosa, não seria distribuída, mas seria acessível apenas àqueles que a pudessem pagar em virtude da sua posição social. Esta segunda moeda seria utilizada para pagar profissões de um certo nível, tais como executivos de multinacionais, ministros, altos funcionários.

Um ponto em que quase todos os oradores insistiram foi a digitalização, ou a revolução tecnológica. Segundo Sharon Thorne, directora administrativa da Deloitte Global (uma empresa multinacional especializada em serviços financeiros e jurídicos internacionais), a digitalização pode agravar as desigualdades. Isto foi evidente durante o encerramento por causa da Covid, onde aqueles que podiam entrar na era digital trabalhavam principalmente em sectores especializados e altamente remunerados, duas prerrogativas que tornavam possível trabalhar a partir de casa. Para empregos menos qualificados, no entanto, isto era muito mais complicado.

Também aqui há uma solução e o nome dela é reskilling, outro termo mágico que na neolinguagem global substitui a antiquada “requalificação”. Estamos em emergência de requalificação, anuncia o director-geral da Deloitte Global. Em Janeiro de 2020, antes da Covid, o Fórum Económico Mundial em Davos tinha anunciado que, a nível mundial, mais de mil milhões de pessoas precisariam de ser requalificadas até 2030. A pandemia acelerou a utilização da tecnologia e a digitalização.

Hoje, uma coisa é certa: as tão celebradas automatização, digitalização e inteligência artificial reduzirão a procura de mão-de-obra. A tecnologia irá substituir muitos empregos, provavelmente até criar novos, mas não sabemos quantos e em quanto tempo. De certo haverás perdas, empresas falidas e o desemprego: o CEO da Volkswagen, Herbert Diess, declarou recentemente que a mudança para a produção de veículos eléctricos resultará na perda líquida de 30.000 postos de trabalho. Outra vez: paciência, nem vale a pena pensar nisso.

As conclusões de Sharon Thorne abraçam num novo estilo mundial verdadeiramente corajoso (Brave New World): o trabalhador deve demonstrar adaptabilidade e resiliência. E, claro, a inclusão. Uma palavra que aqui adquire exactamente o valor oposto, uma vez que a extinção de milhões de empregos, e o consequente sofrimento que causará, não inclui nada mas exclui.

Conspiração?!?

Pergunta: onde fica a conspiração nisso tudo? Não há nada de “conspiratório” por aqui, está tudo preto no branco, é cristalino, transparente. Estes indivíduos falam de forma aberta, explícita, perante plateias e jornalistas. São pessoas que apresentam programas claros, que todos conseguem entender, se o desejo for realmente entender. A conspiração existe apenas no cérebro de quem acusa os outros de serem teóricos da conspiração. A conspiração existe só e unicamente nas cabeças daqueles que têm medo de assumir uma realidade que mais clara não poderia ser.

Nunca é demais repetir que aqueles que estão a elaborar estes programas, que têm a ambição de remodelar o nosso futuro, não foram eleitos por ninguém, não respondem perante ninguém excepto os seus superiores, financiadores ou patrocinadores: foram nomeados com base em escolhas operacionais entre leques de candidatos muito reduzidos. A maior mudança social do nosso tempo está a ser discutida por um punhado de organizações internacionais e corporações multinacionais coordenadas entre elas, impermeáveis perante a vontade dos cidadãos.

Estamos perante indivíduos que ninguém alguma vez elegeu e que decidiram encarregar-se de escolher os destinos de todos nós. Até o mais convencido dos anti-conspiracionistas deveria perceber como por aqui não haja um pingo de democracia, de representatividade. Mas há projectos, bastante claros até. Eis alguns deles (artigos em idioma inglês):

O Leitor alguma vez votou para decidir acerca destas assuntos? Não? Não importa: estes projectos serão implementados na mesma. Estão a discutir mesmo disso.

 

Ipse dixit.

2 Replies to “Think20: os não-eleitos escolhem o nosso futuro”

  1. Isso é tudo colóquio amolecido para bovinos ressonarem, se der errado (mais provável) ninguém assume, se der um saldo positivo, teremos uma briga feia para ver quem é o pai da criança. E assim caminha a humanidade, só não convém esquecerem de uma coisa, o caro não vive sem o barato, e sem salário não existe consumo, então, aumentando a massa de desempregados, podemos esperar mais crise e recessão

  2. Olá Max e todos: concordo Max, mais claro impossível. Mas o povo concorda. São pessoas de “alto nível”, que sabem o que dizem, que estudaram muito a realidade e estão preocupados com o bem estar do planeta e seus habitantes.
    O povo foi moldado para pensar assim: não dá para fazer omelete sem quebrar os ovos; então se milhares de empregos e pessoas serão definitivamente arruinados, são os ovos quebrados, o sacrifício de alguns para o bem geral.
    Por outro lado, nosso programa deveria pautar-se por:
    Afirmar que as pessoas dos grandes fóruns sabem muitas vezes menos que nós, são escolhidas porque capazes de repetir mantras definidos por quem realmente manda. E mesmo que fossem eleitos, daria no mesmo. A corrupção nos pleitos está a provar isso.
    Mostrar o que significa aquilo que esses doutos afirmam não interessar. Em conclusão, somos nós que não interessa, e porque não interessamos.
    Repetir nossas posições ad eternum para , da mesma forma, entrar na cabeça da maior parte. Enfim a guerra que nos encontramos é a da comunicação, nem chega a ser a da informação lúcida.

    Max, fiquei em dúvida sobre o que significa para esses fdp aliar vacinação e crescimento. Não consegui entender. Raios, crescimento do que? Só que seja da mortandade., do controle, do esvaziamento mental.

Obrigado por participar na discussão!

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