As vacinhas chinesas: são eficazes?

As vacinas chinesas contra a Covisd-19 têm baixa eficácia. Gao Fu, Director do Gabinete de Controlo e Prevenção de Doenças da China, disse isso mesmo no passado dia 10 de Abril. É raro que um alto funcionário de Pequim saia do armário para apresentar um fracasso do regime: especialmente sobre a questão da pandemia do coronavírus, que o Presidente Xi Jinping diz ter sido abordada com sucesso.

Para aumentar a eficácia, Gao especulou sobre a administração de diferentes vacinas no mesmo paciente, aumentando o número de doses injectadas de duas para três e alterando o intervalo entre as doses. Ou seja: uma vacina não funciona? Tentamos com três no mesmo paciente e, com um pouco de sorte, uma delas algo fará… Como é evidente, falamos aqui dum dos patamares mais elevados atingido até hoje pela Ciência: tecnicamente pode ser descrito como “Vaccino-Bingo”.

Até agora, a China desenvolveu quatro vacinas. Todas são do tipo “inactivados”, ou seja, obtidos a partir de microrganismos de-potenciados: não tentam alterar o RNA, não transportam o vírus com um vector mas injectam o vírus desactivados. Estudos brasileiros afirmam que a Sinovac chinês é eficaz em 50.4% dos casos; os testes turcos registaram uma taxa de sucesso de 91.25%; os teste indonésios 65.3%. As vacinas de fabrico ocidental como Moderna, Pfzer-BioNTech e a famigerada AstraZeneca declaram taxas de eficácia superiores a 90% (mas, como vimos no passado, seria preciso explicar um par de coisas acerca deste alegado 90%…). De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma vacina deve ter uma eficácia superior a 50% para poder ser distribuída. E a chinesa Sinovac ultrapassa o limiar, embora de pouco.

Depois da primeira entrevista, Gao tentou corrigir algo. Numa entrevista com o governamental Global Times, o cientista chinês disse que as suas palavras tinham sido mal interpretadas (um clássico) e que “os níveis de protecção das vacinas desenvolvidas até agora em todo o mundo são por vezes altos e por vezes baixos”.

A imprensa chinesa ignorou em grande parte os comentários originais de Gao. As suas declarações suscitaram críticas de alguns utilizadores das redes sociais Weibo, que o convidaram a “calar-se”.

Muitos peritos estrangeiros criticaram o processo da China para a aprovação das suas próprias vacinas como sendo opacas em comparação com as do Ocidente. Foi expressa uma forte preocupação especialmente sobre o início da campanha de vacinação antes de completar os testes, incluindo os testes em grande escala da Fase 3. É verdade que as vacinas tanto chinesas quanto russas têm dados opacos (no mínimo), mas é também verdade que nenhuma das vacinas ocidentais completou a Fase 3.

A verdade é que as declarações de Gao representam um problema para todos os Países (60 de acordo com Pequim) que receberam gratuitamente ou compraram as vacinas chinesas. A China é actualmente o País que exporta mais doses destes medicamentos, apesar de ainda não terem sido reconhecidos como válidos e eficazes pela OMS. Por esta razão não podem ser incluídos no Covax, o programa mundial de vacinação dos Países em desenvolvimento.

A alegada falta de eficácia das vacinas Sinopharm, Sinovac Biotech e CanSino Biologics também ameaça a campanha de imunização na União Europeia. Indo contra as instruções das autoridades da UE, a Hungria de Viktor Orbán comprou e vacinou com doses do medicamento chineses contra o coronavírus. Uma escolha oportuna? Segundos dados oficias a resposta é sim: a China teve até hoje 90.435 infectados (+9 nas últimas 24 horas) e um total de 4.636 óbitos. Objectivamente, num País de quase 1 bilião e meio de cidadãos, este números representam o zero. Contra-prova: na China houve 63 casos de Covid por cada milhão de habitantes e 23 óbitos, sempre por cada milhão de habitantes. Apenas poucos Países conseguiram resultados melhores e, considerando que a China começou o desconfinamento já no Maio passado, parece normal deduzir que a campanha de vacinação deve ter tido uma adequada implementação e uma boa dose de sucesso.

Mas assim não é: segundo os últimos dados, apenas 4% da população recebeu a vacina. E, segundo quanto afirmado pelo Director do Gabinete de Controlo e Prevenção de Doenças da China (o citado Gao Fu), as vacinas chinesas são poucos eficazes: o que significa que nem todo aquele 4% de população vacinada ficou imunizada. Pelo que, se não foi a vacina a travar a “pandemia” então foi outra coisa. Não foi o confinamento, pois como vimos a China reabriu há 10 meses… sobra a dúvida acerca dos dados: Pequim comunicou todos os casos de Covid-19?

 

Ipse dixit.

Imagem: Zhang Yuwei/AP/pictures alliance via DW

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