Bolívia: a primeira guerra do lítio

Artigo extremamente importante que reporto na integra: nas páginas de Voltaire.net, Thierry Meyssan faz um resumo daquela que define como “a primeira guerra do lítio”: tal como aconteceu até hoje no caso do petróleo, também o lítio merece as suas guerras.

O precioso metal tornou-se um componente fundamental do electrólito e um dos eléctrodos das baterias. Devido à sua baixa massa atómica, tem uma elevada carga e uma elevada relação potência/peso: uma bateria típica de iões de lítio é capaz de gerar cerca de 3 V por célula, em comparação com 2.1 V duma bateria de chumbo-ácido ou 1.5 V dumas células de zinco-carbono.

Outras baterias recarregáveis que utilizam lítio incluem a bateria de polímero de iões de lítio, a bateria de fosfato de ferro de lítio, e a bateria de nano-fios.

Os automóveis eléctricos, também na versão híbrida (motor de combustão mais motor eléctrico), precisam de lítio e as casas automobilísticas estão empenhadas na corrida para a “electrificação” das suas gamas. O que significa: mais e mais lítio.

Isso sem esquecer as aplicações “clássicas” do metal: o lítio metálico e os seus hidretos complexos, como o LiAlH4, são utilizados como aditivos de alta energia para propulsores de foguetes. O hidreto de lítio de alumínio também pode ser utilizado por si só como combustível sólido. Sempre o hidreto de lítio é utilizado em bombas de hidrogénio.

E nas centrais de fusão nuclear em projecto e/ou em construção, o lítio será utilizado para produzir trítio em reactores confinados magneticamente com deutério e trítio como combustível.

Tabela original: Wikipedia Fonte: United States Geological Survey (USGS)

Obviamente, o lítio intervém também nos acumuladores para a gestão da energia “verde”.

Boa leitura.


O derrube de Evo Morales e a primeira guerra do lítio

 

O mundo estava habituado às guerras do petróleo desde o fim do século XIX. Eis que agora começam as do lítio ; um mineral essencial aos telefones portáteis, mas principalmente para as viaturas eléctricas. Documentos do Foreign Office, obtidos por um historiador e um jornalista britânicos, atestam que o Reino Unido organizou, com todos os detalhes, o derrube do Presidente boliviano Evo Morales a fim de roubar as reservas de lítio do país.

 

Recordem o derrube do Presidente boliviano Evo Morales, nos fins de 2019. À época, a imprensa dominante clamava que ele havia transformado o seu país numa ditadura e que acabava de ser expulso pelo seu povo. A Organização dos Estados Americanos (OEA) publicava um relatório para certificar que as eleições tinham sido truncadas e que se assistia ao restabelecimento da democracia.

Entretanto o Presidente Morales, que temendo acabar como o Presidente chileno Salvador Allende se refugiara no México, denunciava um Golpe de Estado organizado para apanhar as reservas de lítio do país. Mas não conseguindo identificar os mandantes, nada mais provocou do que sarcasmos no Ocidente. Apenas nós revelamos que a operação havia sido posta em prática por uma comunidade de católicos croatas ustashas presente no país, em Santa Cruz, desde o fim da Segunda Guerra Mundial; uma rede stay-behind da OTAN [1].

Um ano mais tarde, o partido do Presidente Morales ganhou com larga maioria as novas eleições [2]. Não houve contestação e este pode triunfalmente regressar ao seu país [3]. A sua pretensa ditadura jamais tivera lugar, enquanto a de Jeanine Áñez acabava de ser derrubada pelas urnas.

O historiador Mark Curtis e o jornalista Matt Kennard tiveram acesso a documentos desclassificados do Foreign Office (Negócios Estrangeiros britânico-ndT) que estudaram. Eles publicaram as conclusões no sítio Declassified UK, sediado na África do Sul, após a sua censura militar no Reino Unido [4].

Mark Curtis mostrou ao longo de todo o seu trabalho que a política do Reino Unido não havia sofrido qualquer mudança com a descolonização. Nós já citáramos o seu trabalho numa dezena de artigos da Rede Voltaire.

Revelava-se que o derrube do Presidente Morales fora uma montagem do Foreign Office e de elementos da CIA que escapavam ao controle da Administração Trump. O seu objectivo era o de roubar o lítio existente no país, cobiçado pelo Reino Unido no contexto da transição energética.

A Administração Obama havia já, em 2009, tentado um Golpe de Estado que foi derrotado pelo Presidente Morales e que levara à expulsão de vários diplomatas e funcionários dos EUA. Pelo contrário, aparentemente a Administração Trump deixou o campo livre aos neoconservadores na América latina, mas sistematicamente impediu-os de levar os seus planos à prática.

O lítio entra na composição das baterias. Encontra-se principalmente em salmouras de desertos de sal em altitude, nas montanhas chilenas, argentinas e sobretudo bolivianas («o triângulo do lítio»), até mesmo no Tibete, são os «salares». Mas também sob a forma sólida em certos minerais, extraídos de minas, nomeadamente australianas. Ele é indispensável para a mudança de viaturas movidas a gasolina para veículos elétricos. Tornou-se, portanto, uma questão mais importante que o petróleo no contexto dos Acordos de Paris que são supostos combater o aquecimento climático.

Em Fevereiro de 2019, o Presidente Evo Morales autorizara uma empresa chinesa, TBEA Group, a explorar as principais reservas de lítio do seu país. O Reino Unido concebeu, pois, um plano para o roubar.

Evo Morales, índio aimara, tornou-se Presidente da Bolívia em 2006. Ele representava os produtores de coca; uma planta local indispensável à vida a grande altitude, mas igualmente uma potente droga interdita no mundo pelas ligas de virtude dos EUA. A sua eleição e a sua governança marcaram o retorno dos índios ao Poder do qual haviam sido excluídos desde a colonização espanhola.

- Já em 2017-18, o Reino Unido enviara peritos à empresa nacional boliviana, Yacimientos de Litio Bolivianos (YLB), para avaliar as condições de exploração do lítio boliviano.
- Em 2019-20, Londres subvencionou um estudo para «optimizar a exploração e a produção do lítio boliviano utilizando a tecnologia britânica».
- Em Abril de 2019, a embaixada do Reino Unido em Buenos Aires organizou um seminário com representantes da Argentina, do Chile e da Bolívia, funcionários de empresas mineiras e de governos, para lhes apresentar as vantagens que teriam em usar a Bolsa de Metais de Londres. A Administração Morales fez-se aí representar por um dos seus ministros.
- Imediatamente após o Golpe de Estado, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) aprestou-se para financiar projectos britânicos.
- O Foreign Office havia contratado —muito antes do Golpe de Estado— uma empresa de Oxford, a Satellite Applications Catapult, a fim de mapear as reservas de lítio. Ela só foi paga pelo IADB após o derrube do Presidente Morales.
- A Embaixada do Reino Unido em La Paz organizou, alguns meses mais tarde, um seminário para 300 agentes da fileira com o apoio da sociedade Watchman UK. Esta empresa é especializada no modo de associar as populações a projectos que violam os seus interesses, a fim de evitar a sua revolta.

Antes e depois do Golpe de Estado, a embaixada Britânica na Bolívia negligenciou a capital La Paz para se interessar mais especificamente pela região de Santa Cruz, aquela onde os Croatas ustashas haviam legalmente tomado o Poder. Aí, ela multiplicou as iniciativas culturais e comerciais.

Para neutralizar os bancos bolivianos, a embaixada britânica em La Paz organizou, oito meses antes do Golpe de Estado, um seminário sobre segurança informática. Os diplomatas apresentaram a empresa DarkTrace (criada pelos Serviços Secretos do Interior britânicos), explicando que apenas os estabelecimentos bancários que a contratassem, para garantir a sua segurança, poderiam vir a trabalhar com a City.

Segundo Mark Curtis e Matthew Kennard, os Estados Unidos não participaram, por si mesmos, no complô, mas alguns funcionários deixaram a CIA para a preparar. Assim, a DarkTrace recrutou Marcus Fowler, um especialista em ciberoperações da CIA, e especialmente Alan Wade, antigo Chefe da Inteligência da Agência. A maior parte do pessoal da operação era britânico, entre o qual os responsáveis da Watchman UK, Christopher Goodwin-Hudson (antigo militar de carreira, depois Director de Segurança da Goldman-Sachs) e Gabriel Carter (membro do muito privado Special Forces Club de Knightsbridge, que se havia destacado no Afeganistão).

O historiador e o jornalista garantem igualmente que a embaixada britânica forneceu à Organização dos Estados Americanos os dados que lhe serviram para «provar» que o escrutínio havia sido truncado; relatório que foi desmontado pelos pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) [5] antes de o ser pelos Bolivianos, eles próprios, aquando das eleições seguintes.

A actualidade dá razão ao trabalho de Mark Curtis. Assim, em três anos, desde o Golpe de Estado na Bolívia (2019), nós mostramos o papel de Londres na guerra do Iémene (2020) [6] e na do Alto Carabaque (2020) [7].

O Reino Unido leva a cabo guerras curtas e operações secretas, se possível sem que os média (mídia-br) relevem a sua acção. Ele mesmo controla a percepção que se tem da sua presença por meio de uma infinidade de agências de notícias e de média (mídia-br) que subsidia em segredo. Ele cria condições de vida impossíveis para aqueles a quem as impõe. Utiliza-as para explorar o país em seu proveito. Além disso, pode fazer durar esta situação o maior tempo possível tendo a certeza de que as suas vítimas ainda irão a si apelar, única forma capaz de apaziguar o conflito que ele próprio criou.

 

[1] “A Bolívia, laboratório de uma nova estratégia de desestabilização”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Novembro de 2019.

[2] « Une gifle cinglante pour la « coalition occidentale » », par Général Dominique Delawarde, Réseau Voltaire, 21 octobre 2020.

[3] “Retorno triunfal de Evo Morales à Bolívia”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 10 de Dezembro de 2020.

[4] “Revealed : The UK supported the coup in Bolivia to gain access to its ‘white gold’”, Matt Kennard, Daily Maverick, March 8, 2021.

[5] “Analysis of the 2019 Bolivia Election,” Jack R. Williams and John Curiel, MIT, February 2020.

[6] “A primeira guerra da OTAN-MO vira a ordem regional”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 25 de Março de 2020.

[7] “Alto Carabaque : vitória de Londres e de Ancara, derrota de Soros e dos Arménios”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 24 de Novembro de 2020.

Tradução: Alva


Neocolonialismo? Mais uma vez: fiquem longe dos “-ismos”. Técnicas menos “espectaculares” mas de idêntico princípio são actuadas em todo o mundo, também na Europa ou nos Estados Unidos. Não estamos perante entes saudosos dos “bons tempos idos”: estas são aves de rapina que não olham para a cara de ninguém, limitam-se a utilizar estratégias de apropriação para entrar na posse das fontes de riqueza, sejam elas onde forem.

Para fazer um exemplo: a empresa citada no artigo, a inglesa DarkTrace, opera no âmbito das novas tecnologias informáticas e entre os seus funcionários e conselheiros há membros da Excelentíssima Ordem do Império Britânico (Poppy Gustafsson, Jack Stockdale, Mike Lynch), da Honorabilíssima Ordem do Banho (Lord Evans of Weardale, Nicholas Jennings), Conselheiro da Rainha (Robert S. Webb).

Na verdade, a DarkTrace é o portão de acesso para um sem número de empresas privadas (até no-profit) espalhadas pelo mundo fora: como numa matrioska, ao cavar debaixo da superfície encontramos outras realidades, quais os investidores da Samsung Venture Investment Corporation (com escritórios em Seul, Silicon Valley, Boston, Londres, israel, Pequim e Tóquio), a Summit Partners (Avast, Arista Networks, Flow Traders, Infor, McAfee, Uber, WebEx), a Insight Partners de New York (Twitter, Tumbrl entre muitos outros), a americana KKR que detém acções de tudo, desde as sopas da Campbell’s até a Wallmart passando pelos e-books da RBMedia.

Os novos colonizadores são as multinacionais e, em última análise, a tal elite que as controla. O lítio é o novo petróleo e a febre “green” (que as mesmas multinacionais criaram e incentivam) requer a posse das minas. E isso significa guerras. Lembrem-se disso da próxima vez que alguém falar de “zero emissões”, de “energia verde”, etc….

 

Ipse dixit.

13 Replies to “Bolívia: a primeira guerra do lítio”

  1. Sempre que houver disputa de dinheiro e poder haverá uma espécie de guerra, seja ela por motivos verde, preto ou dourado.

    O povo boliviano deu mostra da sua grandeza e restitui ao poder aqueles que foram vitimas do golpe impetrado pela ganância dos poderosos de ordem governamental e privado.

    Conheço algumas pessoas que fazem parte de um grupo, que há mais de 20 anos periodicamente viajam para a região de Machu Picchu (Peru ) e Lago Titicaca ( Peru/Bolivia ) . Eles relatam que na época anterior ao governo de Evo Morales, tinham dificuldade em cruzar a Bolívia, devido as constantes greves e barreiras nas estradas impostas pelos nativos em função da eterna falta de gás para uso da população. Enquanto isso a Bolívia exportava gás natural para várias multinacionais, inclusive a Petrobras no brasil. O Evo quando assumiu logo mudou essa situação , embora também não seja um santo.

    No brasil a força tarefa imperialista contribuiu em muito para o impeachment de 2016. A própria ex-presidenta Dilma assinou sua sentença, após anunciar a destinação de 50% dos recursos do Pre-Sal para investimento na educação. O ex-juiz Sergio Moro ( declarado nesta semana pelo STF como suspeito e parcial ) forneceu dados sigilosos para as companhias americanas, os quais renderam a elas indenizações milionárias nos processos contra a Petrobras .

    Lítio e Petróleo da camada de pré-sal protagonizam a cobiça pela riqueza alheia.

    Só nos resta saber se: “Os novos colonizadores” ou “a tal elite que as controla” são as mesmas da conspiração da Covid ou são um grupo concorrente ? Quem sabe uma dissidência ? Ou nada disso , apenas o novo velho imperialismo.

    infelizmente , fica difícil ficar longe dos ismos.

  2. E aproveite você Max, e se possível, fale sobre esse mastodonte (navio), que encalhou no Canal de Suez; está muito estranho tudo isso.

    Muito obrigado e Abraços.

  3. Independente da guerra do Lítio, Evo alterou a constituição durante seus mandatos para continuar disputando a eleição. A última em 2017 que permitiu que ele disputasse a eleição indefinidamente. Seria o quarto mandato consecutivo de Evo.
    Além disso na noite da eleição o órgão que controla as eleições interrompeu a contagem de votos com 83% dos votos apurados que indicava um segundo turno entre Evo e seu opositor. Nossos seguinte retomou a contagem com 95% dos votos apurados indicando vitoria de Evo.
    Tudo normal…. Evo realmente é uma vítima do império.
    Por favor, vamos expor os fatos ….

    1. Sim , continuando os fatos, a eleição boliviana foi anulada. Vc esqueceu de dizer que derrubaram o Evo antes mesmo que fizessem uma nova eleição.

  4. E a velha história se repete
    Quando convém às corporações tirar do poder alguém que está operando em favor do país, e impedindo a drenagem de recursos, seja naturais ou de qualquer ordem, independente da ideologia, da competência, das “tendências”, o dito cujo é “amaldiçoado” e retirado do poder, quando não suicidado.
    Dependendo das tendências, a opinião pública se volta contra o infeliz, ou o santifica.
    Poucos se preocupam em ir a fundo na verdade.
    Esses governantes sabem que precisam permanecer no poder porque os enredos organizados para saquear os países com riquezas especiais provém de longa data, e permanecem agindo, independente dos seus governos centrais, muitas vezes. Exemplos claros são o desconhecimento de Trump das trapaças da Cia neste caso, a tentativa inútil de Evo Morales de expulsar os adidos da embaixada americana do território boliviano. Os planos continuam e sua execução também. Por vezes, décadas são necessárias para desmanchar o novelo dos enganos, traíções, usurpações.
    É curioso como os próprios apoiadores de Evo Morales, dentro e fora da Bolívia, logo começaram a criticá-lo, a denominá-lo ditador, e o governante que havia proporcionado taxas anuais de crescimento nunca vistas antes na Bolívia, se transforma pela ação conjugada de corporações saqueadoras e mídia em pessoa execrável. Dá o que pensar.

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