Stonehenge: antes era no País de Gales

Há poucos anos, as escavações arqueológicas no País de Gales conseguiram identificar exactamente as duas pedreiras das quais foram extraídas as pedras de Stonehenge, as chamadas pedras azuis.

As maiores pedras em Stonehenge são do tipo sarsen, um arenito local, mas as mais pequenas, conhecidas como bluestones (literalmente: pedras azuis), vêm das Colinas de Preseli no País de Gales. Os geólogos sabem desde os anos 20 que as pedras azuis vêm de lá, mas só agora recentemente a colaboração entre geólogos e arqueólogos levou à identificação precisa das pedreiras: Carn Goedog e Craig Rhos-y-felin.

A típica formação natural do sarsen, presente em pilares naturais, permitiu ao povo pré-histórico destacar cada megalítico com um esforço mínimo. Tudo o que tinham de fazer era inserir cunhas de madeira nas fendas entre os pilares e deixar a chuva expandir a madeira: depois arrancar os pilares da rocha. A seguir, era “só” colocarem os grandes pedaços em plataformas de terra e pedra e arrasta-los. Parece simples dito assim.

Mas algo continuava a não bater certo: a datação por radio-carbono dos restos carbonizadas e do carvão vegetal, encontrados nas lareiras dos campos das pedreiras, revelavam várias utilizações ao longo do Neolítico, todas entre 4.000 e 5.000 anos atrás. O monumento de Stonehenge foi edificado perto de 2.900 a.C., muito depois. Os construtores levaram 500 anos para transportar as pedras?

Michael Parker Pearson da University College di Londra:

Bastante improvável na minha opinião. É mais provável que as pedras tenham sido primeiro utilizadas num monumento local perto das pedreiras, que foi depois desmontado e levado para Wiltshire, Inglaterra.

A pedreira de Craig Rhos-y-felin (Adam Stanford © Aerial-Cam Ltd)

Durante a última década, a equipa de arqueólogos de Parker Pearsontêm procurado estruturas rituais na região de Preseli, no Gales, que poderiam ter fornecido as pedras e o modelo para Stonehenge. Em 2017 e 2018, escavaram partes de um antigo monumento chamado Waun Mawn, onde um punhado de pedras azuis (agora caídas no chão), semelhantes às de Stonehenge, formam um círculo parcial.

As escavações revelaram pelo menos seis fossos antigos com a forma típica daquelas pedras. Ao ligar os pontos entre os fossos vazios e as restantes pedras azuis, os investigadores desenharam um círculo de 110 metros de diâmetro, o mesmo tamanho que o fosso exterior de terra que fazia parte do desenho original de Stonehenge (o centro ritual foi posteriormente reorganizado várias vezes ao longo dos seus 1.000 anos de vida). E, como em Stonehenge, a entrada para o círculo estava orientada para o amanhecer do solstício de Verão.

A equipa da Parker Pearson mediu a última vez que os sedimentos dentro das fossas foram expostos à luz, utilizando a técnica de luminescência opticamente estimulada e também a datação por radio-carbono no caso do carvão encontrado nas fossas. As pedras em falta foram erigidas entre 3.400 e 3.200 a.C. e depois removidas 300 ou 400 anos mais tarde, por volta da altura em que começou a primeira construção em Stonehenge.

Assim, o desmantelamento de Waun Mawn e a criação de Stonehenge podem ter feito parte de uma migração das Colinas de Preseli para a planície de Salisbury. Muitos restos humanos e animais encontrados em Stonehenge têm estruturas químicas que sugerem que os seus primeiros anos foram passados na costa galesa. Havia contactos regulares entre as duas regiões.

Waun Mawn (fonte: Cambridge University)

Portanto, o cenário é o seguinte: por volta de 3.200 a.C., agricultores da Idade da Pedra nas Colinas de Preseli, País de Gales, construíram um grande monumento: esculpiram megalitos de pedra azul a partir de pedreiras próximas, ergueram um grande círculo de 30-50 pedras. O significado do monumento, alinhado com o solstício de Verão, continua a ser um mistério. 300 ou 400 anos depois, os descendentes podem ter desmantelado o círculo e transportado as pedras ao longo de 200 quilómetros até a planície de Salisbury, onde criaram o que ainda é o monumento de pedra pré-histórico mais icónico do mundo: Stonehenge.

Os resultados das pesquisas acrescentam complexidade acerca das origens de Stonehenge e retratam região interligada, centrada no Mar da Irlanda, por volta do quarto milénio a.C.

Alison Sheridan, curadora do Museu Nacional da Escócia:

Pessoas, ideias e objectos moviam-se em longas distâncias e o movimento tinha claramente a ver com a forma como a sociedade expressava o poder. O desenraizamento das pedras é um exemplo clássico.

Na região de Preseli Hills, as datações obtidas e os pólens sugerem que milénios de agricultura e ocupação terminaram por volta da altura em que o círculo de Waun Mawn foi desmantelado. Parker Pearson:

As provas da actividade humana caem por volta de 3400 a.C.

Mas por qual razão aconteceu? Não há resposta: tudo o que podemos dizer é que aquelas pessoas partiram. Os migrantes do País de Gales podem ter movido as pedras como forma de manterem-se simbolicamente ligados ao passado ou de aproveitarem a autoridade dos seus antepassados para reivindicar uma nova região.

Um passado muito menos “parado” do que seria possível imaginar.

 

Ipse dixit.

Fontes: Cambridge University, Science

Imagem de abertura: Sanjay Nair/Wikipedia

2 Replies to “Stonehenge: antes era no País de Gales”

  1. E um passado que se assemelha mais ao presente do que se poderia imaginar: símbolos de poder que são deslocados em função dos deslocamentos de poder, migrações, e por aí vai. Muito interessante.

  2. Se ao posicionamento das pedras desse monumento podem tentar encontrar alguma teoria, no Templo de Baalbek as teorias rondam o impossivel.

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