Mindfucking – Parte I

No passado mês de Fevereiro, Stefano Re foi entrevistado pela emissora ByoBlu sobre o tema do mindfucking, expressão inglesa que podemos traduzir como “jogos psicológicos”. Trata-se da modificação dos processos de percepção ou de forma ainda mais simples: manipulação mental.

Achei o assunto particularmente interessante, sobretudo porque tratado por alguém que conhece o tema. Stefano Re, licenciado em ciências políticas, é um especialista em criminologia aplicada. Mais em pormenor, trabalhou nas análises de assassinatos sexuais e em série, na análise da cena do crime e na predição do mesmo, assim como na gestão das crises comportamentais e nos métodos específicos de intervenção preventiva e repressiva. Também é docente de técnicas de interrogatório e trabalhou com agências de investigação internacionais.

Portanto contactei Stefano e pedi-lhe para poder utilizar o material do vídeo. Stefano, a quem agradeço, foi muito simpático e aceitou (como recompensa, uma vez acabada a tradução vou enviar-lhe uma cópia em português).

Antes de proceder com a leitura, um aviso: os juízos éticos sobre o mindfucking são lábeis e fora do lugar, uma vez que também podem ser o resultado de concepções induzidas no sujeito que os exprime. O mindfucking ocorre basicamente em cada contacto da nossa mente com o “exterior”. Não há uma verdadeira mudança de mentalidade a não ser que nós consentamos (afinal somos nós que acabamos por aceitar a mudança). De facto, todas as técnicas de mindfucking visam essencialmente destruir as defesas pessoais a fim de fazer as pessoas aceitarem a nova visão da realidade de uma forma espontânea: se isto acontecer, a vítima nem sequer se aperceberá que está a ser atacada, e até defenderá a sua própria mudança.

Tudo induz então a meditar sobre a verdadeira essência de cada personalidade, e mesmo sobre a sua existência real ou não. É precisa uma mente aberta.

A entrevista é comprida, pelo que terá de ser dividida em partes. Lembro que a que se segue é a transcrição duma entrevista verbal: quando possível, tentei eliminar eventuais repetições, mas a minha intervenção foi mínima e o texto segue fielmente tanto o ritmo quanto o esquema duma conversa.

Boa leitura.


Mindfucking

O que são os processos de manipulação perceptiva

Comecemos por esta palavra; manipulação. O que significa manipular alguém? Este é um ponto fundamental para evitar confusões.

Aquilo a que chamo mindfucking e aquilo a que noutros lugares é chamado de “lavagem cerebral” com todas as suas várias formulações e aplicações, desde comércio, sedução, propaganda política ou técnicas de interrogatório, baseia-se essencialmente na compreensão e utilização consciente dos processos perceptivos, ou seja, nos padrões de criação dos processos perceptivos.

Vou tentar ser claro com exemplos muito simples. Todos temos uma ideia do que é o mundo, do que é real, do que não é real e quem somos nós próprios: esta é a percepção da realidade e da identidade. Como é que, com o passar do tempo, um modelo de automóvel tão feio como o Fiat Multipla se tornou um carro bonito, mais confortável e espaçoso? O que aconteceu entretanto? Talvez nunca o tenhamos tido, nenhum amigo nosso alguma vez o teve, nunca sequer entrámos nele, mas a nossa percepção mudou e nós nem reparámos nisso.

Outra coisa: pessoas como eu, que nasceram nos anos ’70, viveram a sua infância e adolescência sem telemóveis porque até meados dos anos ’90 não havia telemóveis, não existiam fisicamente: depois começaram a ser difundidos, primeiro de uma forma muito restrita e agora, nos anos 2000, toda a gente os tem. No entanto, nós, que estávamos sem eles, pudemos, por exemplo, ir a consultas, chegar a compromissos acordados sem a necessidade de depender desta tecnologia. Hoje, na ausência dela, estamos paralisados porque a nossa percepção da realidade, ou seja, do que o mundo é, de como funciona e das identidades, ou seja, do que somos capazes de fazer e do que não somos, tal como chegar a tempo a um compromisso, mudou.

Como é que mudou, quando é que mudou? Não reparámos, não sabemos, a dada altura aconteceu. Agora: estes são os processos que manipulam.

Tendo esclarecido isto, só podemos observar processos deste tipo em condições extremas, isto é, longe da nossa vida quotidiana e muito menos quando são aplicados a nós, quando estão no nosso modo de vida. Nós, por exemplo, somos capazes de detectar e identificar, portanto de chamar como condicionamento mental, quando vemos um nosso vizinho que de repente anda com pessoas estranhas, veste-se apenas de branco, fala com palavras que começam apenas com “a”, de manhã saúda o sol… pensamos “fizeram-lhe uma lavagem cerebral” porque ele tem comportamentos estranhos, longe da nossa experiência, da nossa percepção. Não somos capazes de fazer esta análise sobre nós próprios.

Há milhões de pessoas que, pelo menos uma vez por semana, pelo menos em certos períodos, passam ansiosamente horas à espera de ver perfeitos estranhos, pessoas que não conhecem, que em roupa interior perseguem uma bola de couro chutando-a na relva, e dependendo do destino desta bola de couro, seja para um lado ou para o outro, sentem uma alegria imensurável ou, pelo contrário, são afligidas, entristecidas, mesmo zangadas. Tudo isto, visto de fora, é claramente um comportamento louco: perguntamo-nos que tipo de condicionamento mental sofreram. Mas como é diário, como é vivido por muitas pessoas, como é percebido sendo normal, passa sob o nosso radar, ou seja, não o percebemos, não o notamos.

Bem, há muitos, aliás são diários os condicionamentos, os modelos nos quais vivemos estas pressões, e os aplicamos: porque depois nós próprios os aplicamos constantemente, sem saber o que fazemos. Estamos agora aqui e estamos a fazer condicionamento mental, eu estou a fazê-lo a ti, tu estás a fazê-lo a mim, juntos estamos a fazê-lo aos espectadores, os mesmos espectadores estão a fazê-lo a nós, porque temos em mente que eles estão a observar-nos e que são, num certo sentido, aqueles de que precisamos, caso contrário não haveria televisão se não houvesse alguém a vê-la.

Depois, se quisermos identificar modelos, temos de fazer uma distinção que é importante entre processos e conteúdos. A meta-comunicação, a disciplina que também se aplica ao estudo e à compreensão do mindfucking, trata de processos e não de conteúdos. Um dos axiomas no desenvolvimento do estudo desta disciplina é que os processos determinam tudo o que acontece, os conteúdos não contam. A primeira vez que ouvi isto, fiquei sinceramente atordoado: como, o conteúdo não conta? Os conteúdos são muito importantes! Na verdade, não. A realidade é uma verdade profunda e assustadora: os conteúdos são apenas a forma incidental em que os processos encontram forma. Se compreendes os conteúdos, permaneces preso no que tecnicamente se chama “linhas de objectos”, se compreenderes os processos, compreendes o que está realmente a acontecer e como está realmente a acontecer: os processos permanecem os mesmos, mesmo quando os conteúdos mudam.

Posso dar um exemplo bastante simples: pensa no que se chama “homicídio de honra”. O homicídio de honra era aquele caso jurídico que existia em Itália e que dizia respeito ao homicídio pelo marido, porque era uma coisa masculina, contra a esposa e o amante encontrados juntos, em flagrante delito. O homicídio de honra era uma razão de absolvição, pelo que se um marido encontrasse a sua esposa na cama com o seu amante e os matasse, poderia invocar o homicídio de honra: se fosse reconhecido pelo tribunal, seria absolvido.

Estes elementos, que são, por exemplo, o contexto sócio-cultural, o facto de ser casado, os ciúmes, etc., são elementos contextuais, incidentais: por trás deles estão os processos. Quais são os processos que levavam ao homicídio de honra? São a lesão do que é visto como um laço de profunda confiança, desencadeado por mecanismos de ciúmes, posse, etc. Depois estava ligado também a todo um fenómeno cultural que era o da posse do macho sobre a fêmea, etc.

Quando se compreendem os processos, percebe-se que os processos estavam lá na altura e estão lá agora. Hoje em dia o contexto cultural é diferente, hoje existe este intenso desejo de apresentar um sistema igualitário, tanto a nível jurídico como a um nível perceptivo entre homem e mulher. Assim hoje, por exemplo, a ideia de que o homicídio de honra poderia ser uma coisa legítima para o marido mas não para a esposaE  seria inaceitável, ao passo que na altura era totalmente aceitável naquele contexto cultural.

Ora, isso era incidental. Se pararmos nisso, quer esteja certo ou não, podemos até discutir como loucos sobre o assunto. Se alguém vê o processo, compreende quais são os mecanismos que determinam o que acontece: alguém mata outra pessoa. E, neste caso específico, este mecanismo era tão válido na altura como agora num País muçulmano, num País liberal, numa comunidade hippie, em qualquer lugar, mesmo que os contextos em que está encarnado sejam diferentes: isto é muito importante porque se nos concentrarmos, como normalmente acontece, no nível do objecto, ou seja, no conteúdo, não entendemos nada, discutimos coisas que são variáveis, não processos que são reais e que determinam as coisas. Pelo que, de facto, qualquer que seja a decisão que tomemos, estamos a sofre-la, não a estamos a escolher ou seja não somos senhores do que está a acontecer mas somos escravos do que está a acontecer.

Processos e Conteúdos

A Criminologia aplicada nada mais faz do que tentar identificar os processos que conduzem a comportamentos criminosos deste ou daquele tipo. Deve dizer-se que é muito importante este discurso de diferença entre processo e conteúdo porque, se uma lei mudar, o mesmo acto que antes era criminoso já não o é, ou antes não o era e depois passa a sê-lo. Portanto, a questão não é se um acto for ou não criminoso: a questão é como se chega a esse acto.

A Criminologia tenta estudar o tipo de comportamento, as suas origens, as suas raízes, os processos que o determinam também a nível mental. Assim, quando é aplicada, por exemplo, em termos de técnica de interrogatório, tentamos estudar como funciona a mente humana para compreender como induzir na mente de uma pessoa interrogada o desejo de dizer elementos que de outra forma não quereria dizer, elementos que são muito importantes para o interrogador.

Mindfucking diário

É evidente que o mesmo processo acontece em mil outras situações: acontece num diálogo entre cônjuges, acontece entre amigos, entre irmãos, na família. No trabalho um gerente de escritório, para entender se o seu empregado está a dar informações que não deve dar fora da empresa; ou um subordinado, para entender se está ou não na lista para uma promoção e não é certo que a outra pessoa lhe queira dar essas informações. Então o que é que ele faz? Aplica estratégias, técnicas.

Uma coisa curiosa, mas que na minha opinião deve ser dita, é que não é necessário estudar estas técnicas com cursos, livros ou tornar-se especialista para conhecê-las e aplicá-las: costumamos aplica-las constantemente, aplicamo-las sem saber que estamos a aplicá-las e até as aplicam sujeitos que não têm um nível de consciência e auto-consciência como os humanos, também as aplicam os animais. Quando um gatinho ronrona, faz grandes olhos para ti, está a manipular as tuas reacções para que te sintas impelido a adoptar uma atitude parental em relação a ele, ou seja, alimentá-lo, acariciá-lo, cuidar dele como se fosse um bebé.

Modificações perceptivas espontâneas e impostas

Aqui abre-se uma distinção que considero muito importante: uma coisa é que todos nós aplicamos constantemente estas estratégias uns aos outros e também a nós próprios. Porque, em grande medida, o mindfucking acontece em nós próprios: convencemo-nos, aceitamos as coisas, é muito mais difícil fazê-lo aos outros; de facto as técnicas mais avançadas de mindfucking não consistem em impor uma visão aos outros, mas em fazê-los querer, induzindo-os a aceitá-la como se fosse a sua própria escolha, estas são as técnicas mais eficazes. A distinção é que embora as formas de condicionamento não sejam apenas constantes mas necessárias e inevitáveis (não se pode comunicar sem se influenciar mutuamente), existem formas organizadas e estruturadas de manipulação e estas têm uma conotação completamente diferente.

Porque uma coisa é se, de alguma forma, uma população começa a partilhar e a espalhar certas opiniões, confrontando-se num diálogo contínuo, constante e num certo sentido espontâneo ou pelo menos emergente; outra coisa é se as pessoas se sentarem à mesa e disserem “Hoje temos os instrumentos, por exemplo os meios de comunicação de massas, com os quais podemos transmitir certas mensagens: vamos estudar como os grupos reagem e fazer algumas experiências, vamos transmitir uma mensagem sobre este grupo e ver como ele reage num certo período de tempo. Num outro período fazemos a experiência num segundo grupo, com outra mensagem, e assim por diante”.

No final, obtemos o que estamos a ver hoje, que é um nível de sofisticação em que estão a ser feitas modificações perceptivas em massa na população mundial ou, pelo menos, numa grande parte da população mundial. Assim, estas estratégias são pensadas e adaptadas de acordo com a situação em que devem ser aplicadas, exactamente como acontece nas task forces de Criminologia aplicada: sentamo-nos a uma mesa, estudamos os elementos.

WEF: induzir comportamentos com culpa e medo

Mas quem são as pessoas responsáveis, que se sentam à mesa e decidem? Pessoas que nunca conhecerás, ou que podem aparecer casualmente. Tomemos um exemplo banal: nestes dias realiza-se em Davos a reunião do Fórum Económico Mundial onde se reúnem as pessoas mais importantes, mais influentes, mais ricas e mais poderosas do planeta. E quando se reúnem, não têm nada melhor para fazer do que decidir o que deve acontecer com o resto do planeta.

Nesse contexto foi fortemente recomendado um artigo publicado na revista de Harvard: neste artigo, os estudiosos (o autor principal, seguido por outros autores, é professor de marketing) indicam os métodos mais eficazes para induzir as populações a vacinar-se: quais são os métodos mais eficazes dos quais falam? Induzir a culpa. Dizem: “Temos visto com experiências que se fizermos uma restrição, se dissermos que as pessoas não podem ir visitar os seus familiares porque há a Covid e depois analisamos as reacções fazendo estudos estatísticos, vemos que se sentem culpadas porque não puderam ir ver o avô ou o pai idoso naqueles dias e sentem um sentimento de culpa”.

Assim, a questão que estas pessoas se colocam é: “Como podemos usar este sentimento de culpa para obriga-las a fazer o que queremos?”. E aqui não importa se o que eles querem for bom ou mau, se a vacina for ou não necessária, se for útil, se for um bom negócio, se for uma experiência arriscada ou se for a salvação da humanidade. Não entro aqui no discurso ético, se o conteúdo que é transmitido estiver certo ou errado: aqui falamos de manipulação de massa e falam explicitamente disso onde? No encontro entre as pessoas mais ricas e mais poderosas do planeta. Eles querem decidir o que fazer e depois vão ver como nos obrigar a fazê-lo e dizem isso abertamente, dizem-no na cara: dizem, neste caso específico, “usamos o sentimento de culpa para que aqueles que não se vacinam sintam-se culpados, como se de alguma forma ferissem os idosos, as pessoas fracas, os familiares e os pobres imunodeprimidos”.

Este é um método de manipulação mental porque uma pessoa não é livre de avaliar os prós e os contras de uma escolha que é investida dum nível emocional: são postos em prática processos emocionais inconscientes que operam em segundo plano, forçando-a a ir numa direcção. Esta é manipulação de massa. Foi o que fizeram todas as ditaduras do século XX, e tem sido amplamente condenado. Não tinham instrumentos tão sofisticados como temos hoje, havia a rádio, faziam boletins com os quais espalhavam o terror, com os quais invocavam a necessidade de medidas de segurança extrema, a suspensão de todos os direitos, a atribuição de todo o poder a poucas pessoas, etc. Era exactamente o que está a acontecer hoje, apenas por meios mais refinados, de uma forma mais ampla.

Mais uma vez: não importa o conteúdo propagandeado durante esta ou aquela ditadura, sejam os Khmers Vermelhos na Cambodja, sejam os nazis na Alemanha ou, em vez disso, a escolha de empresas muito ricas e poderosas numa democracia ocidental de 2021.


 

Ipse dixit.

3 Replies to “Mindfucking – Parte I”

  1. O mecanismo principal é que a mente busca sempre o caminho mais confortável, então atraves deste mecanismo colocam-se “instruções” na mente a ponto de causar dissonâncias no sujeito, como por exemplo o citado acima sobre as vacinas, a grande merda é que não há cura, uma vez direcionado o dissonante não mudará de rumo, só depois de morto, mas é para vosso bem.

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