Estados Unidos: porque continuam a ser o ponto de referência

Duas notícias do “Farol da Democracia”, o nosso ponto de referencia político-económico.

A primeira é relativa ao ex-Presidente Donald Trump: também o segundo processo de impeachment deu em nada. Não há grandes novidades por aqui, dado que os Democratas não têm a maioria no Congresso.

O processo pretendia colocar a responsabilidade pelo assalto ao Capitólio nos ombros de Trump, enquanto ele, na realidade, apenas tinha organizado uma manifestação para protestar contra a alegada fraude eleitoral. E não esquecemos que, acerca desta questão, o seu partido tinha preparado um dossier que deveria ter sido apresentado e discutido naquele mesmo dia, apresentação que foi anulada por causa do assalto.

Na véspera da votação, o Senador Lindsey Graham fez uma pergunta interessante à Nancy Pelosi, a democrata Presidente da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, no seguimento de um documento da FBI que explicava como este tivesse avisado antecipadamente as autoridades do perigo de incidentes graves. Graham perguntou à Pelosi se ela estava entre as autoridades em questão. Pergunta razoável, pois ainda permanece a dúvida: como é que ninguém, apesar dos avisos, tomou medidas? E o que fazia o genro da Pelosi com o estranho “xamã” (Jake Angeli) antes do assalto?

O genro de Nancy Pelosi e o “xamã” Jake Angeli antes do assalto

A pergunta não obteve reposta. E ,no dia seguinte, as autoridade da Georgia, anunciaram que iriam investigar, em paralelo com Trump, também Graham no processo aberto pela alegada interferência dos Republicanos para anular o resultado das eleições. Assim aprende a fazer perguntas.

Corolário: o orador republicano do Senado, Mitch McConnell, afirmou que se Trump tivesse concedido clemência ao fundador do Wikileaks, Julian Assange, o processo de impeachment teria tido um resultado mais sinistro. Bizarrias americanas.

O vencedor da derrota do processo de impeachment? ZomBiden: além do Trump, ninguém está provavelmente mais feliz do que ele. O novo Presidente precisa virar a página o mais depressa possível para que tudo volte nos carris da normalidade, os carris da politica rotineira e soporífera. Ao mesmo tempo, precisa de Trump tanto para que este controle os Republicanos, quanto para que a ameaça do seu regresso continue a alimentar a aliança híbrida entre Wall Street, Black Lives Matter, Antifa, sindicatos, etc.

Miséria

Falamos de coisas um pouco mais sérias. Bernie Sanders no Twitter:

Não é aceitável nos Estados Unidos hoje em dia os ricos fiquem muito mais ricos enquanto as famílias trabalhadoras lutam. Acabou-se a economia da austeridade. Precisamos de uma economia que funcione para todos, não apenas para alguns.

Não há nenhuma economia da austeridade: há a Covid. Com a “pandemia”, a situação económica de milhões de norte-americanos piorou ainda mais.

De acordo com as estatísticas divulgadas por Sanders, 140 milhões de americanos vivem numa condição de pobreza relativa e 92 milhões de pessoas não podem pagar uma visita médica de cuidados primários. E mais: 50 milhões de cidadãos americanos podem ser considerados numa situação de pobreza absoluta, com dificuldade em encontrar os alimentos necessários; ao mesmo tempo, cerca de 40 milhões são aqueles que hoje em dia correm o risco de ficar sem casa porque não conseguem pagar as prestações mensais das hipotecas ou os pagamentos da renda.

A classe trabalhadora e a classe média-baixa estão a ser empurradas abaixo do limiar da pobreza.

Cada vez mais pessoas estão a viver nos seus carros: o número de cidadãos americanos que perderam o emprego e a casa, passando a noite nos carros, está a aumentar.

Num artigo publicado na semana passada pelo diário USA Today nota-se como a situação esteja a piorar. O Dr. Graham Pruss, especialista do Vulnerable Population Center em São Francisco, confirma a fragilidade dos sistemas norte-americanos em tempos de crise, afirmando que já antes da “pandemia” milhões de pessoas tinham dificuldades para encontrar alojamento, mas agora a situação agravou-se, como era espectável. As estimativas apontam para um cenário desolador e dramático: um em cada 500 norte-americanos é sem-abrigo:

Preocupa-me que possamos estar a enfrentar um aumento da população em abrigos móveis e residência em veículos a níveis sem precedentes.

Sara Rankin, directora do Projecto de Defesa dos Direitos dos Sem-Abrigo (HRAP):

Como sempre, as pessoas de cor vivem mais tempo do que outras em veículos porque a pandemia ampliou o fosso racial, especialmente na área da segurança financeira.

De acordo com a National Alliance to End Homelessness , negros americanos, hispânicos e latinos são muito mais propensos a serem desalojados do que a média nacional e do que os brancos. No ano passado, um relatório sobre habitação e desenvolvimento urbano concluiu que os negros constituem quase metade da população sem abrigo. A propósito: não há Black Lives Matter por aqui? Nada de manifestações, nada de montras partidas, nada de choque com a polícia? Estranho.

Com poucas alternativas, a maioria dos habitantes de veículos estaciona nas ruas públicas, muitas vezes ilegalmente. Não têm água corrente ou ligações eléctricas, o que pode criar tensões com os vizinhos que se queixam do lixo e dos esgotos despejados. Muitas autarquias restringem ou proíbem a residência em carros ou autocaravanas: as coimas podem revelar-se muito dispendiosas, até mesmo devastadoras. Veículos rebocados podem resultar na perda de abrigo e pertences, deixando as pessoas muito mais vulneráveis do que antes e muito menos susceptíveis de recuperar financeiramente.

Estados Unidos da América, a super-potência mundial: 330 milhões de habitantes, 140 milhões numa situação de pobreza relativa, 50 milhões na pobreza absoluta. Não admira que continuem a ser o nosso ponto de referencia.

 

Ipse dixit.

2 Replies to “Estados Unidos: porque continuam a ser o ponto de referência”

  1. Olá Max:
    Nos EUA os estacionamentos são enormes e tem em geral uma fonte de água. Os carros também costumam ser enormes (resquícios dos bons tempos), há inúmeros refeitórios públicos, atualmente lotados, e ainda podem contar com lugares para acampamento, com banheiros, pias, espaços para fazer um fogo e cozinhar aquelas salsichas que chamam de barbicue (churrasco).
    As culturas são realmente muito diferentes. Vejam, por exemplo os sem teto ou os despejados no Brazil:
    Primeiro passo é procurar amigos ou familiares que tenham um pátio e fazer um puchadinho.
    Na falta deste, pede-se os ingredientes baratos para uma feijoada e emprestado um fogareiro e panelão. Aí cozinha-se por longo tempo os ingredientes até engrossar a feijoada. Todos comem na calçada e aos estranhos se dá um montinho de farinha para fazer uma espécie de croquete de feijoada. (É muito comum no nordeste), e se cobra a iguaria.
    A ocupação de prédios públicos abandonados é outra iniciativa muito comum. Os ocupantes saem a vender balas, panos de prato e qualquer coisa que reverta num dinheirinho. Os mais jovens costumam pintar o corpo e bailar, fazendo malabarismos circenses e recolhem uns trocados dos motoristas parados nos semáforos. Tem os que se dedicam a pequenos furtos e a carteira de um turista desavisado.
    Entre nós os carros dos pobres são muito pequenos, e só servem para guardar utensílios e apoiar o puchadinho.
    Nosso problema é a comida. É necessário dinheiro para comprar, pelo menos uma refeição por dia, e as crianças são muitas em cada família. Resta as migalhas mensais que caem do governo.
    Não levam a sério hábitos de higiene.
    È interessante como as mísérias de uns e outros são diferentes, não é mesmo?

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