Coronavirus: China, a cumplicidade da OMS

Ontem, graças a um “furo” da Associated Press (AP), tivemos mais uma confirmação de que algo aconteceu nas primeiras fases da “pandemia”. E tudo aponta para a dupla maravilha: China e OMS, a Organização Mundial da Saúde.

O que há de novo? Em meados de Abril, o Presidente dos EUA, Donald Trump, tinha bloqueado os fundos norte-americanos para a OMS durante o tempo necessário para verificar o seu papel no encobrimento e na acção de propaganda do Coronavírus de Pequim; depois, na semana passada, o Presidente anunciou o fim das relações entre os EUA e a OMS, o que significa uma perda seca de cerca de 450 milhões de Dólares para a organização.

Agora eis que chegam à AP documentos áudio e internos que mostram que “durante todo o mês de Janeiro” os funcionários da OMS tinham-se repetidamente queixado dos atrasos das autoridades chinesas na partilha de dados essenciais sobre o vírus. Só que queixaram-se “em privado”, nas suas comunicações internas, enquanto a direcção da organização elogiou publicamente a resposta e a transparência de Pequim. Mas era verdadeiro o exacto contrário: o rigoroso controlo da informação por parte do regime chinês estava a dificultar o trabalho dos funcionários da OMS na primeira e crucial fase da “pandemia”.

E estamos a falar de dados decisivos para avaliar a gravidade da situação, as características do novo vírus e para preparar uma resposta adequada. O atraso na partilha do genoma atrasou o reconhecimento da sua disseminação noutros Países, o desenvolvimento de testes e de medicamentos. A falta de dados pormenorizados sobre os doentes tornou mais difícil determinar a rapidez da propagação do vírus, uma questão crucial para poder trava-lo e conte-lo.

Onde é que a AP obteve estes documentos? Provavelmente é uma desajeitada tentativa da própria OMS para defender-se das acusações feitas explicitamente pela Administração Trump, mas agora partilhadas por vários governos e pela opinião pública. Pena que os documentos piorem a posição da OMS e, ao mesmo tempo, confirmem também todos os elementos já conhecidos sobre os esforços de Pequim para esconder o que estava a acontecer em Wuhan.

A partir da notícia dos primeiros casos de pneumonia causada por um novo vírus, que o OMS só soube em 31 de Dezembro de 2019: não de Pequim, como deveria ter acontecido ao abrigo do direito internacional, mas de uma plataforma open source para a procura de informações sobre epidemias. Sim senhor: a OMS aprendeu da “pandemia” em internet. Fantástico.

Mas o primeiro caso reconhecido em Wuhan data de pelo menos 8 de Dezembro (de acordo com outras fontes em meados de Novembro), enquanto já no final do mês, a partir do que é reconstruido pelos documentos da OMS, tinha começado a corrida dos laboratórios chineses para sequenciar o novo vírus. Confirma-se, portanto, que não foi a China a informar a OMS. Foi a OMS que, depois de ter lido do vírus na internet, no dia 1 de Janeiro pediu mais informações; e Pequim respondeu oficialmente apenas dois dias mais tarde (44 casos e nenhuma morte).

Passaram-se outra dez dias desde que o vírus foi descodificado pela primeira vez num laboratório governamental chinês (dia 2 de Janeiro) até à partilha do genoma, em 12 de Janeiro. E apenas porque no dia anterior, dia 11, um cientista de Xangai, o Dr. Zhang, já o tinha partilhado numa iniciativa autónoma que lhe tinha custado o encerramento temporário do seu laboratório. De facto, em 27 de Dezembro, uma empresa (a Vision Medicals) já tinha reunido a maior parte das sequências genómicas de um vírus muito semelhante ao da SARS.

Em 8 de Janeiro, o Wall Street Journal noticiou que os cientistas tinham identificado um novo Coronavírus em amostras colhidas entre doentes com pneumonia em Wuhan, com não pouco embaraço tanto dos funcionários chineses quanto dos da OMS. Como observou Tom Grein, um dos principais funcionários da OMS, a agência tinha feito uma figura “dupla e incrivelmente estúpida”. enquanto o chefe das emergência da mesma organização, Michael Ryan lamentava: “O facto é que estamos a duas ou três semanas de um evento e não temos diagnóstico laboratorial, não temos distribuição por idade, sexo ou geografia dos casos, não temos curva epidémica”.

Após o artigo do Wall Street Journal, a imprensa estatal chinesa anunciou oficialmente a descoberta do novo Coronavírus. Mas mesmo depois deste anúncio, as autoridades sanitárias chinesas não divulgam o genoma, os testes de diagnóstico ou os dados. Serão necessárias mais duas semanas até que se dignem a fornecer à OMS dados detalhados sobre os pacientes e os casos, mais uma vez de acordo com os documentos internos da OMS obtidos pela AP.

Entretanto, o vírus chega à Tailândia: em 9 de Janeiro, um laboratório tailandês isola-o mas não o pode comparar com aquele descodificado na China, ainda mantido em segredo. A OMS, em reuniões internas, queixa-se da ausência de comunicações. Só a partir de 11 de Janeiro é que os investigadores tailandeses podem comparar o genoma da sua amostra com o genoma sequenciado pelo Dr. Zhang e confirmar que o vírus é 100% igual ao de Wuhan. Em 13 de Janeiro, a OMS anunciou o primeiro caso confirmado de Coronavírus fora da China, na Tailândia. Mas, a partir desse momento, a transmissão de homem para homem é também implicitamente confirmada.

No entanto, ainda em 14 de Janeiro, a OMS no seu perfil no Twitter negava que houvesse “provas conclusivas” da transmissão do vírus de homem para homem. Na verdade, tal como é depreendido dos documentos governamentais, as autoridades chinesas já o tinham comprovado. E já no final de Dezembro, pelo menos, era altamente provável ao considerar as provas de contágio dentro das mesmas famílias. Só em 20 de Janeiro, com um atraso de pelo menos uma semana, é que as autoridades chinesas o admitirão publicamente.

Maria van Kerkhove, chefe do grupo técnico sobre a Covid-19 da OMS, durante uma reunião interna citada pela AP: “Estamos a proceder com um mínimo de informação, claramente insuficiente para um planeamento adequado”.,

O Dr. Gauden Galea, representante da OMS na China, queixou-se numa outra reunião: “Estamos actualmente no ponto em que, sim, nos dão a informação um quarto de hora antes de aparecer na CCTV [a televisão estatal chinesa, ndt]”. Mas Galea já tinha dito ao público como estavam as coisas, ao falar aos microfones da Sky News: “Só sabíamos o que a China nos estava a dizer”. E, entre 3 e 16 de Janeiro, os funcionários de Wuhan não tinham comunicado novos casos de Coronavírus face aos já conhecidos: “Será possível que tenham ocorrido apenas 41 casos nesse período de tempo? Eu pensaria que não”.

Passam mais dez dias desde a admissão pública da transmissibilidade entre humanos e uma semana desde o primeiro lockdown na China (cerca de 40 milhões de pessoas confinadas), quando na OMS decidem declarar uma emergência sanitária internacional, no dia 30 de Janeiro. Uma declaração que poderia ter vindo pelo menos uma semana antes, da reunião de 22 de Janeiro do Comité de Emergência, se não fosse a pressão chinesa, como noticiado pelo Wall Street Journal.

Apenas o encontro entre o Director-Geral da OMS, Tedros, e o Presidente Xi Jinping, em 28 de Janeiro, parece desbloquear a situação. No dia seguinte, no dia 29, a conferência de imprensa louva a resposta chinesa e, no dia 30, eis a declaração de emergência. E apenas em meados de Fevereiro há uma missão da OMS na China: uma semana, com uma rápida passagem de dois dias em Wuhan.

A AP observa que as novas informações não apoiam nem a narrativa da Administração americana, de um OMS conivente com a China, nem aquela de Pequim. E aqui está o problema. Na realidade, os documentos de AP confirmam precisamente a conivência e/ou a sujeição da OMS ao regime chinês. De facto, resulta que os funcionários da OMS estavam bem conscientes da falta de transparência e dos atrasos chineses: sabiam que algo estava a passar-se, sabiam que poderia ser sério, mas decidiram de forma deliberada gerir o problema “em privado” e colocar a China sob a melhor perspectiva possível perante o público.

Na segunda quinzena de Janeiro, o chefe das emergências Michael Ryan disse aos colegas que era altura de “mudar de velocidade” e de pressionar mais Pequim: “Precisamos de ver os dados […] É absolutamente importante neste momento”. Mas a estratégia de encobrimento continuava, culminando no final de Janeiro com as conhecidas declarações do director Tedros: dum lado a China não colaborava com a OMS, do outro lado a OMS elogiava a China em público.

O que impediu que a OMS denunciasse a falta de transparência e os atrasos de Pequim, em vez de elogiar o seu comportamento? AP justifica esta escolha, com base nos documentos citados, com a intenção de persuadir as autoridades chinesas de forma simpática a fornecerem mais informações.

Uma justificação absurda: estamos a falar dum período de dois meses, durante os quais Pequim ocultou informações fundamentais; dois meses durante os quais a OMS não tinha certezas acerca da gravidade do problema. É verdade que a OMS não tem poderes executivos e de investigação contra os Países membros, mas quem e porquê decidiu elogiar a resposta de Pequim em vez de denunciar a sua conduta em violação do direito internacional?

O argumento que prevaleceu, segundo a AP, foi o de que uma abordagem mais conflituosa poderia ter agravado a situação, no sentido de já não se obter qualquer informação. Mas o facto de Pequim estar a esconder dados e a dificultar o trabalho da OMS não era também uma informação crítica já por si? A OMS existe para partilhar dados com todos os Estados-Membros, para que todos possam ajustar o seu nível de alarme em conformidade. A OMS sabia que algo estava a acontecer, sabia que poderia ser algo grave, mas não apenas ficou calada: preferiu elogiar a resposta chinesa, dando ao mundo a falsa impressão de que a situação estava sob controlo e tornando-se de facto cúmplice de um encobrimento.

Mais do que uma estratégia diplomática extremamente refinada, essa escolha parece terrivelmente tortuosa e estúpida, sem sentido. Se um regime como o chinês quer esconder informação relevante para a saúde pública mundial, violando o direito internacional, e é mesmo recompensado com elogios públicos, que incentivo tem para cooperar? Por que razão deveria Pequim abandonar uma conduta que lhe conferiu tanto o controlo total da informação sobre o vírus como os parabéns públicos por parte da OMS?

Paradoxalmente, estes documentos da AP não apenas não absolvem a OMS como até conseguem justificar a tomada de posição da Administração americana: esta OMS é conduzida por motivações políticas, não sanitárias. Foi o sentido político que determinou a cumplicidade da OMS com a China. Só assim podem ser explicadas as palavras do Director Geral da OMS, Tedros Adhanom, proferidas no dia 29 de Janeiro e que vale a pena reler:

A China merece nossa gratidão e respeito… a China está implementando medidas muito sérias e nós não podemos pedir mais. […] A China tem estado completamente comprometida com a transparência, tanto interna como externamente, e concordou em trabalhar com outros países que precisam do apoio. […] O nível de compromisso (da liderança) na China é incrível. Eu elogiarei a China por inúmeras vezes, porque as suas acções realmente ajudaram a reduzir a expansão do novo coronavírus para outros países… nós devemos dizer a verdade e a verdade essa é.

Única dúvida: esta atitude “fofinha” da OMS com Pequim foi uma iniciativa interna ou foi ditada por alguém?

 

Ipse dixit.

5 Replies to “Coronavirus: China, a cumplicidade da OMS”

  1. Extraordinária é a táctica conjunta que o Presidente Trump e a República Popular da China (RPC) estão neste momento a usar e com sucesso, para fazer implodir não só a corrupta e criminosa Organização Mundial de Saúde (OMS) mas tudo o que está por de trás deste esquema lançado em desespero pelo poder financeiro e clerical para manter o corrupto sistema financeiro neoliberal e tentar impedir a derrocada do regime da Inglaterra e do império Anglo-Saxónico.

    Estamos a viver um momento que será decisivo para a História da Humanidade.

    1. A RPC a querer implodir a OMS ? AH AH AH AH AH AH … E numa tática conjunta com o Trump ? Aposto que se reuniram e enquanto emborcavam umas minis e um pires de tremoços …discutiam a implosão …

  2. Mas que diferença faria o atraso na liberação das informações por parte dos chineses ?

    Não estamos vivenciando uma onda de gripe normal ?

    “E estamos a falar de dados decisivos para avaliar a gravidade da situação, as características do novo vírus e para preparar uma resposta adequada. O atraso na partilha do genoma atrasou o reconhecimento da sua disseminação noutros Países, o desenvolvimento de testes e de medicamentos. A falta de dados pormenorizados sobre os doentes tornou mais difícil determinar a rapidez da propagação do vírus, uma questão crucial para poder trava-lo e conte-lo.

    O comentário acima é um reconhecimento de que este virus é um pouco mais perigoso , embora sim, menos letal ? Ou estou enganado ?

  3. Mas essa explicação é uma confissão de crime. A China não fechou suas fronteiras internacionais. Fechou Wuhan, protegendo-se internamente e mantendo as fronteiras internacionais abertas. Ou seja, contaminou o mundo propositalmente, e a OMS sabia disso e ficou calada.

Obrigado por participar na discussão!

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