A Batalha de Bretton Woods em 1944

…e basta com este raio de Coronavirus! É altura da História para dissipar alguns mitos e entender por qual razão estamos como estamos.

Vladimir Putin apela a um Novo Sistema, algo que ultrapasse quanto estabelecido em Bretton Woods. Os tempos estão maduros, é preciso ir além. Mas antes, melhor perceber o que se tinha apssado na altura, nãso é?

 

A Batalha de Bretton Woods em 1944: Reflexões para o Dia da Vitória

 

À medida que o mundo de hoje está à beira de um colapso financeiro maior do que qualquer coisa que o mundo experimentou em 1923 ou na Grande Depressão de 1929, uma discussão séria foi iniciada pelos líderes da Rússia e da China sobre os termos do novo sistema que deve inevitavelmente substituir a ordem neoliberal que está a morrer.

Mais recentemente, Vladimir Putin reiniciou a convocatória de 16 de Janeiro de 2020 para uma nova conferência económica de emergência para lidar com o desastre iminente numa sessão ao vivo com os representantes das cinco potências nucleares do Conselho de Segurança da ONU.

(Lembramos aos leitores que entre 15 e 16 de Janeiro de 2020, Putin também fez uma limpeza na sua estrutura governamental, com a renúncia do governo e novas mudanças constitucionais a serem implementadas.)

Embora o compromisso de Putin com este novo sistema seja baseado em princípios multipolares de cooperação e respeito à soberania nacional, a oligarquia financeira e as estruturas do estado profundo que infestam as nações ocidentais que iniciaram esta crise ao longo de décadas de globalização, pediram a sua própria versão de um novo sistema.

Este novo sistema, como vimos promovido por entidades como o Banco da Inglaterra e os principais tecnocratas ao longo do último ano, baseia-se num sistema anti Estado-Nação, unipolar, que normalmente atende pelo termo «Novo Acordo Verde» (Green New Deal pela sua sigla em inglês, ndt.).

Por outras palavras, um sistema governado por uma elite tecnocrática que gere a redução da população mundial através da monetização das práticas de redução de carbono sob um Governo Global.

Não importa como o idealizamos, um novo sistema será criado a partir das cinzas da ordem mundial actualmente moribunda. A questão é apenas: Beneficiará a oligarquia ou o povo?

A fim de dar conta da necessária tomada de decisão para esta conferência de emergência, é útil revisitar a última conferência que definiu os termos da arquitectura económica mundial em Julho de 1944 para que erros semelhantes que foram então cometidos pelas forças anti-imperialistas não sejam repetidos mais uma vez.

O que foi Bretton Woods?

Como se tornava evidente que a guerra estaria prestes a chegar ao fim, um grande confronto eclodiu durante uma conferência de duas semanas em Bretton Woods, New Hampshire, onde representantes de 44 nações se reuniram para estabelecer os termos do novo sistema no pós-guerra. A questão era: Este novo sistema seria governado pelos princípios Imperiais Britânicos semelhantes aos que dominaram o mundo antes do início da guerra, ou seriam moldados por uma comunidade de Estados- Nações soberanos?

De um lado, figuras aliadas à visão do presidente americano Franklin Delano Roosevelt para uma ordem mundial anti-imperialista alinhada na retaguarda de FDR por Harry Dexter White, enquanto que as outras forças poderosas se comprometeram a manter as estruturas de uma ditadura bancária (a Grã-Bretanha sempre foi um império de banqueiros) alinhadas atrás da figura de John Maynard Keynes (ver a nota de rodapé 1).

John Maynard Keynes foi um dos principais controladores da Sociedade Fabiana (Fabian Society pela sua sigla em inglês, ndt.) e tesoureiro da Associação Britânica de Eugenia (British Eugenics Association pela sua sigla em inglês, ndt.), que serviu de modelo para os protocolos de eugenia de Hitler antes e ao longo da guerra.

Durante a Conferência de Bretton Woods, Keynes pressionou para que o novo sistema fosse baseado numa única moeda mundial controlada inteiramente pelo Banco da Inglaterra (Bank of England pela sua sigla em inglês, ndt.) conhecido como Bancor. Ele propôs um banco global chamado União de Compensação que seria controlado pelo Banco da Inglaterra, que usaria o Bancor (intercâmbio com moedas nacionais) e serviria como unidade de conta para medir superávits comerciais ou déficits sob o mandato matemático de manter o «equilibrium» do sistema.

Harry Dexter White, por outro lado, lutou incansavelmente para manter a Cidade de Londres (City of London pela sua sigla em inglês, é o centro financeiro de Londres, ndt.) fora do comando das finanças globais, e em vez disso, defendeu a instituição da soberania nacional e monetária baseadas no crescimento científico e tecnológico de longo prazo.

Embora White e FDR exigissem que os Dólares americanos se tornassem a moeda de reserva no novo sistema mundial de taxas de câmbio fixas, isto não foi feito para criar um «novo Império Americano» como a maioria dos analistas modernos assumiram, foi antes projectado para usar o status da América como o poder global produtivo mais forte para garantir uma estabilidade anti-especulativa entre as moedas internacionais, que carecia de total estabilidade na sequência da Segunda Guerra Mundial.

A luta por taxas de câmbio fixas e princípios de «preços de paridade» foram projetados por FDR e White, estritamente em torno da necessidade de abolir as formas de fluxo caótico dos mercados não regulamentados que tornaram a especulação desenfreada pelo Livre Comércio Britânico (British Free Trade pela sua sigla em inglês, ndt.) que destruiu a capacidade de pensar e planear o tipo de desenvolvimento de longo prazo necessário para modernizar os Estados-Nações.

O deles não era um impulso para o «equilíbrio matemático», mas sim um impulso para “acabar com a pobreza” através do crescimento económico físico REAL das colónias que assim, ganhariam a verdadeira independência económica.

Indivíduos como Henry Wallace (o leal vice-presidente da FDR e candidato independente do partido em 1948), o representante William Wilkie (apoiante republicano de FDR e do New Deal), e Dexter White, defenderam todos repetidamente que os mecanismos do Banco Mundial, do FMI e das Nações Unidas fossem destinados a se tornar impulsionadores de uma internacionalização do New Deal que transformou a América de uma fossa em 1932 para se tornar numa moderna potência de fabricação avançada 12 anos depois. Todos estes New Dealers eram defensores da liderança EUA-Rússia-China no Mundo do pós-guerra, o que é um facto esquecido e de suma importância.

No seu livro de 1944, Our Job in the Pacific, Wallace disse:

É vital para os Estados Unidos, é vital para a China e é vital para a Rússia que haja relações pacíficas e amistosas entre a China e a Rússia, a China e a América e a Rússia e a América. China e Rússia complementam-se e suplementam-se no continente da Ásia, e os dois juntos complementam e suplementam a posição da América no Pacífico.

Contradizendo os mitos de que FDR era um Keynesiano, a assistente de FDR, Frances Perkins, registou em 1934 a interacção entre os dois homens quando Roosevelt lhe disse:

Eu vi o seu amigo Keynes. Deixou um monte de figuras. Ele deve ser um matemático em vez de um economista político. Em resposta, Keynes, que estava então tentando cooptar a narrativa intelectual do New Deal, afirmou que ele tinha “presumido que o Presidente fosse mais letrado, economicamente falando”.

Na sua edição alemã de 1936 da Teoria Geral do Emprego, da Moeda e do Juro, Keynes escreveu:

Confesso que em grande parte o que vem exposto e ilustrado neste livro relaciona-se principalmente com as condições existentes nos países Anglo- Saxónicos. No entanto, a teoria da produção como um todo, que é o que o livro a seguir pretende fornecer, é muito mais fácil de ser adaptada às condições de um Estado totalitário.

Enquanto Keynes representava o «imperialismo brando» para a “esquerda” da Inteligência Britânica (Britain’s Intelligentsia pela sua sigla em inglês, ndt.), Churchill representava o duro imperialismo sem desculpas do antigo e pouco sofisticado império que preferia o uso acentuado da força bruta para subjugar os selvagens. Ambos, no entanto, eram descaradamente racistas e fascistas (Churchill até escreveu sobre a sua admiração pelos Camisas Negras de Mussolini), e ambos representavam as práticas mais repugnantes do Imperialismo Britânico.

O Esquecido Anti-Colonialismo de FDR Revisitado

A batalha de FDR com Churchill sobre a questão do império é mais conhecida do que as suas diferenças com Keynes, que ele só conheceu em algumas ocasiões. Este confronto bem documentado foi bem ilustrado no livro do seu filho/assistente, Elliot Roosevelt, Como Ele Viu (1946) onde citou o seu pai:

Eu tentei deixar claro… que enquanto somos aliados [da Grã-Bretanha] e ao seu lado na vitória, eles nunca devem ter a ideia de que estamos nele apenas para ajudá-los a agarrarem-se às suas ideias arcaicas e medievais do império… Espero que eles percebam que não são sócios maioritários; que não vamos ficar sentados a ver o seu sistema sufocar o crescimento de todos os países na Ásia e metade dos países da Europa para recomeçar.

FDR continuou:

O sistema colonial significa a guerra. Explora os recursos de uma Índia, uma Birmânia, um Java; tirar toda a riqueza desses países, sem lhes devolver ou dar algo em troca, coisas como educação, padrões de vida decentes, requisitos mínimos de saúde – é acumular o tipo de problema que leva à guerra. Tudo o que você está a fazer é negar o valor de qualquer tipo de estrutura organizacional para a paz antes de começar.

Escrevendo de Washington para Churchill em histeria, o Ministro das Relações Exteriores (Foreign Secretary pela sua sigla em inglês, ndt.), Anthony Eden, disse que Roosevelt “contemplava o desmantelamento dos impérios Britânico e Holandês“.

Infelizmente para o mundo, FDR morreu em 12 de Abril de 1945. Um golpe dentro do sistema Democrata, então repleto de Fabianos e Rhodes Scholars, que já haviam assegurado que Henry Wallace perderia a Vice-Presidência de 1944 em favor da marionete anglófila de Wall Street, Harry Truman.

Truman seria rápido a reverter todas as intenções de FDR, limpando a inteligência americana de todos os patriotas remanescentes com o encerramento da OSS e a criação da CIA, o lançamento desnecessário de bombas nucleares no Japão e o estabelecimento da relação especial Anglo-Americana.

O abraço de Truman à Nova Ordem Mundial de Churchill destruiu a relação positiva com a Rússia e a China que FDR, White e Wallace idealizavam, e logo a América se tornaria no idiota útil da Grã-Bretanha.

O Assalto do Moderno Estado Profundo Pós-1945

FDR alertou o seu filho antes de sua morte acerca do seu entendimento sobre a apoderamento Britânico da política externa Americana, mas não conseguiu reverter essa agenda. O seu filho contou a visão sinistra de seu pai:

Sabe, por várias vezes os homens do Departamento de Estado tentaram esconder-me mensagens, atrasá-las, retardando-as de alguma forma, só porque alguns desses diplomatas de carreira não estão de acordo com o que eles acham que eu penso. Eles deveriam estar a trabalhar para o Winston. Na verdade, muitas vezes, eles estão [trabalhando para Churchill]. Pare para pensar neles: muitos estão convencidos de que o caminho para a América conduzir a sua política externa é descobrir o que os Britânicos estão a fazer e depois copiá-los! Disseram-me… há seis anos atrás, para limpar o Departamento de Estado. É como se fosse o Ministério das Relações Exteriores Britânico…(British Foreign Office pela sua sigla em inglês, ndt.).

Antes de ser demitido do gabinete de Truman por sua defesa da amizade EUA-Rússia durante a Guerra Fria, Wallace declarou:

O fascismo Americano» que ficou conhecido nos últimos anos como o Estado Profundo. O fascismo no pós-guerra vai de forma inevitável e ser pressionado constantemente pelo imperialismo Anglo-Saxão para uma eventual guerra com a Rússia. Neste momento os fascistas Americanos falam e escrevem sobre esse conflito usando-o como desculpa para os seus ódios internos e intolerâncias em relação a certas raças, credos e classes.

Na sua Missão Soviética na Ásia em 1946, Wallace disse:

Antes que o sangue dos nossos rapazes seja derramado no campo de batalha, esses inimigos da paz tentam estabelecer as bases para a Terceira Guerra Mundial. Essas pessoas não devem ter sucesso nas suas insanas pretensões. Devemos afastar-nos do seu veneno seguindo as políticas de Roosevelt em cultivar a amizade com a Rússia tanto na paz, bem como na guerra.

Na verdade, isto foi exactamente o que ocorreu. Os três anos de Dexter White como chefe do Fundo Monetário Internacional foi ofuscado pelos constantes ataques acusando-o de ser um fantoche Soviético, que o assombrou até ao dia em que ele morreu em 1948, após uma extenuante sessão de inquisição na Casa de Atividades Não-Americanas (ou Comité de Actividades Antiamericanas, House of Un-American Activities pela sua sigla em inglês, ndt.).

Anteriormente, White havia apoiado a eleição do seu amigo Wallace para a presidência ao lado dos seus colegas patriotas Paul Robeson e Albert Einstein.

Hoje o mundo consiguiu uma segunda chance para reviver o sonho de FDR de um mundo anti-colonial. No século XXI, este grande sonho toma a forma da Nova Rota da Seda (One Belt, One Road pela sua sigla em inglês, ndt.), liderada pela Rússia e pela China (a quem se juntam um crescente coro de nações ansiando por sair da gaiola invisível do colonialismo).

Se as nações ocidentais desejam sobreviver ao colapso que se aproxima, então fariam bem em atender ao chamado de Putin para um Novo Sistema Internacional, juntar-se ao BRI, e rejeitar os tecnocratas Keynesianos que defendem um falso “Novo Bretton Woods” (New Bretton Woods pela sua sigla em inglês, ndt.) e o “Novo Acordo Verde” (Green New Deal pela sua sigla em inglês, ndt.).

 

Noat 1 – Você deve estar a pensar: “Espera! Não foi FDR e o seu New Deal a premissa sobre as teorias de Keynes? Como keynes poderia ter representado uma força oposta ao sistema de FDR se fosse esse o caso? Este paradoxo só existe hoje dia na mente de muitas pessoas devido ao sucesso da legião de historiadores revisionistas da Sociedade Fabiana (Fabian Society pela sua sigla em inglês, ndt.) e do Movimento da Távola Redonda (Round Table Mouvement’s pela sua sigla em inglês, ndt.), que sempre criaram uma narrativa mentirosa da História para fazer parecer às gerações futuras que tentam aprender com os erros do passado, que figuras como FDR que se opunham ao império estavam a seguir princípios imperiais. Outro exemplo deste malabarismo pode ser visto pelo grande número de pessoas que se julgam sinceramente informadas e ainda acreditam que a revolução Americana de 1776 foi impulsionada pelo pensamento filosófico Imperial Britânico de Adam Smith, Bentham e John Locke.

3 Replies to “A Batalha de Bretton Woods em 1944”

  1. ‘Estamos a testemunhar o completo e total colapso do sistema financeiro que existiu nos últimos 70 anos ‘ – Ernst Wolff

  2. Verdade, mas a explanação limita-se as relações geopolíticas entre governantes (tão fantoches à época quantos os atuais), sem considerar o algo maior, o poder de fato supranacional que age em ambos os lados. E não acredito que vc continuará a taxar de meras teorias os processos conspiratórios que envolvem o poder. O “nacionalismo” de FDR não passava da ideia de herdar DE DIREITO o imperialismo anglo-saxão. Quem sabe vc não monta outra matéria sobre quem dominava DE FATO aquela ilha? Pq, assim como o revisionismo é útil no caso de FDR, terá a mesma serventia no caso dos anglos-saxões…
    A historiografia, em geral, prima em gravar o poder e os poderosos DE DIREITO, e omitir o poder e os poderosos DE FATO.
    E este é um divisor fundamental para entendermos o funcionamento mundo. Desculpe Max, mas não tenho como não insistir nesse aspecto.

  3. Olá Krowler: agradeço muito os vídeos que tu e os outros também têm juntado aos comentários.
    Nesse caso, juntando o pouquinho de alemão que aprendi com a triste tradução do Google, dá para sentir o pulso da “pandemia” econômica que as pessoas que pensam vem alertando.
    De certa forma me surpreende o quão profunda pode ser a situação do primeiro mundo, e quão imediatas são as medidas para remediar o colapso das vidas individuais por pequenos prazos, 2 ou 3 semanas. Por um lado o governo tenta remediar a possível explosão popular, com uma possível intensificação de medidas de isolamento e controle. Por outro lado, os que pensam sugerem que famílias e indivíduos tenham uma reserva de comida para poucas semanas, de remédios, quando necessários, e retirem uma quantidade de dinheiro dos bancos para ter a certeza que o possuem em caso de emergência. Calculam a possibilidade de feriados bancários inesperados, a possibilidade de esvaziamento das poupanças individuais, e coisas que eu acredito típicas do terceiro mundo, até porque já passei por isso. Estarão os alemães sendo muito precavidos, ou percebem a urgência de iniciativas insanas a mais das já operacionalizadas ?
    Aqui no Brazil, no entanto não adianta sugerir estas medidas financeiras para o povo porque mais da metade está inadimplente, e parte da outra metade tem dívidas acumuladas e não poupança. Haveria solução imediata, simplesmente cobrando a dívida de impostos milionária da grandes empresas, mas é claro que isto nunca acontecerá. O único Estado que de alguma forma funciona para o povo nas grandes cidades é o Estado ilegal, dos negócios ilegais que não deixa morrer de fome seus soldados.

Obrigado por participar na discussão!

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