Como a economia tornou-se uma religião

Passeando alegremente pela internet, encontrei este artigo do diário inglês The Guardian. Que depois não é verdade: o artigo é de 2017 mas foi republicado hoje por um blog italiano que costumo seguir. Então foi procurar o original, ainda disponível no site do diário. A teoria que fica na base deste artigo é que… bom, vamos fazer assim: leiam o artigo e a depois vamos fazer algumas considerações. Isso mesmo, bem melhor, que cérebro que tenho, incrível.

Autor do artigo é John Rapley, académico, jornalista e co-fundador do Caribbean Policy Research Institute (Jamaica). Um académico da Jamaica? Ora essa, eu pensava tocassem todos o reggae

Como a economia tornou-se uma religião

Embora a Inglaterra tenha a sua própria igreja, poucos de nós a praticam. Seguimos uma religião muito mais poderosa sobre a qual nós orientamos as nossas vidas: a economia. Pense nisso.

A economia oferece uma doutrina abrangente com códigos morais que prometem a salvação neste mundo para os seguidores; uma ideologia tão necessária que os fiéis modificam sociedades inteiras para conforma-las às suas exigências. Tem os seus santos, místicos e magos que transformam o nada em dinheiro utilizando fórmulas mágicas como “derivativos” ou “investimentos estruturados”. E, assim como as antigas religiões, tem os seus próprios profetas, reformistas, moralistas e, acima de tudo, pregadores importantes que apoiam a ortodoxia contra todas as heresias.

Com o passar do tempo, os economistas passaram a desenvolver os papéis que antes eram da responsabilidade do clero: guiar-nos para alcançar a terra prometida da abundância material e da total satisfação. Durante muito tempo também deram a impressão de terem conseguido o resultado, multiplicando os nossos ganhos e com uma cornucópia que constantemente produzia novas invenções, curas e prazeres.

Era o nosso paraíso e recompensámos adequadamente todo o clero sacerdotal económico com honra, bem-estar económico e poder para moldar a nossa sociedade de acordo com as necessidades. No final do século XX, no meio do boom que viu as economias ocidentais tornarem-se mais ricas do que nunca, a economia parecia ter conquistado o mundo. Embora praticamente todas as nações do planeta aderissem ao jogo do livre mercado, e enquanto as universidades despejavam licenciaturas atrás de licenciaturas sobre o assunto, a economia parecia ter atingido o marco que nenhuma doutrina religiosa tinha sido capaz de alcançar: converter todo o planeta à sua fé.

Mas se há algo que a História ensina, é que sempre que os economistas acreditam ter encontrado o Santo Graal da paz e da prosperidade infinitas, o fim do presente estado de coisas está próximo. Na véspera da crise de Wall Street em 1929, o economista norte-americano Irving Fisher aconselhou as pessoas para que comprassem ações. Nos anos da décadas de ’60, os economistas keynesianos argumentavam que nunca teria havido uma recessão no futuro, uma vez que tinham sido aperfeiçoados os procedimentos.

A crise de 2008 não foi diferente. Cinco anos antes, em 4 de Janeiro de 2003, o vencedor do prémio Nobel, Robert Lucas, elogiava vivamente a American Economics Association. Lembrando aos colegas que a macroeconomia nasceu durante a Grande Depressão de ’29 para evitar desastres semelhantes no futuro, disse que ele e os seus colegas tinham chegado ao fim da história: “A macroeconomia no seu sentido primário tem sido um sucesso […] e o problema central de prevenir qualquer depressão foi resolvido”.

Tão logo estávamos convencidos de que o clero económico finalmente tinha cortado a antiga maldição em pedaços, eis que ela voltou para assombrar: a felicidade sempre precede o acidente. Desde 2008, a maioria de nós teve que notar o declínio nos padrões de vida adquiridos anteriormente. Nesse processo, o clero aparentemente retirou-se para dentro dos claustros, tentando perceber quem tinha errado. Não surpreendentemente, a nossa fé nos “especialistas” foi-se.

A arrogância nunca é uma coisa positiva e é particularmente perigosa na economia porque os seus discípulos não querem observar as leis da Natureza: eles preferem ajudar a criá-las. Se o governo liderado pelo clero muda a estrutura de formação da sociedade para alinhá-la com a ideia de que as pessoas se comportem de forma egoísta, por exemplo, podemos ter certeza de que em breve as pessoas vão começar a ser egoístas, uma vez que é premiado quem seguir aquela atitude e é penalizado quem faz o contrário. Se alguém é treinado a pensar que a ganância é boa, será muito fácil comportar-se de tal forma.

A arrogância da economia não deriva duma queda moral entre os economistas, mas duma crença falaciosa: acreditar que a deles seja uma ciência. Não é nem pode ser, e sempre funcionou como uma igreja. Basta dar uma olhada à História para perceber isso.

A American Economic Association (AEA), à qual Robert Lucas dirigiu seus elogios, foi criada em 1885, quando a economia começou a ser definida como uma disciplina autónoma. Durante a primeira reunião, os fundadores propuseram um manifesto que declarava: “O conflito entre trabalho e capital causou um grande número de problemas sociais cuja solução é impossível sem os esforços combinados de igreja, Estado e ciência”. Foi um longo caminho desde o início até o mercado evangélico das últimas décadas.

No entanto, já naquela época, o ativismo social causou alguns problemas. Um dos fundadores da AEA, Henry Carter Adams, discursou na universidade de Cornell onde defendia o direito de falar dos pensadores radicais e acusava os industriais de nutrirem a xenofobia para distrair os trabalhadores dos maus-tratos. Adams não sabia isso mas na plateia estava Henrly Sage, rei da madeira e benfeitor de universidade. Assim que o discurso terminou, Sage correu para os escritórios da presidência e trovejou: “Aquele homem deve ir-se embora, está a prejudicar os alicerces da nossa sociedade”. Os trabalhos da AEA foram interrompidos, Adams concordou em moderar a sua veemente peroração: consequentemente, na declaração final da AEA, qualquer referência ao discurso dele desapareceu por ser “perigosa para a política e insalubre para a moral”.

É um método que persiste ainda hoje e também está consolidado. Os importantes interesses políticos (que historicamente incluem não apenas as riquezas industriais mas também o eleitorado) ajudaram a formar cânones económicos, então aplicados pela comunidade de discípulos. Uma vez que um princípio for definido como ortodoxo, a sua observância é imposta da mesma forma que numa doutrina religiosa para manter a integridade: reprimindo ou simplesmente evitando as heresias.

Na sua obra antropológica Purity and Danger, Mary Douglas observou como os tabus são funcionais para impor ordem aos humanos num mundo aparentemente caótico. As premissas em economia são idênticas. Robert Lucas observou uma vez como, no final do século XX, a economia tinha combatido tão profundamente qualquer referência a Keynes que “o público começava a murmurar e a rir” quando alguém expressava ideias keynesianas nos seminários. Essas atitudes serviam para lembrar os neófitos os tabus no campo económico: uma cotovelada a um jovem académico sugeria evitar certas referências perante o público. Essa preocupação com a ordem está mais relacionada aos praticantes do que ao método: estudos sobre a personalidade têm demonstrado que a economia, como a engenharia, tende a atrair pessoas com forte preferência pela ordem e uma repulsa à ambiguidade.

A ironia é que, no intuito de actuar como uma ciência que oferece conclusões rápidas e precisas, a economia às vezes tem que abdicar do método científico. E aqui começam as dores.

Para começar, tudo inicia a partir de uma série de premissas não sobre o mundo como ele é, mas sobre como os economistas queriam que fosse. Assim como qualquer religião pede para ter fé, pede-se aos membros do sacerdócio económico que tenham convicções precisas sobre a natureza humana. Muitos economistas, por exemplo, acreditam que nós humanos somos egoístas, racionais, profundamente individualistas e preferimos ter muito dinheiro. Esses dogmas são tidos como óbvios. Deduzir leis a partir de premissas consideradas eternas e incontestáveis ​​é um método bem conhecido: por milhares de anos, os monges criaram imensas coleções de textos para o ensino desta forma, criando aquela que é conhecida como Escolástica; mas este método não é usado pelos cientistas, os quais pedem que as suposições passem por testes empíricos antes que uma teoria possa ser criada.

Os economistas insistem que isso é exactamente o que eles fazem, utilizar o método científico. Mas mentem. E dado que os monges estão enterrados, são eles agora que devem provar o que afirmam fazer. O que não é nada simples.

Os físicos resolvem as suas dúvidas olhando para dados acerca dos quais todos concordam porque foram frutos de observações. Vice-versa, os dados usados ​​pelos economistas são muito controversos.

Robert Lucas, por exemplo, insistiu que a hipótese dum mercado eficiente de Eugene Fama (que argumenta que o mercado livre fornece todas as informações aos comerciantes, os preços que produz nunca podem estar errados) estava correcta apesar de uma “inundação” de críticas e apesar da teoria do seu colega Robert Shiller que achava o contrário. Quando o Banco Central da Suécia teve que decidir a quem dar o Prémio Nobel de 2013 para a economia, encontrou duas teorias opostas, aquela de Fama e aquela de Shiller. Não sabendo o que fazer, foi decidido dar a medalha a ambos, decisão salomónica que teria desencadeado gargalhadas se tivesse sido um Nobel científico. A verdade, como o exemplo demonstra de forma clara, é que muitas vezes na economia não há forma de provar “cientificamente” uma teoria: podemos acreditar nela ou não, mas isso é tudo. É mais uma questão de fé, uma predisposição sentimental e não uma avaliação científica.

A razão pela qual os dados usados ​​em economia (e outras ciências sociais) raramente produzem respostas incontestáveis é simples: são dados humanos. Ao contrário das pessoas, as partículas subatómicas não mentem e nem mudam de ideia. Consciente desta diferença, o Nobel Wassily Leontief, enquanto falava perante a AEA há meio século, lembrou aos presentes que os dados usados ​​pelos economistas são imensamente diferentes daqueles usados ​​por físicos e biólogos. Para último alertou que “a magnitude da maioria dos parâmetros é praticamente constante”, enquanto as observações em economia mudam constantemente.

Os dados devem ser actualizados regularmente para serem de alguma utilidade. Alguns dados são simplesmente inúteis. Mas reunir e analisar dados requer pessoal com excelente preparação e tempo, algo que os Países menos desenvolvidos podem não ter. Por exemplo, somente em 2010 o governo do Gana (que provavelmente tem uma das melhores capacidades de recolha de dados na África) recalculou o seu Produto Interno Bruto (PIB), descobrindo que estava maior em 60%. Testar certas hipóteses antes e depois de algumas revisões pode levar a resultados totalmente diferentes.

Leontief pediu aos economistas que passassem mais tempo na redescoberta dos seus dados e menos tempo nos modelos matemáticos. Mas teve que admitir que as coisas estavam a ir na direção oposta. Economistas que examinam o que está realmente a acontecer nas aldeias ou nas cidades para ter uma noção mais profunda do que afirmam os dados são hoje verdadeiras raridades. Quando um modelo económico está pronto para o teste, tudo é resolvido com computadores, bancos de dados e modelos matemáticos. O problema? É exactamente desta forma que podemos encontrar na Bíblia frases que justificam quase todos os comportamentos, desde o homicídio até o perdão; é assim que podemos encontrar nos dados afirmações sobre como o mundo funciona, mesmo que sejam afirmações contrastantes. E é por isso que as ideias na economia podem ser facilmente obsoletas.

O progresso no campo científico prossegue de forma linear. As novas pesquisas confirmam ou substituem as teorias já existentes e uma série segue outra. A economia, por outro lado, move-se por ciclos: uma certa teoria pode ser desenvolvida, cair em desuso e voltar a aparecer novamente. Isso acontece porque os economistas não confirmam as suas teorias como os físicos, os quais julgam apenas com os factos. Pelo contrário, assim como acontece com os gurus que reúnem uma congregação, uma escola de pensamento económico cresce se o número de seguidores entre políticos e cidadãos crescer também.

Por exemplo, Milton Friedman foi um dos economistas mais influentes do século passado, mas foi virtualmente ignorado durante décadas e permaneceu como uma figura marginal se não tivesse havido dois políticos como Margaret Thatcher e Ronald Reagan que prestaram atenção às suas ideias sobre o valor do mercado livre. Eles divulgaram essas ideias nos relativos Países, foram eleitos, remodelaram a sociedade de acordo com aqueles princípios. Um economista com seguidores políticos tem sempre um púlpito a partir do qual divulga os seus dogmas. Não políticos? Não púlpito.

Mas se o Leitor acha que descrever a economia como uma religião tem o propósito de neutralizá-la, então está errado. Nós precisamos da economia. Pode ser, e tem sido, uma força muito eficiente para todos nós. Mas somente se mantivermos os nossos objectivos bem em mente, assim como o que podemos ou não podemos fazer.

Os irlandeses são conhecidos por descrever as suas terras católicas como lugares onde uma fina camada de pintura cristã cobre um antigo paganismo. O mesmo poderia ser dito sobre a nossa actual adesão à ortodoxia neoliberal, que enfatiza a liberdade individual e o mercado livre em detrimento dos governos. Apesar da observância religiosa desta doutrina incontestável, não ficamos animais económicos como era suposto. Exactamente como os crentes que frequentam a igreja mas não seguem sempre os mandamentos, costumamos comportar-nos como a teoria económica prevê apenas quando convém. Ao contrário dos pilares da ortodoxia económica, as pesquisas mais recentes sugerem que os homens, em vez de maximizarem sempre o lucro, ainda são razoavelmente altruístas e desinteressados. Também não está absolutamente certo que a acumulação infinita de riqueza possa fazer-nos sempre felizes. E quando temos que tomar decisões importantes, parece que não prestamos muita atenção à maximização tanto quanto a ortodoxia económica exigiria. A verdade é que na vida de todos os dias aquele modelo não se encaixa.

Ao longo de décadas os evangelistas neoliberais responderam que era necessário adaptar o modelo considerado não-mutável: lembramos que Bill Clinton descrevia a globalização neoliberal como uma “força da natureza”. Mas então, especialmente como resultado da crise de 2008 e da consequente recessão, cada vez mais contrárias em relação à globalização foram levantadas no Ocidente, o que levou a uma grande acção de repúdio, especialmente na eleições dos EUA de 2016 e no referendo para o Brexit.

É óbvio que qualquer pessoa que pertença às classes dos “especialistas”‘ e ao clero económico tenta desvalorizar essas críticas como um choque entre factos e fé, onde afinal os factos irão ganhar. Na verdade, este é um confronto entre duas religiões diferentes ou, mais precisamente, entre duas diferentes morais. Os chamados “especialistas” ficaram tão encantados com as suas próprias autoridades científicas ao ponto de ficarem cegos perante o facto de que a narrativa científica do progresso deles repousava sobre uma base moral, onde o final feliz era apenas para os contadores de histórias que perpetuam a história a partir duma posição privilegiada, um bónus da actual sociedade meritocrática que recompensa as pessoas pelas suas habilidades e flexibilidades. Nessa narração, não há lugar para os perdedores cujos ressentimentos são ridicularizados como reflexo do carácter rude e retrógrado, que continua a ser o principal vício deles. O melhor impulso moral que pode ser encontrado aqui é adaptar-se a uma ordem social na qual o sistema de castas foi calcificado. Para um público que espera um final feliz, este só pode ser uma revelação terrificante.

O ruir desta grande narrativa não pode todavia ser razão para os estudantes de economia evitar todas as narrativas, pois estas são uma parte inevitável das ciências humanas, portanto, são inevitáveis ​​para nós humanos. É notável realçar como poucos economistas entenderam isso, ao contrário do que aconteceu no mundo dos negócios. Como os dois escritores do Nobel George Akerlof e Robert Shiller escrevem no livro Phishing for Phools, os vendedores sempre usam narrações, tecendo histórias na esperança de que possam convencer-nos a comprar os seus produtos. Akerlof e Shiller não compartilham a ideia de que o mercado livre funcione perfeitamente, e a ideia de que os governos são a causa de muitos dos nossos problemas está contida na narrativa que pretende que as pessoas se adaptem para serem funcionais ao projecto. Por isso, estão convencidos de que as narrativas são “nuvem variável” da economia, dado que “as mentalidades que emergem das decisões das pessoas” são formadas pelas narrativas que os economistas contam a eles mesmos.

Os economistas fariam um bom trabalho se tomassem as nossas narrativas e aconselhassem sobre como realiza-las, mas um tal agnosticismo requer uma humildade que está a faltar na ortodoxia económica dos últimos tempos. No entanto, não devem atirar para as urtigas as suas tradições se realmente quiserem superar o fracasso da narrativa que foi rejeitada. Podem olhar para dentro da sua própria história, para procurar a forma de evitar a certeza evangélica da ortodoxia.

No discurso presidencial de 1971 da AEA, Wassily Leontief advertiu sobre os perigos da complacência. Ele observou que, embora a economia estivesse começando a andar “na onda de respeitabilidade intelectual […], há um sentimento crescente de desconforto sobre o estado actual da nossa disciplina entre aqueles que observaram o extraordinário desenvolvimento das últimas três décadas”. Realçava também como a teoria pura estava a afastara a economia para longe da vida de todos os dias; explicou como o problema estava “na inadequação palpável dos meios científicos” em usar abordagens matemáticas para resolver problemas triviais. Tem sido gasto tanto tempo nos modelos matemáticos que as considerações sobre as quais os modelos estão baseados tornam-se insignificantes. “Mas” avisou num alerta que revelou ser profético à luz do charme para os modelos que levaram à crise dos subprimes e à consequente descoberta dos defeitos “é precisamente a validade empírica dessas hipóteses que representa a base da validade do método inteiro”.

Leontief temia que os departamentos de economia estivessem a contratar e a promover jovens economistas para construir modelos matemáticos sem uma verificação empírica adequada. E mesmo quando fazem análises empíricas, Leontief costumava dizer que os economistas raramente analisam o valor dos dados. Portanto, aconselhou-os a verificar as suas teorias à luz de investigações detalhadas nos campos social, demográfico e antropológico, o que significa que a economia deve trabalhar mais estreitamente com outras disciplinas.

O apelo de Leontief à humildade tem 40 anos e é um lembrete: as religiões que podem falar em favor da liberdade e da dignidade, uma vez obtido o poder podem ficar obcecadas com o “estar certo” delas e com a necessidade de eliminar aqueles que pensam de forma diferente. Quando uma igreja mantém a sua distância do poder e tem uma pretensão calma acerca do que pode ser feito, pode estimular as nossas mentes para novas possibilidades e até mesmo para novos mundos.

Una vez que os economistas aplicassem esse cepticismo científico para o reino humano, provavelmente iriam renegar todo o dogmatismo das suas teorias.

Paradoxalmente, se a economia se tornasse mais autenticamente científica, seria uma disciplina menos científica. Reconhecer essas limitações tornaria a economia ainda útil para servir a humanidade.

Então, gostaram? Eu gostei. A parte central do artigo poderia ter sido escrita de forma mais “leve”, mais fluida; e tudo poderia ser mais curto também, porque a traduzi-lo estava quase a adormecer. Mas acho um bom artigo, sobretudo porque retrata um mal partilhado por muitas disciplinas académicas: a torre de marfim dos académicos, este conjunto de arrogância e sectarismo que demasiadas vezes (não sempre!) abraça a Ciência.

Mas falta algo. Sim, a torre de marfim, o sectarismo, os excessivos modelos matemáticos, tudo bem, tudo verdade: mas não é só isso. Porque ao ler o artigo, fica-se com a impressão de que, fechados nos cantos mais inacessíveis das universidades, há uns sábios que passam o tempo a debater sobre as máximas questões económicas: de vez em quando saem, comunicam as “descobertas” e pedem ao mundo para seguir a palavra deles. O que não é bem verdade.

Não existe toda esta “distância” do mundo real. Bem pelo contrário: a distância é curtíssima e tem o comprimento dum cheque. É isso que faz a diferença entre uma pesquisa publicada, divulgada e aplaudida e uma que fica na prateleira. Nenhuma empresa privada alguma vez irá financiar uma pesquisa sobre a bondade da troca. Pelo contrário, uma empresa privada irá pagar de bom agrado quem consiga demonstrar que os seus produtos ou serviços são úteis; irá acarinhar o líder do grupo de pesquisa, irá convida-lo para eventos, conferências, um dia talvez poderá entrar num governo ou noutra instituição. Não é a Economia saída das universidades que molda a sociedade: é uma parte da sociedade que determina o rumo que as pesquisas universitárias têm que seguir.

O autor sabe disso e não acaso relata o episódio de Henry Carter Adams, excluído do documento final da AEA por vontade dum dos financiadores, Henry Sage, rei da madeira e benfeitor de universidade. Cita o episódio mas não aprofunda, em parte porque o foco do artigo é dedicados à natureza íntima da Economia.

Em boa verdade, se as coisas estivessem apenas como são pintadas no artigo, a única solução decente seria fechar os departamento de Economia das universidades de imediato, porque habitados por perigosos lunáticos. Mas nas universidades não há só lunáticos: há também pesquisadores sérios, que nunca irão receber o devido reconhecimento porque fora das lógicas mainstream. No entanto, estes pesquisadores existem, trabalham, exploram possibilidades. É isso que conta.

Precisamos da economia? Sim, precisamos dela. É o mesmo discurso da política: podemos ignora-la, mas na verdade fazemos política todos os dias, quando entramos numa loja, quando enchemos o carrinho com compras, quando conversamos ao telemóvel, quando navegamos na internet, quando atestamos o depósito do carro, quando escolhemos o canal da televisão. É aí que fazemos a política e a economia também, não nas alturas das eleições. Então para que serve ignorar estes assuntos? Aos menos tentamos ter um mínimo de consciência das nossas decisões.

 

Ipse dixit.

Fonte: The Guardian

7 Replies to “Como a economia tornou-se uma religião”

  1. ” A Deus o que é de Deus a César o que é de César ” comparar economia com religião não explica nenhuma das duas, exceto no capítulo em que ambas são terreno fértil para charlatões porque ambas são regidas pelo dogma da fé. O texto poderia ser mais sóbrio nesse tipo de paralelismo, a tentativa de estabelecer semelhanças com a religião acaba por desvitalizar o contexto, a religião procura (…) a harmonia e a paz interior e é lamentável que a economia não procure o seu homólogo da religião que seria ” a sustentabilidade” em vez do dogma do crescimento infinito num planeta finto ( verdadeiro cancro da economia e nunca no texto abordado) Parece-me que John Rapley tenta dizer… enfim alguns economistas não são sérios , depois temos o sistema que é complexo, e tal … mas eu sou um gajo sério e o que digo é muito importante, pois , acontece que tal como John Rapley eu também sou um gajo sério… quando não me estou a rir.

        1. Traduzimos para português:

          Kevin O’Leary, um investidor da versão norte-americana do Dragons Den, Shark Tank, foi surpreendentemente otimista sobre os pobres do mundo durante uma entrevista na TV esta semana.

          As respostas aceitáveis perante o relatório da Oxfam segundo o qual as 85 pessoas mais ricas do mundo possuem a mesma quantidade de riqueza dos 3.5 bilhões mais pobres incluem “chocante”, “desprezível” e “provavelmente deveria ser feito algo acerca disso”.

          Mas não para o empresário O’Leary, que respondeu durante um show americano:

          “É fantástico, e isso é ótimo porque inspira todos no mundo, motiva as pessoas a olhar para o 1% e dizer ‘Eu quero me tornar uma dessas pessoas, vou lutar muito para chegar ao topo’. […] “Esta é uma notícia fantástica e, claro, vou aplaudi-la. O que pode estar errado com isso?”

          E não é que convenceu-me? Fiquei inspirado, acho que vou tornar-me a 86ª pessoa mais rica do mundo. Obrigado

  2. Os economistas não são sérios, os cientistas em geral não são sérios porque são mercadores a espera de encomendas a serem divulgadas para ocuparem o lugar comum do pensamento, enquanto garantem suas vidinhas. Se escrevessem um artigo tentando evidenciar como e porque a sociedade como um todo, com pouquíssimas exceções, chegou a idolatrar o dinheiro como solução de todos os males e garantia de estabilidade, segurança e felicidade, talvez eu conseguisse ter me concentrado mais no texto.

  3. Para além do doentio dogma do crescimento infinito existe ainda o cancro do sistema de reserva fracionária aqui tantas vezes falado que permite a alguns escolhidos emprestarem o que não tem e ainda sobre isso cobrar juros exorbitantes, chegando ao cumulo pornográfico de apostar em seguros contra os próprios clientes, criando bolhas, nacionalizando as perdas e privatizando os lucros, escondendo-se em paraísos fiscais hediondos mas imaculadamente legais que nenhum politico da extrema direita á extrema esquerda ousa levantar um dedo contra, pois todos dai direta ou indiretamente se alambazam A taxação selvagem do trabalho e as imensas possibilidades legais de fuga do capital, seja através de paraísos , de fundos de investimento, fundações e toda uma panóplia de esquemas imorais mas legais, deixa a economia mais próximo da usual definição de “Associação Criminosa” do que da definição de qualquer religião ou seita manhosa, por mais manhosa que seja, John Rapley parece ter feito um bom trabalho de maquiagem “puxando as orelhas” aos alegados maus economistas e ás alegadas más politicas sem nunca tocar no assunto , no verdadeiro assunto ” A economia é uma fraude gigantesca e um instrumento de escravização ” e John Rapley ? É mais um vendedor de banha da cobra e de artigos de jornal , lamento … possuímos diferentes visões da economia.

  4. Em 2010, James Galbraith escreveu uma declaração intitulada: A desgraçada profissão de economista.
    Lí na altura o texto com muito interesse, e agora, a propósito deste post lembrei-me dele.
    Basicamente a reflexão de Galbraith, que vem no rescaldo da crise de 2008, é sobre a fraude e todas as suas implicações na implementação das mais variadas teorias económicas.
    Entenda-se por fraude todo o tipo de especulação financeira, bem como toda a manipulação de topo, que vai moldando a economia dos diversos países, de acordo com os desígnios daqueles que detêm o verdadeiro poder, o financeiro, e não daqueles que detêm o conhecimento.
    Hoje o lucro tem uma natureza de tal forma especulativa, que deixa de fazer sentido falar-se em aplicação de modelos económicos.
    Este clero económico, que existe enquanto tal, não molda a economia mas terá antes uma função apaziguadora nos momentos de crise. É neles que toda a esperança é depositada quando a palavra Crash chega à mesa dos cafés. Foi assim no passado e assim será no futuro.

    Krowler

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