A Greve Geral

Fonte: Público

Decorre nestas horas a greve geral em Portugal.
Há pouco foram divulgados os primeiros números e não há surpresas.

Segundo os Sindicatos a adesão foi de 99%, com pontas de 100 ou até 101%. Quem estava de férias voltou para não trabalhar.

Para o Estado a adesão foi de 1% ou pouco menos. Até que numa certa altura a dúvida foi “mas a greve é hoje ou amanhã?”.

O que é certo é que depois da greve nada será como antes.

Amanhã o governo fará o mea culpa, subirá os salários dos trabalhadores e as reformas dos pensionistas. Ao mesmo tempo atingirá com violência os ricos e os patrões, sem esquecer os bancos, obviamente.
Os mesmos políticos cortarão os próprios ordenados e a diferença será entregue a instituições de caridade.

Começará um novo Portugal, isso é certo, como é certo que o meu nome é João Dinis.

Povo na rua, políticos ao trabalho

E enquanto os sindicatos entretêm o povo nas ruas com operações de maquilhagem, o governo socialista procede com o próprio trabalho: nada assustado com as manifestações, ontem aprovou uma alteração aos cortes salariais que, em teoria, deveriam interessar todos os trabalhadores portugueses.
Em teoria.

De acordo com a proposta, “os trabalhadores das empresas públicas de capital exclusiva ou maioritariamente público, das entidades públicas empresariais e das entidades que integram o sector empresarial regional ou municipal” vão sofrer cortes salariais, mas abre-se a porta a “adaptações autorizadas e justificadas pela sua natureza empresarial”.

Isso com os aplausos do maior partido da oposição. Diz Pedro Passos Coelho, leader do PSD:

Portanto, parece-nos correcto que exista um regime de contenção da despesa adaptada à circunstância de as empresas estarem no mercado

Re-proponho um artigo publicado no passado 4 de Novembro em Poortugal, só para dizer o seguinte: não sou contra as greves, pelo contrário. As greves são um direito dos trabalhadores e seria gravíssimo se assim não fosse.
Mas as greves devem ser utilizadas de forma inteligente, para realmente combater e alterar situações que põem em perigo os direitos do trabalhadores e dos povos em geral.

As greves utilizadas só como demonstração de força, como marketing dos sindicatos, sem que seja proposta uma séria alternativa, são greves que enfraquecem a própria utilidade e o poder contratual do povo.

Os sindicatos que temos 

Portugal tem os sindicatos que valem o que valem: isso é, zero.Provavelmente conseguiram resultados nos bons tempos idos, mas agora são a outra face do poder.

A face pior, pois apresentam-se como os derradeiros defensores do povo.

Para o dia 24 de Novembro está convocada a greve geral “contra as injustiças”, contra as medidas do orçamento 2011.

Veja-se bem: a greve não é convocada antes do orçamento ser aprovado, na tentativa de condicionar o diálogo entre os partidos.

Nada disso: a greve é convocada só depois, quando os jogos estão já feitos. E quando nada pode mudar as decisões dos dois maiores partidos nacionais que, com fadiga, chegaram a um acordo.

Ou alguém em Portugal ainda acredita que uma manifestação, mesmo que imponente, possa mudar alguma coisa?

O dever dos sindicatos era o de alertar os cidadãos antes: ir antes para as ruas, de casa em casa, para explicar antes o que se passa neste País (e não só neste, diga-se), para que “o povo” antes pudesse manifestar a própria raiva, frustração, desilusão.

Depois?

Depois é tarde demais.

“Depois” será bom só para os sindicatos: alguns discursos bons para “o povo”, para poder mostrar as bandeiras, o punho levantado, para ouvir gritar “Camaradas!”. Uma boa ocasião para tirar da naftalina a camisola do Che.

Tenho na frente o folheto da CGTP. Demagogia ao estado puro.

“A greve geral é pelo investimento no sector produtivo”

Qual sector produtivo? O que se produz neste País? E quem? O exército de funcionários públicos que, defendidos pelos mesmos sindicatos, não querem abdicar dos “direitos adquiridos”?

“A greve geral é pelo aumento dos salários”.

Com certeza: aumentamos os salários agora, quando a única esperança para o País é a exportação. Cortamos as pernas às poucas empresas que ainda conseguem vender algumas coisas no estrangeiro.

E ninguém no sindicato explica ao “povo” que aumentar os salários significa ver os preços subir? E depois? Continuamos a aumentar os salários?

“A greve geral é contra as medidas de austeridade”.

Com certeza. Nada de medidas de austeridade, continuamos a pagar juros astronómicos, continuamos a hipotecar o futuro das novas gerações. Até à bancarrota, se for possível.

“A greve geral é contra o empobrecimento”.

Pois, os outros, os “patrões”, querem a máxima pobreza do “povo”. Doutro lado é sabido: as empresas trabalham melhor quando ninguém tem o dinheiro para comprar os produtos.

Estes são os sindicatos que temos.

Sindicatos que não têm a coragem de admitir uma coisa simples: não organizaram esta greve antes pela simples razão que antes poderia ter tido alguns sentido. Mas a última coisa que os sindicatos queriam ouvir teria sido um orçamento 2011 não aprovado por causa deles.

Os sindicatos portugueses alcançaram uma posição de poder na construção política deste País.

E não a vão a pôr em risco.

Ipse dixit.

Fonte: Público

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