Geopolitica: o declínio do Leviathan americano – Parte II

Resistiram à leitura da Parte I?

Leitores surpreendentes…Então aqui está a Parte II. Vamos testar o vosso nível de resistência.

Sinais inequívocos de declínio

O expansionismo dos EUA, que teve várias fases, atinge o seu clímax no século XX, quando Washington decide ultrapassar a Doutrina Monroe da hegemonia continental para ir passar à fase ulterior da hegemonia global, ao impor-se como um agente de “subversão” mundial (com, desde 1948, Israel como um sub-agente de desestabilização regional no Mediterrâneo e Médio Oriente). É preciso realçar que a obra de “destruição criativa” implementação pelos Estados Unidos, uma parte essencial do seu movimento expansionista, actuou e ainda actua em todas as áreas: espiritual, económica, cultural, jurídica e, principalmente, política e geopolítica. Desde 1945, o hemisfério ocidental, até a data coincidente com as Américas de acordo com a formulação original da Doutrina Monroe, expande-se para incluir primeiro a Europa Ocidental e o Japão, derrotados e militarmente ocupados e, em seguida, com o colapso da União Soviética, o mundo inteiro.

O fim da bipolaridade Leste-Oeste, de facto, produzido um vácuo no continente eurasiático que, dada a extrema fraqueza e a falta de objectivos dos Estados europeus, os Estados Unidos, como única superpotência remanescente, rapidamente tentaram fechar antes de novos jogadores surgirem. No interior desta estratégia americana podemos encontrar o fenómeno da globalização, que é meramente uma tentativa extrema dos Estados Unidos de estender a própria Ordnung no mundo. Nasce, de facto, nesta fase o Project for the New American Century (PNAC, Project para o Novo Século Americano), um think tank americano, fundado em 1997, que definirá a política dos EUA nos anos subsequentes. Entre os fundadores do PNAC, na maioria judeus americanos, há pessoas que durante os dois mandatos presidenciais de Bush Jr. tiveram cargos no governo, por exemplo Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz.

O PNAC é um projecto neoconservador que ganhou a cena em meados dos anos ’90, e que combina a glorificação e o fanatismo milenarista desses mitos fundadores dos Estados Unidos e do “destino manifesto” com a missão confiada por Deus para civilizar o mundo, unidos na cruzada ideológica trockista pela “exportação da democracia” e a “guerra permanente”. Mesmo na década de ’90 há uma política muito agressiva e unilateral de Washington que, no entretanto, continua a incentivar activamente nos outros Países, especialmente na Europa, o multilateralismo e a interconexão financeira multilaterais, a ser utilizados como alavancas para minar ainda mais a própria soberania.

No entanto, o “fim da história” anunciado por Francis Fukuyama e o triunfo final do capitalismo ao estilo americano que teria espalhado a globalização (e a americanização) no mundo, não ocorreu. A fase unipolar de expansionismo americano, que começou aproximadamente em 1991 e terminou cerca em 2001, não é o início dum “Novo Século Americano”, como esperado pelos americanos, mas sim a sua conclusão, a tentativa extrema por parte dos EUA para manter a hegemonia global e para conter a sucessiva fase multipolar. O momento do máximo unipolarismo americano coincidiu com com o auge da globalização.

O processo de globalização, cujas origens datam do período 1944-1947 (criação dos acordos de Bretton Woods, criação do Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e GATT), representa é a projecção global do sistema estadunidense numa lógica hegemónica unipolar. Podemos definir a fase ascendente da própria globalização durante o período compreendido entre o início dos anos 80 (1980: eleição de Ronald Reagan, 1982: morte de Brejnev) e o 1995, quando atinge o seu clímax com a criação da OMC, a Organização Mundial do Comércio, indicando o aparente triunfo da ideologia liberal que exige a livre circulação de capitais, mercadorias e pessoas.

Não é por acaso que, neste curto período de triunfo para os EUA aconteça é o que para Vladimir Putin foi “o maior desastre geopolítico do século XX”, ou seja, o colapso e o desmembramento da União Soviética. Outra “tragédia geopolítica” acontecerá na Europa com a dissolução da Jugoslávia em 1991, as consequentes guerras separatistas e o ápice da agressividade anti-europeia americana atingido em 1999 com o bombardeio da Sérvia sob o disfarce da NATO. Mas hoje podemos dizer que o auge do “momento unipolar” dos Estados Unidos chegado na década de ’90, ao invés de representar o triunfo, já marca o início da descida para o abismo.

Na virada do terceiro milénio, os EUA enfrentaram grandes problemas no campo político-económico, entrando numa recessão real após 10 anos de crescimento económico forçado e drogado, apoiado por uma dívida interna muito forte, um grande passivo na balança dos pagamentos com dívida externa elevada, uma forte tendência de queda na parte atribuível ao comércio internacional. Mesmo a nível internacional a hegemonia foi contestada com o surgimento do potencial pólo geopolítico e geo-econômico representadas pela União Europeia. A recessão e o declínio da superpotência EUA, o fim das formas específicas da globalização, estavam a ter lugar, de facto, durante vários anos antes do 11 de Setembro de 2001, e óbvios eram os sinais.

A situação interna dos EUA desde o início dos anos 90 apresentou problemas: basta lembrar que em 1992 a dívida total nacional foi de 4.000 mil milhões de dólares, os cuidados de saúde eram deficiente e uma grande proporção da população americana encontrava-se sem um mínimo de protecção social, o nível dos investimentos e de poupança foram inferiores aos dos Países europeus, e do ponto de vista da produção, houve uma baixa competitividade com mínimas taxas de produtividade. O fosso entre ricos e pobres nos EUA aumentou dramaticamente nos últimos 30 anos: se de facto em 1969, 1% da população possuía 25% da riqueza nacional, em 1999 esse percentual havia subido para cerca de 40%, enquanto a dívida interna aumentou dos 12 aos 22 triliões de dólares entre 1995 e 2000.

Se a isto juntarmos a enorme dívida dos EUA com o resto do mundo, coberta apenas por o 4% das reservas em dinheiro, e o cada vez mais elevado deficit comercial, entendemos quanto as deficiências económicas se tornem fortes nos anos ’90, na era da globalização. Além disso, o excesso de investimentos realizados por um excessivo afluxo de capital estrangeiro e uma política monetária demasiado expansiva levou a valores artificialmente elevados na Bolsa com a resultante crise que se seguiu; os níveis de lucro caíram, assim como o consumo e é claro que os Estados Unidos estavam numa fase de graves dificuldades económicas, bem escondidas pelos media e pelas instituições internacionais complacentes, até chegar a recessão, muito antes dos trágicos acontecimentos de 11 de Setembro.

Um falso boom americano apoiado por uma década em que as famílias e as empresas têm gasto muito mais do que ganharam e um endividamento já não mais sustentável, com a subsequente moderação do comportamento económico, levam a uma forte desaceleração económica, até a recessão. Aqui, portanto, que, na segunda metade dos anos ’90 com a guerra do dólar contra o euro, a crise do petróleo e a gestão liderada pelos Estados Unidos da Nova Economia no contexto geral da financiarização da economia, os EUA tentaram esconder a crise e jogaram as próprias cartas para suprimir as ambições expansionistas do novo pólo primeiro da União Europeia e em seguida dos outros pólos geopolíticos mundiais emergentes.

O jogo do caro dólar e caro petróleo acompanha, portanto, a “bolha financeira” sobre os títulos da “Net Economy”; este é um aspecto específico do modelo neoliberal imposto pela globalização americana, uma especulação financeira que faz com que as empresas com baixo volume de negócios num mês dupliquem ou até mais o próprio valor. Uma globalização financeira que cria fortes condições e expectativas de dinheiro fácil enquanto causa constantes medos de desastrosos colapsos. Um Nasdaq Stock Market, acções de tecnologia, constantemente abalado entre excessos extremos em alta e em baixa. E estes terremotos NASDAQ encontram os próprios patrocinadores nos EUA, capazes de atrair através dos títulos da Net Economy enormes capitais europeus, em seguida submetidos ao risco de quedas improvisas.

No entanto, mesmo a guerra contra o Euro, a imposição do neoliberalismo global e a finançarização da economia foram capazes de impedir o declínio do poder americano e o surgimento de pólos geopolíticos alternativos, perceptíveis no início do terceiro milénio. Neste ponto, perdido o jogo para forçar de forma “soft”, com a globalização dos mercados e a finança especulativa, o domínio sobre o mundo, os Estados Unidos são forçados a usar “maus modos “, guerra em último recurso, para sair da crise sistémica. Da cartola é retirado Bin Laden e o terrorismo islâmico torna-se vital para evitar o desastre que seria apenas retardar o movimento de capitais para New York, um ataque ao coração da Eurásia sob o pretexto da “guerra infinita contra o terrorismo”.

Aos mais masoquistas lembramos que a Parte I deste artigo pode ser encontrada aqui, enquanto a parte III (pois é, existe uma terceira parte também) chegará em breve.

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