Ao ler os jornais de hoje o mundo parece um nirvana.
Bolsas europeias estão em alta
Juros da dívida pública portuguesa descem
Euro sobe pelo terceiro dia consecutivo
Imaginem um marciano que chega a Portugal e a primeira coisa que encontra é este diário.
“Portugal deve ser uma grande potência no meio duma Europa que domina o mundo” pensará.
Estes são os riscos de ler os jornais sem saber decifrar as notícias.
Um bom exemplo chega com o blog Phastidio:
“Cresce a produção industrial ao máximo do final de 2000”
Escreve hoje o Il Giornale, economizando também uma virgula (talvez porque é tempo de cortes), enquanto relança La Repubblica:
“Produção Industrial, o boom de Abril.”
Título ainda mais imprudente e psicadélico de La Stampa:
“Istat revê o Pib em baixo: +0,4%. Mas a indústria voa no topo desde 2000 “
Bum.
Além da combinação do substantivo “baixa” e o sinal “mais”, que é venial num país de analfabetos económico como a Itália, é útil recordar que “o máximo do final de 2000” não está relacionado com o valor da produção industrial, mas com tendência de variação do índice corrigido para efeitos de calendário. Isto é, de forma banal, uma percentagem. A comparação real não deve ser feita sobre as alterações, mas com os níveis de magnitude observada.
Se qualquer pessoa está interessada, o índice da produção industrial corrigido para efeitos de calendário, em Abril de 2010 foi 85,7. O mesmo índice atingiu o seu máximo em Julho de 2008, com o valor de 114,9. Agora, com um algoritmo complexo, de quanto é a distância da produção industrial do próprio pico histórico em termos percentuais? Tentamos, talvez algo como 25 por cento?
Não é a indústria que voa no topo, mas as idiotices.
De forma muito simples, desta vez com valores negativos:
Ontem na minha carteira tinha 10 Euros. Gastei 5 para a gasolina, isso é, perdi 50%.
Hoje gastei só 50 cêntimos, isso é, 10%.
Hoje gastei 10%, menos que ontem quando tinha gasto 50%.
Estou mais rico por isso?
Nem pensar: hoje tenho 4,90 Euros, ontem tinha 5 Euros.
É o jogo das percentagens.
Da mesma forma os títulos apresentam uma realidade que fica distorcida sem uma ulterior análise..
- As Bolsas europeias estão em alta? Sim, mas quanto tinham perdido nas semanas ou até mesmo nos dias anteriores?
- Os juros da dívida pública portuguesa descem? Sim, mas falamos de valores ainda muito elevados: 5,174% nas obrigações a 10 anos!
- O Euro sobe pelo terceiro dia consecutivo? Sim, mas desde o início do ano perdeu 15,7% face ao Dólar.
O truque é este: não “engolir” os títulos como verdades absolutas, mas relaciona-los.
Ipse dixit.
Fontes: Jornal de Negócios, Phastidio


