Uma terça-feira negra para as Bolsas.
E, talvez, o sinal que algo está a quebrar-se.
A falência duma pequena caja de ahorro espanhola provoca um terramoto nas praças económicas de todo o mundo.
Sim, verdade: há também os ventos de guerra da Ásia, que com certeza não ajudam.
Mas não vale procurar desculpas. O sistema ocidental é fraco e resulta complicado de momento ver uma possível saída.
Permitiram o endividamento dos Países ocidentais, muito além de qualquer limite razoável.
Transformaram as perdas dos bancos em dívidas de todos os cidadãos.
Disseram que o pior já tinha passado.
A culpa? Não é preciso procurar muito para encontrar os culpados: somos nós.
Deixámos fazer, embalados pela ideia que afinal o que importava era defender o nosso cantinho: o carro, o telemóvel, a televisão, as férias.
E ainda não reagimos, convencidos de que “estas coisas são muitos complicadas para mim”, “eles é que sabem”, “eu votei, agora que encontrem uma solução”, e outras banalidades ainda.
Agora chega a conta. E alguém terá que pagar.
Começamos com um comentário acerca da actual situação económica. As palavras são de Intermarket & More:
Podemos comparar a economia a um paciente, tratado com medicamentos que aliviam o mal, mas que infelizmente não podem resolver os problemas.
A morfina agora está esgotada. E a dor volta a aumentar.O mercado está acordando do sonho de uma recuperação forte e está de volta em contacto com a realidade, a verdadeira realidade, acerca da qual os media, os políticos, os governos, os bancos não querem falar.
Os bancos centrais e os governos têm se esforçado para apoiar a economia, o quantitative easing foi a forma mas importante e ousada duma expansão que, todavia, não podia durar. Com efeito, o objectivo era claro. Uma vez terminados os incentivos a economia deveria ter tido a força para continuar sozinha até o caminho da recuperação. Só que … os problemas ficaram ali.
Desemprego e dívidaO primeiro, mais marcante: o desemprego. Mas como é possível pensar em crescer com o desemprego que atinge os 10% (20% em Espanha)?
O segundo, então, é a dívida.
O switch dívida que tem transformado a dívida privada em pública foi uma operação que, efectivamente, mudou (com prejuízos para todos), mas não resolveu.
Moral da história: agora estamos desempregados, com uma carga de dívida que irá impedir o suporte do Estado para a economia. Na verdade…Agora vem a diversão.Sim, porque neste cenário já por si muito difícil, há a história do Euro. É uma história que se encaixa dramaticamente num panorama já em si muito complexo.
Se o paciente estava acamado com uma pneumonia não tratada, mas não decisiva, agora não só piorou mas também tem uma nova complicação.Desculpem a comparação, mas foi para perceber que aos problemas não resolvidos agora adicionam-se outros problemas.
O cenário obrigatório é a recessão ou mesmo a deflação. E o mercado percebe isso.E a Europa está em crise política …Numa altura onde a incerteza aumenta, a especulação é a protagonista. E, claro, a política não ajuda, pelo contrário, contribui para uma maior volatilidade. Na verdade, estamos perdendo muito tempo e muitas palavras sobre causas e elementos que não são as verdadeiras causas do mal. Os hedge funds, as empresas de rating, os cds, o short selling…. Claro, tudo isso é importante. Mas o facto é que temos de resolver os nós da questão real, não tudo o que gira à nossa volta.
Os problemas são o sistema bancário, cheio de falhas (ver, por exemplo, a fusão dos bancos em Madrid) e, especialmente, o plano de austeridade que todos nós iremos sofrer.Os planos de austeridadeOs planos de austeridade:
- Alemanha: 60 bilhões até 2015
- Espanha: 65 bilhões em três anos
- França: 95 bilhões até 2013
- Portugal: 2,1 bilhões (para já)
- Grécia: 16 bilhões este ano
- Irlanda: 6,5 bilhões
- Italia: 24 bilhões.
- Grã Bretanha: 7 bilhões
Ao somar os valores dos planos de austeridade obtemos este assombroso total: 275,6 bilhões de cortes.
Relançar a economia do Velho Continente com um corte de 275 bilhões de Euros vai ser complicado.
E nos Estados Unidos a situação não é das melhores: o Dow Jones perde 2,00%, o Nasdaq 2,07%.
Mas não havia alguém a dizer “a crise acabou”, “o pior já passou”?.
Do nosso ponto de vista o pior está a chegar, pois estes cortes incidem, e de que maneira, nas vidas de todos nós.
Um exemplo de como os políticos tencionam gerir esta pesada situação chega de Portugal. Público:
Ministro da Economia admite aumento dos preços dos transportes
Questionado sobre o assunto em Bruxelas, à margem de uma reunião de ministros da União Europeia com a pasta da competitividade, o ministro da Economia, ressalvando que não se trata de uma área da sua competência, considerou haver razões para que os preços aumentem.
“Possível é. Se estão congelados há dois anos, é possível que haja um aumento”, afirmou, acrescentando não ter no entanto conhecimento de qualquer decisão tomada nesse sentido.
Na véspera, o secretário de Estado dos Transportes, Correia da Fonseca, disse que os preços dos títulos dos transportes públicos serão revistos, embora ainda não esteja definido o valor do aumento e a data da sua entrada em vigor.
Eis a demonstração da obtusidade do mundo politico.
Numa altura em que são anunciados sacrifícios para ajudar o estado da Nação, o governo aumenta os preços dos transportes públicos.
Transportes mais caros significam:
- mais despesas para o cidadão.
E como é evidente que, perante também a fraca qualidade das ofertas, muitos optarão por utilizar o próprio carro:
- mais trânsito
- mais poluição
- mais despesas em petróleo
Portugal está a gastar mais 2,3 milhões por dia a comprar petróleo
Fragilidade do euro face ao dólar é responsável pelo aumento da factura com combustíveis A factura energética nacional está a subir desde o início do ano. O petróleo necessário para abastecer o mercado nacional custa agora mais 2,3 milhões de euros por dia que no final do ano passado[…]
Portugal consome em média o equivalente a 280 mil barris de petróleo e produtos refinados por dia, de acordo com as estatísticas da BP para 2008. Esta quantidade custa hoje ao país 17,8 milhões de euros. No início do ano, a factura era de 15,6 milhões de euros.
Nada mais para acrescentar.
Ipse dixit.
Texto: Intermarket & More , Público, Diário i , Informação Incorrecta

