Os novos acordos entre Irão e Índia

A Índia assina importantes acordos de cooperação comercial com o Irão. Há muitas boas razões para
a Índia e o Irão serem aliados financeiramente: o Presidente iraniano, Hassan Rouhani, encontrou o seu homólogo indiano, Narendra Modi, na semana passada, e os dois estadistas assinaram uma infinidade de acordos.

O mais importante é o aluguer da Índia do porto iraniano de Chabahar no Golfo de Omã: este acordo reforça ainda mais a capacidade da Índia de acessar os mercados da Ásia Central, ignorando o porto paquistanês de Gwadar, que está a ser reestruturado pela China no âmbito do Corredor Económico CPEC.
O CPEC é parte da iniciativa chinesa One Belt One Road (OBOR), a nova Estrada da Seda, uma obra enorme que tem como fim conectar o Extremo Oriente com a Europa Ocidental e todos os outros Países da Ásia. O OBOR consiste em dezenas de peças móveis com o objectivo de melhorar as infraestruturas de transporte do rival da Índia, o Paquistão, enquanto a Rússia trabalha com o Irão para melhorar as linhas ferroviárias, aquelas dos seus vastos planaltos centrais e aquelas que viajam para o sul.

Ao mesmo tempo, a Índia está a investir nas redes ferroviárias iranianas na zona do porto de Chabahar, com direção norte. Chabahar tem sido objectivo de desenvolvimento por parte de Rússia, Irão e Índia, sendo parte do Corredor de Transporte Norte-Sul (NSTC) implementado por Putin em 2012. Várias partes foram já concluídas, falta a linha ferroviária que possa ligar Chabahar ao resto da rede iraniana.

Estes projectos ferroviários complementam os imperativos geopolíticos dos Países asiáticos, ao mesmo tempo que alimentam os contrastes com os Estados Unidos. Mais uma vez, o gigante americano aposta nas ameaças económicas (sanções) e militares (Síria), enquanto os Países asiáticos continuam naquele caminho pragmático, feito de acordos comerciais e cooperação, que até hoje foi um sucesso.

A Índia, particularmente sob Modi, tenta caminhar “na corda bamba” entre fazer o que é o seu interesse no longo prazo, aprofundando os laços com o Irão, sem incorrer na ira de Washington.
Mas é um jogo cujo final já pode ser vislumbrado: a Índia está presa entre o Irão ao oeste e a China ao leste, é parte integrante do continente asiático e seguir a doutrina americana, ficando de fora dos acordos regionais, seria um suicídio.

É por isso que, enquanto nominalmente rejeita o projecto OBOR, ao mesmo tempo alimenta os relacionamentos com o Irão ao lado da Rússia de Putin.

Do ponto de vista dos Estados Unidos as más notícias ainda não acabaram. A chantagem operada contra China e o Paquistão (País aliado até poucos anos atrás) não está a resultar: os dois Países fazem investimentos multimilionários nas infra-estruturas do Irão, o que dum lado alivia o peso das sanções contra Teherão e do outro apoia as ambições comerciais da China e do Paquistão na região.

Os actuais acordos assinados por Rouhani e Modi serão pagos diretamente em Rúpias indianas. Isto é para garantir que o dinheiro possa ser usado no caso dos Estados Unidos imporem novas sanções ao Irão, empurrando-o novamente para fora do sistema internacional de pagamentos SWIFT.

Mas é difícil que os EUA fiquem simplesmente a olhar: Washington não deseja que os projectos
avancem, porque qualquer infra-estrutura que conecte o Irão de forma mais eficiente no tecido da Ásia Central é mais um passo na direção duma economia independente da influência dos bancos ocidentais. Essa é uma das razões pelas quais israel e EUA querem rasgar o acordo nuclear com Teherão: a ideia dum Irão economicamente desvinculado do Ocidente é uma espécie de pesadelo.

O que uma parte do establishment americano e israelita recusa ver é que a direção já está traçada: o umbigo económico do mundo ficará a Leste, com a China qual primeiro mercado mundial e a Índia terceiro. É uma decisão tomada há tempo, não nas reuniões dos políticos mas algures, numa videoconferência entre CEO da mais alta Finança.

O futuro da Índia é o Irão: e este será um País-chave no âmbito das rotas comerciais Leste-Oeste. O encontro entre Modi e Rouhani, em última análise, significa que, apesar de todas as tentativas de intimidação e controle, o interesse nacional sempre ganha e o projecto para deslocar a sede económica mundial continua em marcha.

Perdido o Paquistão, provavelmente perdida a Turquia, os Estados Unidos têm agora que aceitar o revés deste novo acordo entre Irão e Índia. No fundo, China e Rússia continuam a tecer a tela da nova economia independente do Ocidente: a inserção da Índia nas novas rotas comerciais assegura de que Nova Deli contribua para estabilizar a indústria de energia iraniana e construir a sua infra-estrutura de transportes no Oriente; isso vai na direção dos objectivos da Rússia e da China para abrir os antigos estados soviéticos e dar-lhes mais margem de manobra para criar um acordo de segurança no Afeganistão entre o governo de Cabul e os Talibã.

A Ásia está a mexer-se de forma independente dos EUA para criar novos equilíbrios económicos e geopolíticos. Washington, por enquanto, pode contar com as sanções, a propaganda, a ameaça militar: mas já não parece capaz de travar o novo curso da História.

Ipse dixit.

Fonte: Tom Luongo

2 Replies to “Os novos acordos entre Irão e Índia”

  1. O novo curso da história está sendo dado por iniciativas comerciais, de infraestrutura e intercâmbio de Rússia, China e Irã, mas isso não significa que não seja ameaçado constantemente pela contrapartida destrutiva do império decadente que cumpre ordens dos donos do mundo.Além da guerra, da fome, da propaganda e da intriga internacional, por certo o império se valerá da sabotagem massiva quando as obras de infraestrutura começarem a dar frutos significativos, melhorando a vida do maior contingente populacional do mundo, majoritariamente anti ocidente imperial. Parto do ponto no qual interessa sobremodo ao império decadente a queda drástica da população no planeta. E todas as iniciativas construtivas são pró humanidade em última análise. Parto do ponto de que o império jogará todas as cartas, incluindo África e América do Sul e Central para o serviço mais boçal, sujo e desintegrador. Parto de um terceiro ponto no qual a derrocada será um tanto apocalíptica, e já começou de dentro do império para fora, ou seja, o efeito destruidor será mais forte nas guerras intestinas entre o donos do poder no Ocidente e a partir da fome, da guerra civil e do terrorismo internos.São apenas especulações de quem tem aprendido bastante por aqui inclusive.

    1. @Maria
      Será?
      Vai uma curta analogia:
      Enquanto uns "inovadores" e "empreendedores"(o último grito de há uns anos para cá : produzem apps.
      Outros fabricam aparelhos para rodar as apps e muito mais.

      Qual é o que interessa? O pseudo inovador-empreendedor que inventa um programa minimalista tipo Uber, mas que só funciona num aparelho que dá para muito mais e que é fabricado no oriente?
      Como é que é!? Valores invertidos?
      Aliás um é algo virtual/serviço o outro físico.
      Outros são tão inúteis que nem vale a pena mencionar.

      Acho que a Europa só terá a ganhar se se afastar do dito império(não do povo que os atura), que está a entrar em curto-circuito e a ficar instável.
      Novas:
      -presidente do México não põe os pés na casa Branca, motivo o muro que que o bronco prometeu pago também pelo México, este nem precisa de drogas.
      -África do Sul corta relações com Tel Haviv motivo, apartheid sobre Palestinos.
      Quem semeia ventos, colhe tempestades.

      Perigo são os radicais sauditas, israelitas, americanos e alguma extrema-direita bronca e populista sem visão nenhuma a não ser acirrar ódio/exploração/divisão.
      A culpa é "sempre" do vizinho ou do estrangeiro mal pago e sem direitos e (convenientemente) ilegais, como os mexicanos p/ex
      Esse tipo de mentalidade pega mais em locais encalhados e com meios de comunicação ao serviço de uns poucos. E acabam sempre mal.
      Não esquecer que as alterações climáticas são um mito(conveniente), amigos da ExxonMobil, Shell, BP etc…

      A África está a ser perdida para a China, desde o norte até ao sul.

      As Américas ou arrepiam caminho ou vao junto.

      n

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: