George Soros é uma velha raposa e sabe do que fala.
Já viveu muitas aventuras económicas, já viu tudo e o contrário de tudo no mundo da finança.
Não espantam, portanto, as suas declarações
Acabámos de entrar na “fase 2” da crise, quando os problemas de política fiscal na Europa se agravam e os governos estão sob pressão para conter o deficit e isso pode mergulhar a economia global na recessão.
[…]
O colapso do sistema financeiro como o conhecemos é real, e a crise está longe de terminar.
Soros disse ainda que a situação sinistra recorda os anos ’30, com os governos sob pressão para conter o deficit numa altura em que a retoma estava fraca.
Numa altura em que os mercados financeiros começaram a perder a confiança na dívida soberana, a Grécia e o Euro têm conquistado o coração do cenário financeiro, mas é provável que os efeitos sejam sentidos em todo o mundo.
Crise dos anos ’30? Grande Depressão?
Vamos ler um velho artigo de Informazione Scorretta, um artigo de Abril de 2009.
Não costumamos “repescar” notícias ou post antigos, mas neste caso é interessante por duas razões: a primeira é a óbvia referência feita por George Soros, a segunda é observar a evolução (mínima) das ideias e dos factos.
Na altura fazia-se uma comparação entre a crise actual e a dos anos ’30.
É bom lembrar que também na altura houve quem pensasse “o pior já passou”. O que passou foi o tempo, nós e a crise ainda aqui estamos…
Crise de 29 – Crise actual, uma história de duas depressõesDois professores de economia põem em paralelo a crise de 29 e a crise actual, e concluem que a crise actual parece ser pior do que a crise de 1929, especialmente se olharmos para os dados com base mundial, em vez de considerar apenas os dados EUA.
São Barry Eichengreen, professor de Economia e Ciência Política, em Berkeley e ex Senior Policy Advisor do Fundo Monetário Internacional (nada menos!) E Kevin H. O’Rourke, professor de economia no Trinity College de Dublin.
Neste trabalho, dois economistas históricos de prestigio mostram que o mundo está a encolher-se de maneira semelhante à crise de 1929. Com efeito, a produção industrial, o comércio e os mercados bolsistas a nível mundial entraram num colapso mais rápido do que em 1929-1930. Felizmente, a resposta política é muito melhor. (pontos de vista… NDT)
Os paralelos entre a Grande Depressão dos anos 30 e a actual crise económica têm sido amplamente observados.
Paul Krugman compara a queda na produção industrial desde o pico em meados de 1929 e o final de 2007, mostrando que desta vez foi mais suave.
Nesta base, (Krugman) refere-se a actual situação chamando-a de “meia Grande Depressão”, com o seu característico humor negro. O gráfico “Four Bears Bad”, que compara o índice Dow Jones em 1929-1930 e o S & P 500 em 2008-9 teve ampla difusão, e mostra que o mercado das acções americano caiu tão rápido como em 1929-1930.
Comparar as crises de 29 e a actual em todo do mundo, não só nos EUA.A Grande Depressão foi um fenómeno global. Embora tenha sido originada nos EUA, foi transmitida internacionalmente pelo fluxo do comércio, do capital e dos preços das matérias-primas.
Dito isso, diversos Países foram afretados de maneira diferente.
Os EUA não são representativos da própria experiência.
A crise actual é também global, apesar das esperanças para a Ásia e Europa. Há uma crescente consciência de que os acontecimentos tomaram um rumo ainda pior fora dos EUA, com quedas ainda piores na produção industrial, exportações e preços das acções.
Com efeito, a nível mundial, o declínio da produção industrial nos últimos nove meses é, pelo menos, igualmente grave como nos nove meses que se seguiram ao pico em 1929.
Aqui, então, temos um quadro inicial de como o desenho global ofereça uma perspectiva diferente e pior, nos EUA considerados por Krugman, que pelo contrário sublinha a menor queda na produção industrial de hoje do que então (o artigo de Krugman refere-se só aos EUA, NDT).
Do mesmo modo, enquanto a queda do mercado das acções americano começou em 1929, os mercados mundiais caem agora mais rapidamente do que na Grande Depressão. Novamente, isto é contrário à impressão dada por aqueles que, com base na comparação só do mercado americano, sugerem que o crash actual é menos grave do acidente de 1929.
Outra área em que estamos “superando” os nossos antecessores é a destruição do comércio.
O comércio mundial está a cair muito mais rapidamente na crise actual do que na crise de 29. Isto é particularmente preocupante dada a importância dada pela literatura histórica no ligar a destruição do comércio como um factor importante na crise de 29.
É já depressão.Para resumir, as coisas procedem à nível global pior do que na Grande Depressão ao medir a produção industrial, as exportações ou a avaliação financeira.
O rótulo “Grande Recessão” pode ser demasiado optimista. Estes eventos têm o tamanho da depressão.
Dito isto, estamos há apenas um ano na crise actual, enquanto depois de 1929 a economia mundial continuou a contrair-se ao longo de três anos. O que importa agora é que os governos parem o declínio.Então agora nós vamos lidar com a resposta política.
Resposta política: então e agoraEm ambas as crises, houve um atraso de 5 – 6 meses antes das taxas de juros reagirem à passagem do pico, embora as taxas na crise actual foram cortadas mais rapidamente e a partir de um nível inferior. Há mais carne no fogo aqui do que a simples diferença entre George Harrison (o então governador do Fed, não os famosos Beatles NDT) e Ben Bernanke.
As respostas do Banco Central foram várias a nível mundial.[…]
ConclusõesPara resumir: o mundo enfrenta actualmente um choque económico em todos os sentidos tão grande como o choque da crise de 1929-1930. Olhar só para os dados EUA leva a uma subestimação de quanto a actual situação é preocupante em comparação com 1929-1930.
A boa notícia, é claro, é que a resposta política é muito diferente.A questão agora é saber se a resposta política irá funcionar.
Há um ano acabava aqui o artigo. Poucos na altura imaginavam a sucessiva tragédia grega, os Pigs, o Euro; e ainda menos eram os que falavam abertamente destes assuntos. A palavra de ordem era “retoma, o mais rápido possível”. E ainda é.
Mas há uma passagem deste artigo que merece ser realçada:
depois de 1929 a economia mundial continuou a contrair-se ao longo de três anos
E três anos não foi a efectiva duração da Grande Depressão. Há quem diga que a crise foi de facto ultrapassada só com o fim da Segunda Guerra Mundial.
Verdade: o mundo dos anos ’30 não é igual ao mundo actual.
Mas estamos certos que ao somar as declaração de Soros com algumas reflexões (e datas) da Grande Depressão seja possível obter um quadro que fica bastante perto da realidade.
Ipse dixit.
Fontes: Informazione Corretta, Bloomberg





Depois teremos guerra…