Convenção de Genebra? Obrigado mas não é connosco

Mohammad Moqbel, 16 anos, no hospital

Munir Moqbel tirou secretamente fotografias do filho de 16 anos, Mohammad, algemado a uma cama de hospital em Jerusalém: as imagens têm provocado uma nova vaga de indignação nos meios de comunicação social sobre o tratamento infligido aos palestinianos feridos, doentes e detidos pelos militares israelitas.

Sabemos também quando foi capturado Mohammad: no dia 29 de Novembro, durante uma incursão militar israelita no campo de refugiados de al-Arroub, a norte da cidade de Hebron, na parte sul da Cisjordânia ocupada. Os soldados israelitas tinham prendido e espancado severamente Mohammad, causando quatro fracturas no lado esquerdo da mandíbula. A acusação? Ter atirado pedras contra os homens do Governo de Tel Avive, homens treinados, bem equipados para o combate e com metralhadores na mão.

Cerca de 20 horas após a detenção, Mohammad foi transferido para o hospital para receber tratamento.

No passado mês de Junho, a administração prisional israelita alterou o regulamento interno sobre as algemas para os prisioneiros palestinianos doentes ou feridos. Naji Abbas, gestor no departamento de prisioneiros da ONG Médicos para os Direitos Humanos (PHR), explicou que actualmente não existem regras fixas sobre o assunto:

Isto significa que cada prisioneiro que é transferido para tratamento é acorrentado, independentemente do seu estado de saúde.

Em Outubro, a PHR tinha pedido a israel que redefinisse as regras para os presos em caso de tratamento médico. A 13 de Dezembro, o grupo recebeu uma breve resposta da administração da prisão afirmando que estava em vias de estabelecer novas regras.

Conclui Abbas:

Não sabemos se as novas regras incluirão uma mudança no tratamento dos prisioneiros doentes durante a sua transferência para o hospital.

Soldados no bloco operatório

Munir Moqbel, 47 anos, pai de outros cinco filhos além de Mohammad, conta como descobriu a situação do filho:

Vinte horas após a detenção de Mohammad, recebi uma chamada do Hospital Hadassah, pedindo-me que fosse imediatamente para lá assinar um documento que lhes permitisse realizar uma operação.

Ao chegar ao hospital, Moqbel disse ter aprendido pelos médicos que Mohammad tinha sofrido fracturas no rosto devido a espancamentos infligidos com a parte traseira das espingardas. Uma vez chegado ao quarto do filho, ficou surpreendido ao encontrar na sala dois soldados israelitas fardados e armados, que o retiraram à força e o proibiram de falar com Mohammad.

No primeiro dia amarraram as mãos de Maomé à cama com gravatas plásticas. Mais tarde algemaram-lhe a mão e os pés, com algemas de metal e deixaram-nas com ele durante a sua estadia no hospital. Ver o meu filho algemado enquanto estava doente e fraco foi para mim uma visão dolorosa que me perturbou muito. Pedi aos médicos que interviessem para que as algemas fossem retiradas, mas eles disseram que não podiam intervir porque, como se trata de uma questão de segurança, são os militares que tomam as decisões.

Mohammad ainda estava algemado quando foi levado para a sala de operações, regularmente acompanhado por um soldado. Durante os cinco dias que Mohammad passou no hospital, ao pai foi concedido um total de apenas 40 minutos para o visitar e falar com ele, antes do exército israelita transferir o filho para a prisão de Megiddo no norte de israel. Até agora foi submetido a quatro audiências, durante as quais foi acusado de atirar pedras aos soldados.

O caso de Mohammed está longe de ser anormal. A 3 de Novembro, Amal Orabi Nakhleh, de 16 anos, foi acorrentado de mãos e pés durante horas depois de ter sido preso por soldados israelitas num posto de controlo militar.

Amal, um residente do campo de refugiados de Jalazone a norte de Ramallah, sofre de uma desordem da glândula do timo que o obriga a tomar medicamentos quatro vezes por dia. Sem a sua medicação, tem dificuldade em respirar, perde a capacidade de engolir e digerir alimentos, e a capacidade de abrir os olhos ou de controlar facilmente as mãos. Libertado no dia 10 de Dezembro, Amal tinha informado os soldados acerca do seu estado de saúde, mas sem sucesso:

Amarraram-me as mãos atrás das costas com gravatas de plástico, e apertaram-nas com força. Também me disseram que não me libertariam a menos que eu assinasse um documento declarando que não tinha sido espancado. Quando me tiraram as algemas, as minhas mãos estavam azuis; não as consegui mexer.

As histórias de Mohammad e Amal não são invulgares.

Ali Abu Alia, assassinato do dia 4 de Dezembro, dia do seu aniversário, em al-Mughayir

Num relatório publicado a 2 de Dezembro por Addameer, o grupo de direitos dos prisioneiros de Ramallah, foram destacados múltiplos casos de crianças palestinianas presas e severamente maltratadas pelo exército israelita.

Um exemplo é o de S.J. de 15 anos, que foi preso uma semana após ter sido submetido a uma operação de hérnia. De acordo com Addameer, o rapaz foi obrigado a correr 50 metros com os braços acorrentados atrás das costas. Os soldados espancaram-no na zona da operação até ele desmaiar. O rapaz foi então deixado no chão ao ar livre, algemado, durante 30 horas antes de ser transferido para um hospital.

A 7 de Dezembro, o jornal israelita Haaretz noticiou que outro prisioneiro palestiniano, que tinha sido submetido a uma cirurgia abdominal em Novembro num hospital israelita em Jerusalém, foi forçado a defecar numa fralda porque os guardas do serviço prisional se recusaram a tirar-lhe as algemas e a deixá-lo ir à casa de banho. Apesar de ter pontos, o prisioneiro tinha os braços algemados diagonalmente nas pernas. O seu médico disse que foi-lhe dada alta hospitalar mais cedo porque “a sua estadia no hospital estava a causar-lhe sofrimento”:

A equipa de médicos por mim liderada avaliou que o sofrimento indescritível da contenção contínua na diagonal sem a capacidade de mover-se é maior do que a dor da operação.

Embora vários profissionais médicos em israel tenham começado a manifestar-se, a PHR diz que será necessário mais para que as autoridades prisionais israelitas mudem a sua atitude:

Muitos médicos começaram a documentar os casos que vêem e a pressionar os guardas prisionais para remover as algemas, bem como a pressionar o sistema judicial israelita e a autoridade prisional, a apresentar processos individuais e queixas. Apesar disso, a administração das prisões ainda não agiu.

Liberalismo e Democracia para todos, mas não para os Palestinianos.

 

Ipse dixit.

One Reply to “Convenção de Genebra? Obrigado mas não é connosco”

  1. Bom dia Max; o gosto pela tortura deve aumentar muito num mundo devastado pela humilhação que quase toda gente sofre sem ter canais de libertação pessoal.
    O torturador é um covarde que sabe que não reagiu às humilhações que sofreu.
    Até que algum dia ele se encontra com alguém ou muitos que foram transformados em presa. Esse é o melhor momento da vida do torturador, o momento em que ele poderá “limpar-se”, despejar em outro (s) todo o ódio que foi nutrindo ao longo da vida, e que a sua covardia não permitiu viver em paz ou morrer reagindo.
    O exército israelense é considerado o melhor, melhor treinado, trocando em miúdos, o mais violentado, o mais humilhado pelos superiores. Os palestinos capturados são as suas presas. Elas o libertarão.

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