Eleições autárquicas: boa experiência

Acabou! Pessoal, foi coisa muito cansativa. Mas deveras interessante. Como antecipado, pela primeira vez fui candidato nas eleições duma autárquica portuguesas, parte duma lista de independentes (reunidos sob a marca de Nós Cidadãos) na freguesia de Arroios, em Lisboa.

O que retirar disso? Várias coisas.

Em primeiro lugar: a lista não conseguiu eleger um único representante. Ninguém pensava em conquistar a maioria, mas a eleição dum candidato (o número um da lista, o amigo Rui que cumprimento) teria sido viável. Paciência.

Em segundo lugar: escassa participação dos alegados apoiantes. Mesmo pessoas que em princípio tinham aderido espontaneamente à ideia, pouco ou até nada fizeram. Não falo aqui de doações ou de outros “esforços”, falo da simples apresentação de sugestões. Esta não foi de todo uma surpresa e faz parte da mentalidade dominante portuguesa, delegante e muito virada para o individualismo.

Político? Não, obrigado.

Mais interessante: total recusa do “político”. Houve muito contacto com os cidadãos e desde logo reparámos na enorme desconfiança em relação aos partidos: a atenção subia só depois de ter explicado que nenhum entre nós era político de profissão, sendo apenas um grupo de normais cidadãos. Aí a atitude mudava. Caso contrário era a fuga.

O reflexo disso pode ser encontrado ao nível nacional: 46.35% de abstenção, 4% dos votos dados a um partido de pura protesta (o Chega), outro 5% a partidos sem ideologia, mais uma miríade de pequenas formações alternativas.

Um dado impressiona: o partido político que ganhou as eleições do ponto de vista numérico (o Partido Socialista) na realidade conseguiu convencer 1.711.300 votantes num total de 9.319.551. Todos os restantes partidos fizeram pior, com movimentos históricos como o Partido Comunista reduzido a o Bloco de Esquerda a votos. A “surpresa” Iniciativa Liberal arrecadou a miséria de

Antes de alguém falar em “vitória” deveria espreitar estes números e assumir que o mundo político hoje não reflecte a realidade do eleitorado: esta é uma clara derrota do “sistema democrático”, mais uma. A época das ideologias acabou, como já dissemos várias vezes, o conceito de partido com base numa “cor” pertence ao passado; cúmplice a desilusão fruto da corrupção e da má governação, cada vez mais o cidadão quer alguém que ofereça soluções práticas para problemas práticos, independentemente da “cor” que até pode estar ausente. Mas os partidos são incapazes de oferecer uma alternativa; máquinas de gestão do poder agarradas aos velhos esquemas, criam um vazio em volta composto por quem já não se reconhece neste tipo de “política”.

Mas não é isso que podemos ouvir nestas horas nos meios de comunicação, onde ao invés é sublinhado como o voto autárquico seja diferente daquele legislativo nacional. O que é verdade: as dinâmicas locais não são as mesmas das nacionais. Mas esta não pode ser uma justificação, bem pelo contrário: o voto autárquico deveria ser aquele com a maior participação enquanto relativo a interesses que afectam de perto o eleitor. Temos a perfeita medida do falhanço quando o cidadão abdica duma coisa tão básica como escolher quem deverá gerir ao longo dos próximos anos a rua onde mora.

Corrupção, má governação…

Concorri na freguesia de Arroios que ganhou destaque ao nível nacional por causa da sua presidente (para boa sorte derrotada) Margarida Martins.

Eis quanto publicado pela revista Sábado:

Quanto mostrado nestes vídeos não é fruto de fantasia mas é realidade: podem ir e perguntar aos comerciantes do mercado em questão (é o Mercado 31 de Janeiro, logo atrás do Saldanha).

A gestão desta fulana tem sido ruinosa, com dezenas de milhares de Euros (dinheiro dos contribuintes) atirados para o lixo. Esta “intervenção artística”, por exemplo, fica na frente do Mercado de Arroios:

Fonte: Polígrafo

Custo? 37 mil Euros. Trinta sete mil Euros, dois anos e meio de ordenado médio em Portugal.

Como a autarquia justifica isso? Foi a Câmara Municipal de Lisboa (mesmo partido de Margarida Martins na altura) que explicou o objetivo do projeto: “o reordenamento de estacionamento para evitar conflito e perda de visibilidade entre peões e condutores, aumentando a segurança para os peões e retirar estacionamento abusivo da via (2ª fila), alargamento de zona pedonal para maior distanciamento físico, nova geometria que induz à redução da velocidade automóvel, novo mobiliário urbano, valorização do comércio local com espaço para esplanadas, integração de Arte Urbana como fator de interesse e valorização do espaço público”.

Definitivamente era preciso gastar 37 mil Euros para impedir o estacionamento em 2ª fila e dar uma “nova geometria” aos automobilistas, não havia outra forma.

Mas nada de ilusões porque o verdadeiro problema não é Margarida Martins, que fica qual figura triste e patética (e cuja derrota teve um papel numericamente significativo na perda da capital portuguesa por parte do Partido Socialista), o problema é outro: quantas Margarida Martins haverá pelo País fora? Resposta: inúmeras.

Juntem por exemplo quanto sabemos acerca de outra figura política, desta vez de topo: Ursula von der Leyen, Presidente da Comissão Europeia (no artigo Ursula, a perseguida), protagonista de outra história de corrupção, trocas de favores, etc.. O quadro geral é deprimente: mesmo abuso de poder, mesmas trocas de favores, mesmo “clientelismo”. A má governação não é um fenómeno local ou nacional, é algo que faz intimamente parte do sistema, desde a mais obscura “chefe” de bairro até o topo da cadeira de poder continental.

Generalizar nunca é bom, verdade, e não faltam no meio pessoas honestas com intenções e atitudes igualmente honestas. Mas é também verdade que estas figuras tristes existem, ocupam lugares de poder e não costumam ser perseguidas pela justiça ou pelos órgãos de informação, a não ser que isso aconteça por razões de interesse político (no caso de Margarida Martins, por exemplo, é significativo o facto do vídeo ter sido gravado em Janeiro mas de ter visto a luz apenas poucos dias antes das eleições).

A rejeição da política por parte do eleitor pode não fazer sentido do ponto de vista cívico (neste aspecto seria melhor mais participação para tentar mudar algo) mas encontra justificação ficando como lógica consequência. Lógica e desejada por quem decide as sortes das massas (e não, não são nem a Margarida e nem a Ursula). Mas disso voltaremos a falar.

Resumindo…

Gostei da experiência. Foi cansativo (às 3 da manhã a pendurar cartazes…) mas valeu. E aprendi muito, o que é sempre uma importante mais valia. Fomos derrotados? Sem dúvida. Culpa nossa? Sem dúvida: quando tens mais de metade do eleitorado que não quer mexer-se (dos 27.852 eleitores em Arroios apenas 12.298 votaram) e tu não consegues convence-lo, a culpa é tua. Mas as coisas positivas ultrapassam as negativas.

Por exemplo: com um orçamento ridículo (acho que gastámos uns 600 Euros no total) foi conseguido imprimir cartazes, entregar flyers, ter bandeiras, camisolas, canetas, organizar uma arruada, dois jantares (em Portugal não há política sem jantaradas), aparecer nas televisões nacionais, até convencer alguns a votar em nós. Pelo que: ao nível local não é preciso muito para obter um mínimo de visibilidade, há projectos que são viáveis mesmo com orçamentos extremamente reduzidos.

Outra nota positiva foi o facto de ter obtido confirmações de quanto escrito ao longo de anos aqui no blog acerca da situação política no geral. Ou o facto de ter encontrado pessoas de valor, que ainda acreditam em determinadas ideias positivas: poucas pessoas, é verdade, mas existem e este é um bom sinal.

Mas em destaque queria pôr um aspecto específico: é possível juntar pessoas para um objectivo político sem que para isso seja preciso apelar-se a uma ideologia política “clássica”. Não faço ideia das preferências políticas da maior parte das pessoas que conheci no movimento, e com as quais continuo em contacto, simplesmente porque nunca falámos do assunto. Não foi preciso, de todo, porque é perfeitamente possível fazer política fora dos rígidos esquemas pré-confeccionados: trata-se de fixar objectivos comuns e trabalhar para isso, sem apelar-se a “dogmas” mas apostando no prático.

Para concluir, fica bem uma frase histórica. Deixem ver… “É preciso cair para poder levantar-se”. Gostam? Mais:  “Os sucessos melhores chegam depois das maiores desilusões”. Outra: ““À noite, todos os gatos são pardos”. Ok, esta não tem nada a ver mas os gatos são simpáticos. Parêntese política fechada por enquanto, Informação Incorrecta volta ao normal.

 

Ipse dixit.

4 Replies to “Eleições autárquicas: boa experiência”

  1. Na minha opinião, todos nos devemos envolver na vida pública, comunitária do nosso pais, região, cidade, freguesia, bairro, etc.
    Se não for sempre, pelo menos algures durante a nossa vida, o deveríamos fazer.
    É bom para nós e para os outros.

    Folgo ler que o Max deu por bem empregue o tempo que decidiu investir na vida da sua Freguesia.

    Aproveito e mudando de assunto, deixo aqui 2 tópicos que me parecem relevantes e tenebrosos:

    Parece que o inventor de vacina mRNA foi apagado dos livros de história porque se atreveu a questionar a segurança das mesmas:
    1 – https://www.resistir.info/pandemia/mercola_06jul21.html

    – – – – – – – – – –

    Segundo parece a Pfizer prepara uma vacina para a gripe, com mRNA:
    2 – https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2021/09/pfizer-lanca-testes-para-vacina-contra-gripe-com-rna-mensageiro.html

    A primeira noticia revela uma tendência que se acentua, infelizmente, de uma censura cada vez mais agressiva e aberta.
    Já a segunda considero ser potencialmente ainda mais tenebrosa.
    Será a ideia substituir as actuais vacinas da gripe e não só, por estas de mRNA?
    Toda e qualquer vacina no futuro, para qualquer vírus/doença será apenas feita com esta tecnologia?

    Abraço

  2. Obrigada Bandido: perguntas relevantes, penso eu. Vale a pena pesquisar.

    Experiência vitoriosa a tua, Max. Hoje em dia é fácil distinguir o conjunto de crenças que regem o pensar das pessoas: suas condutas, o que fazem ou deixam de fazer. O que manifestam assume importância quando respondem, camuflando a irritação, o que lhes agrada ou desagrada, o que aguentam ou o que não aguentam. Dar um nome de ideologia para identificar-se como tal é tão desimportante como o nome que os partidos políticos se dão.

  3. Olá Max: esqueci de dizer que valeria, a luz da tua experiência e do teu pensamento, refletir sobre eleição de representantes comunitários (democracia direta) e democracia representativa.
    Acredito que se todos os desiludidos de eleições tivessem bem claro as diferenças aí existentes, a participação em eleições comunitárias, como aquela em que te envolvestes, seria maior.
    Abraços

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