Como sobreviver à Directiva dos Direitos de Autor

O tempo de leitura estimado deste artigo é de 8 minutos

Como vimos, a União Europeia aprovou a Directiva que regula os Direitos Autorais. E são más notícias. A Directiva foi projectada para erguer barreiras e silenciar a oposição, a sua execução é demandada às plataformas que hospedam o material. E essas plataformas estão felizes, porque podem eliminar boa parte da concorrência. Assim, mesmo que os seus custos aumentem um pouco (os softwares de censura vão ser algo sofisticado), tornam-se imunes à concorrência. Google, Apple, Facebook & Companhia festejam.

Mas será mesmo o caso de festejar? Acho que não. Porque, como dizem em Napoli: feita a lei, encontrado o truque. Ou, um pouco mais elegantemente: falsos direitos, falsas escolhas. E porque a Directiva será um boomerang que irá incidir na vertente mais delicada, aquela dos lucros. Vamos observar estas questões mais de perto, começando pelo assunto que mais interessa quem tiver uma página internet.

Link-tax

Então, eu escrevo um artigo e quero que contenha um link para um outro artigo, publicado pelo semanal alemão Der Spiegel. Não sei porque quero fazer isso, nem falo alemão. Mas hoje me apetece e afinal é só um exemplo.

Para fazer isso, de acordo com o Artigo 13 da nova Directiva, devo obter uma licença para linkar ao site do Der Spiegel e pagar uma determinada quantia de dinheiro. Digamos que o valor seja de 10 Euros. Pagar nem me passa pela cabeça, pelo que a minha primeira reacção seria não colocar o link e fazer uma simples referência.

O trecho

Colocar um trecho do artigo e não o link? Não: do ponto de vista dos softwares é muito simples encontrar trechos. O motor de pesquisa de Google já faz isso sem muitas sofisticações: é só pôr no campo de pesquisa uma frase entre aspas e o motor verifica logo se existe na internet uma frase idêntica já publicada.

Pelo que: nada de trecho.

Screenshot

Outra solução: capturar a tela da secção do artigo que interessa (tirar um screenshot) e não colocar o link. De facto, essa prática requer um algoritmo mais sofisticado para perceber o que eu fiz. Todavia, não é uma solução elegante e publicar um screenshot sem pôr o respectivo link é bastante estúpido: ficaria como screenshot “anónimo”, que como fonte é bem fraca mesmo incluindo uma referência ao artigo original no texto.

Pode ser uma solução mas, além de que os softwares OCR (a tecnologia para reconhecer caracteres a partir de um arquivo de imagem) existe há anos e suspeito que serão utilizados pela censura, pessoalmente não gosto. Vamos em frente.

Referência

Pelo que, solução mais simples: nada de links. Os Leitores podem ficar desapontados: e as fontes? Mas neste caso a solução é simples: é suficiente que os Leitores enviem o dinheiro para pagar a licença e o link será publicado.

Os Leitores não enviam o dinheiro? Então voltamos ao começo: pôr uma simples referência. Não é o máximo mas é já algo. Todavia é preciso ter atenção. Pôr uma referência e depois fazer um simples copia/cola não pode ser uma solução porque, como vimos, é extremamente simples para um software detectar textos já publicados.

Tradução automática

E o texto original for escrito num idioma estrangeiro? Será que os softwares conseguem detectar uma tradução? Nada entendo de softwares de censura, mas não esquecemos que o mecanismo mais utilizado para fazer traduções já pertence à Google e é muito rápido.

Pelo que não deverá ser um problema detectar traduções.

A solução!

Solução optimal? Ler o artigo e reescreve-lo utilizando as nossas palavras. Muito simples. Dá mais trabalho? Sim e não. As traduções automáticas melhoraram ao longo dos anos mas ainda não conseguem substituir a escrita humana e é sempre preciso corrigi-las. Por vezes as correções devem ser extensas porque o tradutor automático pode ter errado não apenas do ponto de vista gramatical mas daquele sintático também, o que obriga a reescrever inteiros períodos. Se for para perder tempo, então mais vale reescrever o artigo segundo o nosso gosto, eliminando também parte supérfluas do original. Teremos assim a satisfação de publicar algo “nosso”.

Única atenção requerida: que o artigo original não seja uma exclusiva, como é óbvio.

…mas há melhor.

Então ficamos com a simples referência? Sim, pode ser. Mas ainda não sei se será esta a solução utilizada por mim. Provavelmente não em todos os meus artigos, só se a fonte “merecer”. Explico a razão.

Voltemos ao caso do Spiegel. Cada vez que eu ponho um link num meu artigo, estou a fazer o quê? Publicidade. E gratuita também. E mais: ao publicar o link, uma determinada percentagem de Leitores irá visitar o site de Der Spiegel. Isso aumenta o número total das suas visualizações e este é um instrumento que pode ser utilizado para fazer levitar o preço da publicidade na altura da contratação com os anunciantes. Mais visitas significam publicidade mais cara. E o Spiegel ganha mais.

Vou escrever o meu artigo sem pôr o link? Eu publico o meu artigo na mesma, o Der Spiegel não vai obter os 10 Euros da link-tax mas terá igualmente a publicidade de borla e poderá sempre receber as visitas dos Leitores mais curiosos.

Publico o meu artigo sem link e sem referência? Isso significa ter a certeza absoluta de que o Der Speigel não receberá a publicidade, a tax-link e nem as visitas.

Multipliquem este raciocínio vezes todos os site que diariamente citam o Der Spiegel: o resultado é que a classificação deles nos índices dos motores de pesquisa vai piorar. Isso enquanto eu mantenho o meu tráfego e a minha audiência satisfeita.

Quem vence? Eu ou Der Spiegel?

Podemos dizer: não é ético. Concordo, não é. Esta é uma das duas razões pelas quais até hoje sempre publiquei tantos as fontes dos meus artigos quanto os links para qualquer conteúdo que fosse citado no artigo (a outra razão era a possibiliadde por parte do Leitor de verificar quanto por mim escrito). Mas como afirmado antes: falsos direitos, falsas escolhas.

Boomerang

Há algo muito estúpido nesta Diretiva porque o link é o verdadeiro passa-palavra de internet. É a melhor forma de publicidade. Rápido, eficiente, gratuito, captura a atenção de quem deseja saber mais acerca dum assunto, faz circular o nome, atrai visitas. O efeito-boomerang da nova Directiva será brutal. Sim, obrigará muitos a fechar, não há dúvida. Mas haverá outro efeito, mais subtil e perverso, que atingirá em primeiro lugar os editores (que tanto festejam a nova DIrectiva).

A maior parte do órgãos de informação hoje trabalha com agências de imprensa. Quase todos, sejam diários, televisões ou páginas internet, desfrutam os comunicados das ditas agências. Comparem os principais títulos de alguns diários do vosso País: sem considerar a crónica local, as outras notícias são repetidas, por vezes de forma absolutamente idêntica.

Pergunta: por qual razão um Leitor deveria saltitar de página em página via internet para ler sempre a mesma notícia? É aqui que entra em jogo o link. Ao encontrar um link podemos ficar curiosos e visitar uma publicação cuja visita nem tínhamos programado. É o link que captura novos Leitores, que os obriga a mexer-se na internet saindo dos canais do costume: é o link que garante a maior mobilidade em internet.

Ao matar o link, a mobilidade recua até quase parar. Volta a pergunta: por qual razão um Leitor deveria saltitar de página em página para ler sempre a mesma notícia? A morte do link deixa de alavancar a curiosidade do Leitor que, desta forma, fica entre os seus canais favoritos e daí não se mexe, não tem nenhuma necessidade de fazê-lo. Nem pode ser excluído que o Leitor, farto de ler sempre as mesmas notícias, comece a procurar no universo da informação alternativa, algo que se calhar nunca tinha feito antes.

Se as primeiras vítimas serão algumas páginas internet que terão de fechar, as segundas vítimas serão os editores, porque perder visitantes por causa da link-tax significa gerir muito mal o negócio: significa abdicar da publicidade (gratuita!).

Final

O modelo proposto pela nova Directiva é antigo, anacrónico, sem futuro. A União Europeia deu a essas indústrias escleróticas e moribundas tudo o que elas queriam: a aprovação da Directiva dos Direitos de Autor é a extrema e fútil tentativa duma oligarquia de eurocratas para controlar a informação através da cooptação das principais plataformas digitais. Em particular, a link-tax e o filtro de upload, além de serem liberticidas, acabarão sendo totalmente inadequados para bloquear informações não alinhadas com o mainstream. E, no longo prazo, o tiro irá sair pela culatra.

Não há razões para ficarmos alegres e é preciso tempo antes que todos os efeitos negativos possam vir a tona. Temos um presente complicado de enfrentar, mas não vamos ficar parados, justo?

Para já: desaparecem todos o links. Ainda é preciso ver como os Estados Membros irão receber a nova DIrectiva (é simples prever o caos), mas melhor prevenir que curar. E, por uma questão de princípio, também desaparecem boa parte das referências. Publico um artigo que fala do tempo em Portugal? É um artigo 100% meu. Um artigo que fala da guerra no Yemen? É um artigo 100% meu, conheço muito bem o Yemen desde pequenino. Alguém tem dúvidas? Problema dele: terá que conseguir demonstrar a origem dum artigo escrito por mim com as minhas palavras. Nada simples.

Depois há sempre a deep internet, a internet profunda. Está aí, sozinha, de borla. Vale a pena pensar nisso.

 

Ipse dixit.

3 Replies to “Como sobreviver à Directiva dos Direitos de Autor”

  1. Essa língua do p é para criança brincar Krowler, muito chata. Mas se é para encontrar vantagem, aí está a necessidade da autoria, inclusive dos comentaristas.

  2. Alguém pode me explicar qual a diferença do II colocar um link ao Der Spiegel e ir ao google perquisar Der Spiegel e dar-me milhares de links?
    Se estas medidas serviram para que as pessoas voltem às conversas de café e idas à biblioteca, certamente será uma excelente medida 😀

Obrigado por participar na discussão!

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