Trump, o vendedor da Nova Ordem

Cada cimeira é um palco aos olhos de Trump. E a Nato não é uma excepção. Chegado em Bruxelas, o simpático Donald tem atacado inicialmente Angela Merkel por causa da sua dependência (segundo ele) da Rússia nas questões energéticas.

A seguir os gastos militares: a Administração pede mais empenho. E empenho significa só uma coisa: dinheiro. Aumento da percentagem do PIB destinada aos gastos militares: “imediatamente” para 2%, se não mesmo 4%.

Naturalmente não podemos esquecer o que é Trump: um vendedor. Nesta ocasião (como sempre nas suas viagens ao estrangeiro) vendedor em nome do aparato militar/industrial dos EUA: a prioridade é convencer os aliados a comprar armamentos dos EUA que, de acordo com o Presidente, são os melhores do mundo. Tinha feito o mesmo na sua primeira viagem à Arábia Saudita e continuou durante as deslocações pela Ásia, em Seul e em Tóquio. Afinal todos são potenciais clientes e todos têm que comprar mais armas dos EUA para garantir a sua própria segurança e os lucros das grandes corporações americanas. Sobretudo estes últimos.

Do seu lado, Washington tenta criar as melhores condições para que armas não ganhem ferrugem, alimentando tensões da guerra em todo o planeta, do Médio Oriente à Coreia do Norte, passando por Venezuela, Ucrânia, Síria… mais tensão significa mais perigos; mais perigos significam mais compras de armas. E todos ficam satisfeitos. Todos ou quase…

As frágeis relações entre Europa e Estados Unidos ressurgem nas discussões, com a Aliança Atlântica que também tem que lidar com a controversa posição da Turquia (cedo ou tarde deverá decidir-se ou alguém decidirá por ela) e com as divisões entre os Países europeus no sector de defesa. Aquela que já foi uma sólida aliança, hoje parece ter perdido o rumo. Bons tempos idos aqueles quando o inimigo exterior (a União Soviética) compactavam e justificavam tudo e mais alguma coisa. Pelo contrário, as declarações nestes dois dias de cimeira em Bruxelas acrescentaram combustível ao incêndio.

Basicamente, o governo americano, depois de ter provocado guerras e desestabilização nos últimos anos, algo que ainda projecta consequências negativas na Europa (migrações, ex-Jugoslávia, Líbia, terrorismo islâmico), agora procura convencer os aliados europeus de que os EUA e a Nato constituem a “defesa insubstituível” da Europa. Defesa contra quais perigos? As invasão em massas descontroladas? As infiltração do terrorismo islâmico? Nada disso: a Rússia. Ou seja: o único País que declarou definitivamente a guerra ao terrorismo, aquele mesmo País que derrotou o Isis. Algo não se encaixa neste discurso, não é?

Cereja no topo do bolo, as já conhecidas sanções à Rússia, na “aparente pretensão” de Trump de isolar completamente a Europa de Moscovo, em particular no que diz respeito ao fornecimento de energia: algo que cria fortes problemas às empresas do Velho Continente (exportações) e aos governos (energia)

A aparente pretensão

“Aparente pretensão”: é importante não esquecer estas duas palavrinhas. Porque Trump sabe que entre União Europeia e Estados Unidos há uma fractura cada vez maior, tanto na questão do gás russo quanto em torno de outros assuntos. Então é preciso cavar por baixo das palavras, para descortinar o sentido das ideias declaradas. A verdadeira dinâmica em jogo é que os movimentos de Trump, independentemente dos debates sobre as suas intenções, estão a aproximar a UE da China e da Rússia.

“Aparente pretensão” porque em Italia o novo governo é liderado por Lega e Movimento Cinque Stelle, dois partidos empenhados na visita à embaixada americana de Roma durante a última campanha eleitoral: ambos receberam a bênção (e algo mais) do simpático Donald e ambos falam com cada vez mais simpatia acerca de Moscovo. Donald fala do “perigo russo”, Donald favorece um governo que olha para a Rússia: onde fica o truque?

Eurásia & multipolaridade

Já muito foi falado aqui acerca da Eurásia, uma grande fatia do planeta que vai da Península Ibérica até a Sibéria: o Santo Graal do Conselheiro e Membro da Comissão Trilateral Zbigniew Brzezinski, hoje ainda mais uma oportunidade para mexer nos equilíbrios mundiais. De forma involuntária (improvável) ou voluntária (provável), Trump activou uma dinâmica de ampla mudança de paradigma que investe o equilíbrio mundial. O que está a acontecer e que ainda parece não ter sido entendido (porque as declarações oficiais ficam longe do assunto) é que a Ordem Mundial unipolar, verdadeiro objectivo das anteriores Administrações americanas, está a mudar de forma radical e extremamente rápida: a Nova Ordem se torna cada vez mais multipolar, o que contribui para o enfraquecimento do velho conceito de ordem unipolar dominado pelos Estados Unidos.

Porque ou assumimos que Trump é um idiota que diz uma coisa e faz outra, ou temos de admitir que há um projecto atrás dos seus ataques teatrais. E a explicação é simples: Trump é um idiota, mas atrás dele há uma ideia bem clara que o Presidente tem implementado desde o primeiro dia da sua Presidência. Esta ideia é básica: desmantelar as estruturas da globalização, substitui-las por algo “novo”. Um mundo diferente, onde há mais centros de poder, espalhados ao redor do planeta.

Atenção: nos círculos radical-chiques anti-americanos, a ideia de “multipolaridade” é vendida como panaceia contra todos os males. Mas não é: muitos dos que hoje rogam a multipolaridade, amanhã irão amaldiçoa-la. Porque um mundo multipolar não significa uma realidade onde os Estados Unidos se tornam um País “normal”. Pelo contrário, serão cada vez mais agressivos para contrabalançar a mudança no equilíbrio mundial: Washington está a redefinir a geopolítica do planeta, incluído os limites do seu próprio quintal e este último será defendido com ainda mais virulência (fosse um jogador, não apostaria muito numa pacífica velhice do mexicano Obrador…).

O resto é consequência: reduzir o peso e a influência dos EUA significa que ou Europa toma nota disso ou será reduzida à insignificância. O futuro da Nato será cada vez menos EUA+UE e cada vez mais Europa sozinha: talvez até desaparecer um dia, ultrapassada pela História, ou englobada numa nova estrutura multipolar. O resto do mundo está já a preparar-se: a Índia, a maior democracia anglófona, afasta-se dos EUA e adere ao Acordo de Xangai (o SCO), que também inclui China, Rússia, Paquistão e uma série de repúblicas asiáticas, entre as quais a última chegada é a República do Irão. Este é o verdadeiro problema de Trump no Médio Oriente, não a Síria, porque Teherão assusta israel. E em Tel-Avive sabem que as coisas vão mudar nos próximos tempos: há urgência de arrumar, fazer as limpezas antes que a festa comece.

Se tudo quanto dito até aqui tiver validade, então é provável que na próxima cimeira de Helsínquia, entre Trump e Putin, haja novidades acerca das sanções contra a Rússia. Trump gosta de surpreender e não vamos ficar desiludidos. Os líderes da UE estão cada vez mais a expressar o desejo de aliviar as sanções contra a Rússia e é provável que o simpático Donald siga este caminho para favorecer o diálogo entre Moscovo e o Velho Continente. A moeda de troca será o Irão? Complicado, porque é uma das principais artérias que transportam energia e dá jeito à China também. Mas alguém tem pagar a conta. Talvez a Ucrânia? Ou a Turquia? A ver vamos…

 

Ipse dixit.

9 Replies to “Trump, o vendedor da Nova Ordem”

  1. Que tal a América Latina pagar a conta? Afinal, estamos aqui para servir, e o império sempre esteve a vontade neste continente.
    Olha Max, sinceramente mundo uni, bi, multipolar e o império sempre se comportará como tal, especialmente neste período de declínio, em que nem todas as invasões dão certo, nem todo terrorismo convence, nem todas as guerras comerciais têm garantia de sucesso, nem toda mentira pega. Talvez se todos os que sofrem o terrorismo de Estado dos EUA e seus comparsas mais próximos: israel, Inglaterra e França, respondessem com a mesma moeda, em intensidade semelhante, a coisa mudasse mais rapidamente, ou pelo menos o mito da segurança nacional inexpugnável destes países cairia por terra. Mas aí toda gente fica tremendo de medo de uma guerra nuclear mundial (que não vai acontecer, em nenhuma hipótese) e pronto…vamos esperar que o império se esfacele sozinho. Isso vai durar um tempão…e enquanto isso, vamos aos negócios armamentistas!

  2. Os EUA são o pais que MENOS contribui para a NATO, todo o equipamento militar comprado pelos membros deve ser preferencialmente americano, todo o petróleo comprado deve ser em dólar americano, todos os membros da NATO devem seguir religiosamente a aplicação de sanções decretadas pelos EUA limitando drasticamente a capacidade de negociar da UE, tudo isto diretamente favorece a economia americana e estes valores NÃO SÃO contabilizados na fatura final. A UE não é a raiz do mal, a raiz do mal é a NATO esta aliança esta a nos empurrar para tensões e mútuos prejuízos com aliados naturais e mais antigos que o os EUA e que sobreviverão á queda dos EUA. a NATO é um cavalo de troia, um cancro dentro da UE.
    Não acredito na queda do Irão porque a China e a Rússia nesta matéria NÃO SÃO 2 países governados por políticos em regime de rotatividade, são 2 pessoas de ideias fixas e o Irão é uma questão estratégica e de orgulho nacionalista.
    O futuro da Europa para os próximos 4 anos será difícil , se o BCE parar de comprar os títulos da divida espanhola os bancos europeus vão começar a espirrar … as empresas vão se constipar e muitos cidadãos vão apanhar pneumonia.
    O cenário de uma guerra mundial continua porem muito improvável , guerras regionais de media intensidade são tão boas como uma lareira para o lar do império americano, uma guerra mundial pode significar um incêndio no lar do império americano eles estão demasiado fragilizados para arriscar. A moderna estratégia militar é indissociável da estratégia económica independentemente de ideologias politicas e cada vez mais as forças armadas são administradas em regime de “Holding” pelas multinacionais, guerra mundial é caótica, imprevisível … e isso não se coaduna com a correta gestão de um negocio. Outra razão que dita a inviabilidade de uma guerra mundial é a total ausência de tropas para ocupar um território, a geração em idade de combater é imune a patriotismos exacerbados e não possui a necessária robustez para uma guerra física nem o instinto necessário, e ainda bem! ( por mais filmes e videojogos de guerra que lhe queiram incutir) Restamos um empobrecimento lento … ou… virar as costas aos EUA e procurar uma nova união estratégica : Eurásia!

    1. Enquanto a Europa permanecer dividida (nem falo da “nova” europa como dizem especialistas de propaganda os ex satélites da urss de leste uns mais outros menos, “nova” europa? lol)
      Que raio tem os EUA a ver com o nordstream 2? Isso não é ingerência externa, em assuntos que só dizem respeito a duas nações?
      A 2a guerra já acabou, a guerra fria também.
      Não entendo esta subserviência as corporações/multinacionais americanas
      Porque usamos tecnologia americana e outras coisas bem mais importantes quando em comunicação até estavamos bem á frente (para espiarem melhor? Merkel que o diga). Antes a 25 anos rir-se iam se dissessem que o maior produtor de aviões era europeu a tal de Airbus, em comunicações deveria promover se software europeu (os nórdicos nos anos 70 e 80 em satélite) e depois a Ericsson e Nokia agora uma da Sony outra da Microsoft em parte). Na net é monopólios iguais. Ora assim estão sempre em vantagem.
      O que é permitido, sabe-se lá porquê…
      Fala-se em defesa é para rir…os russos,os turcos já agora os marcianos vão invadir o continente(do qual ambos fazem parte a mais populosa dos primeiros e a cidade mais populosa Istanbul no lado europeu europeizado).
      Enquanto uns cumprem ou tentam cumprir acordos para uma transição do petróleo e outras fontes de energia não poluentes do outro lado ouvem-se pérolas a dizer que é tudo um mito, uma fabricação.
      Não podia deixar de estar de acordo com PLopes :”A UE não é a raiz do mal, a raiz do mal é a NATO esta aliança esta a nos empurrar para tensões e mútuos prejuízos com aliados naturais e mais antigos que o os EUA e que sobreviverão á queda dos EUA. a NATO é um cavalo de troia, um cancro dentro da UE.”
      Só Merkel e outros timidamente falaram numas forças armadas europeias. Aliás já aqui teci e criticas à sra em questão mas aí tanto ela como muita gente já estará farta (com razão e motivos ela já foi espiada/escutada etc) e ate ter que aturar com a pressão daqueles que lá possuem várias bases e estão constantemente a imiscuir-se nos assuntos internos de um local que não é deles.
      Nada tenho contra eles(povo) mas os governantes de lá andam pelo mundo como um hipopótamo numa loja de cristais.
      Porquê isto? Fabricam se melhores carros? A nível de robótica industrial topo é a europa central/norte, oriente Japão, Coreia, China.
      A Rússia só vejo como uma ponte para o oriente e imensos recursos(negócio bom para uns e outros). Aliás o bloqueio é um pouco estranho pois soube-se dar a volta a isso em muito coisa. E isola-nos, mas é a palhaçada britanica(fiasco brexit desviar atenções) e americana divisão e isolamento, vender as tralhas deles e colocar embargos comercias aqui e no oriente. É aproveitar o continente euro-asiatico e ligar o que tentam bloquear por mar, até fica mais barato.
      E eles podem ir criar confusão(vender armamento) para outro lado.
      Que tão bons resultados tem dado nos lugares que ocupam a força ou na saudosa e petro dolarizada campeã mundial dos direitos inumanos Arábia.

      1. Camarada Nuno é uma honra receber a sua citação, grande abraço! 🙂
        (P.S. estive quase a fazer um meme mas não quero ferir suscetibilidades :)))

    1. Oi EXP, só defuzi olhando para mapas (mas o link, obrigado só confirma). Mas deixa-te dizer que quem sabe contornou/contorna(e de que maneira) essas sanções, alguém por quem tenho apreço(empresário do psd lol), abandonou em parte os US e os maiores clientes são bRiCs e não só essa pessoa, são muitos mais.
      Óbvio que não vou dizer como, é investigar.

      Em relação ao Brasil aqui tão falado suspendeu (nossos amigos brasileiros que mereciam melhor) as actividade a tempo e e outro “amigo” tinha lá negócios pois agora tem agora advogados. enfim…

      Abraço

      1. Não é necessário investigar basta conhecer a historia, como Portugal a partir de um organismo estatal conseguia fazer chegar armas ao Irão apesar do embargo decretado pela ONU e de uma forma perfeitamente legal, a técnica é utilizada pela própria CIA , claro que a patente é de registo português 🙂 no que se trata de aldrabices a nossa nação está na vanguarda :)))

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