Skripal: Novichok? Fentanyl!

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Lembram os Skripal? Pai e filha envenenados pelos russos em Salisbury (Reino Unido) com o agente nervoso Novichok?

No dia 4 de Março de 2018, a dupla ficou intoxicada e internada: para boa sorte ambos sobreviveram, mas o acidente foi suficiente para o Primeiro Ministro, Theresa May, e o fiel Ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, acusarem Moscovo e expulsar 23 diplomatas russos. A coisa não acabou aí, pois outros 28 Países seguiram o exemplo de Londres e a Islândia até decidiu boicotar a Copa do Mundo de futebol de 2018, realizada na Rússia.

Não será fácil ver uma Copa do Mundo sem a equipa islandesa, mas tentaremos sobreviver. Entretanto, vamos ler com atenção uma notícia que apareceu nas páginas do Clinical Services Journal (CSJ) no dia seguinte ao envenenamento de 4 de Março:

O Hospital Distrital de Salisbury declarou um “incidente grave” na Segunda-feira, 5 de Março, depois de dois pacientes terem sido expostos ao que se acredita ser um opioide. […] Algumas horas antes um homem e uma mulher foram expostos a uma substância no centro da cidade.

Curioso: no dia 5 de Março o hospital de Salisbury comunica que poucas horas antes um homem e uma mulher tinham sido intoxicados por uma substância que “se acredita” ser um opioide. Mais curioso ainda: a primeira versão da notícia estava diferente. Eis a versão original:

O Hospital Distrital de Salisbury declarou um “incidente grave” na
Segunda-feira, 5 de Março, depois de dois pacientes terem sido expostos
a um opioide. […] Algumas horas antes um homem e uma mulher foram expostos à droga Fentanyl no centro da cidade.

A alteração é subtil, mas lá está: não expostos “ao que se acredita ser um opioide” mas expostos “a um opioide”. E este opioide é o Fentanyl, como especificado.

A alteração ao artigo foi efectuada no dia 27 de Abril. O que aconteceu entre 5 de Março e 27 de Abril? Aconteceu que no dia 26 de Abril a jornalista Dilyana Gaytandzhiev descobriu a notícia nas páginas do CSJ e começou a espalha-la pelo mundo fora.

Contrariamente ao Novichok, o Fentanyl não é um agente nervoso: é um analgésico com base de ópio livremente vendido no Reino Unido e utilizado também como substância estupefaciente (20.000 mortos nos Estados Unidos só em 2016). De facto, o Fentanyl é cerca de 100 vezes mais potente que a morfina: 100 microgramas de Fentanyl substituem aproximadamente 30 mg de morfina e 125 mg de petidina.


Portanto: no dia 4 de Março os dois Skripal foram expostos ao Fentanyl, no dia 5 o hospital de Salisbury comunica o caso, nos dias seguintes Theresa May acusa a Rússia, os governos de meio mundo seguem os gritos histéricos do governo inglês; no dia 26 de Abril a jornalista Dilyana Gaytandzhiev repara na notícia do CSJ, no dia 27 o CSJ modifica quanto publicado para evitar uma triste figura global.

Mas o CSJ não foi o único órgão de informação a mencionar o Fentanyl. O Salisbury Journal relata o mesmo em data 5 de Março (artigo ainda disponível no link):

A polícia declarou um grave acidente depois que um homem de 60 anos e uma mulher de 30 anos foram encontrados inconscientes num banco dum centro comercial, no Domingo. Nas Urgências suspeitava-se que a substância pudesse ser uma droga poderosa chamada Fentanyl, mas nada foi ainda confirmado. Foram levados para o hospital distrital de Salisbury, onde estão em estado crítico sob cuidados intensivos.

O facto que circulasse o nome do Fentanyl não é um acaso: em Novembro de 2017, o Salisbury Journal relatou um caso de overdose provocado por esta droga; e em 2016, Salisbury teve um pico de casos de Fentanyl dado que, como lembrado, o fármaco é também utilizado como estupefaciente. Pelo que, os serviços de emergência reconheceram os sintomas e os efeitos dessa substância.

Outro site, o Devon Live, assim escreve no dia 5 de Março (também neste caso o artigo original não foi alterado e pode ser encontrado aqui):

O grave incidente químico foi declarado após 10 pessoas terem vomitado Fentanyl e duas delas estarem gravemente doentes. Entende-se que a polícia suspeita que o Fentanyl, ópio sintético muito mais forte que a heroína, possa estar envolvido. Um homem e uma mulher estão em estado crítico e outras 10 pessoas estão envolvidas. Policias e paramédicos foram chamados para o centro comercial The Maltings Salisbury depois que um homem e uma mulher tinham ficado doentes. A mulher, inconsciente, foi levada para o hospital distrital de Salisbury por volta das 16:15, enquanto o homem foi levado para lá numa ambulância. Recentemente, foi relatado que o Fentanyl matou pelo menos 60 pessoas no Reino Unido durante os últimos oito meses.

Estes últimos dois artigos não tinham atirado as atenções, pelo que continuam a estar disponibilizados nas versões originais.

Seria lógico esperar uma investigação mais aprofundada por parte da conceituada imprensa britânica, mas não é isso que acontece. A razão?

O ex-Embaixador britânico Craig Murray cita Clive Ponting, outro
ex-funcionário, que suspeita que o governo britânico tenha emitido uma D-Notice (“Aviso Consultivo de Defesa e Segurança dos media”, é uma solicitação oficial aos editores de notícias para publicar ou não publicar específicos assuntos por razões de segurança nacional) para evitar que os órgãos de comunicação falem do Fentanyl. Murray aponta para um tweet do correspondente do Channel 4, Alex Thomson, de 12 de Março, que menciona uma D-Notice especificamente relacionada ao agente do MI6 que controlava Skripal:

A única ação
pública decisiva das autoridades foi censurar os MSM [Mainstream Media, ndt] através de uma D-Notice na semana passada acerca da completa identificação do agente do M16 de
Sr. Skripal que morava nas proximidades.

Uma D-Notice em atraso esta pois alguns jornalistas, já no dia 8 de Março, tinham identificado o tal agente do M16 como Pablo Miller.

Por que a investigação dos média não é permitida? Onde está Julija Skripal e qual é o estado de saúde de Sergej Skripal? Porque não podem falar publicamente? 

Dilyana

Dilyana Gaytandzhiev

E quem é Dilyana Gaytandzhiev, que encontrou a notícia do CSJ?

Dilyana é uma jornalista búlgara que trabalhava no diário Trud. Tornou-se famosa em 2017 por descobrir um imenso tráfego de armas
fabricadas na Bulgária e transportadas até os “rebeldes moderados” da
Síria com o consentimento do governo búlgaro.

Por ordem do USSCOMM (“USA Special Operations Command“) as armas eram feitas passar por carga diplomática, portanto isenta de controles de fronteira, e transportadas pela Silk Ways Airlines, companhia aérea do Azerbaijão. Em três anos 350 voos diplomáticos para transportar dezenas de toneladas de armas até os jihadistas da Síria, com um custo estimado de 1 bilhão de Dólares.

A jornalista demonstrou, publicando a relativa documentação, que a Silk Ways Airlines carregava também armas de israel, dos Balcãs e dos EUA para vários destinos: Afeganistão, Iraque, Paquistão e Congo, além da Síria.

Obviamente, Dilyana Gaytandzhiev foi despedida do Trud em Agosto do mesmo ano.

Ipse dixit.

Fontes: Moon of Alabama, Blondet & Friends, no texto.

2 Replies to “Skripal: Novichok? Fentanyl!”

  1. Dizia o The Guardian em 6 de Março: 'Earlier on Monday there were suggestions that fentanyl, a synthetic opioid many times stronger than heroin, which can be fatal in small doses, may have been involved in the incident.'

    Link: https://www.theguardian.com/world/2018/mar/05/salisbury-incident-critically-ill-man-is-former-russian-spy-sergei-skripal

    A ligação com esta substância já era mencionada na altura do incidente, no entanto foi o Novichok que ganhou o protagonismo.

    Krowler

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