O caso Bronfman: sexo e poder na elite

O tempo de leitura estimado deste artigo é de 7 minutos

Allison Mack

A notícia ressalta entre revistas e blogues de gossip: Allison Mack, a atriz que interpretou Chloe Sullivan na série de TV Smallville, foi presa por tráfico de escravas
sexuais. Foi presa após a investigação sobre o culto conhecido como Dominus Obsequioso Sororium (do latim “Dono da Mulher Escrava”) e dirigido por Keith Raniere.

Entre as vítimas que Allison Mack tentou recrutar está também a atriz Emma Watson, que ficou famosa pela sua atuação em Harry Potter. Nos tweets enviados para a atriz em 2016 e trazidos à luz pela investigação de Business Insider, a Mack contactou a Watson tentando envolvê-la num “movimento feminino incrível”.

Não falta nada nesta história: poder, dinheiro, sexo e pedofilia. A seita é chefiada por Keith Raniere, uma espécie de auto-proclamado santo, preso no México por transformar os seus adeptos em escravos sexuais, obrigados também a trabalhos forçados.

As mulheres, depois de entrarem na seita, eram mesmo marcadas com o fogo, forçadas a obedecer a qualquer desejo do líder, incluindo desempenho sexual e humilhação pública. Foram submetidas a uma verdadeira lavagem cerebral e obrigadas a manter em segredo tudo o que acontecia dentro do grupo. Além disso, todas tinham que seguir uma dieta muito rigorosa, com punições que podiam consistir em serem trancadas numa jaula.

Allison Mack foi libertada sob fiança: alguém pagou por ela, que arrisca 15 anos de prisão, a caução de 5 milhões de Dólares. Quem? Não se sabe.

Whiskey & ONU

Edgar Bronfman

Estamos perante uma estranha história americana, algo que parece começar no mundo do espetáculo mas que revela mais do que isso: a perversão entre as elites. Porque as elites são humanas e não estão imunes a certos vícios.

O líder da seita, Keith Raniere, é financiado há anos por Sara e Clare Bronfman, as duas filhas do defunto Edgar Bronfman, proprietário da Seagram Whiskey, bilionário que vivia no Canada e presidente do Congresso Mundial Judaico.

Bronfman não é um apelido qualquer: originária da Rússia, a família tem evoluído com o passar do tempo até tornar-se uma referência tanto no campo empresarial quanto naquele político. MGM e Warner Music Group são apenas uns dos nomes ligados aos Bronfman, enquanto no âmbito político deve ser lembrado o papel na Rússia de Gorbachev, a perseguição contra o Presidente da Áustria Kurt Waldheim (que tinha uma passado ligado ao Nazismo), os relacionamentos com as famílias Bush e Clinton. Egdard Bronfman foi o primeiro representante duma organização judaica a falar nas Nações Unidas.

Lógica, portanto, a pergunta: o que têm a ver os Bronfman com a seita escravagista de Keith Raniere?

NXVIM

Clare e Sara Bronfman, as herdeiras da imensa riqueza e do poder da família, deram a Raniere 150 milhões de Dólares entre 2004 e 2010 (dados relatados pela revista Vanity Fair), dos quais 66 milhões acreditados para cobrir alguns maus investimentos de Raniere nos mercados das commodities, 30 milhões para aquisições de imóveis e terrenos em Los Angeles e Albany, 11 milhões para um jato Canadair CL-600 de 22 lugares, mais uns milhões para construir uma poderosa barreira e travar assim as ações judiciárias dos inimigos da NXVIM, nome este último da empresa de Raniere. Tudo isso tentando esconder a extensão dos gastos ao velho pai Edgard (que morreu em 2013) e ao resto da família Bronfman.

Clare e Sara Bronfman

A NXVIM (pronuncia “Nexium”), que na altura da fundação chamava-se ESP (“Programas de
Sucesso Executivo), providencia cursos e seminários de auto-aperfeiçoamento moral e psíquico. Utiliza as técnicas de Programação Neurolinguística, das quais Raniere e a sua parceira Nancy Salzman são especialistas, mas também técnicas de terapia baseadas em hipnose e outros procedimentos ainda.

O ponto é que NXVIM foi devidamente publicitada com importantes artigos em órgãos de comunicação quais The New York Times e Forbes. A partir desta revista para milionários, ficamos a saber que a empresa “treinou em poucos anos 3.700 personalidade” quais Sir Richard Branson (fundador do Virgin Group), Ana Cristina Fox (filha do ex-Presidente do México), Stephen Cooper (executivo da Enron), as irmãs Bronfman. Também o pai destas, Edgard Bronfman, em 2003 participou num dos cursos intensivos oferecidos pela empresa de Raniere; no seu caso, o curso VIP, praticado diretamente por Nancy Salzman. Ao longo de meses, o idoso Edgard enviou um helicóptero para a viagem de ida e volta da Salzman entre New York e a sua propriedade na Virgínia. O bilionário também foi induzido a testemunhar em favor do método:

Se todos recebessem este treino, o mundo seria um lugar muito melhor para viver… nós aprendemos a olhar profundamente para a nossa psique, a lidar com as ansiedades que têm assolado por anos.

Depois descobriu que as filhas tinham pago 2 milhões de Dólares à empresa e o bom Edgard tornou-se hostil.

Dominus Obsequioso Sororium

Keith Raniere

Entretanto, a NXVIM trabalhava para construir o culto, o que levou muitas clientes a tornarem-se
escravas sexuais do “mestre”, obter a marcação com fogo, submeter-se a privação do sono, passar a fome para alcançar o peso preferido do “guru”. E entregar, só para ganhar a admissão, fotos e material comprometedor, com o entendimento de que seria tornado público caso os segredos da seita fossem revelados.

Os maiores segredos eram aqueles do círculo mais restrito, o tal Dominus Obsequioso Sororium. A seita incluía círculos, cada um liderado por uma “mestra” que recrutava seis “escravas”. Com o tempo, estas teriam recrutado escravas por conta própria. Allison Mack era, de facto, a melhor recrutadora de escravas, e por sua vez uma escrava.

Várias mulheres deixaram o grupo e apresentaram relatos assustadores: foram mostradas imagens de violência extrema, incluindo uma que apresentava quatro mulheres que foram mortas e desmembradas. Em 2003, Kristin Snyder, uma consultora ambiental de 35 anos, desapareceu depois de uma sessão de grupo no Alasca: o seu corpo nunca foi encontrado, mas no seu carro estacionado na margem da Baía da Ressurreição tinha deixado uma nota:

Sofri uma lavagem cerebral e o meu centro emocional foi morto / extinto… Por favor, entre em contacto com os meus pais… se você encontrar esta nota, desculpe… Eu não sabia que já estava morta.

Outra, Toni Natalie, tentou libertar-se da influência de Raniere, com consequências inesperadas:
afirma ter sido visitada várias vezes por agentes do FBI. A NXVIM tinha contratado o polémico investigador particular israelita Juval Aviv para supervisionar a casa dela e investigar a sua vida privada. Pessoas desconhecidas arrombaram a casa, a polícia foi enviada para a casa da mãe e a família ameaçada. As reclamações continuam a ser letra morta, o que tem lógica: nos EUA um procurador em carreira proverbialmente abre apenas as causas que pode vencer. E as causas que envolvem nomes tão grandes como aquele das irmãs Bronfman são fáceis de perder, com tanto de inimigos poderosos.

FBI, Clinton e Gaelen

Keith Raniere com o Dalai Lama

O primeiro artigo de Forbes é de 2003, a policia está a mexer-se só agora. Enquanto isso, Raniere também foi acusado de ter tido relacionamentos com meninas de 12 anos ou menos. Conseguiu fundar uma espécie de filial mexicana, em Lak ‘Ech, que procura “homens e mulheres empenhados no México” e adoptou um símbolo análogo ao que o FBI acredita ser um sinal de reconhecimento entre pedófilos.

O grupo também está a criar uma criança misteriosa, com 3 anos de idade hoje, de nome Gaelen. A criança mora com Kristin Keeffe, a consultora jurídica dos Bronfman e também do NXVIM; as duas irmãs Bronfman pagam pelo seu crescimento, o que é bastante caro. Gaelen é destinado a ser “o herdeiro” do Mestre e cresce de acordo com as teorias de Raiere: alimentado com comida crua, mantido afastado das outras crianças, cuidado por cinco mulheres que falam cada uma linguagem diferente (inglês, russo, espanhol, hindi e chinês). Ex-dependentes da empresa relataram as condições da crianças aos serviços de proteção à criança, mas sem sucesso.

Poucos dias antes de ser presa, Alison Mack twittou uma imagem conhecida: a “artista” produtora de eventos canibais Marina Abramovic, ocultista muito na moda nos círculos dos irmãos Clinton e Podesta, curadores da campanha de Hillary. Um sinal? Um pedido de resgate?

Ipse dixit.

Fontes: Forbes, Business Insider, BuzzFeed, The New York Times, NXIVM, Executive Success Programs, Daily Mail, Fox News

4 Replies to “O caso Bronfman: sexo e poder na elite”

  1. Não é de estranhar que as mais brutais cretinices humanas acabam sempre ligadas aos famosos e poderosos milionários de sempre.Acho fácil de entender: as grandes fortunas, as grandes heranças, os mais altos degraus da engenharia política, diplomática, institucional são engendrados a partir dos crimes mais hediondos, e a manutenção no poder durante gerações que se sucedem só são garantidas por crimes semelhantes.Mas a maioria das pessoas não vê as coisas por esse ângulo, baseando-se em honrosas e pouquíssimas exceções e até admirando essas tristes figuras que fazem desse planeta um circo de horrores.

  2. O impressionante é que existe gente que fomenta e apoia estas organizações criminosas e os seus membros, mesmo sem ganharem nada com isso, simplesmente porque estão de tal maneira embrutecidos e estupidificados social e culturalmente (ou então são da mesma laia).

    É impressionante com a facilidade que hoje se tem em aceder à informação e literatura, que os cidadãos título individual ou colectivo, não se preocupem em manter-se informados e esclarecidos.

  3. A atriz que fazia de Lana em "Smallville" também esteve implicada, mas disse que já tinha saído há 5 anos e que já não tinha nada a ver com aquilo. Abriu os olhos? Viu o que não queria? Denunciou alguma coisa? Deixou andar? Teve medo, foi pagan ou não esteve para querer saber? Questões…

Obrigado por participar na discussão!

%d bloggers like this: